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O DOCE BORDADO AZUL - 17º CAPÍTULO

Nosso folhetim como se fazia no século XIX, nos jornais brasileiros, continua em todas as terças e quintas, na sequência dos capítulos. Hoje, como é terça-feira, apresentamos mais um capítulo.

Capítulo XVII

O amor de Laura

Laura ouviu a filha afastar-se para o quarto. Foi até o canto da sala e a avistou: assim magra, esquálida, olhos inchados. Ela havia chorado. Mas que podia fazer se era assim, tão suscetível. Por que se preocupava tanto com a morte? Por que temia a morte? Na verdade, Lúcia sempre fora uma menina assustada, com medos estranhos, terrores do desconhecido, e a morte para ela, nada mais era do que o enfrentamento do ritual. O que sempre a assustou foi todo o ritual do velório, da palidez do cadáver, dos cantos fúnebres, da missa de corpo presente. Isso que a assustava, também causava-lhe certa curiosidade, que não conseguia evitar. Sabia que no fundo, havia um certo prazer com a morte e esse frisson a deixava em pânico. Não suportava alegrar-se com o ritual, concebida como uma cerimônia de passagem definitiva e absoluta, de purificação, de entrada numa nova vida e ao mesmo tempo, uma ausência eterna, de quem já cumpriu a sua missão. Este gozo era censurado. Não se permitia o prazer.

Mas para ela, acontecia o contrário. Laura vangloriava-se de sentir-se bem com a morte, de a aceitar de forma plena, de torná-la mais acessível e até desejada. Por que temer o inexorável? Por que tentar evitar o que não se pode impedir? Por que não providenciar o rito de passagem de alguém que já está a caminho? Talvez esta fosse a sua missão. Ela estava preparada, sim e Lúcia ainda tinha muito a aprender.

Pelo silêncio do quarto, percebeu que Lúcia já deitara, talvez exausta pela faxina exagerada, aquele serviço urgente que se apegara como uma tábua de salvação aos seus medos.

Laura aquietou-se, observando a rua que aos poucos ia escurecendo, quando por um momento, teve um arrepio ao ver uma cara estranha na janela, tão inesperada, que produziu imediata sensação de insegurança.

Mas foi só por um momento, ao perceber que era o vizinho da outra noite. Encheu-se então de regozijo e levantou-se como pôde, rápida, coração acelerado, arrastando os pés descalços pelo assoalho frio, dirigindo-se à porta. Abriu-a e sorriu, amável.

–Você sempre aparece assim, de repente, na minha janela. Olhe, que qualquer dia, eu chamo a polícia ou então, lhe dou um tiro.

¬

–Você não faria isso – ele retrucou sorrindo, de um jeito bem mais seguro do que na outra vez. Acomodou-se em seguida, na poltrona, em frente de Laura, que também sentou-se, antes porém, perguntando, um pouco desorientada.

– Gustavo, aconteceu alguma coisa?

Reparou que os arranhões haviam desaparecido e apenas havia pequenas linhas de um marrom escuro, como ferrugem, cicatrizes pouco perceptíveis.

Ele sorriu mostrando os dentes amarelados, abrindo em demasia a boca. Fingia-se seguro, como se quisesse afirmar-lhe que o que acontecera era coisa do passado.

Laura, entretanto, prosseguiu, contundente.

–Mas a coisa foi feia, me lembro muito bem. Você tinha até arranhões no peito.

–Não vamos falar nisso.

–Ah, vamos sim. Hoje você não me escapa de contar tudo direitinho.

Gustavo fechou a cara por um instante, visivelmente preocupado, ajeitou o cabelo que caía na testa, depois voltou a sorrir levemente.

–Está bem, eu vou contar tudo. Mas por enquanto, vamos conversar outras coisas. Eu vim lhe fazer um convite.

Laura sorriu, a boca ainda com o batom da tarde, os olhos maquiados, embora a testa oleosa já misturasse a base no suor, salientando os sulcos fundos da testa, absorvidos, conforme os humores.

Ele prosseguiu, observando o efeito de satisfação que produzia.

–Vim convidá-la para ir a uma festa, um baile destes, de periferia.

Desta vez, quem fechou a cara foi ela. Olhou-o desconfiada, a voz antes branda, tornou-se dura e fria.

–E eu sou mulher de ir a estes bailes populares? Fique você sabendo que tenho classe, não vou a qualquer lugar, não.

