As rádios locais e as tvs regionais, os sonhos e as mudanças culturais

Quando crianças, via de regra, temos um mundo interno muito rico, e um tanto dissonante com a realidade. As crianças vivem num mundo imaginário e interagem de acordo com a interpretação que estabelecem para si mesmas. Para os dias de hoje, é absurdo se pensar que alguém, até mesmo uma criança, possa imaginar que uma rádio local possa ter um elenco refinado de artistas, cantores, atores e atrizes que lá permancem para executar suas obras, fazer suas perfomances e encantar os ouvintes. Sabe-se que atualmente, tudo é gravado e a maioria dos programas vem dos grandes centros, principalmente do eixo Rio-São-Paulo onde a dramaturgia e os grandes shows musicais acontecem. Onde a música tem realmente importância comercial e os grandes artistas se salientam a partir destas “trincheiras" de arte e marketing. Por essa cultura dos grandes centros, as crianças de hoje e as pessoas em geral, sabem que a maioria dos sucessos vem de lá, que a arte regional é praticamente esquecida, com raríssimas excessões. As crianças, na verdade, nem pensam nisso. Elas assimilam esta situação, bem como os adultos em geral, que procuram nas páginas de seus jornais locais, notícias e fofocas de celebridades das grandes emissoras do centro do País, sem contar os sites que as popularizam e transformam em celebridades, pessoas que tem muito pouco ou nada a oferecer em termos de arte e cultura.

Mas, antigamente, muito antigamente, pelos idos dos 60 e 70, as coisas eram um pouco diferentes. A cultura regional era diversificada e havia programas regionais nas rádios locais e estaduais com muita audiência. A própria tv da capital tinha a sua programação regional nos horários nobres. A TV Gaúcha, por exemplo tinha uma programação de shows depois da novela das oito (novela que não era apenas da Globo, mas de outras emissoras, como a Excelsior, até se formar a sinistra rede nacional, onde se perdeu a criatividade regional e o povo brasileiro se padronizou conforme a ideologia doutrinária da emissora). Aliás, a TV Excelsior é um capítulo à parte na história da TV brasileira, pois foi banida do cenário televisivo porque seus administradores se opunham à ditadura. Mas isto, pode ser tema de outra crônica. Outras emissoras, como a TV Piratini, produzia peças teatrais com atores locais e shows aos sábados e domingos em horários que hoje são preenchidos pela programação das grandes redes, incluindo os programas religiosos aviltantes, uma troca fabulosa de benefícios financeiros.

Voltando à TV Piratini, que foi pioneira no Rio Grande do Sul, nos anos 60, ela apresentava uma programação regional extensa, incluindo o Repórter Esso, que era transitido em Porto Alegre por Ênio Rockenbach. Também havia o programa sobre futebol, chamado em "Mangas de Camisa”. Na culinária, o programa de Mimi Moro, além de outros programas populares, como o ‘Clube do Guri”, "TV Samba", com Sayão Lobado, "Grande Show Wallig", um programa realizado ao vivo, nos domingos, com astros da música local e até internacional, acompanhados de uma orquestra.
Na década de 70, havia o programa feminino "Elas por elas”, apresentado de segunda à sexta às tardes, cuja abertura trazia o tema “Un homme et une femme” de Paul Mauriat, do filme com o mesmo título. . Aliado à programação regional, havia a programação nacional através da TV Tupi. Por outro lado, a TV Gaúcha (atual RBS), trazia atrações ao vivo, como o Show do Gordo, com Ivan de Castro, GR show, com Glênio Reis, o show de luta livre, aos domingos, o programa Cidades frente a frente, na qual Rio Grande concorreu com Canoas e muitos outros programas. Na Tv Difusora (atual Band), entre outros, se destacava o "Programa Júlio Rosemberg", com atrações locais e nacionais, “bem como alguns programas infantis, como o "Recreio", apresentado pela Tia Bita e o menino Fabiano ” e mais tarde, o Carrossel Bandeirantes, apresentado pelo mágico Tio Tony. À noite, um programa de reportagens, chamado Camera 10 e ao meio-dia, um programa que ficou muito conhecido, chamado Portovisão que concorria diretamente com o Jornal do Almoço da TV Gaúcha.

