O DOCE BORDADO AZUL 1º CAPÍTULO

Todas as terças-feiras e quinta-feiras publicarei capítulos em sequência do romance "O doce bordado azul". A seguir o primeiro capítulo.

O DOCE BORDADO AZUL Capítulo I A mortalha

Chegava em casa, ofegante. Os cabelos em desalinho, a pele esbranquiçada, brilhante pela luz artificial do hall. Abriu a porta devagar, com os dedos trêmulos, as pernas ainda doíam pelo excesso de subir a ladeira, o salto do sapato titubeava no portal de pedra. A mãe lá dentro, absorta no bordado. Sentada na poltrona, perto da janela, mãos delicadas deslizando rápidas a linha branca, misturando-a com violeta, azul, amarela. Tudo ficou turvo nos olhos de Lúcia. Nem viu o bordado. Nem o deslizar suave da agulha, nem a voz enfadonha da mãe, perguntando se tinha chegado. Correu em direção ao quarto. Lavou várias vezes o rosto, ajeitou os cabelos, tentando se recompor. Respirou fundo e ficou observando o espelho embaçado por alguns minutos. Uma dor lancinante nas costas a fez gemer. Tentou dobrar o dorso, achar algum ferimento, perceber excessos. Doeu-lhe o pescoço no gesto imprevisível. Desistiu. Sem se dar conta, ensaboou de novo o rosto, molhando até os cabelos que caíam encharcados na testa. Secou-os com a mão firme, embora os dedos estivessem trêmulos e doloridos. Quando voltou para a sala, sentou em frente da mãe e ouviu-a perguntar se já havia jantado. Respondeu com um não absorto.

Algumas gotas do cabelo preto ainda corriam pelos olhos. Às vezes invadiam a pupila e ardiam, como se estivesse chorando. A mãe, prosseguia, sem levantar a cabeça: _Então, aqueça alguma coisa para você, no fogão. Ela a olhou, tentando entender a proposta. Respondeu distraída: _Não, é melhor não, Dona Laura. Desta vez, a mulher levantou a cabeça, fitando-a rapidamente. Logo, dedicou-se ao bordado e concluiu: _Você está esquisita, Lúcia.

O dedal caiu no chão e ela desconheceu o tombo. Esquivou-se de pegá-lo e prosseguiu onde estava. Lúcia respondeu, olhando para o nada ou para dentro de si mesma. Um olhar insano. Se estivesse drogada, a mãe saberia. Saberia? Não estava certa disso.

– Tô? Acho que não. Tô igual.

Laura parou um pouco o bordado. Levantou mais uma vez a cabeça e disse com absoluta convicção e até uma certa severidade na voz sumida: – mas parece.

Depois aquietou-se, esquecida do mundo. O bordado crescia majestoso, exuberante. Flores no campo, ramalhetes primaveris, luzes que se incendiavam na floresta escura.

