UM CRIME NA CIDADE QUE SABIA DEMAIS - 3º CAPÍTULO

No capítulo anterior conhecemos um pouco mais sobre Rosa, a professora e maestrina do coral. Soubemos que seu colega Raul tinha invadido a sua casa, estando em posse da chave, o que a deixara confusa e irritada. Ele argumentara que estava com um problema e precisava conversar, mas Rosa expulsou-o de sua casa, porque além de tudo, havia usado maconha e provavelmente sedado o seu cachorro D’tartagham. Já sozinha, não conseguiu contatar o veterinário que segundo comentários das pessoas é engajado num grupo de ultra-conservadores cujo objetivo é acabar com as causas sociais. Por fim, decidira ligar para o jovem médico que viera trabalhar na cidade. Seu nome é Ricardo Silveira e é com ele que prosseguimos a história.

COMO HOJE É QUINTA-FEIRA, DIA 07/06/2016 PASSAMOS A APRESENTAR O 3º CAPÍTULO DE NOSSO FOLHETIM POLICIAL.

Ricardo Silveira levantou assustado, ouvindo o toque do celular. Puxou rápido, do criado-mudo o aparelho e dispensou o alarme, tentando espreguiçar-se um pouco ainda no calor da cama. Percebeu um número desconhecido. Deixou pra lá.

Estava frio lá fora, apesar da primavera que já se adiantava. Encolheu-se na posição fetal, como uma criança. Mas não havia o que fazer, se não enfrentar o que vinha lá fora. Um frio do caralho, pensou.

Correu para o chuveiro, despindo-se pelo caminho e ensaboou-se rapidamente.

Pela vidraça, olhou para a rua que parecia embranquecida de geada. Que merda de inverno que não passa nesta cidade!

Em seguida, secou-se e enfiou as roupas que deixara atiradas sobre uma poltrona, ao lado da cama.

Acabou de vestir-se, desceu rapidamente até o restaurante.

Tomou o café, com os olhos fixos no smartfone. Tinha a sensação de que o dia seria pesado. Afinal, um dos compromissos era encontrar o amigo de infância que não via há tanto tempo. Por que o procurara? O que o angustiava tanto a ponto de querer confiar-lhe um segredo? Logo para ele, que era praticamente um desconhecido.

Dissera que soubera que viera à cidade, que era medico e que poderia ajudá-lo. Mas que diabo de ajuda queria?

Além desse pedido inusitado, tinha que apresentar-se ao hospital, no primeiro dia de sua chegada, procurar um apartamento para morar, fixar residência, mesmo que por um tempo determinado.

Voltava finalmente à velha Sul Braga, cidade que conhecera há um ano atrás.

Uma cidade que sopra um vento intermitente, uma aragem fria que parece não ter fim. Mas que fazer, estava de volta. Ali conseguira seu primeiro emprego e estava pronto para começar a vida.

Quando saiu da garagem do hotel, dirigiu-se ao posto de gasolina.

Em seguida, percorreu as ruas próximas do posto, que também não ficava muito longe do hotel, nem da igreja, nem da prefeitura, nem da pequena praça que era circundada por vielas estreitas de paralelepípedo.

Pretendia dirigir-se ao hospital, que também ficava nas redondezas, mas o cara parecia apavorado.

Por que teria de encontrá-lo num lugar tão estranho?

Um velho trapiche, que num dia frio e cinzento como hoje, deveria estar praticamente deserto.

Olhou ao longe, com a lembrança do pórtico de ferro, que dava as boas vindas ao visitante. Um pórtico cheio de arabescos, enferrujado, com motivos um tanto fora do comum.

Assustou-se ao atravessar um cachorro à frente do carro e freou bruscamente. Respirou aliviado vendo o animal sumir-se na esquina.

Não demorou muito, estava no trapiche de madeira.

Estacionou e ficou observando, esperando que o amigo estivesse lá, em um lugar qualquer, próximo a um barco estacionado à beira do cais.

Não viu ninguém. A cidade parecia vazia.

Aliás, durante todo o percurso, quase não viu ninguém. Como se fosse feriado.

Procurou alguma mensagem no celular.

Talvez houvesse desistido, avisando-o que não seria mais preciso a sua presença. Que filho da puta, pensou. Fazê-lo perder seu tempo precioso.

Estava assim, absorto, procurando as mensagens, quando alguém bateu na vidraça do carro.

