A CASA OBLÍQUA - CAPÍTULO VIII

Capítulo VIII

Clara estava satisfeita com o resultado das pesquisas e o desenvolvimento da dissertação. Estava no caminho certo. Almoçou na universidade e trouxe uma marmita para Nael.

Voltou para casa, estacionando à frente do prédio. A temperatura aquecera um pouco e ela foi se desfazendo das roupas ainda no carro. Tirou o casaco, já havia se desfeito das luvas, ficando apenas com o cachecol.

Ela desceu rapidamente, cumprimentou a síndica que se preparava para sair exatamente quando ela abria a porta. Tratava-se de uma senhora de baixa estatura, caminhar arrastado e voz grave. Costumava olhar sempre para o alto, embora o interlocutor fosse da mesma altura. Raramente encarava a pessoa, e quando o fazia, olhava de soslaio, parecendo preocupada com alguma coisa alheia a sua vontade. Clara a achava estranha, mas não se preocupava muito com isso. Percebeu que ela queria falar-lhe alguma coisa, por isso perguntou do que se tratava.

— Pois é verdade, eu queria falar com você, sim. Queria saber se tem alguém morando na sua casa.

Clara estremeceu. Não era o momento para ela descobrir o hóspede estrangeiro. A mulher prosseguiu, inflamada:

—Você sabe, este prédio tem poucos moradores, mas somos muito preocupados com estas coisas. Tudo tem que estar em ordem.

Clara desconversou, fingindo-se apressada.

— Não podemos conversar depois? É que estou com tempo limitado – sorriu, esperando compreensão – a senhora sabe, como corro durante o dia todo...

— Sei sim, não se preocupe. Mas não é nada demais, apenas uma mulher perguntou quem estava morando com você.

Clara lembrou da mulher que tomara conta do apartamento de Dona Luisa e sentiu as mãos frias e úmidas de suor. Não disse nada, limitou-se a olhar a síndica, esperando a conclusão que não chegava.

— Todos nós sabemos que você tinha um... um namorado, na verdade, considerávamos seu marido, é claro, já que ele morava aqui, mas depois que se separou, nunca mais a vimos com ninguém. Acho até que é muito recente para receber visitas. – Terminou a frase com a entonação maliciosa.

Clara a interceptou, indignada:

— Como era esta mulher que lhe fez esta pergunta. Qual era o seu aspecto?

— Sabe que me surpreendi, não era gente do seu nível. Era uma mulher muito estranha, parecia uma mendiga.

Clara afastou-se em direção ao elevador. Garantiu que conversaria com ela mais tarde e esperou ansiosa que o elevador voltasse ao andar térreo.

A síndica ficou alguns minutos, pensativa, sem tomar nenhuma atitude. Depois, dirigiu-se à porta do prédio devagar, fechando-a atrás de si.

Clara respirou, aliviada. O elevador chegou.

Pensou duas vezes se abria a porta de seu apartamento ou se dirigia ao de Dona Luisa. Foi o que fez.

Bateu na porta, uma, duas vezes, mas a mulher não apareceu.

Havia desistido e disposta a esquecer o incidente, resolveria depois, como pudesse. Entretanto, a mulher surgiu ao seu lado, assustando-a.

— Desculpe, não quis assustá-la.

— Mas, me assustou. Por que não abriu a porta?

— Porque eu não sabia se era você. Depois que percebi que a pessoa tinha se afastado, saí de fininho. Não posso arriscar, né? Mas venha, entre, se quer falar comigo.

— O que tenho pra lhe dizer, pode ser aqui.

Cida afastou-se rapidamente, espreitando-a da porta:

— Entre, vamos.

Clara quis opor-se, já tinha perdido tempo demais com aquele assunto, mas viu-se impelida a obedecê-la. Aproximou-se, enquanto a outra se afastava para o interior do apartamento.

Clara entrou e ficou examinando a sala de estar, que pertencia à Dona Luisa. Os móveis antigos na mesma disposição, embora envolta numa neblina de poeira e teias de aranha que se espalhavam vistosas na tecedura.

A porta bateu, fechando-se e ela voltou-se para a mulher, que a espiava, encostada na parede que dava para o corredor. Sorria, com uma falha de dente.

Clara foi direto ao assunto:

— Por que você foi perguntar sobre mim para a síndica?

— Eu apenas perguntei, sem muito interesse. Eu sabia que ela ia indagar.

— Pois não devia. Escute aqui, por que está se intrometendo na minha vida?

Cida afastou-se um pouco, como se esperasse aquela indignação. Permaneceu impassível. Tirou um cigarro do bolso do casaco e perguntou se podia fumar. Clara respondeu, impaciente:

— Você não pode ficar aqui!

