O DOCE BORDADO AZUL - CAPÍTULOS 8º E 9º

Todas as terças-feiras e quintas publicarei capítulos em sequência do romance "O doce bordado azul". A seguir dois capítulos, o 8º e o 9º capítulo.(20/10/2015)

Capítulo VIII

A morte é definitva

Descia do ônibus às pressas e quase correndo, entrava em casa, aflita com a possibilidadede não mais ver Ana e pelo fato de desconhecer que havia morrido. Afinal, que espécie de amigas eram elas que nem se encontravam, nem sabiam nada umas das outras, que passavam o tempo completamente alienadas, preocupadas com o seu próprio umbigo. Não gostava da morte. E se ocorria, como no caso de Ana, era uma perda que não pudera cultivar, que não pudera chorar, ao menos. Não se despedira. Na verdade, foram amigas durante um tempo determinado, desde a infância até o final da adolescência, e aos poucos, foram se afastando. Ela que se acomodara a viver naquela casa, com a mãe, sem grandes ambições, participando de sua vida, vivendo-a como se fosse a sua.

A sala estava às escuras, por isso, titubeou entre as paredes que conduziam ao corredor, batendo-se desordenada, mais pelas idéias que brotavam como turbilhões, do que pela escuridão. Por que Madalena não havia morrido, ao invés de Ana. Por que aquela sonsa sobrevivera, cheia de mistérios e segredos para atazanar a sua vida. Se bem, que poderia tirar proveito desta situação insólita. O medo que a assola, o pavor de que o marido e os filhos descubram a sua vida pregressa é o trunfo que tem nas mãos, e saberá usá-lo convenientemente, na hora certa.

Assim, com pensamentos tão instigantes, dirigiu-se ao quarto, procurando encontrar o interruptor que iluminaria o corredor. Quando pousou a mão delicadamente, precisa pelo ato rotineiro, teve um sobressalto. Um estremecimento geral traspassou o seu corpo e uma fraqueza nas pernas, fazia-a declinar. Uma mão gorda e potente segurava a sua e podia jurar que não era sonho. Não estava delirando, nada de extraordinário a dominava, a não ser o medo do desconhecido, que naquele momento era demasiadamente real. Uma respiração ofegante, um zunido, quase um zurro de animal, um resfolegar asmático. Uma dormência que lhe acometia o braço, como um fio em curto circuito, apoderando-se de seu ser, infiltrando-se em suas entranhas. Na força duplicada, a luz acendeu e ela viu a mãe, ao seu lado, fitando-a fixamente com aquela cara gorda, disforme, inchada, com olheiras, cheiro de hospital, medíocre e frágil. Porém mais forte e poderosa do que ela. Então, refazendo-se aos poucos do susto, adocicou a voz, e exclamou com carinho: _Mamãe!

A velha afastou-se exasperada. _Que mamãe, nem mamãe, você quase me matou.

Lúcia suplicou-lhe que a perdoasse, não queria machucá-la, ela estava muito assustada. E além disso, estava extremamente nervosa, acreditava fielmente que era um ladrão, um assassino que a perseguia. Como poderia reagir, se não tentando defender-se. Ela tinha de compreender isso. Ela precisava perdoá-la.

Laura deu-lhe as costas, com um sorriso no canto da boca. Encaminhou-se lentamente para a sala, sendo seguida por Lúcia, que perguntava quando dera alta do hospital, por que não a chamara, por que estava ali, sozinha, às escuras. Pretendia assustá-la, novamente? Laura deu de ombros, sentou-se no sofá e ligou a TV. Nem olhou para os seus bordados, que estavam por ali, atirados. Lúcia aproximou-se, solícita, arrumou-os, organizando-os em pilhas, ajeitou os bastidores, depois, as agulhas e as linhas numa pequena maleta e torceu o nariz, nauseada pelo cheiro de sujeira da mãe. Não conteve a exclamação: –Mamãe, voltou daquele hospital xexelento e nem tomou um banho!
Laura a olhou como se não a reconhecesse. Depois, falou pausada: – Uma pergunta de cada vez. Em primeiro lugar, você me deu o bolo.

Lúcia queria protestar, mas calou-se, quieta, ouvindo-a com certa agitação, sentando-se a sua frente, torcendo as mãos, mexendo os dedos, enfiando e tirando anéis. Laura parecia calma.