Lúcia levantou-se, foi até a cozinha e aqueceu a comida. Tentou comer uma sopa do almoço, mas desistiu, abrindo apenas uma garrafa de leite. Encheu o copo e tomou-o de uma vez só, sem tirá-lo da boca. Depois, sentou-se à mesa, ainda segurando o copo com a mão esquerda. Seus pensamentos estavam distantes deste ambiente de sua vida familiar. Via-se no pátio enorme do convento, chegando devagar, da mesma maneira dissimulada como o fazia há mais de seis meses, ao encalço da velha freirinha, de saúde e memória frágil. Era conhecida por todos, ambientara-se bem no lugar, sentia-se em casa. Naquela manhã, resolvera passar o dia, participando das orações, da missa da tarde, do almoço comunitário, da visita às freiras doentes. Estava vestida de maneira sóbria, porém com certo requinte, talvez a elegância da gargantilha de ouro, acompanhada de brincos sofisticados. Os cabelos levemente penteados para trás, num corte médio, acima do pescoço, a maquiagem suave, perfeita, o olhar negro e angelical, oatentando quase uma auréola de santidade. O vestuário, de certa forma, assemelhava-se ao das freiras, pois consistia de uma saia evasê de um cinza claro, com uma blusa de linho branca, acompanhada de um casaquinho do mesmo fio. Na verdade, uma maneira de vestir antiquada para os dias atuais, mas ali, naquela atmosfera de absoluta severidade, revelava-se harmoniosa. Sorria poucas vezes, e quando o fazia, era de uma doçura cativante. Acompanhava Freira Dolores na sua cela, havia muito tempo. Trazia-lhe os bordados feitos pela mãe, exibia as cores, os debruados dos tecidos, a riqueza dos pontos, a perfeição dos arremates. Punha-lhe o dedo magro sobre o alto relevo, mostrando a delicadeza das formas. Naquela tarde, Irmã Dolores estava especialmente debilitada. Sua voz era inaudível e seus olhos mantinham uma opacidade cadavérica. As veias das mãos magras e manchadas ressaltavam no pano branco. Lúcia falava praticamente sozinha.

– Sabe qual é o meu maior desejo? É que a senhora se tornasse uma mulher forte, uma mulher de fibra, como era no passado. Não essa aberração em que se tornou! Sabia que dizia frases duras, até ofensivas, mas tinha lá suas técnicas. Queria encorajá-la a sobrepujar as dores, as fraquezas da idade. Quem sabe sobreviver a estas mediocridades da velhice e se tornar novamente um ser humano decente. Por isso, prosseguia enfática, embora percebesse a outra cada vez mais ausente.

– Está ficando mesmo um vale de lágrimas. Cada vez mais dependente de tudo e de todos. Parece uma barata, cheia de patas inúteis, transmitindo seus odores nojentos, podendo ser amassada com um só pé. E aproximando a cabeça bem próxima ao rosto da mulher, com os olhos fixos nos seus, exclama com voz rude e em tom baixo e ameaçador.

–Sabe que você não serve para mais nada? Está no fim. Não passa de um inseto fedido. A vontade que tenho é de pegar estes panos de pratos, estas toalhas e enforcá-la para acabar de uma vez por todas com este suplício. Cala-se de imediato, quando a porta se abre de súbito e uma das freiras do convento surge, anunciando alguma coisa. Então, seu olhar torna-se novamente suave e doce e a voz parece pairar no ar, tão leve e serena que se apresenta.

_Veja, Irmã Carlota, olhe a delicadeza dos bordados. A Irmã Dolores achou-os tão lindos que até se emocionou. Irmã Carlota franze o cenho, amuada. Aproxima-se devagar, curiosa. Nem percebe os bordados, fixa-se apenas na imagem desfalecida da freira. Aproxima-se mais um pouco e para, estupefata. _Lúcia, você não percebeu?

_Percebi sim, Irmã. A nossa querida Irmã Dolores está se restabelecendo dia a dia. Ela já se apruma no travesseiro, pronuncia algumas palavras e até sorri. Acho que Nosso Senhor tem piedade dela e certamente vai lhe trazer a cura.

_Lúcia, Ele já lhe trouxe a cura. A cura da alma. Ele a mandou para a eternidade. Lúcia silenciou não entendendo a que a outra se referia. Mas foi só por um momento. Abraçou-se em irmã Carlota, chorando desconsolada. Antes, porém, perguntara do jeito mais inocente que conseguira: _Irmã Dolores morreu? A senhora tem certeza?

