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Sobrevida

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 Quisera fugir das vidraças que estilhaçam a vida. Quisera fugir das praticida des, do senso comum, do pensamento único que dissolvem a sanidade. Das paredes que envolvem, dos muros que escondem, que cerceiam os espaços. Desviar o olhar da lâmina que decepa árvores, do sangue escorrido na própria seiva dos desertos se formando, da natureza enferma. Quisera me envolver na música, na poesia, na arte, na literatura, no brilho dos oljhos de quem observo, dos tinidos dos pássaros, do rugir das ondas, do farfalhar do vento.  Quisera nada ouvir. Sentir o silêncio nos poros da alma. A batida suave do coração. Os rios desvelando-se em fluídos pelo corpo, sintetizando a vida num vaivém silencioso. Uma alma quase escapando do corpo, que levita e se acolhe a si mesmo. E assim, tentando sobreviver à barbárie. 

Enquanto houver dignidade

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Muitos golpes. Fake news. Mentiras pronunciadas sem pudor, sem qualquer constrangimento. Incertezas sobre quem vale, quem serve, quem é digno. Incertezas da vida, do amor, das buscas e das verdades. Traições. Dissimulações. Acusações.  Mas nada disso pertence apenas ao nosso tempo. Não são novos os sentimentos, nem as intenções, nem os destemperos humanos. Novas são apenas as ferramentas do arbítrio, da mentira e da traição. Aperfeiçoaram-se os meios; o homem, porém, permanece essencialmente omesmo. Mudaram as roupagens. Ampliaram-se as possibilidades de interpretação, de manipulação e de alcance. Ainda assim, desde sempre, o homem tenta burlar o próprio homem, sobrepor-se a ele, dominá-lo, submetê-lo à sua vontade e aos instrumentos de seu poder. Transformou-se a tecnologia; não a natureza humana.  Entretanto, há também a contrapartida — e talvez nela resida a esperança. Sempre existirão aqueles que resistem à barbárie, os que preservam a dignidade mesmo em tempos de ruína mo...

O alarme

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Ouço batidas, soam longe, mas aos poucos, ficam mais audíveis, como se ocorressem muito próximas. O som se torna agudo e forte, ríspido como um alarme. Meus ouvidos doem, alma lateja. Observo, aflito, as paredes, os espaços, os cenários que se multiplicam. Fico imaginando se este barulho não parasse jamais. Como viveria assim, nesta voracidade que corrói meus ouvidos. Parece uma eternidade. Não sei se é algum alarme ou é meu coração. Quisera voltar aos poucos, a ouvir sons óbvios, quase inúteis. Quisera apenas ouvir o som do carro que se afasta, da música dormente do apartamento ao lado, do assobio agudo nas noites enrijecidas, dos fonemas dispersos de minha voz afônica. Quisera apenas viver o mesmo do mesmo, sem este alarme que sonda minhas invasões. Se não houvesse essa tela dormindo em meu travesseiro. Se não houvesse esse impulso e pulsão de clicar. Se não houvesse essa aflição em ser ouvido, visto e amado. Talvez, esse alarme parasse de soar. 

Um só suspiro

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Se a noite despertasse um só suspiro que não fosse o meu, se a noite me levasse a sonhos que não despertassem, se a noite dispusesse apenas o silêncio e escamoteasse o medo. Não. Ela se apodera aos poucos de meus pensamentos e sublima as dores esparsas, mas constantes, transforma as linhas da tela, os ecos das músicas, os ruídos da rua. Talvez latidos distantes, resmungos de alguém que surrupia como um mágico também as suas dores. Ali passa, ali funga, ali fuma, ali fica. Depois, quando o mundo já se estabeleceu em sua mente, afasta-se devagar, vivendo outra história. Quem sabe a realidade também mude aqui dentro, as memórias se restabeleçam, a realidade se instaure de vez. Aos poucos, os sons desapareçam e os lamentos fiquem mais lentos e escassos e a noite se reintegre em sua natureza explícita de ceder ao dia que vai nascer.

Clarissa

 Sair à procura de algo que nem sempre se sabe ao certo o que é: uma viagem em busca de um pequeno diário, de um caderno colorido com páginas desenhadas e margens enfeitadas, ou uma caneta especial, de ponta fina, daquela marca encontrada na livraria onde ela comprara o seu livro.  Mostrava-se quase sempre assim: exigente, disciplinada, austera para a idade, mas também capaz de atitudes impensadas aos olhos dos mais velhos. Tinha sempre um argumento na ponta da língua (afiado, cirúrgico), mas profundamente leal, afetuosa e sincera.  Por vezes, deixava-se conduzir pelo sonho e pelo lúdico. Tinha um cão imaginário  – que eu lhe apresentara –; o mar, a lagoa e as árvores eram entidades vivas, dotadas de sentimentos e reações, as quais costumava saudar como quem conversa com velhos conhecidos. Relacionava-se com o ambiente ao redor como se esses cenários fossem tão reais e presentes que integrassem o cotidiano, e não apenas o campo da ficção. Entretanto, possuía uma luci...