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UM CRIME NA CIDADE QUE SABIA DEMAIS - 8º CAPÍTULO

No capítulo anterior, tivemos contato com Seu Domingues, um idoso que ficava horas observando as pessoas na rua, sendo visitado por Marília, a moça da loja de conveniências, que lhe contara sobre a chega de um novo hóspede no hotel. Seu Domingues se irritara com o assunto, se perguntando, o que um detetive faria naquele fim de mundo. No capítulo a seguir, o 8º de nosso folhetim policial, o advogado e detetive Júlio Ramirez, encontra um amigo no bar, chamado Jairo. Como hoje é quinta-feira 23/06/16, publicamos o nosso folhetim "Um crime na cidade que sabia demais”.

CAPÍTULO 8


Júlio Ramirez era um detetive aposentado, como dissera à Rosa. Na verdade, nunca fora um profissional muito dedicado, muito menos com grandes vitórias no currículo, mas em alguns casos, fora especialmente primoroso. Às vezes, se dedicava até com paixão, mas precisava surgir uma fato muito envolvente para levá-lo a este estado de eficiência.

Naquela noite, estava conversando num boteco da cidade, com um velho amigo, quando surgiu o assunto do assassinato de uma moça da região.

Pensou, mais um crime, só que agora parece que estavam interessados em falar sobre o assunto.

Tratava-se da filha do farmacêutico Lucas, velho conhecido nas redondezas.

Júlio, na verdade, queria tomar a sua cachaça batizada e preocupar-se com outras coisas mais interessantes, principalmente agora que estava sozinho, já que a mulher o abandonara, há mais de um mês. Jairo, o amigo, no entanto, insistia no assunto mais falado na cidade.

– O Golias – assim chamavam o farmacêutico – está revoltado e não é pra menos. Veja você, numa cidadezinha dessas, no fim do mundo, quase uma vila, um cara aparece do nada e mata uma moça inocente!

— Jairo, cheguei hoje no hotel e não ouvi ninguém falar nada. Até mesmo a porteira, uma tal de Rosa, que fala pelos cotovelos, não comentou nada. Além disso, houve outros crimes nesta vila, como você diz…

— É verdade. Só que eram pessoas de fora. Dizem que eram turistas ou vieram aqui para algum trabalho. Mas não provaram nada. Mas esta moça era conhecida de todos, certamente a sua amiga ainda não soubera da história.

– Mas descobriram o assassino?

– Não, mas o povo daqui tá desconfiado. Dizem por aí que foi um médico que se estabeleceu por aqui, há mais ou menos um mês. Gente que não quer ficar aqui, que detesta a cidade. Mas o miserável seduziu a moça!

– Meu caro, nos dias de hoje não existe mais isso de sedução. No nosso tempo, podia acontecer. As mulheres não trabalhavam, viviam na casa dos pais, sem saber de nada, sem se instruir, claro que falo em vilarejos que nem esse.

– Mas uma moça fica iludida. Dizem que o homem prometeu casamento.

— Em tão curto tempo?

— Não sei, tudo é possível. Mas sabe-se lá, o povo fala demais, né?

— Como ela morreu?

— Abriram inquérito, porque oficialmente ela se suicidou. Desceu a ribanceira, caminhou pelas pedras e se atirou. Dizem que o corpo foi parar no outro distrito.

— Mas então?

— Ela foi assassinada, porque o perito que veio da capital encontrou arranhões produzidos em seus braços, antes de ser morta. Eram arranhões que se alastravam pelos braços e pelas costas, assim como no pescoço, como se houvesse lutado.

– Mas se ela escorregou nas pedras…

– Você vai contestar o perito?

– Não, de modo algum.

Nisso, o seu José, o botequeiro entrara no assunto. Parecia ter mais detalhes: – Mas o pai não pode fazer nada, não tem provas. Acusa o médico por causa do relacionamento dos dois.

Júlio indagou como teriam a certeza de que a moça morrera mesmo naquela região.

Jairo complementava: – Uma menina, que estava na região afirma que foi ali a tragédia.

– Uma menina?

– É o que dizem. Isto é, o que a polícia diz – acrescentou o dono do bar.

– E como esta menina soube do crime? O que ela viu? O que estava fazendo por aquelas bandas?

– Calma, Júlio, calma. Você parece que vai pegar o caso.

– Sou um detetive aposentado, você sabe. Tenho a minha profissão de advogado, na capital, que vou tocando devagarinho. Quero sombra e água fresca. E depois, vim aqui para falar com uma tal de Sara Soares. Você conhece?

— Acho que é a mulher que vive numa casa quase abandonada, no final da colina. Não é muito dada a se misturar com o povo.

—É, meu amigo, como lhe disse, quero sombra e água fresca.

– Por aqui, você não vai encontrar nada disso! – informava sorrindo, seu José.

Jairo já um pouco irritado com a intervenção do homem, combinara com Júlio a se retirarem para uma mesa mais distante do balcão. É o que fizeram, e o homem os seguira, perguntando que bebida preferiam.

