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A CASA OBLÍQUA - CAPÍTULO VI

Agora, porém Clara não poderia voltar atrás, nem abandonar o estrangeiro à própria sorte, além do que estava comprometida até a raiz dos cabelos.  No momento em que decidira ocultá-lo das autoridades, tornava-se cúmplice de qualquer ato ilícito que ele houvesse praticado, além de ferir a ética profissional. Ela arriscara o seu emprego que a habilitava a prosseguir os estudos e manter a situação financeira regular que possuía. 

Clara estava preocupada, quando o viu aparecer na porta do gabinete. Teve a estranha sensação de reconhecer nele uma pessoa conhecida, como se fosse um de seus pares, um colega da faculdade, um companheiro de infância. Mas havia algo singular : o sorriso franco, o olhar penetrante, o gesto afetuoso de quem pede ajuda e reconhece com gratidão. 
Via nele uma alma instigante, mais do que um homem que agora lhe parecia bonito, vestido naquelas roupas emprestadas, no blusão que comprara, inclusive os sapatos esportivos, que sem dúvida, ficaram enormes em seus pés.
Mas ele estava ali, a sua frente, um homem novo, que sorria e lhe dizia coisas que só compreendia pelos gestos ou mesmo na necessidade intrínseca da comunicação. 
  Sentiu-se uma tola por não tomar nenhuma atitude, por permanecer ali, parada, sem ter o que dizer. Não podia estar impressionada com alguém que conhecera de uma maneira tão singular, cercada de conflitos e decisões urgentes.
Ele deu alguns passos até ela, estendeu-lhe a mão, cumprindo o roteiro do agradecimento e parecia tão sincero, que a emocionou. 
 Clara então, disfarçou uma lágrima, empurrando os óculos embaçados. Sabia que fragmentos de sua vida estavam por aí, atirados, como retalhos esquecidos, como os que sua mãe deixava após uma noite de trabalho na costura. Retalhos que não se encontravam, que não combinavam os matizes, nem os tamanhos. 
Entretanto, alguma coisa nova os unia, uma tecnologia nova reestruturava todo o tecido, transformando o que era velho ou perdido.
Ficara assim, por um momento, feliz e nem sabia se era a presença dele ou a possibilidade de mudança em sua vida, um rumo diferente, mesmo que lhe trouxesse dificuldades, mas um atalho que lhe permitisse ousar. Não mais um fragmento. Não mais um retalho. Mas um tecido vibrante e vistoso. 

Então levou-o até a cozinha e antes de qualquer coisa, serviu um suco para os dois e alguns sanduíches naturais que trouxera. 
 Em seguida, preparou-se para uma aventura: vestiu um avental, cortou cebolas, tomates, fritou pedaços de frango e preparou uma sopa, uma tentativa jamais empreendida. 

Ele a observava atento, analisando-lhe os gestos, a maneira agitada de correr de um lado para o outro, procurando temperos entre latas de mantimentos e outros objetos. 
Enquanto se orientava na tarefa, Clara explicava que ele precisava se restabelecer e somente uma sopa nutritiva proporcionaria o vigor necessário, inclusive para ela, que passara o dia praticamente dormindo. 
Em pouco tempo, estavam comendo o que ela decidiu chamar de sopa, mas que para ele, se revelava um jantar saboroso.    
Os dois comiam em silêncio, o suficiente para que Clara observasse os gestos pausados, a maneira metódica de partir o pão, colocando-o ao lado do prato, a leveza com que segurava os talheres, como se comer despendesse uma energia exclusiva, adequada ao momento. 
Ele levantou os olhos por um momento e a encarou, curioso. Clara sorriu, complacente. Em seguida, perguntou qual era a sua profissão. 
Nael silenciou. Esforçava-se, procurando as palavras certas para responder à inquietação de Clara. Precisava ser objetivo, situar em que contexto se inseria a sua profissão, o argumento que certamente esclarecia a sua fuga para o Brasil. 
Ao recolher-se ao seu quarto, mais tarde, Clara inevitavelmente evocou a história de Dona Luisa. Havia semelhanças que a perturbavam, mas que produziam ao mesmo tempo, uma sensação de conforto. Lembrava do primeiro dia em que entrara no apartamento de Dona Luisa. 

