O DOCE BORDADO AZUL - CAPÍTULO 10º

Todas as terças-feiras e quintas publicarei capítulos em sequência do romance "O doce bordado azul". A seguir o 10º capítulo.

Capítulo X

A volta

Lúcia percorreu sem pressa os jardins do convento, como se pretendesse retardar ao máximo o encontro. Estava e aflita. Não havia o que temer. Apenas, sentia-se insegura, como se o seu futuro se decidisse naquele encontro, considerado absurdo alguns dias atrás.
Ao chegar na sala de reuniões, foi recebida por Irmã Carlota, que parecia ansiosa, segurando-a pelo braço, como e a poupasse de uma entrada desagradável. Talvez quisesse preparar-lhe o espírito. Conhecia Irmã Carlota há tantos anos e nunca a vira tão insegura.

––O que aconteceu Irmã? Parece que não quer que eu entre...

Percebera que a freira estava pálida. Nunca esperaria a resposta tão incisiva.

––É verdade. Não quero que você entre. Estava esperando-a para impedi-la.

––Não estou entendendo. Foi a senhora que me convidou, quase me intimou.

A freira conduziu-a pelo corredor. Pediu que se dirigissem à capela, no lado oposto onde se encontravam, apenas atravessando uma porta transversal que dava para o pátio. Lúcia a seguiu, sem entender o que estava acontecendo. Percebia alguma coisa muito desagradável no ar, mas não conseguia identificar ainda na atitude da freira. Em seguida, entraram na capela, quase vazia. Viu a freira persignar-se, rápida, de maneira involuntária, rotineira. Ajoelhou-se um segundo, acompanhada de Lúcia. Depois, ambas sentaram-se no penúltimo banco. Silêncio absoluto. A freira respirou fundo, olhou-a de soslaio e tropeçou nas palavras.

––Achei ...achei melhor....bem, pensei que não seria o momento adequado para o encontro.

Lúcia a olhou por um instante, indignada. Depois de tanto tempo, tanta espera. Afinal, o que estava acontecendo? Por que ela a impediria de encontrar a amiga há tanto tempo afastada?

––Pensei que numa outra oportunidade, você pudesse se encontrar apenas com Bárbara, sozinha. Seria menos embaraçoso.

Lúcia levantou-se, num salto, perguntando, exasperada.

––Embaraçoso por quê? Irmã, quer me dizer o que está acontecendo aqui?

A freira constrangida pede que ela se acalme. Ali, na capela não é lugar para discussões alteradas.

––Eu também acho. Afinal de contas, estava me dirigindo à sala de reuniões para encontrar as minhas amigas e a senhora me impediu. Por quê?

Irmã Carlota a olha complacente e por um momento, remonta ao passado, como se a visse criança, tal como era, naquela época.

––Você sempre foi a mais exaltada das quatro. Sempre a que mais exigiu de nós, da escola. A que sempre questionou tudo e dava palpites sobre qualquer assunto.

Lúcia informou que não tinha paciência para as recordações da freira. Se estava probida de ir ao encontro, então sairia imediatamente dali. Nada tinha a fazer se não era bem aceita no lugar. Irmã Carlota refutou, quase suplicante.

–– Não se trata disso, de modo algum.

–– Então por que a senhora não me esclarece o que está acontecendo?

Pela primeira vez, ela referiu-se ao caso, olhos sombrios, desafiando-se a si mesma a prosseguir o assunto.

––É tão constrangedor...

––A que se refere irmã?

Levantou-se, encarou Lúcia de uma forma estranha. Pediu que se afastassem dalie fossem até o escritório. Não se sentia bem comentar o assunto na capela.

–– Sabe o que parece, Irmã, é que estão me fazendo de boba. Não me deixam entrar na sala, a senhora me traz para a capela porque seria um lugar mais tranquilo, e agora quer conversar no escritório.

––É que na verdade, não estou me sentindo bem. E fui eu quem a impediu que entrasse.