–Não fique aborrecida, Laura. Não estou falando de um lugar que não seja, digamos assim, adequado a uma mulher de sua categoria. Há muitos ambientes bons para irmos.

–Bem, se for assim, vá lá.

–Quem sabe no próximo sábado?

–Eu vou pensar – respondeu fazendo-se de difícil.

Ele, ladino, insiste: –você promete que vai pensar com carinho?

–Está bem, eu lhe dou a resposta mais tarde. Mas hoje, eu tenho uma ideia para nós dois.

–É mesmo?! – pergunta enfático, espichando o pescoço vermelho e fino.

–Quero dizer, uma maneira de passarmos algumas horas agradáveis. Vou preparar uns coquetéis e tomaremos um bom vinho. Que acha?

–Era tudo que eu queria! – exclama, esfregando as mãos.

Laura o olhou de soslaio, considerando-o meio oferecido. Se pelo menos, recusasse delicadamente para que ela o convencesse, mas ele foi direto, nem mesmo insinuou alguma hesitação; não deu-lhe tempo nem de pensar em desistir. Já estava pronto a aceitar. Não tinha remédio. Teria de oferecer-lhe o tal vinho.

–Pensando bem, você vem até a cozinha ajudar-me. Não pense que vai ficar ai, com a bunda pregada na poltrona.

Gustavo adiantou-se rápido, as pernas longas, bailando nas calças de linho escuro, certamente muito finas, pelo ondular do tecido, que parecia abalroado pelo vento. Seguiu-a rápido, até a cozinha, ou pelo menos tentou acompanhá-la, sem que a ultrapassasse. Laura era demorada como uma lesma. Ele atentou para os seus pés descalços, e perguntou, batendo-lhe nas costas, com o indicador.

–Você costuma andar descalça pela casa?

Laura não se voltou, mas imaginava o olhar indiscreto, investigando-a, examinando o seu corpo, como se ela fosse um mapa da América Latina, cheia de rios, finos e visíveis, principalmente nas pernas grossas, de pés descalços. Por um momento, sentiu um ódio lancinante por aquele homem. Foi só por um momento. Respondeu, displicente: – eu ando às vezes, quando está calor.

–Mas hoje não está tão calor assim – ele retrucava sempre sorrindo, com os dentes salientes fisgando o lábio inferior.

Ela replicava : – mas já esteve – e voltando-se, franzindo as sobrancelhas – você quer fazer o favor de não ficar me examinando?

Gustavo aproximou-se do congote e Laura sentiu o hálito quente, bafejando o pescoço, inundando-a de um cheiro de alho e gengibre. Ele estava tinha o hábito de ficar sempre mastigando alguma coisa. Devia ser gengibre para encobrir o mau hálito. Aquilo lhe dava arrepios. Gustavo prosseguia seguro e satisfeito: – não me diz que você não gosta que eu a examine. Toda mulher gosta de um olhar assim, mais atento.

– Laura irritou-se e gritou, furiosa: – mas não nos meus pés! Por acaso você podólatra?

Gustavo limitou-se a rir, sem entender a que ela se referia. Já na cozinha, espiou o modo faceiro de Laura desembrulhar um pão de sanduíches, com as mãos pequenas e gordas, arregaçar o papel, delicadamente, extraindo dele as fatias uma de cada vez. Depois, dispondo-as sobre o tampo do balcão de pia, para prosseguir em seguida, outra etapa.

Ela o olhou e imediatamente avisouo para se mexer, pegasse logo os tomates na geladeira, os frios, o queijo, o patê, os molhos e partisse para a ajuda. Era tudo muito simples, mas teriam que fazer em conjunto. Nada de espectadores.

Gustavo a seguiu desajeitado, deixou cair alguns tomates no piso, ao que ela reclamou, intimando-o a cuidar da cozinha, que estava impecável.

Montaram os sanduíches, Laura cortou as fatias em pequenos quadrados, arrumou-os num prato de porcelana e entregou-lhe uma garrafa de vinho. Nestas alturas, Gustavo já se aparelhava com o saca-rolhas e elogiava a bebida, como se fosse de extrema qualidade. Laura, sentada à mesa, insistia no cuidado com o asseio.

– Está bem, está bem, Laura. Mas me diga, onde estão os copos?

