Pular para o conteúdo principal

A percepção da subjetividade na filosofia e na literatura

Com a Modernidade, houve gradativamente uma mudança de paradigma na literatura filosófica e em muitos aspectos da história da humanidade. Por exemplo, havia a crença de que o sentido das coisas decorria da essência do objeto. A partir de René Descartes, que contribuiu grandemente para a história das ideias, ocorre a relevância do sujeito, ou seja, o sentido passa a estar na consciência do sujeito. Essa nova maneira de pensar, este novo olhar filosófico implica em grandes transformações nas artes, nas ciências, na cultura, enfim, no novo mundo que se insurgia.
 

Na literatura abrangente da filosofia, pode-se dizer que num primeiro momento, no que concerne à época antiga e medieval, que todo o pensamento estava centrado no objeto.

Na modernidade, há a inserção do sujeito, mais do que isso, a ascensão do sujeito dando sentido à consciência, contrariando à supremacia da essência do objeto.

Finalmente, na filosofia contemporânea, afirma-se uma intersubjetividade, ou seja, a relação entre sujeito e / ou objeto. Neste caso, o relacionamento entre indivíduos ocorre no campo da liberdade de ação, o que implica a negociação com o outro. 

Mas voltando ao início, houve nos primeiros momentos da filosofia, uma passagem do paradigma do objeto para o do sujeito. Com a ênfase na subjetividade, descobriu-se que tudo que nos cerca existe além da percepção do objeto, porque na verdade, o objeto não existe apenas em sua essência, sem que haja uma ligação permanente, ou seja, uma relação com o sujeito. O sujeito é que tem a faculdade de transmitir o conhecimento de alguma coisa (objeto), através de sua percepção. O filósofo passa a olhar para a sua própria consciência e a supremacia passa a ser do sujeito.

Neste casos, ocorre uma transição da objetividade para a subjetividade.

Na Antiguidade, o homem contemplava a natureza e na Modernidade, o homem quer controlar a natureza através da ciência, pois considera ter autonomia no processo de construção do seu conhecimento. Acredita-se que o mundo não é algo dado, passivo, mas sim algo construído.
 

No literatura como arte, houve a ascensão do realismo e do naturalismo. Aqui a  questão da racionalidade ocorre ao lado do sujeito extremamente racional, através de um indivíduo que se impõe sobretudo como um sujeito racional seguindo a teoria positivista. Deste modo, ocorre uma ênfase extrema no sujeito, como se este surgisse por acaso, onipotente, com um olhar absoluto para a história.

Na verdade, o sujeito não surge, ele é construido através de sua formação, com a tradição, o relacionamento com outros indivíduos, expressando a sua realidade através de sua origem local, espacial e participando da história.

O homem tem uma história que o precede com uma cultura, uma linguagem e os sentidos da existência.

A literatura expressa a compreensão do mundo através dos sentidos, do subjetivismo e embora no realismo, que propõe uma leitura positivista, percebe-se que o objetivismo não tem primazia sobre o subjetivismo, nem o inverso (muito menos neste caso), porque o sujeito se funde na linguagem. A objetividade não subverte o sujeito. Na verdade, os dois coexistem perfeitamente. Verifica-se esta dualidade em Machado de Assis, Gustave Flaubert, Tolstói, Eça de Queiroz, para citar alguns. 

Conclui-se, deste modo, que embora o realismo aborde temas com um tratamento objetivo da realidade, há na literatura essa integração onde o sujeito é destacado pelo seu estar no mundo, como ser participante da história.
 

Postar um comentário

PULICAÇÕES MAIS VISITADAS

TRABALHO VOLUNTÁRIO NO HOSPITAL PSIQUIÁTRICO : UMA PROVOCAÇÃO PARA A VIDA

 TRABALHO VOLUNTÁRIO NO HOSPITAL PSIQUIÁTRICO : UMA PROVOCAÇÃO PARA A VIDA
Participávamos de um grupo de jovens religiosos, no final da década de 70. Era um grupo incomum, porque embora ligado à igreja católica, recebia participantes que não possuíam religião definida, sendo um deles, inclusive espírita.  Formava um caldo interessante, porque as discussões, ainda que às vezes, estéreis, produzia muitos encaminhamentos para discussão. Era  realmente um agrupo eclético, e por assim dizer, quase ecumênico. A linha que nos norteava era a solidariedade com o próximo. Queríamos inconscientemente modificar o mundo, pelo menos minorar o sofrimento dos que estavam a nossa volta. Diversos temas vinham à pauta, tais como moradores de vilas paupérrimas, desempregados, idosos do asilo, crianças sem acesso a brinquedos ou lazer. Era uma pauta bem extensa, mas houve um tema que foi sugerido por mim. Tratava-se de se fazer algum tipo de trabalho com os pacientes do hospital psiquiátrico. Houve de imed…

METÁFORAS CRUÉIS : desqualificação das mulheres e negros

Certa vez, em uma disciplina de um curso de pós-graduação em linguística, avaliamos uma série de adjetivos ou substantivos adjetivados que soam lisonjeiros para os homens e ao contrário, para as mulheres produziam conotação pejorativa, pois a própria palavra utilizada possui juízo de valor, tanto para um lado quanto para o outro. Estas distorções linguísticas são foco de vários estudos de cursos de pós-graduação e muito bem explanadas em vários artigos. Sabe-se entretanto, que a língua é apenas um instrumento que é fruto da cultura dos cidadãos de um país.
Estes adjetivos constituem metáforas que desquafilicam o sujeito feminino e qualificam o masculino. Se não, vejamos alguns exemplos, que foram exaustivamente avaliados em vários trabalhos, mas que cabe aqui, identificá-lo en passant. O adjetivo vadia, para a mulher tem a ver com promiscuidade, assim como vagabunda. No caso do homem, o termo vagabundo ou vadio, tem a abordagem do trabalho, mas pode incluir também um significado pos…

PIOLHOS DE RICO

Há quem adore rico. Certamente não àquele rico de fachada, que aparece toda semana nas páginas de socialite dos jornais ou fazendo campanhas de benemerência, sob alcunhas de bons moços e gente de bem. Gente chic que veste nos grandes magazines (sic) e se atualiza em grifes de marketing.
Há os que adoram gente rica, e não são pessoas ruins ou cidadãos menores. São apenas simplórios.
E também não há nada contra os verdadeiramente abonados, que construiram suas fortunas e obtiveram seus bens com seu trabalho, aumentaram seu patrimônio ou investiram nos que lhes foi legado de direito.
Mas há os que grudam nos ricos, diria que são verdeiros piolhos de rico, cono costumava dizer um colega de trabalho, talvez um pouco incomodado pela sabujice de um ou outro companheiro.
Mas analisando a situação, percebi que piolho de rico é aquele que está sempre grudado numa pessoa abonada, em qualquer esquina que vá, em qualquer cruzeiro pra lhe dar as boas idas (e vindas), em qualquer festa de bodas em …