––Ah, isso eu sei! A senhora me pegou pelo braço, como seu eu fosse uma enxerida!

––Eu queria poupá-la da situação. Talvez mais à Madalena, que estava desolada.

––Por quê?

A freira se deslocava rápida por entre os bancos, tropeçando num, derrubando inadvertidamente uma pequena pilha de livros de rezas, ao que Lúcia ajoelhou-se para juntá-los, enquanto esperava uma resposta contundente. Mas ela mostrava-se ainda mais insegura. Apontou para o chão pedindo que deixasse tudo assim espalhado como ficara e rogou, humilde.

––Vamos, venha comigo ao escritório. Não quero mais falar nada aqui. Estou passando mal, veja as minhas mãos, estão tremendo. Por favor, Lúcia, faça o que estou lhe pedindo.

Lúcia a seguiu silenciosa. Observava a figura magra da irmã a sua frente, de braços cruzados e passos incertos no sapato preto, de salto baixo. Vestia-se de cinza, uma espécie de hábito moderno, sem os adereços antigos, como lapelas e véus. Apenas o cabelo curto, sem nenhuma maquiagem, os olhos outrora tranquilos, agora atribulados, a pele descansada, agora sem viço, a face trêmula, cheia de tiques ao sabor do nervosismo. Lúcia a examinava. Que segredo terrível fora revelado naquela sala e certamente através de Bárbara, pois Madalena, tanto quanto ela desconhecia o tema da reunião, a não ser o que se relacionava com o próprio passado.

Neste momento, Lúcia esboçou um leve sorriso. Sentiu-se novamente segura, consciente de seus propósitos. Olhava para a irmã com desdém. Então tudo viera à tona e as virgenzinhas estavam enrubescidas. Seguramente, a carta de Irmã Dolores aflorara o conflito de um passado enterrado e jamais exposto.

Quando chegaram ao escritório, Irmã Carlota voltou-se para ela, antecipando-se ao gesto de abrir a porta, pedindo que esperasse um pouco. Queria certificar-se de que estava vazia. Lúcia assentiu, benévola. Por um momento, as duas pararam olhando pela janela do corredor que dava para o jardim. Madalena e Bárbara afastavam-se rápidas pelos canteiros, dirigindo-se para fora do convento. Lúcia pensou em chamá-las, mas de nada adiantaria. O melhor era saber da boca de Irmã Carlota a tal revelação.

A freira voltou-se para a porta e a abriu devagar. Girou a maçaneta com cuidado, entrou e examinou o ambiente, pois não queria testemunhas à conversa. Com um gesto, indicou a entrada para Lúcia e em seguda, fechou a porta à chave. Lúcia olhou ao redor, observou as poltronas de couro, a mesa maciça de jacarandá, as estantes de madeira repletas de livros que se erguem até o teto, as luminárias luxuosas de um tempo passado, de abundância e ostentação.

Irmã Carlota apontou-lhe a poltrona que ficava em frente da mesa, à esquerda da que sentaria. Lúcia afundou na poltrona, satisfeita. Observou-a com olhar tranquilo, pensando nas palavras da mãe. Por um instante, a viu ali, mergulhada naquela imensa poltrona que para ela ficaria pequena, tateando os braços abalroados contra o peito, olhando ensimesmada para a freira ou para ela, ou mesmo para as duas ao mesmo tempo, pronunciando frases desconexas, afirmando que teriam de tirar partido da situação, serem sócias, sócias no crime, sócias na vigarice. Sentiu um arrepio. Aquele jeito virulento da mãe a afligia. Suspirou fundo, tentando livrar-se de sua presença perniciosa.

Nisso, percebeu que a freira deu uma volta pela mesa, pegou um livro, largou-o como se não a interessasse e aproximou-se devagar, sentando bem a sua frente. Olhou-a, esperando uma resposta. Irmã Carlota mostrou dificuldade em começar o assunto. Percebia-se na voz estremecida, quase gutural, nos gestos rápidos, no olhar que se perdia nas estantes ou numa fresta da janela, cuja luz incidia num canto da sala. Lúcia, quase perguntou “ e então?”, mas ela iniciou o assunto precavida.

