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O que vem na lancha?

Rogério atravessou o paço municipal com efetiva energia. Estava satisfeito consigo. Daqui a pouco, aquela casa seria sua. O mundo lhe renderia homenagens, as pessoas em geral falariam nele, a maioria pelos seus benefícios que faria à cidade. Uns invejosos falariam mal, mas que falassem. Não lhe interessava. Importava agora o pleito que estava por vir e ele como candidato, certamente seria o vencedor. Ninguém o tirava do páreo, de jeito nenhum.

Em seguida, estava próximo ao cais e parou por um momento, observando a lagoa. Na verdade, a laguna, um homem com a autoridade que teria, devia usar o termo correto. A laguna o encantava, às vezes, principalmente nestes dias de pouco sol, com alguma neblina, mas com um calor envolvente, prenúncio de alguma chuva. Podiam pensar que era loucura este pensamento, mas este rebuliço da natureza o envolvia completamente. Era como nas urnas e os efeitos nem sempre passivos, às vezes desvastadores.

Uma lancha se aproximava e ele decidiu sentar num dos bancos na pequena pracinha próxima ao cais. Ficou observando-a, vendo os passageiros ansiosos em descerem, olhando para o nada, entretidos em suas vidas medíocres, habituados a repetir aquela mesma rotina enfadonha, enquanto ele ia ali para aliviar a alma. Ele podia fazer isso, diferente de todos os mortais.

Alguns pingos de chuva começaram a cair e já não era apenas a neblina, eram pingos que aumentavam em quantidade de gotas e até em velocidade. Uma chuva que não deixava respirar. Achou por bem afastar-se rapidamente do banco e adentrar no mercado.

Um pouco molhado, o paletó respingado e algumas gotas na camisa branca revelando os pelos do peito escondidos, sentiu-se um pouco como todos aqueles que faziam parte da comunidade do mercado público. Homens mal vestidos, cabelos desenvoltos, camisas regatas e moletons num dia de chuva e calor. Esqueceu-os, embora sempre aos sorrisos para um e para outro. Andou pelas bancas, observou as frutas, os queijos, os peixes, muitos peixes com centenas de aromas variados. Pensou em tomar um café. Aproximou-se de uma banca e como todos os que estavam por ali, pediu praticamente a mesma coisa: um café e um pastel bem refogado, com muita carne e queijo. Uma mulher gorda, de legging que revelava até as curvas da virilha se aproximou com o café e sorriu mostrando uma falha de dente inominável. Pediu açúcar. Adoçante era para os fracos. Mexeu com um colherinha de cabo torto e percebeu alguma coisa estranha no fundo da xícara. Uma mosca enorme jazia ali, morta, escrachada, esperando ser engolida. Por ele? Ele não era sapo pra comer mosca! Chamou a moça que coçou sem discrição a coxa, espichando um pouco a lycra da calça que devia incomodar. Não se preocupe, ela disse, eu trago outra pro senhor. Rogério já não queria outra. A visão da mosca gorda no fundo da xícara ainda lhe produzia uma náusea que não conseguia evitar. Pediu um refrigerante. Comeu o pastel. Deu mais uns sorrisos, levou uns tapinhas nas costas, deu outros e retirou-se do mercado.

Na rua, a chuva amainara e apenas uns pingos cá, outros lá anunciavam alguma água nas calçadas. Olhou para a laguna. Agora mais clara, sem neblina. Seguiu em frente, atravessou a hidroviária e passou para o outro lado da rua, pela Riachuelo. Caminhou agora sem muito entusiasmo, pelo menos, a euforia que possuia no início, quando atravessou o paço da prefeitura.

Sentiu-se um pouco cansado. Encostou-se na grade do porto e espiou para dentro, observando que alguns homens desenredavam uma enorme corda. Para que seria, pensou. Um pouco mais longe, vinha outra lancha. Ficou parado, observando-a e teve a impressão de que havia uma coisa estranha perto da popa. Não eram caixas de mantimentos, nem amontoados de mercadorias. Se tivesse um binóculo, saberia com certeza o que vinha naquela lancha. Um dos homens que mexiam com as cordas o encarou por um momento, talvez se perguntando o que ele fazia ali, parado.

Rogério decidiu voltar para a hidroviária. Tinha que saber o que traziam na lancha. Era uma caixa estranha, o que lhe produzia uma espécie de dor, uma nostalgia de alguma coisa inerte, que lhe incomodava, que lhe tirava o prazer de ser um candidato. Era como se lhe tirassem todo o poder e ele não pudesse mais ser o prefeito da cidade. Era como se o cassassem como vereador e lhe tirassem os direitos de elegibilidade. Como se houvesse morrido.

Deu alguns passos rápidos em direção ao cais onde a lancha pararia e ficou esperando, o coração soturno, agitado e impune.

As pessoas pareciam rezar ao redor da caixa, outras sorriam ou davam gargalhadas exageradas, gritando frases de efeito. A lancha dava umas guinadas como se escondesse o produto, vez que outra, parecendo voltar, como se retrocedesse e ele jamais pudesse adivinhar o que estava acontecendo. Sentiu um cheiro terrível de urina que vinha do banheiro da hidroviária. Parece que todos os odores ruins se revelavam cada vez mais fortes, instilando-se nos cantos, nas esquinas, nas águas que batiam nos degraus do cais.

Os meninos que estavam próximos se afastavam. As mulheres que passavam agora corriam e alguns policiais se apresentaram para mostrar a força da autoridade. Finalmente a lancha apareceu, porque aquela neblina que para Rogério parecia bonita, agora voltava escura, toldando todo o céu e escondendo a lancha, fazendo-a ligar os faróis. Mas ela surgia agora, de vez. Um pequeno povo que estava no mercado se apresentou e ficou observando a cena. Aquele mesmo que o abraçou, deu-lhe tapinhas nas costas e sorriu várias vezes. Até a mulher de legging se antecipou ao grupo e esperou ansiosa que a lancha chegasse. Duas que pareciam evangélicas, pelo penteado e a saia de jeans, com botinhas e meias, deram-se os braços e começaram a rir, satisfeitas.

A lancha largou as suas âncoras no cais. O povo se posicionou, quase em procissão, lá dentro, atrás do produto. Um padre se emocionou e abençou o povo que se aglomerava lá fora. Um deles, que parecia um juiz também mostrava-se sensibilizado, mas com uma certa alegria no olhar. Algumas senhoras rezavam agradecidas e vários homens tiravam o chapéu, o boné ou o que tinham na cabeça, se o tinham e faziam gestos de gratidão, alegria e ufanismo. Alguns até cantaram o hino nacional com muito patriotismo.

Rogério, candidato a prefeito da cidade, por fim compreendeu o que vinha na lancha e que chamava tanto a atenção. Era um caixão preto, com uma enorme coroa. Na frente, uma faixa com o nome democracia.

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