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Clarissa

 Sair à procura de algo que nem sempre se sabe ao certo o que é: uma viagem em busca de um pequeno diário, de um caderno colorido com páginas desenhadas e margens enfeitadas, ou uma caneta especial, de ponta fina, daquela marca encontrada na livraria onde ela comprara o seu livro.  Mostrava-se quase sempre assim: exigente, disciplinada, austera para a idade, mas também capaz de atitudes impensadas aos olhos dos mais velhos. Tinha sempre um argumento na ponta da língua (afiado, cirúrgico), mas profundamente leal, afetuosa e sincera.  Por vezes, deixava-se conduzir pelo sonho e pelo lúdico. Tinha um cão imaginário  – que eu lhe apresentara –; o mar, a lagoa e as árvores eram entidades vivas, dotadas de sentimentos e reações, as quais costumava saudar como quem conversa com velhos conhecidos. Relacionava-se com o ambiente ao redor como se esses cenários fossem tão reais e presentes que integrassem o cotidiano, e não apenas o campo da ficção. Entretanto, possuía uma luci...

João e suas histórias

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João tinha desses hábitos desajeitados: gostava das coisas às avessas. Se lhe contavam uma história, ficava imaginando a trama de trás pra frente, com o protagonista com cara de vilão, ou o vilão com cara de mocinho. Estava sempre à cata de uma novidade, alguma coisa que despertasse a sua curiosidade. E a dos outros também. Costumava se queixar que seus pais viviam muito ocupados. Por sorte, o avô se mudara para sua casa, por andar meio solitário e doente. A família se dispersara um pouco. A avó morava num País distante, ele nunca sabia, se na Nova Zelândia ou na Austrália. Não era bom em geografia. O seu forte mesmo era a imaginação. João gostava de histórias. Mas não as histórias contadas pelo avô. Ele, João, era o narrador, especialista em inventar as histórias mais esquisitas possíveis. Começava do final, inventava personagens, trocava as personalidades de alguns e até a aparência física. O avô perguntava: — Ué, não era o gigante que tinha a ga...

Enquanto houver dignidade

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Muitos golpes. Fake news. Mentiras pronunciadas sem pudor, sem qualquer constrangimento. Incertezas sobre quem vale, quem serve, quem é digno. Incertezas da vida, do amor, das buscas e das verdades. Traições. Dissimulações. Acusações.  Mas nada disso pertence apenas ao nosso tempo. Não são novos os sentimentos, nem as intenções, nem os destemperos humanos. Novas são apenas as ferramentas do arbítrio, da mentira e da traição. Aperfeiçoaram-se os meios; o homem, porém, permanece essencialmente omesmo. Mudaram as roupagens. Ampliaram-se as possibilidades de interpretação, de manipulação e de alcance. Ainda assim, desde sempre, o homem tenta burlar o próprio homem, sobrepor-se a ele, dominá-lo, submetê-lo à sua vontade e aos instrumentos de seu poder. Transformou-se a tecnologia; não a natureza humana.  Entretanto, há também a contrapartida — e talvez nela resida a esperança. Sempre existirão aqueles que resistem à barbárie, os que preservam a dignidade mesmo em tempos de ruína mo...

Faz-se um silêncio

Faz-se um silêncio lá fora. Parece que, de repente, o mundo parou. Nem um som humano, nem animal, nem de qualquer máquina. Faz-se um silêncio aqui dentro. Um batimento tranquilo, quase meditação. Leia mais Nada há que incomode, que impressione, que agite. Faz-se um silêncio de água parada. Um rio que não corre, um mar que não avança. Um sopro, uma brisa que não existe. Nem um bater de asas, uma folha que cai, um arbusto que quebra. Um galho seco. Faz-se um silêncio. O sereno que se espalha invisível, uma névoa que se esvai, um brilho de lâmpada no asfalto. Faz-se um silêncio. Nem uma palavra, uma única. Cada sílaba, cada letra, cada fonema, cada respiração. Faz-se um silêncio quase impune. E quem sabe, para alguém, o silêncio é tão forte que grita.

Quisera

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Nem sei o que pensas, se no poema que teces, há alguma trama com a minha marca. Não sei. Sei que teus olhos dizem coisas que jamais falarias. Tua boca sorri, quando quer se calar e teus sentimentos se escondem, sem que se possam ocultar.  Talvez, não saibas. Um amor assim puro, não faz parte das prateleiras dos grandes filmes. Jamais podem retratar o que meu coração exalta. Quisera dizer tudo que me é impedido, quando meus sentimentos quase mergulham num infinito de procuras em tua direção. Sinto a melancolia de momentos que não vivi, de expressões que não criei, de verdades que não disse. Mas está presente, quando caminho nestas folhas que ora caem, quando me afasto em direção ao mar, quando tento ouvir de soslaio, o vento que zune próximo aos ouvidos, quando a brisa se esvai e a força da natureza me impele a seguir o caminho. Quisera apenas respirar aqui, neste ar mais puro, neste espaço marítimo, mas sei que o avanço que espero, jamais será definido, que a vanguarda que pro...