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DESSOLIDÕES: CONTOS, CRÔNICAS, RELATOS

A avalanche de sons Hugo acordou com um certo zunido nos ouvidos. Na verdade, nem sabia se o ruído vinha de fora ou era um som interno, que não conseguia identificar. Aos poucos, diferentes sons eram ouvidos e tinha a impressão que várias pessoas falavam ao mesmo tempo, bem perto de si, além de outros barulhos. As paredes estalavam, os cabos de luz produziam pequenas alternâncias de ruídos, como movendo-se levemente e até mesmo os plugues das tomadas emitiam sonoridades estranhas. Parece até que borboletas batiam asas próximas ao seu rosto e um cri-cri de grilos se alternava com zumbidos de mosquitos. Estaria sonhando, pensou. Levantou-se rápido e foi até a janela. Viu pequenos agrupamentos de pessoas na calçada e um burburinho intenso, como se estivessem à espera de algum acontecimento grandioso. Puxou os óculos da ponta do nariz e tentou enxergar no outro lado da rua. As sacadas do prédio da frente estavam repletas de homens, mulheres e crianças, todos envolvidos numa balbúrdi

A bailarina

Rodopia, brinca, vive Leve, suave, brisa que envolve Fugaz, matizes diversos, entoa Música que dança na pontas dos pés. Vive, brinca, rodopia Sonha com brilho, ribalta, luzes Desperta olhares, gigante no foco Diverte-se assim, brinca conosco. Brinca, vive, rodopia Descarta dor, metamorfoseia em sonho Beleza, alma solta, brisa, frescor de sol. Brinca, rodopia, vive Disfarça a realidade, finge ser poeta, anjo, meretriz A bailarina é atriz.

Onde ficava a dor

Precisava sair e ver de perto aquelas crianças que sorriam, corriam por terrenos baldios, fingindo que eram campos de futebol e se perdiam alegres na experiência do sol. Então, me perguntei angustiado, onde ficava a dor? A dor dos que se consumiam em contas, em brigas rebuscadas, em tons alternativos de valentia e medo. Onde ficava a morte rasteira que rondava os condomínios abarrotados de perfis estranhos e desconfiados. Por que não se sabia seus nomes? Por que as crianças brincavam felizes? A felicidade não tinha ambiente naquele meio. Ela até vinha devagarinho, teimosa e se alojava naqueles olhos febris, nos corações vigorosos de quem corre e pula e brinca e se esfarela em sonho e esperança. Que queriam as crianças da favela? Por que se alienavam da fuligem dos fogos em fundos de quintais, de calçadas quebradas e veias dispersas de águas turvas e nojentas. Por que ultrapassavam a borra das valetas imundas, enlameadas de dejetos e o que mais entulhava as valas d

Agitação impetuosa

A noite já acabrunhava os ossos mais frágeis pelo sereno que se intensificava. Doía uma certa melancolia, às vezes doce, às vezes ácida, deixando na boca uma secura que despertava a vontade intensa de qualquer líquido. Como se jorrasse do céu, por um minuto, um décimo de minuto uma água nítida e brilhante, muito mais do que chuva, muito mais do que qualquer despencar de nuvens em água, mas alguma coisa forte que significasse um banho profundo na alma e no corpo. Um banho que me transportasse a outro extremo da vida, talvez mais doce, mais límpido, mais puro, mais profundo. Caminhei como pude, enquanto as luzes se apagavam e surgiam as dos velhos postes das ruas transversais. Na casa acachapada no chão, uma calçada alta, que realçava o que havia lá dentro mais do que as paredes esverdeadas da casa. Uma luz tão amarela quanto às dos postes, mas mais fraca e algumas sombras, como fantasmas que se deslocavam de um lado para o outro, acercando-se da janela, espiando pelas frestas, ten

O novo normal

Chegam as compras, tudo adquirido online. Põe a máscara, acerta nas orelhas, um pouco caindo, não pode tocar na parte da frente. Abre a porta, olha para o entregador, entre assustado e desconfiado. Ele usa máscara? Está usando somente aqui, na minha frente, ou acabou de colocar no carro e andava aí pela rua, descuidado? Como pensar em tudo isso e ainda pegar as compras e o pior, pagar em dinheiro porque não recebe em cartão. Pegar o troco. Coitado, está sofrendo com toda esta loucura tanto ou mais do que eu. Na verdade, mais, muito mais, porque está se arriscando o tempo todo. Pego o troco, me atrapalho com as sacolas de plástico que deveriam ser abolidas. Mas aqui estão elas. Me despeço do entregador, que se afasta rápido na moto. Sento num banco baixinho, esparjo álcool principalmente no local em que ele segura a sacola, mas só por enquanto, porque logo, que tirar os mantimentos, terei que passar o álcool em todos os pacotes, e separar os sacos plástico

Tempos e momentos

Houve momentos em que não teve lua, ou seja, ela surgiu tímida entre algumas nuvens e desapareceu. Mas nós sabemos, que ela estava lá, escondida entre as nuvens e realizando os mesmos movimentos, claro que na sua velocidade, tão diferente da nossa percepção. Houve momentos em que a noite escura parecia se propagar e permanecer para sempre, que as estrelas houvessem sumido ou terminado o seu tempo e embora outras nascessem, não as víamos e o universo parecia mais escuro e solitário. Tínhamos impressão de uma noite eterna e que nunca mais veríamos a luz do sol. Mas, eis que o sol nasceu e aos poucos a luz no horizonte começou a surgir e iluminar os campos, as casas, as ruas, os dias. Houve tempo de muita seca, estiagem nociva para ao solo cada vez mais árido, cujos grãos morriam e os sobreviventes produziam frutos frágeis, esturricados pelo sol, danificados pela fragilidade de sua constituição. Houve tempo de chuvas, de alagamentos, da terra encharcada e vimos mu

ATOR ARRASA EM FALA SOBRE CORONAVÍRUS

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