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A CASA OBLÍQUA - CAPÍTULO XXIII

Clara não evitou as lágrimas, envolvida naquela situação que aos poucos se apoderava de sua vida, de uma maneira tão íntima, que lhe custava distinguir a sua história da de Dona Luisa. As suas vidas confundiam-se de tal forma, que imaginava ser a mesma história e que apenas os acontecimentos se sucediam em épocas diferentes. Talvez ela nem fosse Clara, mas a própria Luisa. Não bastasse aquele clandestino na sua casa e as peripécias que precisara enfrentar para acolhê-lo, agora as dificuldades se acumulavam, talvez conduzindo a um desfecho semelhante. Não sabia que rumo as coisas tomariam, mas devia esforçar-se para resgatar o verdadeiro amor, a felicidade que Dona Luisa tanto almejara. Por este motivo, faria tudo para encontrar a casa na praia.

Pensando assim, vestiu-se com uma roupa leve, quase esportiva para pôr em prática o seu objetivo. Guardou os óculos de grau na bolsa, aplicou as lentes e maquiou-se como de hábito. Pegou também uma pequena valise e de óculos escuros, dirigiu-se rapidamente para o elevador.

Quando a porta se abriu, teve uma sensação súbita de vazio, de perda de contato com o chão. Olhava para Bruno e tinha a impressão que a vida que sepultara, emergia das profundezas para atormentá-la como um zumbi. Suspirou, inquieta, querendo entrar, não dizer nada, não vê-lo e esquecer de vez o seu rosto moreno, mas ele a segurou pelo braço.

— Clara, preciso conversar com você. Sei que fui um canalha, mas olhe, não consigo mais viver assim, não tem dia que passe que eu não pense em você, em nós dois.

— Eu não quero conversar com você. Esqueceu que me afastou da sua vida?

— Clara, entendo que esteja magoada comigo, mas isto passa, eu sei que passa. No fundo, você me ama e eu descobri que você é a mulher da minha vida.

Clara desvencilhou-se dele. Entrou no elevador e pressionou o botão do térreo. Ele impediu, segurando a porta com as mãos.

— Só vou largar se você me prometer que vai me encontrar em algum lugar.

Clara acionou o alarme, sem cessar. Ele soltou a porta, irritado. A síndica apareceu na escada, perguntando o que havia ocorrido. O elevador já descia.

No carro, Clara avistava o de Bruno ainda estacionado à frente do prédio.

Arrancou num ímpeto, afastando-se rapidamente do lugar. Do retrovisor, observou quando ele entrou no carro, sentando-se ao volante por algum tempo. Ela dobrou a esquina. As pernas tremiam, as mãos pareciam tocadas por uma aragem forte, tão frias estavam. Sentia um suor invadir a raiz dos cabelos, emoldurando a testa. Os olhos plugados no retrovisor, ausentes, temerosa de ser seguida. Nem percebeu que tomava uma estrada alternativa e aos poucos se afastava da cidade.

O veículo ficava empoeirado, a estrada deserta, na qual poucos se atreviam a percorrer aquele percurso árduo. Muita pedra, saibro, espaços imensos sem acostamento.

Quando viu o cruzamento com a estrada asfaltada, obedeceu o instinto e a seguiu, dirigindo numa velocidade acentuada. Só ouvia os zás dos caminhões e automóveis que passavam, as casas ficando longe, cercas de arame se sucedendo umas às outras, vacas pintando o verde dos campos.

Ela viajou por tanto tempo, que ficou exausta. Ao avistar um pequeno bar, à beira da estrada, decidiu estacionar, assim, meio a esmo, sem saber exatamente o que queria.

O bar estava quase vazio, apenas dois homens tomavam cerveja, conversando numa mesa, entretidos com papéis que pareciam notas fiscais. Nas cadeiras ao lado, pastas surradas, disformes, modeladas pelo conteúdo. Numa outra mesa, encantado nas notícias da tv, outro homem, cara amuada de poucos amigos, cabelos brancos e bigodes avantajados, ingeria um copo de cachaça que acabara de pedir ao garçom. Clara imaginou ser um caminhoneiro. Observou o balcão com o tampo de um granito gasto, áspero aos dedos, quando se passava a mão. Experimentou a sensação desagradável, sentando-se num dos bancos altos. O rapaz que atendia nas mesas havia reparado quando ela chegara, mas não tivera tempo de atendê-la. Em seguida, porém aproximou-se, oferecendo ajuda.

