A fotografia da vida de Santa - CAP. 13

No capítulo décimo segundo, a família acabou concordando com a proposta de Sandoval de considerar Santa como incapaz, para que ela não conseguisse mexer no patrimônio. No entanto, Sandoval jamais poderia imaginar que Linda gravara toda a conversa e que faria chantagem, a ponto de também impor as suas condições. É o que veremos no capítulo a seguir de nosso folhetim dramático. Boa leitura!

Capítulo 13

Linda olha em torno, como se aqueles móveis que há tanto tempo convivera, também fossem seus, de direito. Por fim, responde a pergunta de Sandoval com muita segurança.

— Quero que me considere da família, afinal temos um filho juntos. Faço questão que o assuma e repasse a parte da fortuna que lhe cabe de direito. E depois que dona Santa estiver fora do páreo, eu pretendo tomar conta da casa. Nada mais junsto, não acha? E depois, quem sabe um dia não casamos oficialmente?

— Você é mesmo uma desvairada! Eu jamais cometeria uma sandice destas! Fique sabendo de uma coisa, Linda eu posso chamar qualquer empregado e ele arranca este celular

de suas mãos e a mando embora desta casa para sempre.

— Se eu fosse o senhor, não faria isso. Em primeiro lugar, porque já enviei a mensagem gravada para outro celular e em segundo, se o senhor olhar pela janela, vai ver um belo rapaz caminhando pelo jardim. É meu filho, ou melhor, o nosso filho e ele sabe de tudo que está acontecendo aqui.

— Sua desgraçada, você quer acabar comigo. Quer destruir a nossa família. Mas fique sabendo que não conseguirá levar este plano maluco adiante, não pense que uma simples ameaça destas vai me convencer!

Linda fica calada. Dá alguns passos até a janela e olha por um instante para fora. Em seguida, volta-se para ele e pergunta em tom de ameaça:

— Então o que o senhor pretende fazer? Quer que eu conte à Dona Santa tudo o que está acontecendo? Quer que eu lhe diga o que a família está planejando contra ela?

— E como você foi parar aí, sua infeliz, eu não acredito que esta ideia tenha sido sua!

Linda ri, irônica.

— Para o senhor ver o grau de confiança que dona Santa tem no senhor, foi ela quem pediu para que eu me escondesse e lhe contasse tudo o que estava sendo decidido na reunião. Acho que ela foi mais esperta que o senhor.

— Eu não preciso das suas opiniões. O que aquela idiota estaria planejando? Só podia juntar-se com uma gente como você! E está traindo-a, veja, que bela amiga ela arranjou!

— Ela também arranjou um marido que a traiu e pior do que isso, está traindo-a pelas costas convencendo a família de que é uma louca. Nós somos iguais, Sandoval, nós lutamos pelas mesmas coisas, com as mesmas armas!

Sandoval, de repente, tem um acesso de tosse, que o deixa quase engasgado. Os olhos enchem-se de lágrimas e ele vai até a janela. Lá avista o rapaz que senta-se num dos bancos. Volta-se, muito vermelho. O coração aos pulos. Um ódio que o assola, mas que precisa controlar, para contornar o problema. Acha que deve fazer uma trégua, quem sabe, um pacto.

— Pois muito bem, digamos que eu aceite as condições insanas que você está me propondo, você acha que a minha família acreditaria que eu chegaria ao ponto de me sujeitar à chantagem de uma simples empregada?

— O senhor foi bem convincente com eles. Então use o seu grau de convencimento para que entendam que eu não estou brincanco. Agora, depende do senhor, não de mim. Eu proponho que dona Santa vá parar no hospital psiquiátrico. É a única maneira de resolvermos esta situação. O resto se acomoda, com o passar do tempo!

— Você hem, tao prestativa, tao religiosa, acompanhando a minha mulher na igreja, ajudando-a, você a odeia, isso sim! Você quer acabar com a vida dela, quer destruí-la!

— Sim, eu a odeio com todas as forças do meu coração. Ela me humilhou durante todos estes anos! Ela me transformou numa figura apagada, alienada da vida, somente esperando o momento certo da minha vingança! O senhor não sabe quanto eu esperei por esta oportunidade, por este momento!

— Ela era boa pra você, sua ingrata!

— Era conveniente apenas. Eu era a sombra que a acompanhava, eu era sempre a pessoa que estava ao seu lado, em todos os momentos, bastava um chamado para que eu corresse para o seu lado. Era a empregada disponível, 24 horas por dias, quase uma escrava. Na verdade, dona Santa nunca foi minha amiga, ela não suportava a ideia de eu ter um filho com o marido dela. E o que ela fez? Lidou com a situação com dignidade? Me correu de casa? Não, ela abafou a história, para manter as aparência da família aristocrática e extremamente religiosa. Ela me transformou na criada intima, para que o segredo ficasse só entre nós. Ela nunca pensou na vida que o meu filho levava longe de mim, nunca teve piedade pelas minhas noites de desespero quando ele estava doente e eu não podia encontrá-lo, enquanto os filhos dela estavan fortes e sadios ao seu lado! Eu odiava dona Santa, ah como a odeio! Ela me roubou o melhor de minha vida, a convivência com o meu filho.