Embora houvesse muita participação popular, as rádios locais também tinham a sua programação bem estruturada e com sucesso, inclusive oferencendo dramaturgia, que na época, era ao vivo. Na Rádio Minuano, havia uma peça teatral apresentada aos domingos, que se destacava na programação e os atores eram rio-grandinos. Havia programas de auditório, com calouros, nos quais se apresentavam muitos cantores da cidade e outros até seguiam em frente na carreira. Na rádio Cultura Riograndina, um dos seus maiores sucessos era o “Cafezinho telefone”, no qual fazendo juz ao título, a comunidade interagia pelo telefone, solicitando músicas. A característica músical, como se dizia na época, a música que identificava a abertura do programa era “”Os milionários”, dos Incríveis. Era um programa no qual o apresentador conversava tranquilamente com os ouvintes, que solicitavam músicas e entre uma e outra, ele fazia os anúncios de praxe, os ditos reclames (propagandas) e comentava curiosidades relacionadas à música ou alguma notícia. Também havia um programa muito ouvido pela comunidade lusitana, cuja pauta era de músicas portuguesas, principalmente o fado, com muitos comentários do apresentador que também falava com sotaque. Outro programa tradicional e muito ouvido no interior do Município era o “Alô Zona Sul”, que informava as notícias através de anúncios pagos pelos ouvintes, como convites para missas, enterros, casamentos, etc.

Além disso, havia a programação esportiva das duas rádios locais da época, que tinha grande força na região. Tudo aos poucos foi se modificando, a partir das primícias oriundas das programações nacionais, seja por influência dos patrocinadores, seja pela falta de audiência local, o que obrigava aos programadores trazer as novidades dos grandes centros. De todo modo, as rádios locais sempre pautaram pelo jornalismo durante todo o dia e pela programação musical, bem como o jornalismo esportivo, especialmente, o relacionado ao futebol. Entretanto, percebe-se, que apesar dos esforços de muitos produtores de rádio e jornalistas envolvidos nas transmissões, há uma decadência gritante, em virtude das inúmeras mídias que atualmente se tem em mãos, mas principalmente, pela fuga indiscrimida que ocorreu a partir do final da década de 70 para a grande mídia nacional, que monopolizou toda a programação das emissoras, tanto de rádio, quanto tv, seja no fator econômico e mercadológico, seja no fator de supremacia da cultura da região central do país em detrimento das culturas locais. O mundo foi mudando e até esta cultura está debilitada, porque agora, há muito mais oportunidades de acesso, a partir de paradigmas internacionais, com a internet e as tvs pagas.

Mas, voltando ao passado, sabia-se o quanto eram importantes as rádios para as crianças da época, talvez não propriamente pela programação exibida, mas pelo fato de acompanharem diariamente com os pais, de uma forma ou de outra, mesmo envolvidos em outras atividades. Em consequência, estabeleciam ao rádio uma dimensão, que os tornava participante de suas vidas, o que para os dias atuais, seria um absurdo. Lembro de uma colega de escola que ao passar pela Cultura Riograndina, na Silva Paes, dizia ter curiosidade em subir as escadas para encontrar algum cantor ou artista da rádio. Era uma ilusão infantil, quase inconcebível, mas o sonho só foi abalado, quando ela precisou pagar um aviso para o programa do meio-dia, em virtude do falecimento de sua avó. Subiu rapidamente as escadas e se deparou com um guichê vazio, onde uma presumível secretária apareceria a qualquer momento. Próximo à parede, um sofá antigo, surrado. Alguns homens conversavam nos bastidores, sendo que se ouvia a voz de um dos locutores famosos e as conversas desandavam para o mais banal e simplório do cotidiano. Quando a secretária chegou, pediu o tradicional anúncio, feito à mão para datilografar em sua escrivaninha. Cobrou e dispensou minha amiga com a indiferença dos que estão cumprindo uma tarefa rotineira e desgastante. Minha amiga até olhou para trás, na esperança de assistir uma conversa mais alvissareira, com vozes impostadas e conversas inteligentes. Quem sabe um cenário luminoso, onde houvesse pessoas discutindo os grande anseios da humanidade, a chegada do homem à lua ou a nulidade do processo civilizatório? Nada disso acontecia. Não havia glamour, nem elegância, muito menos alguma deferência aos visitantes. O sonho acabara. Como na vida virtual de hoje, o sonho só se concretizava ali, pertinho do alto-falante, a cabeça próxima ao rádio, ouvindo aquelas vozes aveludadas e temas românticos ou intelectualizados. Mas assim era a vida. Talvez com o tempo, ela tenha entendido, que eles eram tão iguais quanto ela, gente do povo, gente que sonha também, que tem seus ídolos e suas paixões, seus aborrecimentos, suas iras, suas esperanças. Que bom que as pessoas percebessem nos dias atuais, que as celebridades e os atores eloquentes em suas falas são tão iguais ou piores que todos nós. Em geral, os espectadores são semelhantes àquela menina dos anos 70 e vêem nos ídolos dos dias de hoje, apenas as qualidades que enxergam. O personagem criado para vender discos, shows, fazer sucesso em novelas, teatro, etc. O estereótipo do homem. O que todos veem, mas que na realidade, na sua intimidade, somente o próprio conhece. Mas assim era a rádio e a TV. E assim a vida segue até hoje. Só mudaram os formatos. O mundo gira igual. E as ilusões… bem, estas, talvez mais pueris.

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