Apontou para o armário aéreo e deixou-se ficar, mastigando um sanduíche, enquanto esperava o desenrolar dos acontecimentos. Achava-o demasiadamente lerdo, mas que fazer se não esperar, ela que não faria tudo sozinha.

Gustavo abriu o vinho, retirando a rolha com um som seco, esparramando um pouco do conteúdo pelo chão. Ela gritou, quase em desespero: – cuidado, cuidado com isso! Quer achincalhar o serviço de minha filha? Ela limpou esta cozinha como um brinco! Vamos homem, apure com isso!

Ele serviu os dois copos, entregou o dela e aproximou o dele para brindarem.

–A que vamos brindar?

–Não sei. À sua visita.

¬

–Ao nosso encontro.

–Que seja. Ao nosso encontro.

Laura sorveu vagarosamente o vinho, sentindo um certo queimor na garganta. Afinal, a bebida não era tão primorosa como Gustavo afirmara. Era de segunda categoria, mas era a que tinham.

Ele no entanto, prosseguia no elogio: – maravilhoso! Néctar dos deuses!

Laura balançou a cabeça, considerando-o um idiota. Tomou todo o restante do copo e ele o encheu novamente.

–Não quero tomar um pileque, sabia?

–E você acha que este vinho vai nos derrubar? Você é uma mulher forte, Laura.

Laura calou-se. Era realmente uma mulher forte. Tinha passado por muitas dificuldades nesta sua vida e superado todas. Por um momento, ficou pensativa. Depois, perguntou, quase a si mesma: – sabe há quanto tempo eu não brindo? Há quanto tempo, eu não sei o que é ter prazer?

–Não me diga!

–Digo sim, pra seu governo. Sou uma mulher muito só, Gustavo.

–Mas você tem uma filha.

–Uma filha, uma doentinha.

–Sua filha é doente?

–É fraca, muito fraca sob todos os aspectos, sabe.

Cala-se, como se em sua mente pairasse a imagem da filha, exatamente como descrevia. Em seguida, desandou a falar sobre Lúcia, fazendo inclusive uma revelação. Contou que se fazia passar por ela nas correspondências, que se comunicava com uma amiga, que morava no exterior há muitos anos, como se fosse a filha. Gustavo a olha apalermado, não entendendo muito bem o assunto.

– Por que você faz isso?

–Para protegê-la, é claro. A amiga chama-se Bárbara, inclusive vem aqui amanhã. Por causa da visita dela é que Lúcia arrumou toda a casa, limpou esta cozinha, deixando-a impecável. Entende por que a minha preocupação?

Laura ficou pensativa. Entornou o restante do vinho, produziu um estalar com os lábios e acrescentou, em tom alarmante.

–Não vamos mais falar nela! Hoje estamos somente eu e você, aqui. É o que importa.

–Assim é que se fala.

Gustavo ria, um riso parvo, adocicado, extremamente afetado, na intenção de mostrar-se íntimo. Sabia que a conquistaria daquela forma. Porque tinha lá, suas conjecturas, seus sentimentos em relação a ela.

–Você me parece uma pessoa muito reprimida, Laura.

Ela extravasou numa gargalhada exagerada, talvez provocada pelo efeito suave do álcool.

–Eu, meu caro, você esta redondamente enganado. Sou uma mulher aberta, decidida, que sabe o que quer, que faz o que lhe vem na telha!

–Uhm, que ótimo!

–Mas fale-me de você.

Laura estava atarracada na cadeira, atirada para atrás, segurando-se no encosto, balançando-a de vez em quando. Gustavo, ao contrário, sentava-se longe do espaldar, na ponta, com o peito junto à mesa, como se precisasse diminuir o espaço para ser entendido. Entretanto, quando ela perguntou sobre ele, ele acomodou-se melhor, afastando-se um pouco da mesa. Tomou mais um gole de vinho, serviu-se de sanduíches e perguntou o que ela queria saber dele. Laura foi cortante: – tudo! Você pousou aqui, na minha janela como um corvo vindo do além, depois me apareceu todo machucado como um gato de rua. Agora, quero saber tudo o que aconteceu.

–Você me comparou de uma maneira nada amigável, né? Um corvo do além, um gato de rua.

–E o que você prefere?

–Um gato de rua!

–Seu danadinho, hem?! Sabe que você é bem sem-vergonha?