–Eu a esperei toda a tarde, você não apareceu. Não queriam me deixar sair, mas eu insisti, e depois, não tem leito para aquela gentalha toda e vão ficar me segurando, lá? Até agradeceram por eu querer sair, e além disso, o médico já tinha me liberado.
Lúcia ia justificar-se que tivera um compromisso urgente, mas não teve coragem de enfrentar a cara zangada da mãe. Esta prosseguiu a narrativa, como se precisasse falar tudo que tinha calado, naqueles dias de ostracismo.

–Eu fiquei no escuro porque estava com dor de cabeça. Precisava descansar, fechar os olhos, esquecer estes dias terríveis que passei. Lúcia até pretendia referir-se ao banho, mas não teve tempo. A mãe foi explícita.

– Quanto ao banho, tomo amanhã. Não está me incomodando nada, se você não gosta do meu cheiro, vá para o seu quarto e me deixe em paz. Além disso, não tem nenhum homem me esperando na minha cama. Então, concordou que não importava. Estava feliz por ela ter voltado. Mas precisava se alimentar, devia estar desnutrida com aquelas sopas ralas do hospital, ao que a mãe a interrompeu, irritada.

–Não me fale mais neste maldito hospital. Esqueça o que aconteceu, esqueça que eu estive lá, esqueça esta parte nojenta de minha vida!

Lúcia calou-se, mas logo em seguida, reiteirou a necessidade da comida. Laura aumentou o som da TV, fingindo não ouvi-la, mas quando a filha decidiu retirar-se, diminuiu o áudio e afirmou, categórica.

–Só há uma maneira de eu esquecer um pouco o que você me fez. A partir de hoje, vamos ser sócias em muitas coisas.
Lúcia voltou-se, surpresa. Sócia? O que ela pretendia dizer com isso?

–Vá, faça alguma coisa para eu comer, estou morrendo de fome mesmo. Depois a gente conversa sobre isso.

–Mamãe, eu não estou entendo. Você falou em sócia? Mas se eu...

–Já disse que depois conversamos. Você não sabe o que é sócio? Parceiro, cúmplice. Durante estes dias em que passei naquele inferno, eu pensei em muitas coisas. Vá para a cozinha e me apronte alguma coisa, ah, e veja se tem uma bebida qualquer, um vinho, afinal, preciso beber alguma coisa, para me sentir viva!

Lúcia a olhou espantada. Como ela poderia beber um vinho se havia tomado uma centena de remédios, mas antes que refutasse a ordem que recebia, a mãe esclareceu.

–Já parei com todos os remédios. E se há algum fazendo efeito no meu corpo, que faça junto com o vinho. É meu direito. Vá, vá e não me pergunte mais nada.

Mexeu no controle remoto, desta vez, alternando áudio e canais, numa velocidade espantosa. Por baixo dos óculos, observou a filha afastar-se e ficou se perguntando porque estavam há tanto tempo juntas. Era tempo demais para duas mulheres, sem marido, sem homem, sem filhos. Por isso tão dependentes. Vislumbrou os retalhos e diversos tecidos, os bordados inacabados, os adornos de rendas empilhados sobre a mesa e fez um muxoxo. Voltaria para eles, mas não hoje. Acomodou-se mais na poltrona, sentindo as pernas pesadas. Puxou a cortina e espiou pela janela, que ficava bem atrás de si e olhou para a rua, mas as luzes dos carros que passavam, a cegavam completamente. Pensou nos vizinhos, o que diriam dela, que deveria estar quase morrendo num hospital público. Uma velha sozinha como ela, sem bens e uma filha a cabresto pela vida à fora. Que desculpas ela teria dado para a sua internação, que teria inventado? Se bem que Lúcia era boa nisto. Por certo, criara uma boa história.
Por um instante, teve a impressão que a espiavam, e não era da rua, mas de dentro de sua casa. E não tinha se enganado. Lúcia aparecera por um instante, na porta, e a olhava intrigada. Fingiu não vê-la, mas satisfez-se com a sua perplexidade. Era bom que ficasse assim, estimulada, conjeturando sobre o que lhe dissera. Era a sua cartada final. E dela não abriria mão.

