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O DOCE BORDADO AZUL - 14 º CAPÍTULO

Todas as terças-feiras e quintas publicarei capítulos em sequência do romance "O doce bordado azul". A seguir o 14º capítulo.

Capítulo XIV

As alucinações de Laura

Abrir os olhos devagar, sentir o corpo debilitado, como se não pudesse levantar-se, sem ânimo para nada, a não ser ficar quieta, em posição fetal. Mas aquela luz que insistia entre as frestas das cortinas não a deixavam esquecer-se do início do dia, ou do fim, não sabia bem distinguir. Quando viu a figura da mãe, à porta do quarto, fechou deliberadamente os olhos. Artifício providencial, imediatamente percebido.

Laura perguntou se não se levantaria, as horas passavam, a tarde chegaria logo. Não poderia dormir o dia todo. Lúcia, como uma adolescente em dia de prova, encobriu a cabeça com o lençol, resmungando, exigindo que se afastasse dali, que a deixasse morrer. Mas não era possível, embora Laura saísse do quarto, sem antes informar que logo, logo teriam visitas. Que ameaça terrível significava aquela informação. Melhor não reconhecer nada do que a mãe dizia, tudo era imaginação de sua mente alucinada. Melhor voltar a dormir.

Laura fechou a porta atrás de si, deu alguns passos pelo corredor encerado e dirigiu-se ao telefone. Digitou várias vezes e os números se acumulavam ante seus olhos. Tantas vezes errara, que tinha a impressão de que jamais acharia o indicado. Voltou desanimada para a sala, sentando-se na velha poltrona, amiga de seus momentos mais íntimos e ao mesmo tempo, mais solitários. Tomou os bordados, mas não se atreveu a realizar qualquer gesto, nem mesmo enfiar a agulha para iniciar ou recomeçar os pequenos caminhos que asfaltava lentamente no tecido claro. Olhou pela janela e não viu ninguém na rua, pelo menos conhecido. Algumas crianças passavam com mochilas às costas, oriundas das escolas das redondezas. Sentia o cheiro da comida, que vinha da cozinha, mas não se animava a verificar se tudo estava andando bem. As costeletas de porco estavam assando, o arroz pronto, algumas saladas, tudo frugal. Também não tinha fome, em virtude de ter feito um longo desjejum, e aparentemente o mais atrasado de sua rotina. Levantara tarde e tivera sonhos estranhos. Embora, tranquila, após o desabafo com o vizinho, na noite anterior, a imagem vinha-lhe repetidamente à mente e ao acordar, sentia uma certa angústia, como se não tivesse agido corretamente, algo como uma auto-punição que carregava os sonhos de temor e a irritava mortalmente. Como poderia sentir qualquer culpa em relação àquele homem, apenas por ter-lhe dito algumas verdades, se ela o tinha ajudado, se o tinha provavelmente salvo da perseguição de alguém. Aquele história não lhe saía da cabeça. Mas a vida prosseguia e certamente, surpresas viriam por aí.

Levantou-se e dirigiu-se à cozinha, procurando esquecer os faniquitos de Lúcia. Ela que se virasse do melhor jeito. Que dormisse todo o dia, todas as noites, que não acordasse mais. Estava cansada de suas cantilenas, de seus temores absurdos, de suas culpas exageradas. Custou-lhe chegar na cozinha, as pernas doíam, os chinelos estavam cada vez mais gastos e aquele corredor encerado a fazia estremecer, cada vez que resvalava inadvertidamente, pressentindo o tombo iminente.