Gustavo levanta-se e serve-se de um copo de água. Acha necessário a água com o vinho, a ressaca fica menor, o vinho mais leve. Laura o observa e resolve levantar-se também. Sente-se um pouco tonta, mas não o suficiente que a impeça de mover-se. Aproxima-se dele e o convida para se dirigirem à sala.

–Escute aqui, seu danadinho, vamos para a minha poltrona. É bem mais agradável lá. E faça-me o favor, abra outra garrafa de vinho. Temos a noite pela frente.

Gustavo sorriu mais uma vez daquele jeito estúpido de quem se sente dono da situação. Procura a garrafa de vinho, encontra-a embaixo da pia e observa que há um vazamento. Resmunga baixinho: – vai dar merda!

Laura, já na porta, pergunta o que ele está dizendo.

–Nada, nada. Só falei que a faxina não vai dar certo. Se este vazamento persistir...

Laura faz um exagerado pedido de silêncio, tapando os lábios com o dedo indicador. Repete várias vezes, afirmando que “a menina está dormindo, não vamos acordá-la, venha em silêncio, me siga devagar”.

aminham rindo pelo corredor, como crianças, pedindo um ao outro que faça silêncio, mas falam sem cessar. E cada vez que um fala, o outro o interrompe pedindo silêncio e fazendo psius cheios de esses. Aos poucos chegam na sala e Laura praticamente atira-se na poltrona. Gustavo tenciona sentar-se ao seu lado, mas ela o afasta.

–Não senhor, esta poltrona quase não dá para mim. Sente ai, na minha frente e vamos conversar.

Ele obedece, serve os dois copos de vinho que coloca sobre a mesa e põem-se a beber vagarosamente. Em seguida, Laura insiste que conte o que aconteceu na noite em que apareceu todo arranhado na sua casa. Ele ajeita-se na cadeira, passa como de costume a mão pelo topete, agora completamente ensebado e sorri amarelo. Fica olhando demoradamente para o copo, depois, insuflado de coragem, retoma o assunto.

–Naquele dia, eu não fui assaltado, como falei.

–Mas disso eu tinha certeza absoluta! Você acha que eu ia acreditar nesta história? Só não quis acelerar nada, deixar que você me contasse, quando surgisse a oportunidade.

¬

–Pois é. Então, vou começar do início. E do início, faz parte uma mulher.

–Ah, eu sabia que tinha mulher na jogada!

–Se você ficar me interrompendo a cada frase, eu vou desistir de contar.

Laura põe os dedos em cruz na boca, algumas vezes, jurando que não o interromperá mais.

¬

–Esta de quem falo é minha mulher. Nós vínhamos brigando há muito tempo, por problemas, principalmente financeiros.

–É normal, quem não os tem hoje em dia?

–Mas naquela noite, eu tinha resolvido sair, esquecer um pouco as desavenças, o mau humor, as rusgas do dia. Fui a um bar, bebi com alguns amigos que não via há muito tempo, que já até havia esquecido que existiam. Ela também estava bebendo, em casa. Não sei o que deu nela, me esperou com muita fúria, muita raiva e começou a brigar, a querer me bater, me ameaçou com uma tesoura.

Laura o ouvia de boca aberta. Não pensava que a história seria tão interessante, por isso, a muito custo, mantinha-se calada.

–O resto você sabe, ela me arranhou todo, rasgou as minhas roupas, enfim, foi embora.

–Só isso?

–Você ainda queria mais?

–Não, quero dizer, não é provável que a mulher saia de casa. Elas sempre ficam, o homem é que vai embora.

–Mas no meu caso, foi diferente.

– Estranho, não acha? Afinal, vocês brigavam por um motivo que atinge qualquer casal, hoje em dia, problema financeiro. Não é motivo... ao menos, que haja mais coisa neste angu.

–Por favor, Laura, não tire conclusões precipitadas. E vamos esquecer isso. Vamos beber ao nosso encontro, conversar coisas amenas, rir um pouco da vida.

Laura refletia. Na verdade, ele não tinha contado tudo. Havia ocultado alguma coisa importante e ela precisava saber. Não seria hoje, provavelmente, mas ela descobriria, mais cedo ou mais tarde.

–O que está pensando? Não acha que esta história esta nos deixando um pouco melancólicos?

–Eu estive pensando. O que você faz da vida?