Clara pensou alguns segundos, suspirou, hesitando no que queria. Apenas acrescentou:

— Acho que preciso de uma bebida forte.

O garçom sorriu, timidamente. Enumerou as inúmeras bebidas. Ela insistiu, provocante:

— Qual delas você me sugere?

Um dos homens que mexiam com notas fiscais interrompeu o garçom, pedindo outra cerveja. Ele afastou-se, dirigindo-se ao freezer para servir a bebida.

Clara observava a cena, interessada. Os homens nem a notavam, aparentemente preocupados com os próprios problemas. Um deles abriu a pasta, despejando outros documentos sobre a toalha xadrez. O homem da cachaça parecia distante, talvez preocupado em conversar com alguém. Perguntou ao rapaz se não se pescava por estas bandas. Enquanto voltava para o balcão, o garçom esclarecia que ultimamente não havia muito peixe, pois havia chovido muito no inverno. O homem se calou, conformado. Vez que outra, levantava a cabeça para admirar a beleza de Clara, mas logo se aquietava na bebida, talvez imaginando que não era para o seu bico.

— Então, já decidiu?

— Já. Um uísque, bem forte, com guaraná.

Ele pretendia falar-lhe alguma coisa, mas foi só um impulso. Quando voltou com o copo, Clara fez outra pergunta:

— Sabe onde fica a praia da ponta?

O rapaz coçou o queixo, mostrando-se interessado. Entretanto, a resposta não foi favorável à Clara, pois segundo ele, não havia nenhuma praia com este nome naquela região.

O homem que tomava a cachaça, ouvindo a pergunta, respondeu lá de sua mesa:

— Isso já faz muito tempo, moça. Mudou de nome.

Clara voltou-se, percebendo o quão alongado e largo era o nariz do homem, os olhos pequenos, quase sumidos na cara obesa. Ele prosseguiu, solícito:

— A praia da ponta ficava numa ilha. Fez algum sucesso, lá pelos anos 60, mas depois, foi morrendo, ninguém mais apareceu por lá.

— Mas onde fica?

— Não é muito longe, só tem que pegar a balsa.

Os dois homens silenciaram, revelando um certo interesse pela história. Um deles comentou sobre Clara, com um sorriso malicioso. O outro fez um muxoxo, como se achasse um artigo de luxo, perdido no nada. Devia ser garota de programa.

Clara levantou-se. Passeou pela sala, entre as mesas, ante o olhar admirado de todos, inclusive do garçom, que a estas alturas, estava desolado atrás do balcão, sendo preterido por aquele velho cachaceiro.

Ela pediu permissão para sentar na mesa do homem.

Ele sorriu, satisfeito.

— Samuel. Para servi-la.

Clara sorriu:

— Luisa.

— Então a moça quer ir pra ilha?

— Preciso ir até esta praia.

— Não deve ter mais nada por lá, a não ser uma ou outra cabana de pescador.

Pediu outra cachaça e um pouco dágua. Quando o garçom trouxe a bebida, perguntou à Clara se queria alguma coisa. Ela mostrou o copo de uísque.

— Não querem comer nada?

— Daqui a pouco vou querer um bife mal passado, bem grande, pode ser?

O rapaz assentiu e afastou-se, esperando o pedido.

— Eu pretendo ir lá ainda hoje.

— Ah, mas vai depender se tem balsa. Não é todo dia. O problema moça, é que as dunas tomaram conta das casas, o povo foi abandonando. Então a balsa só vai quando tem caminhão de hortigranjeiro. Foi só o que sobrou, meia dúzia de agricultores.

— O senhor morava lá?

Samuel acabrunhou-se por um instante. Olhar perdido, vendo coisas que estavam só na sua mente excitada pela bebida e pela saudade.

— Não, nunca morei lá, mas conheci uma pessoa.