Ajeitou-se na poltrona, espichou as pernas sobre um pufe e até cochilou. Esqueceu a TV, o hospital, a raiva que ainda sentia pela filha. Veio-lhe à mente a imagem do marido. Há quanto tempo, não lembrava dele. Pouco viveram juntos, era um boêmio, um vagabundo, um homem desses que não interessa a nenhuma mulher. Mas, perto de sua morte, aproximou-se dela. Passou a ficar mais tempo em casa, pois sabia que seu tempo era exíguo demais. Sentia-o fraco, debilitado pela doença que se alastrava, principalmente na alma já abalada e descrente. Lembra, quando se aproximou dele, numa noite semelhante a esta de lua, com uma pequena brisa que sacudia as cortinas. Não era frio, nem calor. Um amornado na alma, na vida, no jeito em que se encontravam os dois, numa atitude insólita. Ele, que sempre fora tão independente, tão senhor de si, ali, ao seu lado, com lágrimas nos olhos, temeroso do futuro. Ela, intimamente feliz. Avistava naquela figura medíocre e assustada um desalento oriundo de presságios funestos. Segurou-lhe a mão, quase com piedade, deixando-o ainda mais esmorecido.

Foi bem ali, naquela poltrona, cenário ideal para um encontro danoso, após tantos desencontros, tantas procuras, tantas esperas. Disse-lhe com cuidado: – a cada dia, a cada hora, a cada minuto, você ficará mais fortalecido. A vida é assim, ela nos ensina aos poucos e com você não será diferente. O homem a olhara inseguro e não entendia por que lhe falara assim, afinal não era nada confortante! Ela então, fora tão franca que o ferira como ferro em brasa, atiçando a ferida, aflorando a dor.

– Porque é é o seu destino. Não há escapatória. Você tem pouco tempo de vida, Alípio –– e repetira a última frase, enfatizando o seu nome, como se necessitasse de um reforço para ser entendida.

Ele, por sua vez, afastou-se um pouco e deixou-se cair no sofá, angustiado. Ela então, prosseguira, cruel: – sabe Alípio, os meus bordados não passam de tecidos amarfanhados, trapos pedidos nas costureiras, compras de liquidações a varejo. São quase frangalhos. Eu os transformo, os enfeito, dou uma característica nova a este corpo fragilizado e sem vida. É como a morte. Os meus bordados são a morte. Enfeitam os corpos debilitados, como seu, que nada mais valem nesta vida. Estão em frangalhos e somente a morte vai libertá-los, vai transformá-los, como você. Você precisa morrer, entende? E a morte, meu filho, é definitiva.

Lembra seus olhos muito abertos, a boca trêmula, o queixo junto ao peito, pescoço encolhido como de um pato. Ainda recorda as palavras como se fosse hoje: A morte é definitiva. E repetiu a frase, sem se dar conta, que Lúcia surgiu na sala, chamando-a para o jantar.

Capítulo IX

A revelação

Lúcia acordou pela manhã com um chamado no celular. Não sabia de quem, não atendeu. Doía-lhe a cabeça pela ressaca do vinho da noite anterior. Lembrava das palavras da mãe, fazendo certa chantagem, querendo tornar-se cúmplice de alguma coisa, como se a ameaçasse por conhecer um fato incriminante. Mas não passou disso, depois do vinho, a velha não disse coisa com coisa. Falou no marido que morrera há mais de dez anos, ainda referiu-se ao hospital com raiva, sentindo-se uma vítima e depois dormiu despudoradamente na poltrona, nem se dando ao trabalho de ir para o quarto. Lúcia esforçou-se para convencê-la, mas não teve sucesso. Percebeu, entretanto, que por volta das quatro horas, a mãe levantou-se e dirigiu-se ao quarto, perdendo os chinelos pelo caminho, arrastando-os e deixando-os cair dos pés, como empecilhos ao trajeto. Hoje, ela dormia a sono solto e pelo jeito, não pretendia acordar tão cedo.

Lúcia levantou-se mal humorada, tomou um banho, vestiu-se e ficou imaginando quem teria ligado. Teria sido Madalena, que conseguira o emprego?

Tomou um café rápido com a xícara na mão e em pé, procurando atender o celular que voltava a tocar. Empalideceu. A voz firme do outro lado afirmava um fato que parecia inverossímil. Como as coisas poderiam ocorrer assim tão redondas, tão ajustadas como numa novela barata, em que a trama se acomoda de acordo com o gosto duvidoso do autor, para que o novelo se enlace e se desenlace ao sabor do destino. Não, não podia ser verdade.