— Você só quer vingança.

— Não, quero muito mais, quero a minha vida de volta, e somente o senhor pode conseguir isso.

— Mas você não acha que é um objetivo inglório? Acha que é possível enlouquecer uma pessoa? E depois, não acha desumano demais, Linda? Eu não acredito que vivendo tanto tempo ao lado de Santa, você tenha esta coragem! É muito cruel!

— Mas não é o que a família decidiu?

— Não, não é verdade. Nós apenas queremos que ela seja considerada incapaz para tomar decisões quanto ao patrimônio, decisões financeiras. Você quer enlouquecê-la realmente. Você quer inclusive que ela seja hospitalizada numa clínica.

— Mas não é o mais correto? Por que perder tempo, se a coisa pode andar mais depressa? Eu sou considerada sua amiga, ela jamais vai perceber, se eu ministrar medicamentos e o senhor sabe muito bem como consegui-los, além disso, podemos fazer com sofra ameaças, a ponto de não suportar mais!

— Você pensou em tudo, Linda. Você é muito cruel.

— Será melhor para todos. Pense bem – neste momento, Linda passeia pela biblioteca muito segura, como se tivesse as cordinhas nas mãos, para manipulá-lo – a sua filha esquecerá para sempre as sacanagens do marido, afinal, a situação da mãe é mais importante. Porá uma pedra no passado. O Tavinho vai continuar na dele, malandrão, como de hábito. O Alfredo vai viver a vida que sempre quis, já que contou que é viado, com certeza agora vai sair do armário de uma vez!

— Cale a boca, sua vagabunda!

— É melhor se acalmar, Sandoval, não vou mais chamá-lo de senhor, a partir de agora, só na frente da família. É melhor se acalmar, porque está nas minhas mãos.

Sandoval vai até a prateleira, arrasta um livro e retira uma garrafa de bebida. Serve-se no copo que está sobre a mesa e senta-se, desolado. Tenta acalmar-se.

— Meus filhos nunca admitirão essa situação, você sabe, Letícia é uma promotora, uma mulher das leis, inteligente, esperta, não engolirá essa loucura! Sem dúvida, eles entrarão na justiça contra você.

— Se o senhor oficializar a paternidade de meu filho, nada poderão fazer.

Sandoval cala-se aterrado. Nunca imaginara que pudesse ouvir tantas elucubrações de uma mente tão deturpada como a de Linda. Ela só pode ter enlouquecido, pensa.

Afinal, depois de tanto tempo, trazer essa história à baila, fazer chantagem e imaginar este plano mirabolante para livrar-se de Santa, chegava a ser imoral.

Alguém estaria por detrás de tudo isso, certamente Linda não planejara tudo sozinha. Ele precisava descobrir.

Tenta pensar numa saída, mas não vê nada ao seu alcance. Por fim, um pensamento lhe vem à mente, uma ideia que pode ser a sua salvação, a salvação da família.

Aproxima-se da janela e espia ao longe. O rapaz, agora, caminha pelo jardim, de braços cruzados.

Sandoval fecha lentamente a persiana e vai para atrás da escrivaninha, pensativo. Santa o observa intrigada.

Ele senta-se, abre a gaveta da escrivaninha e retira um talão de cheques.

— Linda, eu sei que você deseja muito mais do que isso, mas eu posso lhe adiantar alguma coisa para você me dar um tempo. Você sabe, eu não posso convencer a família de uma hora para outra, eu não posso fazer o que você me pede em relação a este rapaz. Pelo menos, por enquanto. – mostra-se que está convencido e que fará o que ela deseja – até mesmo essa possibilidade de enlouquecer Santa, não é de uma hora para outra, você sabe disso.

— E o que você propõe?

— Um tempo, seis meses por exemplo, para eu poder colocar tudo em dia. Precisarei esquecer a história da incapacidade dela por um tempo, também, terei que me conformar… bem, você sabe, vou ter que agir de outro jeito.

— Seis meses é muita coisa. Três meses, eu lhe dou três meses.

— E você acha que vamos conseguir … sabe, deixar Santa doente, como você quer?

— Como nós queremos. Como a família quer, não se esqueça.

— Não é bem assim, é diferente, mas … que seja. Você acha que teremos tempo?

— Deixe comigo, eu sei o que faço. Mas antes de tudo, já que me ofereceu dinheiro, quero o suficiente para comprar uma casa para o meu filho.

— Está bem, é justo, é justo.

— Um milhão. É o mínimo para comprar uma casa modesta.

— Você está louca? Acha que vou dispor de uma quantia assim de uma hora para outra?

— Sandoval, vamos ser bem honestos. O nosso pacto começa agora. É pegar ou largar. Se pegar, siga as minhas regras. Só isso.

Sandoval abaixa a cabeça sobre a escrivaninha, num suspiro. Neste momento, alguém bate à porta.

Fonte da ilustração: https://pixabay.com/pt/smartphone-mão-telefone-mobile-1445490/acessado em 22/10/16.

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