A fotografia da vida de Santa - CAP. 9

No capítulo anterior, quando Linda começou a revelar o que motivara Santa a fazê-la permanecer na reunião, Sandoval teve um mal súbito interrompendo-a. Após a intervenção médica e constando-se que ele não tinha um problema grave, Santa ameaçou-o que se ele não contasse aos filhos sobre o fato que o relacionava à revelação de Linda, ela cumpriria a missão que se propusera. A seguir o nono capítulo de nosso folhetim dramático.

Capítulo 9


Fonte da ilustração: https://pixabay.com/pt/m%C3%ADstico-árvores-nevoeiro-misty-918502/Unsplash

Sandoval levanta-se da cama e caminha pelo quarto em extrema ansiedade. De repente, a estabilidade de sua família está a perigo. Santa intervém na vida de todos com uma finalidade que não lhe parece nada espiritual, ao contrário, é cheia de vingança e desejos moralistas.

Mas o que fazer para impedir que leve adiante esse delírio?

As últimas palavras da mulher ecoam em sua cabeça, colocando em suas mãos a decisão de propor uma nova reunião.

De repente, uma ideia luminosa, que em sua essência contraditória, o deixa febril e feliz ao mesmo tempo. Olha para os lados, como se temesse ter seus pensamentos descobertos.

Decide então procurar a mulher, para anunciar a sua proposta.

Quando Santa o vê aproximar-se, sorri, satisfeita, pois acha que Sandoval voltou atrás e fará o que pediu. Tem certeza absoluta de que a Virgem iluminou seus pensamentos.

— Eu sabia, Sandoval, que você pensaria com carinho no que conversamos.

— Sim, Santa, acho que você tem razão em tudo o que disse. Você é uma mulher forte, corajosa e sei que está fazendo tudo pelo bem da família.

— Não pense meu querido, que não estou sofrendo também. Infelizmente, é uma provação que devo experimentar, talvez para expiar os meu pecados.

— Você é uma mulher sem pecados. Faz tudo pensando no bem de todos.

— Não diga isso, não sou nenhuma santa, a não ser no nome. Também tenho meus erros e quando tudo estiver decidido, quando todos voltarem para a vida cristã e fizerem o que a Virgem pediu – enxuga uma lágrima, emocionada – eu também me confessarei a todos.

— Você? Não seja irônica, Santa! – arremata, sorrindo. Ela porém, prossegue no mesmo tom grave:

— Não estou sendo irônica, Sandoval, de modo algum. Mas isso será mais tarde, no fim da jornada. Agora, estamos no início do caminho e eu só quero que os meus filhos entendam a minha situação, que você também entenda que não me resta outro caminho. Faria tudo para que não sofressem, que não passassem por humilhações desnecessárias. Deus sabe o quanto sofro com isso, mas não posso voltar atrás.

— Santa, no fundo, eu a admiro por esta bravura, este sentimento forte, você é uma verdadeira fortaleza em relação à família. Talvez você tenha razão, eu não tenha sido um bom marido, tenho levado uma vida desregrada, não tenho me dedicado como deveria a você, tenho também os meus segredos, mas agora, tudo isso não vai significar mais nada. No momento eu que eu me abrir para a família, eles compreenderão que sou um ser humano, falível e que posso me regenerar.

— Sandoval, então quer dizer que pretende marcar mesmo uma nova reunião com todos?

— Ele se aproxima e acaricia o seu ombro. Solta a mão devagar, levando-a até a mão de Santa e a segura com força. Santa o encara, emocionada.

— Eu vou marcar uma reunião com todos, vou fazer exatamente o que você quer.

— Na verdade, o que a Virgem quer.

— Então, está bem, que seja, o que a Virgem quer. Mas, só coloco uma objeção, ou melhor, uma condição para que este encontro familiar aconteça.

— Uma condição? – Santa pergunta, intrigada, recuando um pouco, afastando a mão da do marido. Ele insiste na proposta:

— Sim, uma condição que não fará a menor diferença no conteúdo da informação, ou da revelação, que seja, do que tenho que falar.

— E que condição é esta?

— Não quero a sua presença na reunião.

— Por que? Você me assusta!

— Não há o que temer, apenas, você sabe, querida, o que tenho que revelar aos nossos filhos é um tanto constrangedor para mim. Não queria que você estivesse lá, ouvindo tudo e sentido-se, certamente, pouco à vontade. Desejo que neste momento, você esteja no oratório, pedindo a proteção da Virgem para a nossa reunião. Você acha que é pedir demais? Apenas isso, um momento que não deve ser compartilhado com você, uma humilhação que basta ser somente minha.

Santa fica em silêncio, um pouco desconfiada, mas em seguida reflete na proposta do marido e percebe que ele tem certa razão. Afinal, seria muito penoso para ela aquela demonstração pública de uma mulher sofredora. Não, melhor não participar da reunião, ele estava correto.

Então, aproximou-se e o abraçou.