Era um homem barbudo, meio gordo, com olhos pequenos e um tremelique no lábios. Pensou logo tratar-se de um pedinte ou cuidador de carros. Decidiu não responder e dar o fora dali, imediatamente. Mas o outro insistiu.

Então, abriu um pouco o vidro.

O outro meio sorriu e falou, quase em segredo: – Sou eu, Ricardo. Raul.

Só então percebeu que se tratava do tal amigo de infância, que nem reconhecera.

Desceu do carro, fez a tentativa de apertar-lhe a mão, mas o outro o abraçou com força, deixando-o desconcertado.

Ficou sem ação, procurando o que dizer. Observou que Raul enchia os olhos d’água.

– Cara, faz tanto tempo, mas você não mudou nada. Tá o mesmo cara malandrão, com aqueles olhos grandes de peixe morto. Você tá igual.

– Acho que o que você vê nos meus olhos é o efeito dos óculos, que sempre aumentam o tamanho. E depois, to mais velho, né. Tô com 27 anos. E você, com que idade tá?

– 30. Eu era mais velho, tava meio atrasado na escola.

Ricardo calou-se. Raul o convidou para irem até um banco, próximo à lagoa. Lá ficariam olhando para o horizonte, enquanto conversavam. De repente, abria sol e melhorava o tempo.

– Tomara. Só que não tenho muito tempo, Raul. Se você não estivesse tão desesperado no telefone, talvez eu nem viesse. To com milhares de coisas pra fazer, preciso ira ao hospital, tentar achar um apartamento, essas coisas.

–Eu sei, meu amigo, eu sei. Mas eu só podia contar com você, nesta cidade.

– Como assim?

Ele fez um silencio breve. Em seguida, explicou: – Nesta cidade, não se pode confiar em ninguém. Nem na polícia, nem nos vizinhos, nem no padre. Em ninguém.

Fez um gesto indicando o banco. Uma espécie de tábuas acomodadas como banco, um assento tosco, feito provavelmente pelos próprios barqueiros. Ricardo obedeceu. Sentou-se, esperando que Raul iniciasse a conversa.

Ele retirou um pequeno embrulho do bolso e começou a fazer um baseado. Ricardo o observou, surpreso.

– Você se importa?

– Pessoalmente, não. Você acha que isso é apropriado, agora?

– Meu amigo, aqui só os peixes nos vigiam. Se é que ainda existem peixes nesta lagoa.

– Mas você disse que não pode confiar em ninguém, e de repente, começa a fumar um baseado? Quem disse que não há uma câmera por aqui, que não estão vigiando a gente?

–E quem pode me prender por fumar um baseado? Não se preocupe com isso. Mas olhe, se isso o incomoda, eu posso deixar. Só uso pra ficar mais relaxado. To muito tenso, sabe?

– Tudo bem, vamos em frente. Me diga, o que aconteceu com você? Por que me chamou?

Raul refletiu um pouco. Aprontou o cigarro, acendeu-o e deu uma tragada demorada. Depois, olhou fixamente para o amigo, abraçou-o mais uma vez.

Ricardo, visivelmente incomodado, afastou-se um pouco. Pediu que se apressasse, ele tinha muito o que resolver. Já dissera isso.

– Desculpe, meu amigo. Não quero importuná-lo, prejudicar a sua vida. Mas eu sei, tenho certeza, que você é a única pessoa que pode me ajudar.

– Então me diga, o que aconteceu?

– Você é casado?

– Não, mas o que isso tem a ver?

– Mas tem alguém esperando você em sua cidade?

– Sim, tenho uma namorada. Logo que eu me instalar aqui e estiver tudo organizado, ela virá também. Mas, podemos conversar sobre isso, numa outra hora. Agora, o que interessa é o seu problema.

–Eu sei, eu sei meu amigo. O meu problema – dá mais uma tragada e confessa – Eu já fui casado, por dois anos. Ela foi embora. Nem sei por onde anda.

– Espere, Raul, isso tem a ver com o que quer me contar?

– Diretamente, não. Talvez tenha com a minha solidão, a minha carência. Depois que ela foi embora, eu arranjei uma cachorrinha. Uma vira-latas. Suzi. Dei a ela o mesmo nome de minha amada. Susi. Um lindo nome, não acha?

– Sim.