De repente, Madalena surgia a sua porta, depois soubera que Ana morrera, providencial, porque não participaria do plano e agora, Bárbara, que voltava ao Brasil. Tudo estava se encaminhando para que a vontade de Irmã Dolores se cumprisse, para que as três se unissem. Não acreditava em destino, mas Irmã Carlota não lhe ligaria àquela hora da manhã para contar-lhe uma mentira.

Desligou o celular, com um cumprimento cordial à irmã e sentou-se em frente ao computador, atordoada. Parecia uma daquelas histórias de roteiro de filme. Tudo bem engendrado para que ocorra o desfecho adequado.

Mas como isto era possível? Por que as coisas se conduziam daquela maneira? Quem estaria preparando tudo? A própria Irmã Dolores? Uma velha tão frágil, tão debilitada, que vira morrer ali, na sua frente. Alguma coisa estava errada.

Estava assim intrigada, quando a mãe apareceu na porta. Uma visão da besta do apocalipse, pensou Lúcia. A bolsa de gelo na cabeça, o rosto ainda mais inchado, com enormes olheiras escuras, ressaltando uma cor doentia. Pediu que Lúcia lhe preparasse um café, enquanto se aprontava para o banho. Lúcia suspirou, pelo menos ela tiraria aquela sujeira fétida do lombo.

Concordou em fazer o café, mas sua atenção se focava unicamente nas palavras de Irmã Carlota. Mesmo assim, arrumou a mesa com esmero. Entre pratinhos e xícaras, estabeleceu com cuidado o espaço para os doces, algumas fatias de pão e a manteiga, um doce de figo e um vidro de mel. Afastou o bule com o dedo e deixou-se ficar, observando o florido da porcelana, absorta no viçoso das flores, como se as visse de perto, na natureza.

Então Bárbara voltara. Não conseguia tirar estes pensamentos da cabeça. Na verdade, os fatos se encaixavam. De acordo com a notícia que lera na Internet, o marido havia sofrido um acidente fatal. Provavelmente, frustrada e só, ela teria voltado para o Brasil. Sim, fazia sentido. Teria enfim, se comunicado com Irmã Carlota, talvez lido a carta, porque provavelmente ela e Irmã Dolores se correspondiam, já que eram intimamente amigas, quase irmãs.

Estava entretida nestes pensamentos, quando a mãe surgiu de forma inusitada. Os cabelos bem penteados, diferentes daquele desgrenhado rotineiro, uma roupa que lembrava uma visita à igreja. Estava com um vestido largo, de gola redonda, em tons petipuá, em preto e branco, mas que pela simplicidade, lhe caía bem, não fossem os braços avantajados, com as pelancas flácidas, que ela fazia questão de mostrar sempre em modelos sem mangas.

Se a fitasse mais de perto, Lúcia juraria que ela tinha pintado levemente os lábios. Mas não tinha certeza. Até os óculos de grossas lentes, pareciam mais suaves. Toda ela parecia mais leve.

Aproximou-se da mesa, sentando-se descontrolada numa cadeira, deixando as ancas meio desequilibradas, pelo tamanho. Lúcia pensou: “precisamos arranjar cadeiras maiores e mais fortes”. Não disse nada. Apenas perguntou se havia gostado da disposição da mesa. Laura deu de ombros. O que importava de fato era o conteúdo. Se o café e tudo o mais estivesse de acordo com o seu gosto, então tudo bem. Lambuzou-se na manteiga, nos doces, no mel, misturando-os nos pedaços de pão que esfacelava na mesa com uma das mãos, enquanto fazia um barulho absurdo sorvendo o café.

Lúcia repugnava-se com aquelas atitudes, mas fingia não perceber. Perguntou se apreciara o café. Laura respondeu com uma pergunta, com a boca cheia e mal conseguindo falar.

– E você, não vai comer nada?

– A senhora esqueceu? Eu já havia tomado o café.

– ahã, ahã.

Laura falava o mínimo necessário e comia o máximo permitido por seu estômago. Olhava de vesgueio para a filha, como se perguntando por que ela ficava ali, plantada, observando-a.

Entretanto, era bom que assim fosse, precisavam conversar e estava convencida que era isso que ela esperava. Embora, Lúcia sempre a acompanhasse, daquele modo solitário, como se estivesse sozinha o tempo todo. No fundo, era uma boa filha, apesar de sua chatice insuportável, às vezes. Mas era a sua família. Eram só as duas e precisavam uma da outra. Tomou o café e repetiu, entornando o que sobrou do bule. Repetiu a maratona do apetite e parou em seguida, estalando a língua para sugar o que restava de comida.

