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APONTAMENTOS NO SÓTÃO

Passei a noite descobrindo coisas novas. Percorri o corredor imenso da casa, subi as escadas e parei no sótão. Como toda peça meio escondida, não passa de um buraco com teias de aranha. Queria achar um livro antigo, de meu pai, um tipo de atlas, mas que tenho certeza, além de mapas, havia anotações lá. São elas que procuro. Anotações provavelmente a lápis, meio apagadas, rasgando a folha do outro lado, amarelada e fina, puída ou furada por traças. Sei que devo achá-las. Anotações. Anotações que contam histórias, talvez muito mais profundas dos que as contadas nos livros. Verdadeiros registros, quase certidões de nascimento. As anotações de meu pai. Mas as horas escoam rapidamente e minhas pernas estão cansadas. Por que não coloquei as malditas meias elásticas. Por certo, teria pelo menos duas horas sem as terríveis dores da circulação. Pernas que envelhecem, que incomodam e impedem meus gestos. Mas nada me fará desistir, nem esta cãibra que insiste em retorcer os dedos do pé. Numa pausa, levantarei deste emaranhado de papéis e farei alguns movimentos. Vou até a janelinha pequena que dá para a frente da casa. Espiarei as pessoas lá embaixo. Certamente não serão muitas. Mais certo que o deserto humano predomine pelo adiantado da hora. Pelo menos, descansarei. Darei meia volta, investigarei objetos guardados há tanto tempo e que para mim não tem valor nenhum, muito menos, emocional. Quando voltar, investirei nas caixas de documentos. Muitos papéis, contas antigas, além de fotografias. Meu pai costumava guardar os retratos, como dizia, nestas pequenas caixas. Se eu me deter um pouco nelas, certamente acharei algumas fotos de minha infância. Nem sei se as quero ver. Estou tão diferente agora! Fazem parte de um passado de inocência que já não existe. Mas vou adiante. Me instalo na janelinha. E o que vejo? A luz amarela do poste. Um cachorro que se arroja entre a fonte sem água e o banco de pedra abandonado. Está frio e ele se encolhe, o rabo abaixado, o focinho rastejando o chão. É um vira-lata preto. Não, não está sozinho como pensava. Um vulto se esgueira sob a marquise, visível pela chama do cigarro. Parece tranquilo, sem mover-se, acostumando-se provavelmente com o frio que aumenta. Talvez espere alguém. Um destes pederastas que aluga homem para realizar suas fantasias obscenas. Homens sem Deus. Ou apenas um marginal, esperando o comparsa para arquitetar um crime. A calçada brilha na luz amarela e pingos de chuva se espalham intermitentes. Pingos grossos com tempo certo para se espalharem. O homem agora, movimenta-se em direção à esquina. Estranho que pára onde não há proteção. Examina alguma mensagem no celular e aproxima-se do prédio da farmácia. No ultimo andar, uma luz fosca se acende. Alguém aproxima-se da janela, espiando através da cortina. Talvez tenha perdido o sono ou algum barulho o alertou. Talvez seja o tal vadio que o espera. O homem do cigarro se encosta no prédio, sem chegar à farmácia fechada, apesar do cartaz de 24 horas. De vez enquanto, olha para cima, como se procurasse alguém do último andar. O vira-lata levanta a cabeça desconfiado de alguma coisa, mas logo, volta a espichar-se, deitando-se na lajota. Uma pata traseira estremece, como se sonhasse. O visor do celular do homem brilha. Ele abaixa a cabeça, parece não se importar com o alerta. Guarda-o no bolso. Estica o tórax e olha para cima, provavelmente para o néon da farmácia. A luz fosca do último andar se apaga. Eu que ainda continuo nesta inércia, meio perdido, sem saber se continuo a minha busca. Às vezes, tenho vontade de desistir. O mais lógico seria encontrar as anotações nas caixas de documentos, mas meu pai jamais faria isso. Sei que devo investigar, decifrar um perfeito quebra-cabeças. Coisas do velho. Preciso pensar com a lógica dele. Mas de qualquer modo as coisas não são como parecem, nem pra ele, nem pra mim. Passava horas efetuando cálculos. Tinha consigo que a vida era um teorema matemático. Para tudo, havia uma estatística, um percentual que justificasse o fato, uma conta de chegada. Nada escapava de sua elucubração, não somente quando se tratava das contas do dia a dia, o que seria natural, mas até mesmo o rendimento escolar, a mudança do clima, a evolução dos costumes. Usava expressões como: “70% do descarte do lixo vai parar na lagoa”, mesmo que não correspondesse à realidade, ou “já lhe disse, Homero (falando