– Pois veja você, eu e Susi sempre vamos no pet shop que fica na rua principal, aquela perto do hotel em que você está hospedado. Pet shop Dragão. Um nome idiota para uma pet shop, não acha? –– e dá uma gargalhada –– nada a ver. Hilário, isso.

Ricardo estava cada vez mais irritado. Já não se continha em ouvir o amigo que nunca chegava a um denominador comum. Foi ríspido o necessário para informar que iria embora, se ele não contasse de uma vez porque precisava de sua ajuda.

– Desculpe, meu amigo. Você tem razão. Na penúria que ta a minha vida, eu costumo me desligar do problema real e fico falando merda mesmo. Mas tudo o que eu disse, tem a ver com o meu problema, você pode ter certeza do que estou dizendo.

– Então me explique, você faz rodeios e não chega a lugar nenhum.

Mais uma vez, encheu os olhos d’água e parece ter tido um pequeno apagamento.

Por um momento, ficou observando a lagoa, sem nada dizer.

Ricardo levantou-se indo na direção do carro.

Raul deu mais uma tragada na bagana, jogando-a em seguida no chão. Levantou-se também e se aproximou do amigo. Pegou o seu braço e disse, quase num suspiro: – Por favor, não me abandone. Vou morrer. Se você me deixar, eles me matarão.

– Mas do que você esta falando?

–Vamos sentar ali, por favor. Olhe, parei de fumar. Já to legal. Vou contar tudo pra você.

– Está bem. Então comece sem rodeios. Seja objetivo, por favor. E depois, nem sei como poderei ajudá-lo. Não sou da polícia, não sou advogado…

– Não, nem me fale nessa gente. Eu preciso de você, preciso de um amigo e de um médico.

Sem terminar a frase, dirigiu-se ao banco de madeira. Ricardo obedeceu, voltando a sentar ao seu lado.

–Vamos, estou esperando.

–É o seguinte: quando falei na Susi…

–Não vai começar, Raul.

– Eu preciso falar na Susi. Não na minha namorada, isto é, ex-namorada. É na cachorra mesmo. Quando eu falei nela, eu queria me referir ao pet-shop.

–Sei, o pet shop Dragão.

–Pois é, você o viu quando foi ao hotel, não?

–Raul, eu cheguei ontem à noite no hotel. E quando fiquei aqui em Sul Braga, passava o tempo todo no hospital fazendo residência. Meu apartamento ficava no outro lado da cidade.

–Está bem, quer dizer que não conhece a loja?

–Não, não conheço.

–Bem, ela fica atrás da praça, logo que passa o hotel. E do outro lado, nos fundos da loja, tem um parque, mas não é um parque bem cuidado, organizado pela prefeitura. É um amontoado de árvores e trilhas feitas pelo pessoal que passa por ali, é praticamente um mato. É um mato, na verdade.

–Sim, e daí?

Raul silencia por um momento, como se refletisse o que tinha a dizer. Em seguida, responde, com afoita rapidez.

–Daí que a polícia anda atrás de um assassino em serie, um serial killer como dizem na tv. Ele ataca neste parque, tá sabendo? Já morreram cinco pessoas!

– É verdade?

– Sim. Estas pessoas tem alguns traços em comum. São geralmente homens, apenas uma era mulher. Em geral são gordos, frágeis, e não são, como direi a você, muito objetivas nos seus planos. E todas têm, ou tinham um animal de estimação. Dizem os policiais que para o assassino, o fato de ter um cãozinho ou um gato, o cara é um fraco, o animal não passa de uma muleta. E ele, o assassino não suporta isso. Na verdade, nem sei se foram os policiais que disseram isso ou se foi a psicóloga que falou na tv. Eu ando meio esquecido, sabe?

– É normal.

– Por que?

– Deixe pra lá. Mas o fato destas pessoas possuírem um animal de estimação, não significa nada. Hoje em dia, a maioria das pessoas tem alguma animal em casa.

– Eles não conseguem pegar o bandido. Mas eu tenho uma suspeita, só que não posso falar pra ninguém.

Ricardo procura alguma coisa no bolso da camisa. Retira uma pequena caderneta e uma caneta como se fosse anotar alguma coisa. O amigo o olha surpreso, mas o que obtém é uma pergunta quase displicente.

–Você acha que tem a ver com o petshop?

Raul alegra-se com a pergunta. Exclama entusiasmado: –Você é muito inteligente, Ricardo.