Cida não respondeu, dona da situação. Riscou um fósforo e acendeu o cigarro. Dirigiu-se até a janela e ficou observando a vista que dava para o apartamento de Clara e comentou:

— Tem luz na sua casa.

Clara prosseguiu a repreensão, sem prestar a atenção no que dizia.

— Vou lhe dar um aviso: não se meta mais na minha vida, eu sou proprietária, posso trazer quem eu quiser para a minha casa. Você não tem o direito de ficar aqui. Este apartamento era de Dona Luisa, uma mulher maravilhosa, a verdadeira proprietária deste imóvel. Agora está interditado, em juízo. Você não pode tomar conta assim de um imóvel que não é seu.

Cida tragou, expelindo a fumaça tranquila, atribuindo-se um tempo para pensar. Justificou-se:

— Eu estou no que é meu.

— Como assim? – antes que a outra argumentasse, emendou o pensamento, sem inferir qualquer juízo – Não, não me explique nada Eu não tenho nada a ver com isso. Só quero que me deixe em paz. Que me esqueça. Agora, se me dá licença...

Cida correu e parou entre ela e a porta, fitando-a com um olhar de ressentimento. A voz soou mais rouca e agressiva:

— Pra você é muito fácil, não é moça? Você tem este apartamento, um bom trabalho, mas eu não. Eu tenho que me virar sozinha.

Clara ia contestar, mas preferiu calar-se. Cida prosseguiu, revoltada:

— Pra mim as coisas são batalhadas, tudo acontece com muito sacrifício. Eu não to aqui, dando bandeira, não. Não to numa boa, to dando um tempo pra não viver na rua, pegando frio, doença ruim. Eu to aqui, porque se não é de ninguém, é do governo, então é meu também.

— Mas isto não é um imóvel público.

— Não sei do que ta falando, moça. Só sei dos meus direitos. Tenho direito de ficar aqui e por isso, eu tenho os meus trunfos.

— Está bem, por favor, me deixe passar.

— Não, agora vai me ouvir. – Enquanto falava, colocava desleixada um joelho sobre a poltrona, equilibrando-se. Clara assistia a cena duas vezes, uma através do velho bisotê.

— Escute aqui, você está me ameaçando?

— Não, como disse, eu quero fazer um trato.

— Eu não quero trato nenhum com você.

— Você também está em situação difícil.

— Ah, ainda bem que reconhece que não é a única. Então, me deixe em paz.

— To falando do rapaz que tá ai, com você.

— Eu já lhe disse que é um parente.

— Não é não.

— E se não fosse, o que lhe interessa isso? Que lhe interessa se é meu parente, meu namorado ou meu amante?

— Porque ele não é nada disso e a senhora sabe muito bem.

Cida fez um silêncio premeditado, criando suspense. Depois concluiu:

— Ele é um estrangeiro, um clandestino!

Clara empalideceu, perturbada o suficiente para ensaiar uma reação. Apenas indagou com a voz desfigurada, porque razão ela afirmava aquilo. A outra contribuiu, amistosa:

— Acho melhor a moça sentar, pra me escutar com calma. Quer deixar a bolsa na mesa?

Clara nem a ouviu, mas percebeu que a mulher adiantou-se e tirou as teias de aranha que circundavam a poltrona, limpando-a em seguida, com energia, batendo as mãos, fazendo saltar poeira. Levantou a cabeça, meio ofegante, concluindo:

— Pronto, a moça pode sentar.

— Eu fico em pé mesmo, tenho um compromisso.

— A moça é quem sabe.

Clara tentou recuperar-se, embora se mostrasse abalada. Estava trêmula, os joelhos batiam um no outro, como se fosse pega num grave delito. Entretanto, se indagava porque aquela revelação a impressionara tanto. Que podia fazer aquela mulher contra ela? Embora contasse ao prédio inteiro o que sabia, não poderia provar, ao menos que tivesse algum comparsa, que a ajudasse a urdir a trama contra ela. Mas por que motivo? O que aquela mulher queria dela?

Cida percebia o seu desconforto, o que a deixava mais segura. Apagou com a mão a bagana de cigarro que se dilacerava em brasa sobre o aparador, arrumou o chumaço de cabelos presos ao atílio, juntando mais uns fios e trovejou pela sala, como se disputasse uma vaga num auditório polêmico:

— Você não me respeitou aquele dia. Sei muito bem o que pensa essa gente da elite, acham que somos gente de segunda. Pensou que eu era uma faxineira, me julgou pelas roupas, pelo meu jeito humilde de me vestir.

