Pular para o conteúdo principal

Postagens

Postagens em destaque

Postagens recentes

O reflexo da porta

Patrícia mais uma vez olhou-se no espelho, mas agora seus olhos estavam perdidos num passado bem distante. O reflexo da porta projetado pela sala contígua, apontava o perfil esquálido de Benvindo que se afastava, talvez à procura de uma juventude que havia perdido.
Talvez fosse a culpada de sua fuga: aos poucos negligenciara a aparência, o bem viver, o relacionar-se com os amigos e declinar de ser a protagonista. Não, ela era só a dona de casa que o acompanhava nos jantares, nas festas da empresa, na vida social do marido.
Talvez não fosse nada disso, pensou. Não passasse de um encanto transitório por um rabo de saia, uma mulher trinta anos mais jovem, um despertar para uma paixão fantasiosa, de um homem de meia idade. Afinal, não era o que acontecia com quase todos os casais?
Mas se houvesse uma saída, suma maneira de alterar essa situação, de modificar esse rumo, esse consenso social? Ela poderia ser outra pessoa, poderia sim tornar-se uma mulher ativa e participante de uma nova soci…

AS VÍRGULAS DE ANTÔNIA

Para que servem as vírgulas. Se nos detivermos com atenção nas minúcias, observamos que há dezenas de usos, nos quais extraímos da mente, como apêndices desnecessários da linguagem, a não ser para respirarmos com mais tranqüilidade.
Entretanto, gramaticalmente, poderíamos falar em intercalações, tais como as do adjunto adverbial, da conjunção, ou de expressões explicativas, bem como nos apostos ou no uso após o vocativo, e o que é mais corriqueiro, nas enumerações. E aqui elas se fazem valer, altivas, imponentes, revelando aos incautos a força de seus significados e significantes, mostrando o porquê de suas inserções.
Mas na verdade, estas funções gramaticais não despertam curiosidade em nosso discurso cotidiano, ao contrário, nem percebemos a sua localização, seu uso adequado ou indiscriminado.
Via de regra, respiramos saciados no linguajar afoito de quem, quase sempre, tem pressa absoluta. E lá vai vírgula. Ao menos que sejamos especialistas em linguística, damos conta de suas funções…

As laranjas do vizinho

Diariamente, deliciava-se olhando as laranjas do vizinho. Não eram suas, talvez por isso mais saborosas. Divertidas. Tinham uma cor exuberante, apesar da luz quase inadequada do inverno.
Ficava ali mastigando pensamentos. Nada melhor do que olhar as laranjas do outro. Estas têm os que as nossas não têm. Isso, se as temos.
Se pudesse subir no último degrau da escada e escalar o muro, por certo aquelas seriam suas também.
Um dia, faria um bem para si próprio, retirando delicado, uma a uma, todas as laranjas do vizinho.
Por que somente ele tinha laranjas? Por que havia plantado, produzido, cuidado com carinho do que era seu? Por que era dono de um bom espaço. E daí? Ele também era seduzido pela terra, limpara o lixo dos fundos do quintal, examinara todas as plantas, que eram poucas, mas passíveis de crescimento, tal como as laranjas do vizinho.
Não havia nada atrás de seu muro. Apenas aquelas laranjas apetitosas, suculentas, das quais sentia um arrepio nos dentes, em pensar no simples a…

Os textos mais acessados em dezembro de 2017

A bolha
O trauma de Alice
O gato cinza
Um natal ecumênico
Se o Natal te oferece
TRABALHO VOLUNTÁRIO NO HOSPITAL PSIQUIÁTRICO : UMA PROVOCAÇÃO PARA A VIDA
METÁFORAS CRUÉIS : desqualificação das mulheres e negros
PIOLHOS DE RICO
Tio Pedro e a Mangacha
Um passeio no Gordini, com meu pai

Países que mais acessaram o blog em dezembro de 2017

1)Brasil
2)Estados Unidos
3)Alemanha
4)Polônia
5)Ucrânia
6)França
7)Portugal
8)Rússia
9)Quênia
10) Romênia

Se o Natal te oferece

Se o Natal te oferece música, luzes e cores, aproveita. Usufrui da alegria e festeja.
Se o Natal te oferece abraços, risos e flores, aproveita. Corresponde à euforia e brilha.
Se o Natal te oferece fé, orações e lembranças do Aniversariante, aproveita. Ameniza os sentimentos, te doa, te alegra e reza.
Se o Natal te oferece passeios, encontros e festas, aproveita. Compartilha com os amigos e parentes as tuas memórias, os teus desejos, os teus caminhos para acertar nos trilhos e urgente, refaz o desfeito, acerta o erro e resgata a história.
Se o Natal te oferecer a mão, a comida, o amor, a bondade, aproveita. Retorna com mais amor, mais amizade, mais bondade e sustenta a mudança que talvez advenha desta passagem para o bem. Vive feliz e despreocupado. Te desembaraça de pensamentos confusos, de medos e cicatrizes. Te livra do mal.
Mas não esquece jamais, dos que ficam lá fora, longe das festas e dos fogos, longe dos amigos, dos parentes, dos vizinhos. Afastados da vida, mortos em seu cam…

O trauma de Alice

Fonte da ilustração: Fotografia de Wilson Rosa da Fonseca
Alice estava abalada. Não havia naquele momento nada que a mantivesse com os pés fixos na realidade. Seus pensamentos eram interrompidos por outros mais confusos e delirantes. Tinha vontade de correr, de sair do próprio corpo, de abandonar a vida. Mas não faria isso. Nem mesmo tomaria uma bebida forte ou qualquer outra droga que a estabilizasse. Não, faria o que sempre fez. Ficar quieta, parada, quem sabe, olhando o mar.
Entretanto, nem mesmo isso a consolava. Como ficar quieta se tudo havia sido perdido. Se a dor da separação, se o trauma da traição a instigava a tomar uma atitude contra si, como sempre fizera.
Desceu as escadas do velho apartamento, degrau por degrau, cabeça baixa, algumas lágrimas nos olhos, um sofrimento silencioso de quem não sabe o que fazer. As paredes do prédio pareciam mais velhas e descascadas. Ela observava a tinta avermelhada, por trás da verde brilhante num pedaço descamado. Quem pintaria uma parede…

Um natal ecumênico

Nos dias que antecedem o Natal, percebemos que apesar da correria natural pela proximidade da data, ocorrem, por vezes, acontecimentos inesperados e muitas vezes inexplicáveis.
Numa data distante, num Natal que se vai no tempo, ficaram as lembranças como registros que vira e mexe, nos ocupam a mente.
Lembro de meus pais atarefados, cada um na sua atividade, além da demanda natalina. No jantar, eu e minha irmã conversávamos animados sobre os brinquedos, o tema que mais nos interessava. Ela já tinha escolhido o seu, uma boneca de louça, olhos azuis que abriam e fechavam e comentava isso com a maior eloquência, como se fosse o ápice da modernidade. Já havia, inclusive, escolhido o nome: Maximira Carlota. Eu a ficava ouvindo e me perguntando que nome era aquele. Mais tarde descobrira que era a protagonista de uma radionovela, uma personagem que chorava o tempo inteiro, vivendo a mocinha ingênua e sofredora. Eu sonhava com um caminhão com carroceria ou uma locomotiva. Meu pai falava do tra…