Postagens

Faz-se um silêncio

Faz-se um silêncio lá fora. Parece que, de repente, o mundo parou. Nem um som humano, nem animal, nem de qualquer máquina. Faz-se um silêncio aqui dentro. Um batimento tranquilo, quase meditação. Leia mais Nada há que incomode, que impressione, que agite. Faz-se um silêncio de água parada. Um rio que não corre, um mar que não avança. Um sopro, uma brisa que não existe. Nem um bater de asas, uma folha que cai, um arbusto que quebra. Um galho seco. Faz-se um silêncio. O sereno que se espalha invisível, uma névoa que se esvai, um brilho de lâmpada no asfalto. Faz-se um silêncio. Nem uma palavra, uma única. Cada sílaba, cada letra, cada fonema, cada respiração. Faz-se um silêncio quase impune. E quem sabe, para alguém, o silêncio é tão forte que grita.

Quisera

Imagem
Nem sei o que pensas, se no poema que teces, há alguma trama com a minha marca. Não sei. Sei que teus olhos dizem coisas que jamais falarias. Tua boca sorri, quando quer se calar e teus sentimentos se escondem, sem que se possam ocultar.  Talvez, não saibas. Um amor assim puro, não faz parte das prateleiras dos grandes filmes. Jamais podem retratar o que meu coração exalta. Quisera dizer tudo que me é impedido, quando meus sentimentos quase mergulham num infinito de procuras em tua direção. Sinto a melancolia de momentos que não vivi, de expressões que não criei, de verdades que não disse. Mas está presente, quando caminho nestas folhas que ora caem, quando me afasto em direção ao mar, quando tento ouvir de soslaio, o vento que zune próximo aos ouvidos, quando a brisa se esvai e a força da natureza me impele a seguir o caminho. Quisera apenas respirar aqui, neste ar mais puro, neste espaço marítimo, mas sei que o avanço que espero, jamais será definido, que a vanguarda que pro...

Do outro lado do rio

Imagem
Houve momentos em que pensei na ida. Não me refiro à ida às compras, ao médico, ao seminário, à biblioteca, ao museu, à beira do cais. Esta ida sempre tem a volta e por mais que se vá, sempre se observa um detalhe diferente, diverso do que se vê. É assim mesmo, é desta forma. E cada vez que se vai, se volta diferente, não somos mais o mesmo, nem a ida teve o mesmo significado. É como entrar no rio, se entra de um jeito e se sai de outro. E cada vez que se vá, nunca será o mesmo, nem nós, nem o rio. Já até citei Heráclito de Éfeso, o filósofo que falou isso, num outro texto: “Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou…” Não somos os mesmos em nenhuma situação, em nenhum momento. Mas não falava desta ida com o retorno garantido, pelo menos o retorno ao local de origem. Falava da ida sem volta, sem retorno, sem saída, sem certeza, sem nada. A ida definitiva. O sol já não era o mesmo, as...

O alarme

Imagem
Ouço batidas, soam longe, mas aos poucos, ficam mais audíveis, como se ocorressem muito próximas. O som se torna agudo e forte, ríspido como um alarme. Meus ouvidos doem, alma lateja. Observo, aflito, as paredes, os espaços, os cenários que se multiplicam. Fico imaginando se este barulho não parasse jamais. Como viveria assim, nesta voracidade que corrói meus ouvidos. Parece uma eternidade. Não sei se é algum alarme ou é meu coração. Quisera voltar aos poucos, a ouvir sons óbvios, quase inúteis. Quisera apenas ouvir o som do carro que se afasta, da música dormente do apartamento ao lado, do assobio agudo nas noites enrijecidas, dos fonemas dispersos de minha voz afônica. Quisera apenas viver o mesmo do mesmo, sem este alarme que sonda minhas invasões. Se não houvesse essa tela dormindo em meu travesseiro. Se não houvesse esse impulso e pulsão de clicar. Se não houvesse essa aflição em ser ouvido, visto e amado. Talvez, esse alarme parasse de soar. 

Um só suspiro

Imagem
Se a noite despertasse um só suspiro que não fosse o meu, se a noite me levasse a sonhos que não despertassem, se a noite dispusesse apenas o silêncio e escamoteasse o medo. Não. Ela se apodera aos poucos de meus pensamentos e sublima as dores esparsas, mas constantes, transforma as linhas da tela, os ecos das músicas, os ruídos da rua. Talvez latidos distantes, resmungos de alguém que surrupia como um mágico também as suas dores. Ali passa, ali funga, ali fuma, ali fica. Depois, quando o mundo já se estabeleceu em sua mente, afasta-se devagar, vivendo outra história. Quem sabe a realidade também mude aqui dentro, as memórias se restabeleçam, a realidade se instaure de vez. Aos poucos, os sons desapareçam e os lamentos fiquem mais lentos e escassos e a noite se reintegre em sua natureza explícita de ceder ao dia que vai nascer.