Agora, aqueles pensamentos perturbadores a perseguem. Não gostaria de pensar em Irmã Dolores, no seu sofrimento nojento, na sua fragilidade medíocre, mas era impossível. Era tudo muito recente, muito presente no seu dia fatídico. Largou o copo sobre a mesa e levantou-se, dirigindo-se à pia. Estava tudo um lixo. Louças sujas amontoadas, panelas usadas no almoço, pratos lambuzados de sopa velha. Arregaçou as mangas da blusa e começou a abrir a torneira sobre a louça. _Vida miserável! - pensou. Quando a mãe surgiu à porta, teve um sobressalto. Ela raramente se levantava daquela maldita poltrona até que resolvesse dormir, ao menos que alguma coisa muito grave houvesse acontecido ou alguém a estivesse procurando. Às vezes, imaginava-a engordando intensamente, ao ponto de tornar-se tão obesa que jamais se levantaria da poltrona. Antes que a mãe falasse, resolveu dizer qualquer coisa, que lhe viesse à cabeça, fingindo indiferença.

_Sabe, mãe, estava pensando seriamente em colorir os cabelos de louro e cortá-los, o que você acha? Mudar o visual, é isso, mudar completamente. A mãe desaprova, abanando a cabeça, desanimada. Mas não viera até a cozinha para dar-se a conversas vãs, sem futuro, como pensava. Foi direto ao assunto.

_Estão procurando você. Lúcia riu, quem a procuraria àquela hora da noite, o que poderiam querer com ela? Deixa pra lá estas tolices, mãe. Volte para o seu bordado.

_Lúcia, eu não estou brincando. Estou falando sério.

Lúcia calou-se, alarmada, como se o furacão a envolvesse aos poucos, se aproximando, para arremessá-la para longe, antes que reagisse. Prendeu a respiração e perguntou quem a estava procurando, o que queriam?

_ O que querem, não sei. Mas é melhor você receber uma tal de Irmã Carlota.

Lúcia ficou subitamente assustada. Os olhos abriram-se mais do que de costume. Não hesitou em perguntar enfatizando o nome já conhecido: – Irmã Carlota?

A mãe respondeu displicente, dando de ombros, considerando o anunciado suficiente.

_Foi o que o nome que ela me deu. Não gosto dessa gente de hábito aqui em casa. São pessoas muito esquisitas.

Ficam observando tudo, parecendo se espantar com qualquer coisa diferente do que elas convivem. Parecem umas aves agoureiras. Mas, vá lá, que venha e resolva o que tem que resolver com você. Vá atender a mulher.

Lúcia fingiu desinteresse. Não queria demonstrar preocupação. Que ela voltasse ao seu trabalho, ao seu bordado, a sua pasmaceira de vida.

_Não sei o que ela quer comigo. Ao menos que precise da minha ajuda, você sabe que estou sempre por lá, no mosteiro, fazendo a minha parte.

A mãe sacudiu a cabeça insatisfeita. Não disse nada e afastou-se arrastando os chinelos, calcanhares espalhando-se pelo chão. Lúcia pegou uma toalha e secou os cabelos com energia. Depois, penteou-os rapidamente e foi atender a freira.

Irmã Carlota estava em pé, próxima à porta. Após avisar que Lúcia viria em seguida, Laura acomodou-se em sua poltrona, sem se importar com a visita. De vez enquanto, olhava de canto de olho para a mulher, com desconfiança, mantendo um ritmo mais enérgico no bordado. Lúcia entrou dirigindo-se à Irmã.

_Irmã Carlota, que lástima, a senhora aí, parada em pé. – e voltando-se para a mãe, censura-a por não convidar a irmã a sentar-se. Laura nem se deu ao incômodo em levantar a cabeça. Prosseguiu na faina de enlaçar aqui, puxar a linha dali até fazer um arco no ar, puxando devagar o fio, enfiando-o em seguida no tecido. Ficava assim, aparentemente entretida, mas vez que outra erguia a sobrancelha, dando conta da conversa. Irmã Carlota estava visivelmente tensa. Tentava, entretanto, mostrar-se firme e segura.

_Não se preocupe, Lúcia. Só vim aqui por necessidade. Na verdade, não costumamos sair a esta hora.

Lúcia convidou-a sentar, antes porém, perguntou-lhe se precisava falar em particular, ao que a outra retorquiu, dizendo apenas tratar de um assunto de seu interesse e que não se importava com a presença da mãe. Para ela estava bem assim.