–– Lúcia, o assunto é sério. Na verdade, é grave, muito grave. De certa maneira, desestrutura a nossa vida no convento e pode trazer desdobramentos desconhecidos, que podem atingir em cheio a nossa instituição, se tudo vier a público.

Mais uma vez Lúcia ia perguntar, “mas então do que se trata?”. Aquietou-se porém e viu que a luz incidia agora nos óculos de Irmã Carlota e que um pequeno mosquito passeava por uma lente, fixando moradia num cantinho. Sabia que aquele incômodo a faria tirar os óculos, limpá-los sofregamente e interromper o assunto. Mas aquele mosquitinho preto a incomodava em demasia. Como é que a freira não percebia? Dava raiva. Tinha vontade de falar-lhe, de exigir que tirasse os óculos. O inseto se agrandava, encobrindo completamente a lente. Agora, ela não mais enxergaria. E não lhe contaria o que estava por revelar. Foi então que a freira pacientemente retirou os óculos, olhou-os delicadamente, examinou com cuidado as lentes, descobriu o que lhe incomodava, limpou com um lencinho branco, assoprou embaciando as lentes e limpou-os novamente para voltar a encaixá-los no nariz.

Lúcia suspirou aliviada.

Em seguida, a Irmã prosseguiu, mas ela não a ouvia muito bem, tudo a importunava, ficava observando de forma involuntária, cada gesto, cada mexida na poltrona, até um olhar mais denso e demorado. Como se estivesse sendo examinada pela irmã e por conseguinte acusada. Balançava a perna descontrolada, fazendo barulho no assoalho. Não tinha sido uma pessoa boa. Afinal, ficara feliz ao descobrir segredo de Madalena e lhe fizera chantagem, embora não soubesse se o que seria revelado tinha a ver com isso. Entretanto, tinha a impressão de que a irmã sabia de tudo e por isso estava ali para julgá-la, acusá-la, como se fosse a única culpada.

Começou a suor frio. Sentia-se tensa e infeliz. Levantou-se. Não ouviria mais nada. Que se danassem todas elas. Se não queriam a sua presença, que sumissem de sua vida e nunca mais aparecessem. Logo ela, que sempre fora compreensiva, amiga das três, conhecedora de seus segredos, sem jamais revelá-los a ninguém, a não ser à mãe, é claro. Agora, sentia-se retraída, expurgada do convívio do grupo. Ao levantar-se, percebeu que a irmã havia feito o mesmo e estava a sua frente, encarando-a, corajosa. Então, disse: – vou embora.

Irmã Carlota ficou surpresa. Não entendia a sua atitude. Ela, que se sentia afrontada por não ter comparecido à reunião, agora recusava-se a ouvir o motivo.

–– Por favor, Lúcia, o que está acontecendo?

–– Sabe, irmã, eu não sei o que estou fazendo aqui. Não tenho nada com isso, com esta história.

–– Como não tem? Você é parte integrante deste convento. Além de estudar vários anos, de ter toda a sua vida acadêmica aqui, você ainda fez um maravilhoso trabalho voluntário.

–– E sou reconhecida por isso, tem certeza?

––É claro que reconhecemos o seu trabalho. Você esteve ao lado de irmã Dolores até o fim, até os seus últimos momentos.

A freira interrompeu-se, embargando a voz – e não a abandonou jamais. Você a fez viver melhor, com mais qualidade de vida, com carinho, porque estava próxima, sempre ao seu lado. Você tem que compreender que todas reconhecemos tudo o que você fez.

––Mas então por que fui rejeitada?

––Não se trata disso. E se me deixasse explicar, você compreenderia o motivo de eu tê-la trazido para cá.

