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A CASA OBLÍQUA - CAPÍTULO XIV

Clara acordou e já não se reconhecia como a mulher centrada e responsável que era. Estava arrependida por ter tomado uma atitude impensada, moldada pelo momento, inspirada nas confidências e a confiança que aumentava com a convivência com Nael. No entanto, não devia deixar que as coisas acontecessem daquela maneira. Ela já havia sofrido muito, já se frustrara demais com Bruno. Não podia cair na mesma armadilha da paixão, da ilusão de que estava apaixonada, de que iriam construir um futuro juntos. Não, ela não devia se iludir daquele modo, como uma adolescente, principalmente depois de tudo que havia passado. Além disso, Nael não era um homem que poderia levar consigo ao cinema, fazer compras no shopping, casar, ter filhos. Era um homem marcado, um clandestino, que devia à justiça de seu país e permanecia ilegalmente no Brasil. O tempo se esgotava rapidamente e mais dia, menos dia, estariam à cata dele, como um criminoso e ela estaria seriamente prejudicada. Foi aí, que teve uma idéia, que naquele momento, lhe parecia brilhante. Teriam um tempo para regularizar a situação, entrar em contato com a embaixada, impedir que fosse preso ou deportado. Seu problema maior seria fazê-lo entender a solução que encontrara. Depois da conversa que tivera com Nael, resolveu por o plano em prática e a começaria por ter uma conversa séria com a síndica. Estava tomando o elevador, quando subitamente, sentiu que alguém lhe tocava o braço, de uma leveza tal, que parecia oriunda de uma dimensão desconhecida. Olhou para os lados, mas não viu ninguém. Apenas uma voz suave e pausada soou aos seus ouvidos, convidando-a para entrar no apartamento ao lado. Clara assustou-se, imaginando que estava ficando louca. Quem poderia estar falando com ela, se não havia ninguém ao seu lado, nem mesmo dentro do elevador que parara a sua frente. Mas a voz insistia, chamando-a pelo nome. Clara então perguntou: — É você, Cida? — Não me fale nesta mulher. Sou eu, Clara. Luisa. Clara estremeceu e começou a afastar-se em direção à escada, em pânico. A voz insistia: — Não se assuste. Só quero ajudá-la. Aliás, nós duas precisamos de ajuda. Você, porque está envolvida com aquele estrangeiro, eu, porque não tive tempo de entregar-lhe o caderno com as cartas, nem mesmo o baú. Além disso, querem tomar o que é meu. Naquele baú, não existem apenas cartas antigas, há uma procuração que fiz para que você tome conta do apartamento até chegar o momento decisivo. Preciso de você. Quero que tenha acesso a tudo e que me ajude. Só descansarei, quando fizer o que lhe pedi. Clara sentia o chão sumir, pois os joelhos tremiam tanto, que temia desabar escada abaixo, se continuasse próxima ao corrimão. O elevador fechou-se, repentino e desceu, produzindo barulhos ensurdecedores, cabos que rangiam retesados, portas de grades que se abriam. Um prédio quase abandonado, que morava meia dúzia de pessoas, quase tão todas solitárias quanto ela. Clara estava paralisada. Como num sonho, tudo acontecia em quadros, quase parados, como um filme antigo de projeção avariada. Não conseguia falar, até que o elevador voltou novamente e abrindo-se a porta de grade, surgiu a síndica, fitando-a de uma maneira aturdida. A voz que Clara ouvia cessou imediatamente, tanto quanto a presença etérea de Luisa. — Clara, você está assustada, tanto quanto eu. Clara concordou apenas com um aceno. A síndica concluiu: — Pois eu estava apavorada, o elevador não parava em andar nenhum, descia e subia sem qualquer controle e quando eu queria saltar, a porta se fechava, como se alguém me impedisse de sair. Com você aconteceu o mesmo? —Sim, eu também não conseguia fazê-lo parar no meu andar. Achei muito estranho. — Demais! Eu até pensei que estes pivetinhos ai da rua tivessem entrado no nosso prédio. Você sabe como eles são atrevidos. Temos de ter muito cuidado. Clara, já não a ouvia. Uma paz quase insana a dominava, um leve sorriso nos lábios. Então, ela tinha direito ao apartamento de Dona Luisa. Procuraria este baú, nem que tivesse que atravessar os telhados e pular a janela. Precisava encontrar a procuração. Nela estava a salvação de Alyan. Lá, ele ficaria seguro, sem que ninguém o perturbasse. A síndica perguntou se ela não pegaria o elevador. — Não, desisti de descer – respondeu displicente. A mulher puxou a porta de grade, acenando a cabeça com censura. Clara deu dois passos e parou indecisa. Por pouco tempo. Em seguida, dirigiu-se ao apartamento de Dona Luisa e espalmou as bochechas bem junto à porta, na tentativa de ouvir algum ruído. Talvez Cida houvesse voltado, aí, tudo ficaria mais fácil. Estava assim encostada, quando teve um sobressalto. A porta se abriu lentamente, como se alguém a esperasse e a convidasse para entrar. Apossou-se do hall, furtiva e dirigiu-se à sala de estar. Tudo parecia tão diferente de quando estivera ali com a presença de Cida. Os móveis estavam limpos, os bibelôs organizados sobre o aparador, os quadros na parede, sem que as teias os vendassem, cruzando-se em suas urdiduras pela sala. Ao contrário, conservavam as molduras em boas condições, os quadros restaurados, as fotografias espalhadas nos espaços adequados. Até as poltronas asseadas com um aspecto novo. Sentou-se numa delas, e lembrou do dia em que Dona Luisa ensaiou os primeiros passos de sua história de amor. Naquela noite, Luisa permanecera assim, de coração aflito, esperando que