Ao chegar na porta, seus olhos por um momento, nublaram e uma estranha sensação a tomava, como se coisas terríveis, ameaçadoras estivessem prestes a acontecer. Repentinamente, viu a sua cozinha em total abandono, as panelas amontoadas sobre o balcão da pia, louças sujas, teias de aranha se locupletavam na ação rápida de tear sobre todos os cantos, baratas apareciam das tocas, ligeiras, cheirando aqui, fuçando ali, outras voando de um lado para o outro, com vôos rasantes sobre a sua cabeça, inserindo-se entre os alimentos, cujos caldos borbulhavam, azedando, apodrecendo velozes, sem que se pudesse mexer, pois tudo desandava aos pedaços ou em gosmas putrefatas. Tudo se transformava de vivo para morto, aproximando-se dela, atingindo o seu corpo, erguendo-se pelas pernas, atingindo a pele flácida, esgueirando-se como vermes, alcançando o seu corpo inteiro. Por isso, o ar foi faltando, a boca ficando roxa, os olhos vidrados, sem vida, com a impressão de que a morte chegava imperiosa para impedir-lhe os planos. Tentou gritar, mas não conseguiu, tentou afastar-se, emitir qualquer som, por mais fraco que fosse, realizar algum gesto buscando ajuda, mas nada a fazia mover-se. A cozinha ficava cada vez mais nublada, escurecendo as paredes, sujas de uma fuligem nova, recente que as contaminava rapidamente. Sentiu então que as garras ferozes de algum animal perverso a atacavam e pouco pode fazer para evitar. Apenas fechou os olhos e aceitou o destino torpe que a esperava.

Lúcia a segurou enérgica, sustentando aquele corpo pesado, tentando equilibrá-la, de tal forma que a encostasse na porta para não cair. Gritava-lhe aos ouvidos, procurando demovê-la dos devaneios. Percebia que a mãe tinha alucinações, que alguma coisa travara seu subconsciente, conduzindo a vivências estranhas ao mundo real. Talvez estivesse tendo um ataque cardíaco, ou outra doença que a paralisasse totalmente. Sentia-a surtar, enlouquecida, vendo coisas que não compreendia. Chamava por ela, em desespero, gritava o seu nome, queria trazê-la à realidade. Temia, no entanto, que se afastasse de uma vez por todas de sua vida e nunca mais retornasse, como abduzida por seres estranhos, alienada à dimensão que escolhera. Então, decidida, aplicou-lhe a lei da idade média, em que a tortura, fosse qual fosse, se tornava o único remédio para qualquer moléstia. Esbofeteou-a com fúria, batendo com raiva no rosto, trazendo-a de volta num intenso suspiro. Olhos purgaram pequenas lágrimas que limpavam a face robusta. As pernas afrouxavam de vez e Laura foi se encolhendo, aproximando-se do solo, ao que Lúcia, previdente, puxou com um pé, num gesto digno de uma malabarista, uma cadeira que estava próxima ao fogão e encaixou rápida, fazendo com que o assento ainda guardasse aquelas nádegas disformes, mesmo que uma pequena parcela, mas que a sustentava do chão.

Laura a olhou ensandecida, não a reconhecendo de imediato. Não dizia nada, mas sabia que uma coisa terrível havia acontecido, principalmente pelo olhar de desconforto de Lúcia. Esta foi a primeira a falar: – parece que aconteceu de novo!

Laura mexeu-se, ajeitando-se na cadeira. Lúcia gritou, evitando que ela levantasse.

–Não se mexa. Fique quieta. Deixa a coisa acalmar. Esta água turva não pode ser remexida, deixe-a quieta, no fundo do poço.

Laura então olhou para os lados, uma visão ainda lhe vinha a mente, mas agora, tudo estava transformado, acabado.

– Minha cozinha...

Lúcia afastou-se, dirigindo-se à pia e trouxe um copo d’água.

–Tome, tome devagar, é bom para acalmar-se.

– Eu estou calma.

Lúcia estava impaciente. Amolada com as inquietações absurdas da mãe, com suas manias de que as coisas mudavam constantemente na casa. Convivera anos a fio com estas histórias e sabia que algum parafuso não se ajustava bem em seu cérebro. Laura repetia que estava calma.