O apartamento era claro, bem iluminado e, embora as paredes revelassem vestígios de pinturas anteriores, tudo era muito limpo e organizado. Não havia móveis ou ornamentos opulentos, ao contrário, a decoração manifestava um despojamento franciscano. Tudo parecia planejado para parecer simples e útil, mas  se respirava uma sobriedade que Clara não identificava a origem. Imaginava que fossem os quadros antigos nas paredes, as gravuras assinadas, uma ou outra fotografia sobre uma mesinha de canto na sala de estar. Lembrava das poltronas escuras, vestidas por panos coloridos, alguns bordados à mão. Poucos móveis a completavam, de forma eclética. Mais parecia uma sala de jantar, com móveis espalhados e conectados a sua serventia. Um espelho bisotê sobre um consolo antigo, a mesa de jacarandá ao canto cercada por cadeiras de exemplares distintos e uma estante com livros.  
Dona Luisa pediu que ela sentasse, acomodando-se também a sua frente. Trazia alguma coisa nas mãos, que se assemelhava a um caderno ou álbum. 
Clara percebia um leve estremecimento, vendo-a segurar o objeto como se fosse uma relíquia.                   
Clara não entendia o pedido  para que fosse até lá, mas costumava dispensar-lhe uma paciência que normalmente não possuía. Estava assim, entretida, que surpreendeu-se quando ela começou o assunto. 
Dona Luisa olhava-a fixamente, os olhos castanhos e a boca levemente apertada, com as bochechas flácidas, revelando uma pele fina, quase transparente.
Clara percebia que os cabelos estavam meio embaraçados, pintados de forma irregular, intercalando fios brancos e castanhos. Imaginou que deveria ter sido uma mulher bonita, pois quando sorriu e isto ela viu pela primeira vez, seus dentes eram perfeitos, bem cuidados e por um momento, iluminaram-lhe a fisionomia apática. 
        — Não quero que estranhe, tê-la chamado aqui. Não sou de incomodar ninguém. 

  — Não estranhei, não – mentiu Clara. 
   — É que você é minha vizinha de porta. E como não tenho ninguém, precisava pedir-lhe um favor. 
       — Não se preocupe. Se puder ajudá-la. 
           — Está vendo este caderno aqui – estendeu-lhe com a mão trêmula, mas não o entregou, deixando-o na poltrona ao lado  – parece  um álbum, mas é um caderno velho, de capa dura. Eu o recebi há alguns dias, pelo correio. No envelope não constava nenhum remetente, apenas o país de origem, a República Tcheca, mais precisamente de Praga. 

           Clara ficou entre pensativa e curiosa. Luisa a fitava apreensiva. 
      — São cartas antigas, do tempo da guerra, cartas que enviei e outras também endereçadas a mim. Além disso, há uma série de textos que contam uma passagem de minha vida. Mas não se preocupe, nada comprometedor. E depois, minha filha, isso aconteceu há tanto tempo. Na época da Segunda Guerra, em que a Tchecoslováquia era um aglomerado de países. 
           
— Desculpe, dona Luisa, mas não ficou claro o que a senhora quer de mim. 

      — Quero que você o guarde, quando eu morrer. 

            — Não diga isso. A senhora é forte. Vai ficar muito tempo com a gente. 

        — Eu sei que ainda tenho um tempo. Se você quiser, em troca deste favor, eu lhe conto tudo que se relaciona com estas cartas. 

    — Terei prazer em ouvi-la. E se quiser que eu guarde, não se preocupe, que o farei. 

— Que bom, me sinto aliviada. Espere, vou lhe mostrar outra coisa. 

   Levantou-se e dirigiu-se ao quarto. Ao voltar, trouxe um pequeno baú envernizado, fechado à chave.
          — Este também será seu. Um dia, lhe confiarei a chave. Não é nenhum tesouro, apenas rolos de filmes com fotografias que nunca foram reveladas. Também algumas joias sem muito valor, pequenas recordações.
Clara percebeu que a voz antes forte, falhava toldada de uma emoção antiga, mas que se avivava por algum motivo neste momento. Clara que anteriormente preconizava uma empatia com Luisa, agora tinha motivos maiores para justificar esta aproximação. Logo ela, que não se envolvia muito com o pessoal do prédio, inclusive porque andava sempre às voltas com seu trabalho, horários diversos, além das aulas da Universidade. 

Agora sentia-se responsável. Não sabia que histórias ela tinha para contar, nem mesmo que tipo de objetos havia naquele baú  ou que terríveis lembranças poderiam vir à tona naquele caderno antigo. Mas ela fora a escolhida e por que não seus parentes. Embora tenha dito que era uma mulher sozinha, deveria existir algum parente distante, um sobrinho, um irmão. Decidiu inteirar-se mais sobre sua vida. 

 ---A senhora não tem parentes, disse que é uma mulher sozinha. Mas nenhum primo distante? Ou sobrinho?
            <p>— Sim, distantes, muito distantes, tanto física quanto espiritualmente. Tenho alguns sobrinhos que moram no interior do Espírito Santo. Mas não os conheço. <br />
            <p>Clara suspirou, sem saber muito bem como concluir a conversa. <br />
            <p>— Então está bem. Quando quiser, ficarei com o caderno. <br />
            <p>— Quando Deus quiser. <br />
            <p>— Para falar a verdade, a segunda parte do trato é que me interessa. Quero que me conte toda a sua história. <br />
            <p>Ela sorriu e convidou-a para um café. <br />


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