a qualquer momento a mãe descobrisse aquele estranho deitado no seu porão. O pai, felizmente havia se dirigido ao banco, como de costume. A mãe, no entanto, começaria as suas atividades, penaria pela casa como uma alma sem descanso, inventando tarefas além das costumeiras, arrastando os chinelos pela casa, desfazendo-se de papéis, jornais, ou quaisquer documentos que lembrassem a guerra. Só guardava o que era necessário. E, paralelo a todas estas dificuldades, Luisa devia encarregar-se do ferimento do soldado. Um outro problema que deveria solucionar era a sua ausência na escola naquele dia, mas este era de somenos importância, em virtude de todos que enfrentaria. Desceu até o porão e examinou o ferido. Percebeu que o sangue estancara, o ferimento certamente não era tão grave, a não ser que houvesse uma bala alojada em seu ombro. Entretanto, percebia que estava febril e que suava intensamente. Ele abriu os olhos levemente e ela percebera que eram de um azul profundo, a pele muito branca e os cabelos loiros. Tentou afastar a mochila de suas costas, mas continuava presa pelos ombros, o que fazia-a pensar que ele não queria se desfazer do incômodo, sob hipótese alguma. Repentinamente, Luisa ouviu passos na escada. Correu então ao encontro da mãe, para impedi-la de encontrar o desconhecido. A muito custo, convenceu-a a descer, fingindo um assunto urgente, que precisava falar-lhe. Moema insistia que lhe falasse ali mesmo, devia pegar algumas coisas no porão. Luisa interviu, voluntariosa, acusando-a de não ouvi-la, somente preocupada com aquele maldito porão. Por que não subiam para a cozinha e não conversavam em paz. Moema fitou-a surpresa. Não esperava aquela explosão inesperada, nem a obstinação da filha em persuadi-la no tal problema. Talvez fosse alguma coisa bastante grave. Então, tentando ser razoável, talvez pela primeira vez, obedeceu, retornando, descendo os degraus que levavam até a cozinha. Luisa respirou, aliviada, seguindo-a. No decorrer da conversa, Luisa usou todos os subterfúgios para explicar a situação do estrangeiro, inclusive o ato de solidariedade, recorrendo a uma situação semelhante ao irmão, que estava na guerra, caso acontecesse, ele ferido, ser resgatado por alguém. Moema ouviu em silêncio, sem mexer um músculo do rosto. Seus olhos fixos na filha, sem qualquer reação. Então, levantou-se, afastando-se da cozinha e dirigindo-se à escada que dava ao porão. Luisa pediu que esperasse, perguntando o que pretendia fazer. Ela não respondeu e correu até o porão. Ao entrar, deparou-se perplexa com o rapaz estendido no chão, parecendo dormir e gemendo levemente. Voltou-se para Luisa que detinha-se as suas costas, assustada. Ela respondeu secamente. Seus lábios se contraíam mastigando as palavras com raiva: — Você tem que se livrar deste homem. Não quero nem mais um dia na minha casa. Luisa desesperou-se. Como atirar porta à fora alguém que estava ferido, que tinha lhe pedido ajuda? — Mamãe, pense bem, e se fosse o Júlio? E se fosse seu filho, a senhora o mandaria embora sem prestar socorro? — Ele não é meu filho. Luisa, você enlouqueceu? Você se deu conta quem é este homem? — Um soldado que me pediu ajuda pelo radio. — Que rádio? Ele deve ter matado alguém para conseguir entrar na frequência do rádio, deve ter pedido asilo e o abandonaram, deixando-o à própria sorte. Sabe por quê? Porque é um soldado alemão. Deve ser um desertor. Ele é um inimigo. Luisa ficou em silêncio. Sua mãe era uma mulher perspicaz, muito mais do que imaginara. Aquele uniforme, a maneira estranha de falar, o inglês bisonho. Num pulo, aproximou-se dele e segurou a mochila. Moema a impediu. — Não faça isso. — Mas eu preciso saber. — Você não tem que saber nada. Tem que livrar-se dele. — Eu não posso fazer isso, mamãe. Nós não podemos. Como vamos deixá-lo morrer? — Este homem já está morto desde que traiu o seu país. — Como a senhora pode ter tanta certeza disso? Quem pode afirmar que ele é um desertor? Moema calou-se. Sabia mais do que falava. Ouvia mais do que comentava. Deu alguns passos e retirou uma folha de jornal, dobrada entre outros documentos que guardava ali mesmo, no porão, entre outros objetos que costumava organizar na sua rotina diária. — Olhe, deste eu não me livrei. Pensei que houvesse alguma noticia da Itália, mas era daqui mesmo, de Rio grande. Um navio britânico sofreu avarias na costa da barra. Não chegaram a concluir o conserto e foram convidados pela Marinha Brasileira a se afastarem da costa, porque o País está em prontidão. Mas um marinheiro atirou-se à água. Não encontraram o corpo, mas a noticia que se tem é que foi alvejado por ordem de seus superiores, desaparecendo no mar. Deveria ser um alemão desertor, fugindo num navio britânico. Se não, por que atirariam num homem de sua própria nacionalidade? – calou-se por um minuto, com a certeza de que a filha cometera uma tremenda estultice. Prosseguiu, amarga: — Deve ter tido ajuda de algum pescador, num destes barcos de pesca e conseguido entrar em contato pelo rádio. Você foi uma presa fácil. Quem pode afirmar que este homem não matou o dono do barco que o ajudou? — Por que faria isto? — Porque ele fez contato com você. Devia estar sozinho. E depois apareceu no porto, perto de um vagão abandonado. Não acha muito estranha esta história? — De qualquer forma, mamãe, eu fiz tudo para trazê-lo até aqui, portanto farei tudo para salvá-lo, seja quem for.
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