_Não se incomode, irmã. A mãezinha está a par de tudo sobre a minha vida.

Desta vez Laura a olhou com um traço de ódio na censura explícita. Lúcia prosseguiu, tranquila, mas melancólica: – nós vivemos sozinhas nesta casa, desde que papai morreu...

Então, Laura a interrompeu, irritada.

_Afinal, quem veio contar alguma coisa nesta casa? A freira ou você? Deixe a mulher falar, por favor. Não vá desfiando o rosário da nossa vida.

Lúcia calou-se, enrubescida, pedindo desculpas, baixinho. Mais uma vez a mãe acenou a cabeça, descontente com o teatro da filha. A irmã se antecipou: – é verdade, Lúcia. Eu preciso falar-lhe sobre Ir. Dolores.

_Pobrezinha. Eu já imaginava.

Enxugou uma lágrima com as costas da mão esquerda e suspirou. _É sobre o enterro? Quer me dizer as horas?

_Bem, achei que você já soubesse disso. O velório será a noite toda na capela e amanhã a missa de corpo presente.

_É verdade, irmã. Estas providências já haviam sido tomadas. Mas do que se trata?

Irmã Carlota, muito pálida, os olhos claros, frios, pareciam por momentos, serem alimentados por uma luz intensa, deixando-os mais vivos e perspicazes.

_Uma carta. Irmã Dolores deixou uma carta para você.

Lúcia levantou-se atônita. Seus pensamentos confundiam-se num turbilhão de idas e vindas. Uma carta, um registro. O que ela pretendia, deixando-lhe uma carta? Tentou manter-se segura de si, mas percebeu que Laura a examinava com um leve sorriso no canto dos lábios.

_Me diga Irmã, uma carta, mas alguém a leu? Do que se trata?

A Irmã Carlota também levantou-se, seguindo o ritual. Fitou-a com um jeito interrogativo, mas negava que alguém a houvesse lido. Pelo menos, pelo que sabia.

_Quem encontrou a carta? Quantas pessoas tiveram acesso a ela?

_Lúcia, não estou entendendo este seu temor.

Lúcia sorriu, tentando desfazer a má impressão. Segurou as mãos, nervosa, jogando nelas toda a ansiedade contida, demonstrando assim, uma súbita serenidade.

_Sabe, Irmã. Eu adorava Irmã Dolores. Tudo que diz respeito a ela me toca muito. Deve ser uma carta carinhosa, talvez de despedida.

Irmã Carlota respondeu rápida, desfazendo a conclusão de Lúcia.

_Na verdade, ninguém sabe. Trata-se de uma língua estranha. Ainda não se conseguiu interpretar o sentido.

_Língua estranha? Desculpe irmã, mas eu considerava a irmã Dolores tão burrinha, com todo o respeito.

Irmã Carlota desafiou-a com um olhar cortante. A mãe mais uma vez sorriu, satisfeita, sem levantar a cabeça do bordado.

_Não me leve a mal, Irmã Carlota, eu jamais ofenderia uma pessoa tão doce, tão afável que acabou de nos deixar. Mas a senhora sabe, que ela era meio atrapalhada.

_Lúcia, isso não é problema seu. Não admitimos que julguem as freiras de nosso mosteiro.

_Desculpe, irmã, mais uma vez, eu lhe suplico, me perdoe.

_Na verdade, trata-se de uma língua de difícil tradução, que supomos ser russo. Nenhuma de nós a conhece. Talvez precise descobrir do que se trata.

_Mas por que está endereçada a mim?

_Ela tinha um grande apreço por você. Nestes meses em que fez o voluntariado, você angariou a amizade, principalmente de Irmã Dolores.

_E onde está a carta, irmã Carlota?

_Aí que o problema se torna mais complexo, Lúcia. Ela só deve ser lida na presença de outras três pessoas, na verdade, pessoas que você teve muito contato na infância e na adolescência.

