O DOCE BORDADO AZUL - 2º CAPÍTULO

Todas as terças-feiras e quinta-feiras publicarei capítulos em sequência do romance "O doce bordado azul". A seguir o segundo capítulo.(quinta-feira 01/10/2015)

Capítulo II

O estorvo


Lúcia estirou-se na cama desfeita, talvez pensando em dormir e esquecer tudo que havia acontecido: a morte de Irmã Dolores, a visita de Irmã Carlota, o comunicado, a carta. Não queria saber nada daquilo, por enquanto. Mas os pensamentos a induziam ao problema, por mais que quisesse dispersá-los, estavam em sua mente, alertas, viçosos, firmes, à espera de uma solução.

Pensou no bordado primaveril da mãe. Percebia nele, os caminhos suaves, bem demarcados, conduzindo a um mundo ensolarado, de paz e alegria. Gostava dos bordados. Tinha carinho por eles. Conhecia-os desde que se tomara por gente. A mãe bordando, sentada na poltrona, encostada na janela, olhando de vez em quando para a rua, para a vida. Raramente a via sair, e quando o fazia, parece que escolhia o momento em que ela não se encontrava em casa. Ou estava na escola, ou na casa de uma amiga ou no trabalho. Mas quando voltava, ela permanecia lá, na mesma posição, como se jamais houvesse saído. Era uma mulher estranha. Tinha um ar severo, rugas na testa que se delineavam de uma forma tão peculiar, que parecia um desenho animado, desses em que velhas matronas desafiam os maridos com rolo de macarrão, apresentando as sobrancelhas em pé. Além disso, fora engordando a cada dia, devido à vida sedentária que levava aliada aos inúmeros copos de refrigerante que costumava tomar. Podia sentir o arrastar de chinelos pelo corredor à fora, as pernas grossas, as panturrilhas dobradas, apertadas por ligas, a barriga deformada, os seios enormes, caídos, o colo parecendo um mondongo, a boca dilacerada por aftas, a voz esganiçada, alternada em altos e baixos. Um olhar agressivo.

Lúcia sempre a via assim, em seus momentos de solidão, pensamentos à solta, contidos no quarto, seu refúgio. Perdida, procurando no âmago uma verdade para a sua vida. Por que ler a carta agora? Por que inteirar-se de umas bobagens de alguém que já morreu, que nada mais lhe pode transmitir, nem saudade.

Às vezes, odiava aquela freira e somente a visitava num ato de pura formalidade. Levantou-se da cama e começou a por em ordem alguns objetos: tudo parecia em desalinho, quase um caos. A cômoda alta, antiga, que fora de sua avó, estava empoeirada e alguns livros pendiam, empilhados, num dos extremos e um mínimo movimento os levaria ao chão. Então, diligentemente, arrumou-os, após esfregar o cotovelo com desleixo. Em seguida, esqueceu a arrumação e dirigiu-se ao espelho oval, que cobria praticamente toda a parede ao lado da cama. Examinou-se cuidadosamente. Estava horrível! Como se atrevera a aparecer assim, vestida daquela maneira, na frente de Irmã Carlota. Estes pensamentos irritaram-na profundamente.

Desfez-se rápida das roupas, e partiu para o banho, como se assim, pudesse reparar o modo negligente de se vestir.

Deixou-se ficar um bom tempo, até ficar completamente embaçado o banheiro. Nada se via, a não ser uma névoa branca de vapor que tomava conta do ambiente, tirando o brilho do espelho, molhando as paredes, inserindo-se pelas frestas da janela. Gotas frias pingavam do teto. Limpou com as mãos o espelho e começou a secar os cabelos, cuidadosamente, num ritual demorado, prólogo de todo o processo de limpeza e embelezamento. Falou consigo “preciso pintar estes cabelos” e calou-se, olhando-se demoradamente como se não se reconhecesse, naquele momento. Mas era ela, Lúcia. Uma mulher de trinta anos, nem bonita nem feia, de traços comuns, cabelos meio curtos, um pouco acima dos ombros, pele branca, sem rugas, apenas alguns vestígios do sol. Os olhos negros e grandes era o que tinha de mais bonito, mas desequilibravam-se de certa forma, com o seu biótipo tão branco, rosto quadrado e lábios finos. Tinha-se a impressão que usava lentes de contato, tal era a discrepância do olhar, às vezes frio, calculista, às vezes absorto, ausente, às vezes doce e angelical. Tinha estatura média, e um corpo razoável. Seios pequenos, meio infantis, mas cintura fina e bunda arrebitada. Sabia disso, e em não raros momentos, ressaltava estes predicados, usando calças justas e blusas que deixassem a barriga à mostra, mas quando se dirigia ao mosteiro, usava roupas sóbrias e recatadas. Era uma mulher de muitos valores, entre os quais a excentricidade se tornava algo comum.