–Sou advogado, aposentado. Trabalhei muitos anos para os serviços públicos, para os trabalhadores, os sindicatos. Mas agora não estou mais na ativa, quero mesmo é descansar.

Laura aproximou o rosto bem próximo do dele, que até esquivou-se um pouco, não entendendo o gesto. Encarou-o demoradamente, segurou-lhe as mãos e acrescentou com voz suave e melodiosa: – eu sei que você não me contou tudo, mas um dia vai me contar, não é mesmo?

Gustavo estremeceu. Meio sorriu, meio que fez uma careta, como se doesse os olhos, talvez pela proximidade do olhar de Laura, que parecia atingi-lo profundamente. Então, falou com voz sumida: – um dia, um dia eu lhe conto tudo.

Ela largou-lhe as mãos, com um suspiro aliviado. Ele encheu os dois copos que já estavam vazios e entornou o seu, quase sem tomar fôlego. Sorriu e foi a sua vez de segurar as suas mãos, desta vez, de forma segura, intensa.

–Sabe o que mais me atraiu em você?

Laura sorriu, desajeitada, sem saber o que dizer. Ele prosseguiu, afetado.

–Foi o seu jeito de me tratar, quando apareci aqui, todo machucado. Você pegou a minha mão e afirmou categórica que eu não poderia sair, que eu era a presa e você o caçador. Sabe que eu nunca esqueci destas palavras, principalmente porque você acrescentou que um predador havia me caçado e entregue para você.

Laura dá uma gargalhada, como se afirmasse que tudo não passava de uma grande bobagem. Era só um jogo de palavras. Mas ele continuou, sem soltar-lhe as mãos.

–Aquela noite, não consegui dormir, só pensando em você.

Laura sentiu um estranho calor subir-lhe pelo pescoço, atingir as têmporas e estremeceu. O coração bateu acelerado. As mãos gordas e úmidas, ficaram mais molhadas, junto as dele. Aquele homem, de repente, se transformava, era outra pessoa, alguém que ela passava a conhecer naquele instante, e isto a assustava.

–Sabe que tenho um enorme tesão por você?

Ela retirou as mãos lentamente, como se não quisesse ofendê-lo ou por que pretendesse retê-las ainda mais um pouco. Abaixou os olhos, resmungando alguma coisa inaudível. Ele perguntou o que dissera.

–Você ouviu o que eu disse, não ouviu? O que pensa disso?

–Você é um homem estranho, Gustavo.

–Estranho porque eu disse que desejo você?

–A mim?

–Claro. Este seu modo decidido, a maneira de tratar-me. Ao mesmo tempo que é agressiva, você é doce, engraçada.

Dizendo isso, ele aproxima-se mais dela, procurando os lábios, que Laura oferece sem qualquer resistência. Tudo o que dissera ou pensara, se dispersava ali, naquele gesto. Lentamente ele pousava os seus lábios nos dela, uma vez no canto da boca, outra no lábio superior, outra no inferior, levemente, suavemente. Laura fechava os olhos devagar, aproveitando aquele momento de prazer que a vida lhe oferecia. Quando realmente sentiu os lábios de Gustavo ajustarem-se em sua boca, e a língua de forma lasciva tocar na sua, sentiu que se entregaria completamente. Deixou-se então ser acariciada, ali mesmo, na sua poltrona, junto aos seus bordados, sem qualquer censura ou temor, percebendo que a mão deslizava sobre suas coxas, há tanto tempo dormentes pela inércia da falta de proximidade, com quem quer que fosse. Não tomava qualquer atitude, deixava-se seduzir totalmente. Gustavo era sagaz, tranquilo, experiente. Não tinha a fúria selvagem da juventude, ao contrário aplacava a ansiedade, com gestos miúdos, escassos, mas intensos. Enquanto sugava a boca, aproximava o seu corpo do seu, sentia-lhe as carnes se tocarem, as pernas finas juntando-se as suas, tão grandes e disformes, a barriga latejando de tesão, a vagina intumescida e aquele corpo sobre o seu, arregaçando-lhe as pernas, enfiando vigorosamente o sexo, de forma vibrante e densa, ajustando-se os corpos numa única alma que dançava sorridente sobre o altar dos prazeres. Foi assim que gozaram juntos e ela sentiu a ejaculação jorrar dentro de si, enquanto sentia um orgasmo intensamente vívido.

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