Sandoval ficou meio sem graça, meio perdido naquela demonstração de carinho. Resumiu rapidamente o enlevo, anunciado que havia uma outra condição.

— O que você quer dizer?

— Desejo que somente a família esteja presente, somente nossos filhos e nosso genro, mais ninguém.

— Você não quer a presença do Bispo Martin e de Linda?

— Muito menos desta mulher. Por favor, Santa, é um pedido que lhe faço. O último, eu juro. A partir desta reunião, farei tudo o que você quiser, mas não me faça sofrer uma humilhação na frente do bispo e daquela zinha!

— Mas ela é a maior interessada...

— Eu sei, eu sei. Depois você repassa a ela, diz que ela pode cumprir a sua missão, que tudo já foi esclarecido a todos. Eu lhe peço, Santa, será muito penoso pra mim, nas atuais circunstâncias, ter que me defrontar com aquela mulher.

Santa mais uma vez se aquieta. Afasta-se do marido e senta-se em uma das poltronas da sala. Abre com cuidado uma revista, como se avaliasse cada página, observando o material, o tipo de papel e o próprio conteúdo. Em seguida, deixa-a de lado e dá o veredicto:

— Está bem, Sandoval, eu aceito. Faça a sua reunião com a família. O que vale, afinal de contas, é o resultado. Este, tenho certeza de que será coerente com o seu caráter – E levantando-se, vai ao seu encontro – você é um homem bom, meu marido, eu confio em você.

Naquela noite, quando acordou, Santa teve a impressão de que o mundo vinha abaixo. Coração na garganta, um suor que empapava o pescoço.

Custou-lhe acreditar que havia acordado de um pesadelo.

A realidade era menos precisa do que o sonho. Olhou para o lado e a figura esparramada na cama identificava claramente de que não estava dormindo.

Sandoval de vez em quando estremecia num ronco surdo, danoso, que parecia sufocá-lo a cada movimento.

Santa tentou levantar-se da cama, as costas doíam, os pés estremecidos não obedeciam seu impulso. Passou a mão pelos cabelos, pelo pescoço, tentando amainar a sensação desagradável. Esforçou-se para ficar ali, encostada na cabeceira da cama, ouvindo um leve zunido, que se assenhorava de sua mente, facultando a impossibilidade de ouvir além. Respirou fundo.

De fato, apesar do pesadelo, sua vida estava passando por uma transformação drástica. Por mais que se esforçasse em parecer tranquila, por mais que quisesse manter à promessa à Virgem, havia no seio da sua família um movimento que transformava as águas plácidas em um maremoto.

E tudo de repente, desandava, se distanciava do verdadeiro objetivo que era o de unir a família.

Ao contrário, tanto seus filhos, quanto o marido e o bispo mostravam-se assustados, indignados com a sua virada de mesa. Sabia que o remédio era amargo, mas precisava prová-lo para produzir o resultado final.

Agora, porém, não tinha tanta certeza de que estava certa em pôr na berlinda a vida de todos, como se tivesse a faculdade de mexer com os cordões e dirigir suas vidas.

Além disso, esse sonho terrível, em que as pessoas se associavam como em bando, para liquidar a sua vida. Seria um prenúncio de que estavam tramando às suas costas?

Não, isso é um absurdo, como pode pensar que sua família estaria traçando planos para traí-la. Era um pesadelo, apenas um pesadelo, do qual queria esquecer.

Sandoval fez um resmungo e virou-se de bruços. Santa suspirou, aliviada. Afinal, assim certamente cessaria o ronco.

Mas aquele movimento, a fez pensar mais adiante, o que a deixava mais angustiada. O que acontecera com a sua família? O que acontecera com o seu casamento?

Ali estava um homem quase estranho, que apenas dormia ao seu lado.

Tinha a sua vida privada, envolto em suas noites de jogatinas e amores fortuitos. Um homem que fingira conhecer e que imaginava estar sempre ao seu lado.

E os filhos, a quantas andam?

Letícia, que lhe parecera tão equilibrada, com uma profissão estável, um marido que a amava e a respeitava. Agora, lhe parecia uma mulher despeitada, irritada com qualquer situação que a desagradasse, sem a menor tolerância. Uma mulher imatura, a ponto de não querer ter filhos.

E o marido, Ricardo, que não passava de um mulherengo incorrigível?

Também seu filho mais moço a decepcionara, fazendo de sua vida um verdadeiro circo, sem a capacidade de crescer, de amadurecer, de se tornar um cidadão. Um homem que faz um curso de segunda categoria, que não se esforça em ter um emprego estável, que poderia substituir o próprio pai, na fábrica, futuramente. Não, Tavinho a decepcionou muito.

Ainda havia Alfredo, que sempre fora o ensimesmado da família, que vivia metido em si mesmo, em seus sonhos, em seus ideais, dos quais raramente falava, mas no que depositava tanta esperança que se transformasse num verdadeiro homem, casado, pai de família, que lhe desse netos. Ao contrário, se revelava um homem fraco, que se dizia homossexual. Isso não é verdade. Alfredo é um menino bom, está apenas confuso. Conhecendo-o como o conhece, ela sabe que ele ainda será o filho que lhe causará as maiores alegrias.