Vestiu o roupão sem usar nenhuma peça íntima. Gostava de sentir-se assim, à vontade, despreocupada, quando estava sozinha no quarto. Afinal, ninguém viria importuná-la e se a mãe o fizesse, fingiria que estava dormindo. Começou a arrumar a cama, dispondo os lençóis como se tivesse levantado naquele momento e se arrumado para sair. Parou um momento, olhando em redor, avaliando as tarefas que executara, sentindo-se bem em tê-las concluído. Passeou pelo quarto, vestiu as pantufas e pisou na carta, dando-se conta de que havia caído da cama. Empurrou com descaso para baixo da cama. Naquela noite, não lhe interessava nada do que ocorrera durante o dia. Resolveria isso na manhã seguinte e por isso resolveu dormir. Dormir significava esquecer, pensar noutras coisas que enlevassem o espírito, que a ajudassem a sonhar. Quem sabe, arrumaria um outro emprego. Depois de seis meses desempregada, sem o seguro desemprego, naquela penúria em que viviam, tudo estava ficando mais difícil. Cansara de suplicar no mosteiro, de mostrar-se prestimosa, em fazer pequenos serviços, doações do seu dia, na esperança que surgisse uma oportunidade. Afinal, tinha o curso técnico de enfermeira, sabia injetar qualquer líquido em qualquer veia mais arredia. Conhecera pessoas, tinha trabalhado em hospitais, em clínicas especializadas, não era uma qualquer, sem eira nem beira. Tinha uma profissão. A bem da verdade, não tinha curso superior e agora grassavam como erva daninha, qualquer um mais desqualificado do que ela esfregava-lhe um diploma na cara. Mas ela tinha experiência, foram anos de serviços prestados aos mais diferentes estabelecimentos médicos.

Agora as coisas ficavam cada vez mais difíceis e ela tinha que se humilhar levando currículos, ouvindo pessoas despreparadas a informar-lhe sobre condições de trabalho, até que surgira a oportunidade de entrar naquele mosteiro, prestar serviços gratuitos na expectativa de finalmente arranjar alguma atividade decente. O destino lhe reservara uma chance inesperada, quando a enviou para lá. Fora um acaso. Um acaso bom, mas que agora se mostrava insípido, cheio de incertezas, de problemas que eram colocados na sua mesa. Ouvia a tosse da mãe que vinha do quarto, quase um ganido de animal agonizante. Às vezes, sentia raiva da mãe. Era um sentimento meio absurdo, conflituoso, mas não gostava daquele seu jeito intrometido, daquela voz insossa quando o assunto lhe era desinteressante ou alta e esganiçada quando lhe era de bom alvitre discutir. Tinha raiva porque ficava na eterna pachorra de ver os dias passarem na sua janela, na pasmaceira do bairro, envolta em fofocas dos vizinhos, eternamente presa na casa que construíra. Mas ao mesmo tempo, admirava o quanto de sensibilidade punha em seus bordados, suas rendas, seus afazeres quase artísticos. Se tivessem dinheiro suficiente, contrataria uma empregada, uma pessoa que a ajudasse nos afazeres, até mesmo para que as coisas não ficassem naquele caos diário, onde tudo estava sempre por fazer. O único ato religioso era o bordado. Deste ela não abria mão.

Esqueceu-a de vez e resolveu arrumar os seus documentos, abrir seus arquivos no computador, organizar seu currículo, quem sabe acrescentar dados que faltavam, empregos omitidos ou eventos que não participara. Talvez realizar um outro, diferente, bem mais qualificado, com cursos mais adequados a sua carreira. Cursos freqüentados em uma escola desconhecida, noutra cidade, por que não dar uma ajuda ao destino? Afinal, o que ocorrera no último emprego não passara de uma armação contra ela. Ela que havia sido diligente, aplicada e pontual, sempre afeita a aprender, a aperfeiçoar os seus conhecimentos, a tornar-se íntima, próxima às pessoas, servil, a ponto de ajudá-las em suas míseras necessidades. Ela, incompreendida e corrida como uma cachorra vadia, daquela clinica medíocre. Um dia, talvez, tirasse tudo a limpo e revelasse a todos quem era Lúcia Torrina. Fechou os arquivos, irritada. Aqueles pensamentos desagradáveis tinham o dom de desandar os seus objetivos. Além disso, o pc velho não ajudava muito, sempre travando o cursor, a imagem saltitando na tela, os brilhos em reflexos verdes como antecipando uma desgraça. Desgraça maior era um equipamento obsoleto e bisonho. Detestava-o, mas tinha que contentar-se com o estorvo. Talvez por isso tenha lembrado da mãe novamente. Estranho como ela tinha silenciado. A tosse cedera por completo, e olhe, quando ela tinha estes acessos, passava a noite toda azucrinando, parecendo que a qualquer momento fosse descambar ribanceira abaixo e morrer sufocada. Lúcia levantou-se da escrivaninha onde estivera ao usar o computador e dirigiu-se à porta, tentando ouvir alguma coisa que viesse do quarto da mãe. Afastou-se mais um pouco e aproximou-se de seu quarto, surpresa por não ouvir-lhe nem o ronco, som contumaz e intermitente que a acompanha todas as noites.

Chegou até a porta, encostou o ouvido e sentiu um frio percorrer-lhe a espinha. E se ela estivesse morta? E a mortalha, quem sabe não seria para ela? Mas quem a faria, senão ela que sabe bordar tão perfeitamente? Então, num ímpeto, abriu a porta e correu até a cama, mesmo no escuro, onde apenas parte da cama era iluminada pelo feixe de luzes que se derramavam pelo corredor.

Chegou num segundo, coração aos saltos, na boca, olhos arregalados, sentindo a presença atilada da morte.

Gritou pela mãe em desespero, mas ela não estava ali. Não estava ali? A mãe não estava? Custou-lhe entender que estava sozinha no quarto.

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