–Então por que estava paralisada, como se estivesse vendo um monstro? Por que tinha os olhos vidrados, olhando para o nada? Sabe que você me assustou?!

Laura sentia-se aliviada por saber que a filha a tinha ajudado. Percebia nela mais do que uma simples preocupação, mas um temor com o futuro, com as coisas vindouras. Isso provava que ela também temia, que ela desconfiava que as coisas poderiam mudar de uma hora para outra.

– Estava tudo escuro. A minha cozinha estava suja. Havia insetos, baratas...

Lúcia acenou a cabeça, percebendo no seu íntimo que a mãe havia tomado alguma bebida misturada aos remédios. Ela sempre fazia estas confusões. Nada havia de irreal, ou sobrenatural para explicar os seus desmandos com a própria mente. Era pura negligência com o próprio corpo. Caminhou pela cozinha, examinou o piso, a louça cirurgicamente limpa. Em seguida, fitou-a com desprezo e comentou: – que tipo de inseto pode invadir uma cozinha como esta?

E afastou-se, dizendo que o melhor a fazerem era se alimentarem. Ela não havia comido nada e estava na hora do almoço. As costeletas de porco estavam passando do ponto e por pouco não queimaram completamente. Lúcia retirou-a do formo, desajeitada, queimando as pontas dos dedos, resmungando, ante o olhar parvo de Laura. Em seguida serviram-se e puseram a comer, como se nada houvesse acontecido.

Laura parecia muito bem. Devorava os alimentos com satisfação, sem importar-se com o olhar de censura da filha, que sempre achava que ela exagerava, mas nem se importava com este cuidado criterioso. Sentia prazer em comer desordenadamente e saciava-se com a abundância, com o prato cheio, com as mãos lambuzadas de gordura, os olhos fitos no próprio ato de comer, este significando a realização plena de sua vida. E na verdade, era o que mais lhe satisfazia, a não ser, naturalmente, os bordados e as atividades que desempenhava nas relações com as pessoas da rua. Embora escassas, eram relações duradouras, parcialmente elaboradas, sem muita efusão, mas completo entendimento. Gostava de falar com um vizinho que passava com as compras, outro que lhe relatava um fato ocorrido na rua, outro que aparecia subitamente em sua casa, sem que houvesse um conhecimento mais profundo. Era a sua vida. A sua janela. E dela, espiava o mundo, do seu modo. Lúcia não a compreendia. Achava-a, no fundo, uma inútil, só que não se dava conta que vivia às suas custas, do seu trabalho, das suas economias, de sua parca pensão.

De repente, Lúcia quebrou o silêncio, falando friamente, inquirindo sobre um acontecimento estranho na casa.

– Eu vi sangue no banheiro.

Laura teve um sobressalto. Lembrou do vizinho da noite anterior, mas permaneceu calada, sem demonstrar nenhuma perturbação.

– Não vai me dizer que faz parte de suas alucinações! Agora, estão se materializando?

Laura sentiu o espetar de um espinho, causando-lhe uma dor aguda na cabeça, mais forte do que a do peito, sacolejada pelo coração aflito. Ouviu a filha, quieta, divagando em sua mente, de forma a refutar a ironia, deixando-lhe espaço para a imaginação. Ela que pensasse o que quisesse, diria o necessário na hora adequada, para que se arrependesse, como era de costume, e depois lhe pedisse perdão, fazendo-lhe pequenas deferências, bajulando-a da forma mais rasteira, chegando como de hábito, ao auge do ridículo.

Lúcia, voltou ao assunto, exigindo uma explicação.

–Você ainda não se explicou. O que aconteceu no banheiro? Vi gotas de sangue por toda a pia, além do piso, até mesmo próximo ao boxe.

Laura a olhou serena e pediu que a deixasse em paz, pelo menos, enquanto estava comendo. Não queria sentir-se mal na digestão.

Lúcia estava implacável.

– É muito fácil fugir à responsabilidade.