Clara tentou contradizê-la, mas ela não deixou ser interrompida e prosseguiu:

— Nunca ia admitir que eu tava morando aqui, no mesmo prédio que você, respirando o mesmo ar. Mas as coisas não são assim, minha filha, não são não. Olha aqui, a gente é tudo igual, tudo tem pele e osso. Não adianta ter dinheiro, posição na vida, morar num prédio chique. É tudo a mesma coisa. Claro, que uns que nem você, tem mais carne do que osso, mas as coisas tem que mudar.

Clara achou uma brecha para articular uma resposta, tentando parecer firme.

— Você está dizendo um monte de bobagens. Este discurso não tem sentido. Em primeiro lugar, eu não sou da elite, sou uma funcionária do Estado e trabalho para sobreviver. Para seu governo, me empenho estudando pra melhorar a minha vida, minha situação financeira. Além disso, este prédio não tem nada de chique. A única coisa que você tem razão, é que a chamei de faxineira com um certo preconceito, é verdade, porque queria insultá-la, pois me senti perseguida. Foi instintivo – fez uma pausa, já arrependida tanta explicação a quem tinha interesses escusos – nem sei porque estou lhe dizendo tudo isso. Você não quer entender o que eu penso. Nem lhe interessa.

Cida sentou-se na poltrona que havia espanado com as mãos e perguntou:

— Mas no fundo, o que você quer saber é sobre o estrangeiro, não é?

— Sim, quero saber o que tem contra ele.

Cida sorriu, satisfeita. Então ela confirmava que ele estava ali, no prédio, pois embora ela o tivesse visto, pela janela, não tinha certeza se era o mesmo homem.

— Não tenho nada contra ele, moça. Pelo contrário, ele é como eu. Uma mulher que não tem rumo, não tem onde morar, não tem pátria. A minha pátria é a rua. Ele também não tem, me parece. Veio escondido no navio, não é?

— Que lhe interessa isso?

— Já disse, interessa sim e muito. Ele é o nosso fiel da balança.

— Então me diga, como sabe sobre ele?

— Eu sou uma mulher de rua, como lhe falei. Naquela noite, eu pedi pro guarda muito meu amigo, para ficar por ali, pelo alpendre do porto. Eu faço pequenos favores para ele. A gente se conhece há muito tempo e você lembra, a chuva estava muito forte, um verdadeiro temporal! Além disso, eu não tinha conseguido a chave para voltar.

— Quem lhe deu a chave do prédio?

— Ah, isto é outra história.

— Mas então?

— Então que eu vi, quando você levou o cara para o seu carro. Me dei conta que lhe conhecia, aqui, do prédio. Fiquei muito curiosa. Perguntei pro meu amigo o que você fazia lá dentro. Aí, ele me explicou. Depois, fui até lá, e vi com meus próprios olhos. O homem tava mal. Tentei falar com ele, ele falou uma coisa estranha, numa língua enrolada. Mas acho que nem me enxergava, tava delirando.

— E você falou para o seu amigo sobre isso?

— Por enquanto, não.

— E nem vai falar nada.

— Depende de você. Do nosso trato.

— E quem é o seu amigo, como se chama?

— Aquele que levou um café pra você. Eu até pedi pra mim também, mas ele quase me chutou. Não sou bonita, que nem você.

Clara estava desolada. Sentia o cerco apertar a cada frase da mulher, deixando-a sem saída.

— E o que você quer que eu faça?

— Quero que me ajude a ficar aqui.

— Eu não posso fazer nada. Você está ilegal.

— Ele também está. E você sabe muito bem como me ajudar, se não sabe, descubra. Se vire! Você tem amigos, tem gente que pode me ajudar, conhece pessoas das leis. Mas por enquanto, quero apenas que enrole a síndica, que me esconda dos outros, que invente qualquer desculpa. Eu posso trabalhar pra você.

— Mas eu não preciso de ninguém, tenho já uma pessoa que me ajuda.

— Pois mande ela embora. Eu posso fazer a faxina na sua casa. Enquanto isso, vou ficando por aqui. Que tal?

— Não sei, vou pensar.

— Moça, eu não tenho muito tempo. Essa gente é cruel. Eu não quero voltar pra rua.

— Já lhe disse que vou pensar. Agora, por favor, abra a porta.

— Aqui não tem chave não, moça. Pode ir. A porta ta aberta, só destravar.

Clara se afasta. Passos incertos. Antes de sair, ainda ouve o comentário de Cida:

— Ah, hoje eu vi o estrangeiro, na janela. Até acenei pra ele, mas ele fugiu, acho que ficou com medo.

Ao abrir a porta, Clara retomava o ar, mas uma sombra a incomodava.

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