_Como é que a senhora sabe de tudo isso?

_Porque Irmã Dolores deixou outra carta, endereçada a você, explicando todo o processo. Esta última carta está no mesmo envelope da anterior, sem destinatário.

_Outra carta?

_É verdade.

Tira um envelope branco da bolsa. _Estava aberta, não sabíamos a quem se dirigia, na verdade, pensávamos que era um bilhete endereçado à família. Descobrimos então o seu conteúdo. Aqui está. Leia, tire as suas conclusões e faça o que o seu coração mandar. Se por acaso não se interessar pela outra, não se preocupe. Pode ser apenas um texto, uma parábola da bíblia, nada demais – Irmã Carlota suspira, revirando os olhos, convicta - não havia segredos, nem mistérios na vida de Irmã Dolores.

Em seguida, ela despediu-se de uma maneira seca e prudente, como se tivesse cumprido uma missão espinhosa.

Lúcia correu até a porta, esperando-a afastar-se, dirigindo-se ao carro que estava a sua espera. Fechou a porta devagar, pensativa. O envelope estremecia em suas mãos, o olhar difuso, distante. A mãe acordou-a dos pensamentos.

_Então a velha empacotou?

_Mãe, isso são maneiras de falar? Logo você, uma mulher que vive para o bordado, que faz coisas tão finas, artísticas até, que usa a sensibilidade. Como pode se dirigir assim a uma pobre mulher, uma velha que estava no fim da vida?

Laura ia dizer alguma coisa, mas decidiu calar-se. Apenas suspirou, soltou as agulhas, as linhas, os panos e acrescentou: – Acabei!

Lucia que já estava quase saindo da sala, voltou correndo, feliz, como uma criança. Aproximou-se da mãe, ajoelhou-se e segurou com firmeza o bordado, os olhos vivazes, a boca ardente, cheia de júbilo: – Estão lindos. Soberbos. Mãe, você é maravilhosa!

Laura fez um muxoxo, percebendo o exagero da filha. Nem a ouviu perguntar o que pretendia fazer daquele bordado, uma toalha de mesa, um pano de almofada, uma colcha? Ouviu por acaso o final da frase e levantando-se com dificuldade, acrescentou: –Uma mortalha, talvez.

Puxou os chinelos com o pé direito, debaixo da poltrona e enfiou-os com a prática do gesto rotineiro. Saiu arrastando-os pela casa, enquanto Lúcia examinava os bordados, fascinada. Ainda ouvia o arrastar dos chinelos da mãe, enquanto a sua frase final martelava na cabeça, como ferro em bigorna. Repetia consigo, enlevada: –Uma mortalha, uma mortalha. Sim, por que não? Uma mortalha toda bordada, com linha de seda, de um branco puro, imaculado e imutável. Uma mortalha para Irmã Dolores.

Levantou-se inopinada, correndo em direção à cozinha, onde supunha que a mãe estivesse. De fato, estava lá, sentada à mesa, servindo-se da sopa do almoço, enfeitada de bananas cortadas em fatias.

–Você está jantando novamente?

–Que lhe interessa?

–Vai ficar gorda como uma porca!

Laura a fulminou com raiva, mas nada disse. Limitou-se a saborear a sopa que fumegava, embaçando os óculos de aros pretos e lentes grossas. Uma das lentes está rachada, com um traço na vertical. Não levanta a cabeça, absorta na comida.

Lúcia resolve sentar-se a sua frente, alterando a voz, tornando-a quase melodiosa. Diz-lhe com cuidado: –Achei lindos os seus bordados. Encantadores. Você está cada vez melhor.

Laura não diz nada. Finge não ouvi-la. Entretanto, pergunta: – você não leu a carta?

Lúcia parece acordada do pesadelo. Sente o coração palpitar rápido, inconstante. Apenas comenta: – não tive tempo. Mas não é nada demais. Sabe, acho que aquela Irmã Carlota é meio maluca.