Lúcia baixou a cabeça, fingindo arrumar as fatias que sobraram na cesta. Levantou-se para retirar a louça, mas Laura segurou-a pelo braço, sugerindo que deixasse aquela tarefa para mais tarde. Tinha um assunto importante para tratar.

Lúcia tornou a sentar, exausta. As atitudes da mãe normalmente a cansavam, davam-lhe um desalento, uma dor na alma, que não sabia como explicar. Amava-a muito, mas ao mesmo tempo, alguma coisa nela a incomodava profundamente. Não era nem a sua maneira de se portar à mesa, talvez o modo arrogante de lhe falar, de se fazer obedecer. Não sabia. Talvez nunca descobrisse.

Então começou o assunto que a embaraçava: –– sei que quer falar comigo. Ontem, me disse que quer ser minha cúmplice, só não entendi em quê.

Laura a olhou demoradamente, percebendo nela uma hesitação falsa. No fundo, sabia muito bem do que se tratava, mas se queria jogar daquela maneira, que o fosse.

–– Lúcia, você sabe que eu a amo muito. Nunca lhe disse estas coisas, assim, abertamente porque....bem, não é esta a minha maneira de ser. E depois, sempre achei que não era necessário.

Lúcia ficou à espera. Já conhecia aqueles rodeios e prefácios, que sempre fazia, quando queria atingi-la. Desde criança. Tinha vontade de dizer-lhe “mamãe, direto ao assunto. Esta jogada é conhecida”. Como era de costume, calou-se.

Laura prosseguiu no mesmo tom de discurso teatral. A voz grave, tinha eivas de suavidade poucas vezes demonstrada.

–– Mas, exatamente por isso, estou sempre do seu lado, para o que der e vier. Ao que me referi de ser cúmplice, eu falei em relação ao que você praticou e ao que pretende conseguir com esta história do convento, das suas amigas, de Irmã Dolores...

Ao falar em Irmã Dolores, ela acentuou a voz, como se deixasse uma dúvida no ar, quase uma acusação. Lúcia não entendera ainda qual era o seu objetivo.

–– A senhora refere-se à carta de Irmã Dolores?

Laura rapidamente acrescentou que sabia de tudo: da carta, dos envolvimentos das amigas, do desejo da Irmã em reunir as quatro.

–– Mas a senhora estava no hospital, como sabe dos detalhes?

Laura olhou para a janela da rua, que dava para o quintal. Uma nesga de sol batia bem nos olhos, então, arrastou a cadeira com a bunda, um pouco para a direita. Lúcia tornou a perguntar sobre os detalhes, se não tivera tempo de esclarecer-lhe, nem lhe contar sobre o encontro com Madalena, a morte de Ana, a presumível volta de Bárbara.

–– Eu já sabia de tudo, muito antes de você.

Lúcia surpreendeu-se com aquela revelação. “Como assim?” A mãe estaria inventando aquela história absurda, como ela poderia saber se tudo aconteceu no dia em que voltara do convento.

–– Tudo aconteceu no dia em que você voltou do convento e a Irmã Carlota esteve aqui, conversando com você. Naquela noite, eu desapareci.

Lúcia lembrou-se o quanto havia se preocupado com o desaparecimento da mãe naquela noite. Dissera que tinha ido à farmácia, acabou dormindo a sono solto enquanto ela agitada, não conseguia relaxar. E além de tudo, ela ainda lhe aprontara aquele susto. Ainda havia outra revelação sobre aquela noite fatídica?

–– Naquela noite, eu fui ao convento.

Lúcia por um momento, sentiu um arrepio estranho percorrer-lhe o corpo e largou os braços subitamente sobre mesa, apoiados em que estavam nos cotovelos. Mas logo, imaginou que tudo aquilo não passava de uma bobagem, que a mãe pretendia aprontar-lhe outra de suas sandices. Por isso, continuou calada, esperando o desfecho.

– Como lhe disse, fui ao convento e conversei longamente com Irmã Carlota.

Desta vez, Lúcia reagiu. Como abririam o mosteiro, àquela hora da noite? Sua mãe imaginava que ela era uma idiota.

