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A primavera e a Academia Rio-grandina de Letras

Antes de iniciar a primavera, apavorado com o inverno, ousei fazer alguns versos o que chamei de poesia. Utilizando a mulher como a metáfora de primavera, eu a suplicava junto a mim, ouriçando-me os cabelos, guerreira e forte e superando o inverno que não acabava.

Hoje, porém, tive a primavera bem próxima. E não foram os ventos que a trouxeram, talvez a temperatura suave acalentada pelo sol esparso sobre as árvores. Pois revelou-se com o encontro. Um encontro inédito e espontâneo, que se deu, a partir da sessão da Academia que se desenvolveu sob as árvores da praça Xavier, na falta da chave da biblioteca.

Ali, nos expomos em nossas atitudes mais despojadas, sem didatismos ou preocupações formais. A ordem foi invertida, a lírica, a literatura e a harmonia dos textos chegou antes das atividades administrativas.

Até mesmo o tradicional chá com salgadinhos e doces, alternou-se com a poesia.

Senti o bafejo da primavera, bem perto, junto com meus colegas, perfazendo um círculo em que a alegria espontânea dava lugar a sisudez das discussões. Parecíamos mais livres e dispostos a interagir uns com os outros, mesmo ante os olhos desavisados que vez ou outra nos observavam intrigados.

Como um bando de crianças, nos divertíamos com o encontro, um piquenique da 3å infância, como nos intitulara o Gerundo. Cada um manifestava a sua personalidade, e eu, como de hábito, observava as nuances de cada um.

Uns brejeiros, conversando em brados, rindo com a interrupção inusitada de um entregador de folhetos religiosos, que irado, nos punia com o inferno.

Outros inferindo temas e possibilidades para presumíveis sessões em lugares públicos como aquele. Um na câmera, outros fazendo pose.

Entre registros fotográficos e dizeres poéticos, senti a primavera exaltar-se no grupo que se afinava num único objetivo: o fazer literário, experienciando o momento que a vida nos legava.

Que bom! Bendita chave que não apareceu! Bendito sol que nos aqueceu o coração e nos deixou mais próximos.

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