O elo do encontro

Tento prestar atenção em cores, janelas, platibandas, casas antigas restauradas ou em ruínas. Memórias que ficam ou apenas o passado depojado de sua história. Na história que produzimos, talvez as memórias não resistam ao próximo bafejo da moda.

Ando pelas ruas e observo as casas e pessoas na sala de jantar ocupadas em nascer e morrer, como no Panis Et Circenses dos Mutantes. Na verdade, agora ocupadas em revelar no intervalo, a vida que vaza rápido pelas entranhas das vidraças. Vidraças das redes sociais, das fotos instantâneas, dos vídeos do celular, dos olhares importunos. Um selfie a qualquer custo, na vida ou na morte. Importa é revelar.

Ando pelas ruas e vejo as crianças metidas em carros blindados, perdidas nos tablets, em joguinhos não tão inocentes. Ando pelas ruas e observo os meninos já não tão meninos, fazendo o próprio jogo de polícia e bandido, armando-se na aprendizagem cotidiana de seus pares não tão parceiros assim.

Ando pelas ruas e vejo o mar se abrindo na borrasca de nossos processos escusos de desapropriação da natureza, empresas que descarregam veneno transformando em sarjeta o cenário da vida. Vejo as pessoas jogarem as sobras de seus acúmulos, alterando a lagoa, fechando comportas, produzindo enchentes.

Tento prestar atenção em cores, na natureza, na vida que se insurge nos meandros de nossas escolhas visuais, mas me aquieto e me afasto, temendo que ora acabe a beleza observada.

Passo pelas igrejas, pelas escolas, pelos parques. Não ouço porém, os cânticos acolhedores, nem as preces fervorosas. Nem as crianças em bandos, alcançando esquinas, fazendo dos momentos livres, as brincandeiras do encantamento. Vejo-as correndo para os carros mal estacionados como se temessem a vida. Nem os adolescentes disputando espaços nos caminhos arborizados, conversando e rindo como se a vida se reduzisse em seus desejos. Vejo-os afoitos em suas mochilas e celulares, buscando a última conexão com o mundo.

Quem sabe um dia, as ruas se encham de cores de todos os matizes e os temores, as ameaças, o racismo e todos os ismos que afastam o ser humano desapareçam? Quem sabe o homem se integre à natureza e a defenda, revendo assim os seus princípios? E quem sabe a proximidade com o outro seja o elo principal do encontro?

Foto do artista, poeta e escritor Wilson Fonseca.
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