Junto a estas revelações insuportáveis, para completar, ainda havia a declaração de bispo Martin, a história da bússola da mãe de Sandoval e o relacionamento obtuso que tivera. Por mais que ela soubesse dessa história, seria preciso muitos anos para que a poeira sentasse e todos recomeçassem as suas vidas em paz.

Agora temia que já não fosse possível o que a Virgem lhe solicitou.

Santa teve a respiração cortada, mas agora após tantas reflexões, sentia-se mais forte para levantar-se da cama e se afastar do quarto. Vestiu um robe e dirigu-se até a cozinha.

A casa estava em silêncio absoluto. Quando serviu-se de água, assustou-se com a presença silenciosa de Linda.

— Desculpe se a assustei dona Santa. É que estava sem sono e...bem, vim pegar um copo d'água.

Santa não responde, apenas a encara com surpresa, como se não a reconhecesse.

Linda se afasta um pouco, com o copo na mão e pergunta, sem graça:

— Que aconteceu? A senhora tá pálida e tá me olhando de um jeito...

— Há quanto tempo você está aqui, Linda?

— Há uns quinze minutos...

— Não me refiro a agora, há quanto tempo você está em nossa casa?

— Bem, há mais de 30 anos – responde, aliviada.

Santa prossegue, incisiva:

— Engraçado, eu nem lembrei de você ainda há pouco. E você está intimamente ligada ao meu passado, ao de Sandoval.

— Por favor, dona Santa, não me lembre disso.

— Não, Linda – Santa exclama, em tom mais alto e decisiva – Eu não vou lembrar de nada. Vou deixar as coisas acontecerem. Um dia todos saberão, porque você também precisa se revelar a toda a família. Você e ele devem se redimir.

— A senhora sabe que eu estava preparada para a reunião e por mim, diria toda a verdade.

— Haverá um outra oportunidade, Linda. Não se preocupe.

— Falando assim, a senhora me assusta.

— Não tem por que ficar apreensiva. Nós todos estamos no mesmo caminho, na mesma trajetória de mudanças, portanto...

— Às vezes, a senhora fala coisas que eu não entendo.

— Sabe, Linda, eu também não entendo muita coisa. Não entendo porque meu marido fará uma reunião sem a minha presença.

— Uma reunião como aquela?

— Sim, mas apenas com os filhos e o genro. – E em seguida, mais afoita – Eu quero que você descubra para mim, tudo que está acontecendo.

— Mas dona Santa, será impossível eu estar lá, como vou participar de uma coisa que nem fui convidada?

— Aí é que você usará o seu ardil. Você é uma mulher esperta, Linda. Pense numa maneira de ficar no escritório, sei lá, escondida, atrás das cortinas, mas dê um jeito.

Linda em seguida sentou-se numa das cadeiras que davam para o pátio, que se observava através de uma imensa janela envidraçada. Alguma luzes tênues no jardim, o orvalho que enfeitava de gotículas as folhas da samambaia, o verde remanescente do avarandado, o único que ela dali conseguia identificar.

Santa sentou-se a sua frente. Neste momento, parecia absorvida em estranha energia. Olhou com cuidado para a mulher, como se quisesse incutir nela o plano que ora envolvia sua mente conturbada. Largou o copo sobre a mesa próxima e acrescentou:

— Linda você precisa me ajudar, você me deve essa!

Linda porém, não a ouve, dá um grito aterrorizado, que a deixa paralisada, sem tomar qualquer atitude.

Santa levanta-se rapidamente e intervém, perguntado o que houve.

Linda repete trêmula:

— Um homem, dona Santa, um homem atravessou o jardim. Ele saiu da casa correndo.

Mas como? Precisamos chamar os criados, chamar a polícia. Para onde foi?

Ele fugiu dona Santa, tenho certeza que pulou o muro, porque desapareceu por meio das árvores... ao menos que esteja escondido.

— Então fique quieta, venha comigo, vamos tentar chamar alguém.

Linda segue a patroa que arrasta os passos pesados, tentando afastar-se da cozinha, seguindo pelo amplo corredor até a copa. Precisam ir ao quarto dos criados, da copeira, do mordomo ou voltar para o seu quarto e acordar o marido.

Santa estava cada vez mais tensa. As pernas quase não a obedeciam.

Linda aproxima-se da janela e percebe um pequeno papel no chão. Abaixa-se com dificuldade, devido ao nervosismo e entrega-o para Santa.

— Olhe, dona Santa.

— Que me interessa isso, agora, Linda. Temos que chamar alguém.

— Mas este papel foi jogado pela janela, olhe como está aberta.

— Meu Deus, é verdade. Deixe-me ver – Santa examina um pequeno cartão e estremece – É uma das mensagens que deixei para vocês naquele dia. E esta é do bispo Martin! O que está acontecendo nesta casa, meu Deus?

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