–– Eu me identifiquei na porta e todas estavam na capela, pelo menos as mais jovens, em oração, pela alma de Irmã Dolores.

Novamente o arrepio percorreu o corpo de Lúcia. Havia certo sentido nas palavras da mãe. Realmente, aquela noite, as irmãs passaram o tempo todo na capela. Mas por que abririam a porta para ela.

–– Eu me identifiquei, como lhe disse. Expliquei que era a sua mãe, na verdade Irmã Carlota me conhece muito bem e a maioria delas também, não só por você ter estudado tantos anos na escola, mas por mim, mas pelos meus bordados. Sou tão boa quanto elas nisso, e colaboro muito nas campanhas que fazem para o auxílio às meninas órfãs.

–– Está bem, digamos que Irmã Carlota a recebeu. E o que a senhora foi fazer lá?

––Tomar explicações dela. Percebi que você ficou amuada com a história toda, muito triste e até sugeriu que eu bordasse a mortalha para a velhinha e se não fosse aquela pazada que você me deu na minha cabeça, eu a teria feito!

–– Por favor, mamãe, vamos esquecer isso, sim?

–– É difícil esquecer. São dores muito intensas. Não só na cabeça, mas na alma.

Mais uma vez um tom teatral, um gesto articulado, de quem se organiza para entrar em cena. Mas logo, voltou ao normal, prosseguindo a explicação. Afirmou que Irmã Carlota havia contado em detalhes o pedido de Irmã Dolores, sobre a carta, a linguagem indecifrada, uma língua estranha.

––Muito bem, a senhora sabe de tudo. E em que isso pode me ajudar?

––Quero participar com você dos seus planos.

––Eu não tenho planos.

––Como não tem? Se não tem é uma boba. Há um segredo nisso ai, um segredo que pode prejudicar uma das três. Alguma coisa que não deveria ser revelada.

––E daí?

––Daí que precisamos tirar vantagem, de alguma forma. Ganhar algum dinheiro, quem sabe. E depois, você está enrolada ate o pescoço.

––Como assim?

––Ora Lúcia, eu não nasci ontem. Minha filha, eu só quero ajudar você, não me importa o que você fez, eu estou do seu lado.

––Mas eu não fiz nada.

––Tem certeza?

––Eu não sei do que está falando.

––Estou falando de Irmã Dolores. Você matou Irmã Dolores.

–– O que?

Lúcia gritou num susto. De repente, era como se um vergalhão de ferro despencava sobre sua cabeça, achatando-a ao solo de forma tão intensa, que não conseguia respirar. Sentia a garganta fechar e uma agonia que acelerava o peito, sem poder falar ou fazer qualquer gesto.

Laura aproximou-se devagar, acenando a cabeça e apertando os lábios, detonando um leve ruído, como se dissesse para si mesma, que a filha sempre fazia aquele escândalo, quando se sentia acuada. Desde pequena. Pediu que esperasse, traria a bombinha para a asma e ela logo, logo ficaria bem.

Afastou-se depressa dando uma última olhada, como a esperar as próximas etapas. Quando voltou, acionou a bombinha, oferecendo-lhe a vida de volta. Sentou-se à sua frente, na mesa onde tomara o café e ficou à espera da melhora de Lúcia. Não tinha pressa. ––Então, está melhor?

Lúcia não respondera. Parecia fisicamente bem, embora confusa com a acusação da mãe. Levantou-se, tentando afastar-se, mas Laura a pegou pelo braço, com força. A voz suave, o jeito desarmado. Na medida certa.

––Por favor, fique.

Lúcia voltou-se e a fitou com ódio: –– você é louca.

Laura calou-se por um instante. Em seguida, vendo a filha afastar-se, concordou com o que dissera: ––todos somos loucos. Nesta vida que levamos, não há pessoas inteiramente lúcidas.

Lúcia fingiu não ouvi-la e fechou a porta atrás de si. Laura deixou-se ficar. Olhou para os lados, para a janela que dava para o quintal e sorriu. Estava um dia lindo, destes quase primaveris. Não parecia inverno. Sentiu um frenesi no corpo, uma sensação agradável, que há tanto tempo não experimentava.

Levantou-se desajeitada, empurrando a cadeira com o próprio corpo, chocando o quadril na quina da mesa e resmungou, deixando a cozinha e arrastando os chinelos. É, fazia um lindo dia lá fora.

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