– Mas você tem medo de quê? Quer dizer que tentaram matá-lo também? –– pergunta enquanto anota a placa do carro de Raul. Este nem se apercebe, começa a falar meio ofegante, mas firme.

–– Certa vez, eu fui buscar ração para Susi. Eu já sabia dos crimes, andava até meio apavorado, mas a gente sempre acha que nunca vai acontecer com a gente, né? Pois eu sai, naquele dia, lembro bem, era uma sexta feira, estava até uma temperatura agradável, eu atravessei a rua, quando voltava do pet shop e fiquei na esquina, esperando o ônibus. Ali perto, tem um ônibus que passa bem perto de minha casa, sabe? Eu estava com pressa, a Susi passou o dia inteiro sem ração, mas como o ônibus não aparecia nunca, resolvi ir até a praça para pegar um taxi. Nisso, parou um carro, bem perto do parque, esse matagal, de que lhe falo, que fica do outro lado da rua. Pensei que era alguém conhecido, mas o cara era um estranho. Pensei que queria falar comigo, pois quase me atropelou. Nisso, ele soltou um cachorro que correu em direção ao mato. Gritou, desesperado que o animal ia se perder. Pediu a minha ajuda. Como gosto muito de bichinhos, você sabe, eu corri pra ajudar o cara. Quando estava lá dentro, tudo meio escuro, ele se aproximou e num descuido, me tapou a boca com um pano embebido em clorofórmio, acho. Me segurou com tanta força, que cai, fiquei ali, estendido, desmaiado, no meio daquelas árvores todas. Acho que o cara é praticante dessas lutas orientais, porque quando me dei conta, já tava no chão. Quando acordei, ele havia sumido, claro, estava tudo muito escuro e eu completamente zonzo. Fui parar no hospital, porque tenho açúcar alto, sabe, tenho diabete, mas, graças a Deus, estava tudo normal comigo. A glicose estava até mais baixa do que de costume. O médico do hospital insistiu que eu tinha tomado insulina, mas eu não tinha tomado aquele dia.

Ricardo esforçou-se em ouvir toda a história, que parecia muito fantasiosa.

Seu amigo não lhe parecia um homem muito confiável, afinal, tinha um aspecto desleixado, além disso, acabara de fumar maconha, o que aumentaria a sua imaginação.

De qualquer modo, havia alguma coisa que o perturbava muito, talvez um estado depressivo, devido à solidão que lhe falara.

Não custava ficar mais um pouco para ouvi-lo e tentar ajudá-lo. O ideal, seria dissuadi-lo daquela ideia, de que não havia nenhum serial killer na cidade, que os crimes talvez não tivessem nenhuma ligação, e que deveria deixar a investigação com a polícia. Seria o mais adequado.

– Pelo que você disse, o cara não quis matar você.

–Ele não conseguiu, é diferente. Mas tenho certeza de que me deu insulina. Ele injetou em mim, não sei como, nem onde. Mas o meu açúcar não subiu e ele não me matou. Ai é que tá o mistério, entende? Ai é que você entra nesta historia. Eu quero que me explique, por que eu não morri.

– Como eu vou saber? Não sou detetive.

– Espere ai, você é medico, pode me ajudar.

–De que você desconfia? Você viu o cara. Sabe quem é. É alguém da pet shop?

–Não me lembro dele. Na verdade, acho que usava máscara, dessas que deixa a pessoa sem uma fisionomia definida.

–– Sabe de uma coisa, Raul? Pra falar a verdade, acho esta história muito fantástica. Por que um cara ia tentar matá-lo, usando uma máscara, em plena luz do dia. Além disso, você falou com ele antes, no carro, tinha de reconhecê-lo.

–– Este homem já usava a tal máscara no carro, tenho certeza. Me lembro bem a cara parecia de um boneco.

Ricardo suspirou, ansioso. Uma pequena viagem de avião após um congresso cansativo de sete dias. Uma noite para ficar na capital e fazer a mala, despedir-se da família, da namorada e levar algumas horas noturnas para chegar em Sul Braga, acordar com a ideia fixa de encontrar o velho amigo de infância que quase não conhecia. Afinal, como Raul fora parar naquela cidade e como não o encontrara quando fizera residência nos dois anos que morara ali?Olhou-o de soslaio, tentando achar uma maneira de afastar-se dali o mais depressa possível. Parecia uma tarefa difícil.