_Não penso assim. Mas você é quem sabe.

Lúcia, recompondo-se do desconforto, refere-se à Irmã Dolores, com a intenção de falar sobre a mortalha.

_Sabe, mãe, gostaria muito de fazer uma homenagem à Irmã Dolores. Ela era uma pessoa especial. Doce como uma menina, suave como a brisa...

Laura a interrompe, impaciente.

_Chega destas lambições, você nunca teve muita paciência com aquelas velhas.

_Pois é, mas ela morreu. E gostava muito de mim, tanto que me deixou até uma carta!

_Sabe se lá que dores de cabeça vai lhe trazer esta carta!

Lúcia se irrita com a atitude da mãe, mas se contém, tentando não entrar no seu jogo. Prossegue na sua estratégia.

– Você borda tão bem. É tão eficiente, tão talentosa, que poderia até fazer uma mortalha.

_Uma mortalha? Você está louca!

_Você mesma falou!

_Estava zombando, você sabe.

_Sim, mas me deu uma ideia genial – e se expressa com uma vivacidade exagerada, como se avistasse mentalmente a cena. Irmã Dolores, vestida numa mortalha branca, bordada em lírios e arabescos dourados. Uma pombinha nos cantos, um véu transparente na pele enrijecida – uma mortalha para Irmã Dolores.

Laura limpa a boca engraxada, com o pano de pratos e levanta-se, empurrando a barriga na mesa, sujando a saia de sopa, que havia derramado ao tirar da panela. –Você está louca, e depois, a velha vai se enterrar amanhã e eu não vou passar a noite bordando uma mortalha.

– Ora, mãe. Esta gente leva dias para ser enterrada. Não são como os pobres mortais, como nós. No mínimo, vão embalsamar a velha por uns dois ou três dias, para que todos a visitem. A senhora vai ter tempo suficiente, por favor, mãe, faça isso por mim.

–E por que você quer tanto esta maldita mortalha?

–Sei lá, vaidade talvez. Mostrar a todos que eu a amava e que foi você, minha própria mãe talentosa quem bordou.

Laura se afastou da mesa e ficou palitando os dentes, extirpando os nacos de carne da sopa e ao mesmo tempo pensando no pedido da filha. Era realmente uma coisa sui generis, nunca ninguém havia bordado uma mortalha, pelo menos que ela tivesse conhecimento. Talvez lhe rendesse alguns dividendos, notícias no jornal, ser tomada como uma benemérita da igreja. Deu um grito de dor, quando deixou escapar o palito, enfiando na gengiva. Sentiu o sangue correr e correu para a pia para fazer gargarejo. Tomava o líquido com as mãos em concha e agitava-o na garganta cuspindo sem pudor na pia da louça. Lúcia olhava nauseada, mas não queria afrontá-la, suportaria tudo para ter a mortalha bordada. Limitou-se a esperar a decisão da mãe. Esta, após o processo de assepsia, afastou-se em direção à porta e disse que iria dormir. Lúcia, perguntou, frustrada: – não vai me ajudar? Não vai bordar a mortalha da velha?

Laura voltou-se e sorriu irônica.

–Vou dormir e amanhã, você vai no armarinho comprar tudo que precisamos para esta doce freirinha. Se esta gente não apodrece como todos os mortais, se até o Papa é capaz de vir beijar-lhe os pés, eu vou ter tempo de fazer o que você quer.

Lúcia levantou-se, num ímpeto, em sua direção para abraçá-la, agradecida, mas Laura fez um gesto impedindo-a com um boa noite seco, afastando-se.

Ao ficar sozinha, Lúcia dirigiu-se para o seu quarto, tirou o envelope de dentro do sutiã e resolveu ler a carta.

FIM DO 1º CAPÍTULO. O PRÓXIMO SERÁ PUBLICADO NA QUINTA-FEIRA, DIA 1º DE OUTUBRO.

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