Laura acabou de servir-se e mastigou pela última vez o bocado de saladas, além das costeletas assadas, que ainda enfeitavam-lhe o prato. Depois disso, juntou as sobras lentamente sem olhar uma única vez para Lúcia, que já se levantara e aquecia a água no fogão para preparar um café, hábito rotineiro, companheiro do cigarro, nunca dispensado embora deste se livrasse há um bom tempo. Entreteu-se nesta tarefa, sem voltar-se para Laura, evitando dizer qualquer coisa, pois sabia que ela, por seu lado, estava criando uma frase estudada para atingi-la. Laura juntou os pratos, levou-os até a máquina e aproximou-se de Lúcia, que sentiu o seu hálito bem próximo, junto ao pescoço. Ficou nauseada, mas fingiu não perceber, apenas escutou o que tinha a dizer.

–Você sabe que me machucou? Não devia ter me batido daquela maneira!

Lúcia a olhou com ódio, não pela observação da mãe, mas porque no seu íntimo sabia que ela estava apenas fugindo da conversa anterior e filtrando um raciocínio cínico que viria a seguir. Então respondeu, agressiva: – ¬o que queria que fizesse? Que a deixasse ali, paralisada, vendo coisas ? Sei lá se não ia destrambelhar de vez e eu ter que aturar uma demente pelo resto da minha vida!

Laura afastou-se, ainda queixando-se que ela estava sendo cruel. Afinal de contas, tinha tido uma apagamento de memória, um acontecimento natural para velhos como ela. Ela tivera uma vida muito dura, não era para menos que de vez em quando, o seu corpo reagisse de uma forma tão violenta.

Lucia calou-se. Conhecia aquela ladainha de cor. Não seria agora que daria vazão as suas lamentações. Serviu-se do café e voltou a sentar à mesa, com a xícara queimando, entre os dedos. Laura percebeu e fez uma pequena observação: – você parece querer sofrer, procurar o sofrimento nos pequenos gestos. Parece punir-se o tempo todo. Até nos pequenos prazeres, como tomar o seu rotineiro cafezinho, deixa que a xícara lhe queime os dedos. Não acha estranho?

Lúcia esfregou ainda mais as mãos na xícara, aflita. Era melhor calar, tudo o que dissesse voltaria contra ela em dose dupla. Tomou o café devagar, acrescentando apenas.

–Não se preocupe. Eu sei me cuidar.

–Não parece. Você agiu de forma irracional com aquela freira ridícula. Você não soube se defender.

–E o que é que a senhora queria que eu fizesse, que madasse a freira à puta que pariu?

– Meu Deus, Lúcia, não foi esta educação que eu dei a você!

–É verdade. Você não me deu esta nem nenhuma educação. Deixou tudo nas mãos dos outros. Eu é que me virei, eu é que me transformei no que sou hoje, às minhas custas.

–Você esta sendo injusta, minha filha.

Lúcia evitou mais uma vez afrontá-la. Sabia que no fundo, ela tinha razão. A freira armara um círculo hermeticamente fechado, deixando-a sem saída. Tudo agora piorara para o seu lado. Madalena jamais lhe daria o emprego, Bárbara a odiaria pela chantagem e Irmã Carlota a tomara como uma aproveitadora, uma chantagista. Mas não estava em condições de dizer isso à mãe. Não seria ela que a ajudaria, naquele momento, pelo menos hoje. Então, retomou o assunto do sangue no banheiro.

Laura levantou-se devagar, respirando fundo e deu alguns passos até a porta. Olhou para a filha de uma forma carinhosa, quase convidando-a a fazer as pazes.

– Se você quiser me ouvir, venha até a sala. Eu vou lhe contar tudo.

– E a senhora tem alguma explicação para isso?

– Sua mãe tem explicação para tudo, Lúcia. Você é que não a conhece.

Lúcia a seguiu, desconfiada.

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