––Sabe o que é irmã, eu acho isso tudo absurdo, irreal. Acho que tudo não passa de uma bobagem.

––Tem uma dose de absurdo, de surrealismo sim. Mas as coisas aconteceram e não se pôde evitá-las. Espere ai, sente-se, eu vou pedir um chá. Tenho certeza de que as coisas se esclarecerão melhor.

Não disse nada, apenas a seguiu com um olhar. A freira acionou o fone para alguém que lhe traria o chá e ficou à espera, como se não houvesse nada a fazer a não ser jogar conversa fora.

Lúcia se remexia na poltrona. Quando bateram na porta, pensou que a mulher obesa que surgia não passava de um quadro mal pintado, feito às pressas, sem nenhuma qualidade artística. Conhecia-a há tanto tempo, mas aquela figura obtusa sempre a surpreendia. A maneira omissa de ver o mundo, perdida no seu mundinho em preto e branco do convento, os gestos já esperados, e o pior de tudo, a forma aviltada de se diminuir em frente às freiras. Era impossível não reconhecê-la, nem deixar de odiá-la. Afastou-se com um sorriso, em silêncio, correspondida por Lúcia, que também sorria, complacente. A freira apressou-se em servir o chá para as duas, sem perguntar a preferência de Lúcia. Em seguida, sorveu o líquido, sentindo o calor descendo-lhe escorregadio pela garganta. Lúcia a estudava com rigor. Quantas vezes a vira executar aquele gesto rotineiro, como se tudo se resumisse no ato de servir-se e gozar a suavidade do chá. Abaixou os olhos, quando a outra largou a xícara sobre a mesa e a fitou, com a expressão séria de quem vai detalhar uma tema gravíssimo.

––Lúcia, chegou a hora...

––É, chegou a hora Irmã.

––Já tomou o seu chá?

––Estou tomando o meu chá.

––Muito bem.

Irmã Carlota levantou-se e passeou pela sala, como se ministrasse uma aula. Olhou para as paredes, a janela que dava para o jardim, da qual já se vislumbrava pouca luminosidade e voltou-se para a mesa, permanecendo em pé.

––É um assunto que deve morrer aqui, nesta sala. Tudo o que for relatado, será esquecido definitivamente, tanto por mim, quanto por você.

Lúcia observou que ela tornava a sentar a sua frente. Imaginou, então que houvesse alguma coisa bem mais terrível do que já sabia há tanto tempo.

––Acho que muita coisa você já sabe.

––Por exemplo?

––Um segredo com o qual você chantageou Madalena.

Lúcia surpreendeu-se com a afirmação direta da freira. Ela sabia de tudo, das histórias de Madalena, do seu encontro com ela, e certamente das versões contadas por ela. Então aquela pequena reunião era uma armadilha para acusá-la, para aliviar a culpa das outras. Limitou-se porém a abaixar os olhos, humilde, mostrando uma culpa que não sentia, articulando apenas uma frase.

–– A senhora então sabia de tudo.

––Não, eu não sabia de nada. Mas pela sua atitude, você concorda que agiu errado, que estava valendo-se de... de um problema para tirar vantagem.

Lúcia sabe que a melhor estratégia é demonstrar fragilidade, quase desespero. Recuar, para mais tarde alcançar a vitória.

––Sei que errei. Usei de uma artimanha terrível, mas estou desempregada há tanto tempo! Encontrei em Madalena a solução para os meus problemas, já que ela poderia me arranjar um emprego, só isso, Irmã, nada mais!

––Mas desta forma! Fazendo chantagem!

Lúcia respira fundo, passa o dorso das mãos sobre os olhos, como se enxugasse uma lágrima, pensando “como odeio esta freira”. Entretanto apenas suspirava e vez que outra, a olhava suavemente, em súplica.

Irmã Carlota serviu-se novamente do chá. Limpou a garganta e expressou uma espécie de sentimento de culpa, considerando demasiada qualquer censura naquele momento. Então, resolveu relatar toda a história.

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