Decidiu perguntar mais uma vez: –– Afinal, por que você imagina que posso ajudá-lo?

––Eu já lhe disse, porque você é medico.

–– Sim, isso você já me disse. Mas como?

Raul levanta-se do banco, dá alguns passos até a lagoa, observa ao longe, como se antevisse alguma coisa estranha, que o perturba profundamente.

Volta-se com uma nuvem nos olhos. Um vazio que de certo modo, o transforma num homem diferente, um homem mais do que assustado. Sem esperanças.

–Eu acho que ele injetou insulina nas vítimas. Que ele as mata com insulina.

–Mas insulina só pode matar quem não tem a doença.

Volta-se rápido para Ricardo, transparente. Toda fisionomia expressa o que pensa: –– Exatamente, você matou a charada. Eu não morri porque tenho a doença.

Ricardo calou-se, pensativo. De certo modo, Raul tinha razão. Se havia realmente um criminoso com a intenção de matar com insulina, ele não morrera porque tinha a doença. Mas que ligação havia com a pet shop? Por que relacionara as duas coisas, só pela proximidade do parque?

–– Eu sinto que você tem muitas dúvidas, Ricardo, e é compreensível. Eu sou um cara sozinho, negligente com a minha vida e de repente, conto esta história absurda, não é mesmo?

–– Raul, na verdade, não sei nada de você. Lembra-se que nos conhecemos quando ainda éramos crianças?

–– É verdade. Foi uma dádiva dos céus você ter vindo pra cá. Mas o que eu lhe contei, da pra tirar uma ideia de como sou, não?

–– Você sabe que não da nem pra descrever uma pessoa com algumas informações, quanto mais poder caracterizá-la como um tipo a ou b.

––Não foi um bom primeiro encontro, né? O ideal seria que estivéssemos num bar, bebendo, dando risada das nossas misérias e contando um ao outro os nossos sonhos.

–– Na verdade, Raul, pra ser sincero, o ideal seria eu estar me apresentando agora, no hospital. E é o que devo fazer agora, depois a gente se encontra…

Foi interrompido bruscamente por Raul, quase em desespero.

–– Não, meu amigo, por favor, não vá, eu lhe peço. Ouça o que tenho a lhe dizer. Eu sei o que acontece na petshop e preciso contar-lhe. Assim, você entenderá porque estou tão assustado.

Os dois permanecem em frente à lagoa. Um barco de pesca passa a alguns metros de distância, com alguns trabalhadores olhando para a margem, curiosos com as ruas da cidade, mais adiante do cais, além do trapiche. Raul volta a sentar, desta vez no trapiche, com os pés soltos, próximos à água. Ricardo, sem alternativa, aproxima-se e fica por ali, em pé. Ouve o outro falar entredentes, não querendo ser ouvido.

–Porque eu vejo sempre eles injetando insulina nos animais. Alguns são sacrificados. Automaticamente, juntei as coisas, entende?

Ricardo acocora-se ao lado do outro e pergunta: – Então você acha que o dono da loja de animais é o serial killer e que, como você o conhece, pode vir a matá-lo. É isso?

–Não, eu não sei quem é. O dono é um cara simpático, muito gentil, uma pessoa maravilhosa. Mas tem alguns funcionários lá, sei lá, pode ser qualquer um. A maioria trabalha nisso. Eles fazem de tudo lá, tosa, vendem de tudo, e tem veterinário.

––Somente um veterinário poderia fazer este procedimento. Isso é eutanásia de animais.

–– Algum deles deve ser, não sei.

–– E como eu posso ajudá-lo?

––Você pode esclarecer isso. Você pode afirmar que a insulina mata. A polícia tem que fazer a perícia nos corpos das vítimas, investigar, verificar se não foi injetada insulina neles.

––E quem acreditaria nisso? Com que argumento, como pode afirmar que foi injetada insulina? E além do mais, por alguém da loja? Por que motivo?

–– Pelo que eu ouvi na pet.

––Por favor, esqueça isso. É loucura. Quem pode afirmar que estas pessoas em alguma coisa a ver com isso?

Raul retira uma folha de jornal da mochila. Desdobra-a com cuidado e entrega-a a Ricardo. Há uma notícia circulada com caneta vermelha. Ricardo lê com atenção e fica em silêncio.

Raul então pergunta, preciso. –– O que você me diz disso?

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