— Uma mulher?

— É, uma mulher. Mas isto é história antiga, não vale à pena ser lembrada.

— Então, o senhor tem ainda algum sentimento. Ressentimento talvez?

Ele sorriu.

— Sabe, né? Rolo de mulher casada. Coisa boba.

— E o senhor nunca mais a viu?

— Não, nunca mais. Ela preferiu continuar casada.

Clara silenciou. Imaginou que poderia ser Dona Luisa, a tal mulher, mas logo afastou aquele pensamento. Ela era uma mulher íntegra, digna. Não seria capaz de envolver-se com um homem daquele tipo, pensou. Além do mais, ela amava o estrangeiro. Jamais o trocaria por ninguém.

— Chamava-se Eleonora. Era uma mulatinha bonita que só vendo. – Confessou o homem suspirando. – Mas é coisa do passado. O que passou, passou.

Clara também suspirou. Não deveria ter pensando aquela tolice.

— Mas o que a moça, Luisa, né? quer fazer lá, naquele fim de mundo?

— Pretendo visitar uma casa. Ver se ainda está em pé, já que o senhor falou nas dunas.

Ele passou a mão pelos fios ralos da cabeça, concluindo:

— Vai ser difícil.

— Como vou saber o dia que tem balsa?

Os dois homens que bebiam a cerveja, levantaram-se, pegaram as pastas, dirigiram-se à caixa e saíram juntos.

O garçom ficou espiando pela janela envidraçada, vendo-os entrar num carro com um nome de firma representado abaixo dos frisos da porta. Um letreiro grande, com um endereço eletrônico embaixo. Ele apertou os olhos para entender o que estava escrito, mas o astigmatismo atrapalhava a visão. Depois, achando que o ambiente estava muito silencioso, aumentou o volume da TV, que ficava ao alto, no canto esquerdo da parede. Desinteressou-se de Clara e Samuel e ficou assistindo a TV, mastigando lentamente um palito. Só foi despertado, pelo grito ruidoso do homem, que pedia um bife. Correu até a cozinha e fez o pedido.

O caminhoneiro perguntou:

— A moça não vai comer nada?

— Não. Só queria que o senhor me ajudasse a descobrir o horário e o dia da balsa.

Ele retirou o celular de um estojo preso ao cinto e ligou para alguém, fazendo um gesto indicando paciência à Clara. Ao terminar, sorriu, recompensado.

— Um parceiro meu, caminhoneiro que nem eu, disse que só amanhã, às nove.

Clara surpreendeu-se, desanimada.

— Só amanhã? E onde vou ficar?

O garçom ligou o ventilador para espantar as moscas. Observou que o copo de Clara estava vazio e aproximou-se, perguntando se tomaria outra dose. Ela o fitou irritada, pela interrupção, mas aceitou. Retomou a pergunta, enquanto Samuel sorvia a última gota da cachaça.

— Vai ser difícil, moça, como lhe disse, aqui tudo é difícil. Mas pode se resolver.

— Como assim?

— Tem um hotelzinho vagabundo a três quilômetros daqui. Mas para passar a noite, dá. E depois, fica ainda mais perto da estrada que vai dar na balsa.

— Não tem importância. Qual é o nome deste hotel?

— Não sei, mas é ao lado do posto de gasolina.

O rapaz apareceu com o bife, uma salada de tomates e cebolas. Clara levantou-se, agradecendo as informações. Samuel insistiu:

— Se a moça quiser, posso lhe dar carona. Quem sabe a gente se diverte, no hotel.

Clara lembrou-se de Bruno, da sua postura machista, do olhar guloso, que a despia, mas foi só por um momento. Sorriu, falsa.

— Não se preocupe, estou de carro.

Ele tentou remediar:

— Não leve a mal, foi só uma brincadeira.

— Eu também brinquei quando perguntei se havia alguém na praia que o interessava. Nem acreditei na história da tal mulata.

— Mas ela existiu, sim!

Afastou-se, com o copo entre os dedos, esquecida dos resmungos de Samuel. Voltou-se para o garçom, que observava a cena com um olhar iluminado. Ao sair, ele correu para a janela.

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