– O mesmo que estamos bebendo, seu José. Traz a cachaça pra ele e uma cerveja pra mim. E estamos conversados, ok?

O homem afastou-se, fazendo uma careta de maus humores. Em seguida voltava com o pedido, e em silêncio esperava que pedissem mais alguma coisa. Por sorte, alguém chegara no bar em direção à caixa.

– Então me conta, Jairo, o que a menina estava fazendo lá?

– Eu não sei tudo, só o que o pessoal fala por aí. O nome dela é Ana, tem mais ou menos 14 anos e ouviu um grito que vinha da ribanceira do rio. Ela, pelo que me consta, estava pelas redondezas. Era tardinha e havia neblina. Muito curiosa, ficou observando, quando percebeu que alguma coisa estranha corria rio abaixo. Então correu em busca de socorro. Ela achara que a moça havia se jogado na água.

– Mas então, por que as desconfianças de assassinato?

– Porque a vítima tinha escoriações pelo corpo e não foram produzidas pelas pedras, entende? Além disso, acharam seu celular.

–E onde estava?

– Caído num barranco, bem próximo à água.

– E havia alguma coisa, alguma mensagem que sugerisse uma suspeita?

– Sim, uma mensagem do médico, pedindo que a esperasse na beira do rio. Ele a encontraria às 8:30h.

– Qual é o nome do médico?

– Ricardo Silveira. Está há pouco tempo aqui na cidade e parece não ser bem quisto.

Júlio calou-se. Percebeu que o amigo também não tinha mais nada a dizer. Tomou mais um gole de cachaça e preparou-se para voltar ao hotel. Jairo perguntou: – Vai ficar muito tempo aqui?

– Pretendia ficar um mês mais ou menos, mas não sei se vou aguentar. Esta cidade é muito pequena, todo mundo é muito solitário por aqui. Sei como é, nasci aqui, você sabe.

– Veio pra descansar?

– Na verdade, vim para escrever um livro, uma autobiografia e para conversar com esta tal senhora, que me chamou até aqui. Acho também que está na hora de pesar a minha vida, o que fiz de bom, de ruim. Fui advogado, detetive particular, casei, não tive filhos. Mas acho que tenho muito a contar.

– Ué, você não disse que ainda é advogado?

– Como falei, vou tocando devagarinho. Deixei os grandes casos. Só trabalho pra não perder o hábito… ou pra não ser esquecido – fez uma pausa, pensativo. Em seguida, voltou-se para o amigo – e você Jairo, o que faz da vida?

– Tenho uma pequena propriedade perto do rio, sempre trabalhei com madereira, mas agora, to mudando de ramo. To querendo fazer alguma coisa relacionada a camping. Acho que será onde moro mesmo, bem longe da civilização.

– Nem precisava ir muito longe, meu amigo. Esta cidade já parece longe de tudo.

Depois desta conversa,os dois se separam e Júlio voltou para o hotel. Na portaria estava outra pessoa. Certamente, não era o turno de Rosa.

No quarto, tomou um banho longo, vestiu um pijama e deitou-se um pouco. Adormecera talvez por meia hora ou mais. Estava com fome, aquela cachaça o deixara faminto. Ligou para a recepção, perguntando se serveiam janta. Não era hábito do hotel, até porque era um estabelecimento de pequeno porte, mas adiantariam o lanche da manhã para ele, com alguns ovos fritos e acrescentando um copo de vinho.

No restaurante do hotel, apenas algumas luzes foram acesas, iluminando principalmente a mesa onde se encontrava.

Tomara o restante do vinho e observara a rua pela vidraça. Era uma avenida estreita, com pouquíssimas residências.

Sabia que a alguns quilômetros apenas ficava o rio que divide a cidade, mas cuja região mais desolada ficava após a ponte. Talvez meia hora dali.

Lembrou de sua infância, sua vida pacata na pequena cidade, os pais trabalhadores rurais que com dificuldade lhe possibilitaram estudar e afastar-se em definitivo para a capital. Pouco os viu desde que saiu da região até que faleceram e desde então, nunca mais havia voltado.

Agora, entretanto, sentia falta dessa simplicidade em encarar os fatos de forma tão objetiva e ao mesmo tempo estranha do povo da região.

Praticamente todos se conheciam, falavam de tudo e de todos e um acontecimento trágico mexia com a comunidade. Talvez por isso, seu amigo Jairo e o próprio dono do bar estivessem tão envolvidos com o assunto do assassinato ou suicídio da filha do farmacêutico. Era razoável.

Estava tão entretido em seus pensamentos que nem percebera o garçom ao seu lado, perguntando se precisava de alguma coisa.

Logo avisava que fechariam o restaurante para se preparem para o outro dia.

Samuel percebera que devia retirar-se e afastou-se, cumprimentando o garçom.

Quando estava próximo ao elevador, porém, foi informado que alguém estava esperando-o para falar-lhe.

Voltou-se surpreso e perguntou: – De quem se trata? Seria meu amigo Jairo?

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