com seu irmão), 25 % do mecanismo do carro depende da máquina, o resto é só com o motorista”, ou “a estatística diz que o homem só envelhece quando começa a perder os dentes e não se importar com isso”. É, ele tinha dessas coisas. Tudo se resumia a percentuais e estatísticas. Acho que até o carinho que dispensava a nós. Particularmente, achamos que tudo a que se referia tinha um fundo de verdade ou estava absolutamente correto. Com o passar do tempo, também este percentual foi caindo e percebemos que não passavam de expressões vazias, expletivas, para dar veracidade aos conceitos. Meu pai era assim, um homem estranho, mas extraordinário. Conseguia em poucas linhas descrever o que levaríamos páginas para explicar. Além das estatísticas, dispunha de um recurso de sinopse muito eficiente. Quase um recurso estilístico. Ah, se encontrasse as anotações, por certo, entenderia bem melhor o que pretendia dizer. Se bem, que isto pouco importa, hoje. Ele não está entre nós, deixou-nos por herança essa complexidade de ideias, fazendo-nos percorrer caminhos que não levam a nada. Talvez, em alguma lugar, em alguma dimensão, esteja rindo, observando nossas buscas vãs. O homem não está mais encostado no prédio da farmácia. O cachorro também sumiu e a chuva parou. Até o frio amainou um pouco. Não sei se ainda terei tempo para procurar. Daqui a pouco, começa a amanhecer e eu terei que sair. Não quero ficar mais um dia nesta casa. Estou cansado destas paredes velhas, deste quarto escuro, escondido no fundo do corredor, deste sótão que não passa de um buraco de teias de aranhas. Às vezes, me sinto perdido. As pernas estremecem e meu coração tamborila. Nem sei se estou doente, ou só angustiado. O que sei é que preciso sair o quanto antes deste labirinto. Um labirinto que me acolheu por tantos anos, mas que agora me parece sem saída. Quantas vezes, a chegada era melhor que o ponto de partida, uma vitória, conforto da alma. Havia muitas portas e muitas descobertas, muitos sóis para brilhar e luas para encantar. Hoje, apenas um túnel escuro. As árvores foram crescendo em torno, raízes destruindo os caminhos, os muros se fechando e as brechas cada vez mais estreitas. Por vezes, me esgueiro entre estas paredes vazias, mas sinto que elas se aproximam de meu corpo magro e restringem meus movimentos. Se meu pai estivesse aqui ou se encontrasse as malditas anotações, por certo teria de volta o conforto que perdi, a paz, a tranquilidade. O labirinto se libertaria das amarras, das raízes, do abafamento sufocante e eu seria livre para a descoberta. Mas cada vez me afundo mais nesta busca vã. Não sei qual será o meu fim. Batem à porta e meu coração estremece de novo. A ansiedade limita meus movimentos. Quem viria, a esta hora? O que procuram em minha casa, esta casa que foi de meu pai, de minha família, que tem tantos segredos. Quem me procurará? Subo as escadas correndo, falseio o pé no último degrau, mas não desisto. No sótão, posso espiar sem que me vejam. Quem sabe identifico quem bate à minha porta? Espicho-me através da vidraça, empurro o postigo com o braço esquerdo e curvo meu dorso para frente, tentando ver a figura lá embaixo. Batem novamente. Não sei o que sinto, se é aflição, medo ou curiosidade. Meu coração alucina. Alguém lá embaixo, apontado pelo azul do visor do celular. Parece que usa boné ou uma boina. Preciso descer, não admitiria esta indecisão. Por certo, decretaria uma frase definitiva sobre o tema: “80% dos homens não toma as atitudes corretas na vida”. Fecho a janela devagar e desço rapidamente, esquecido da dor no pé. Sei que devo agir de modo severo. A vida não arrefece o coração de ninguém, ao contrário, torna-os duros e cruéis. Aproximo-me da porta da frente. Ali o presumível inimigo, mas se não abrir, nunca terei certeza de nada. — Procura alguém? — Conforme o combinado — aponta um número bem grande no visor do celular. — Não sei, não me lembro. — Como não se lembra? Não foi tu que ligou? De quem é este número? — Meu, sim, este número é meu. — Pois então, cara, posso entrar? Já voltou a pingar. — Tu tava embaixo da marquise? —Claro, tava ligando pra ti, mas deixa pra lá, vamos esquecer esta história. Sabes pra que eu vim, né — esboça um sorriso cúmplice. Fico estupefato, mas deixo que entre. Quem sabe esclareço que ainda não encontrei nada? Entra, à vontade e senta-se na numa poltrona. Esparrama-se como se estivesse em casa. Livra-se num salto da jaqueta e em seguida da camiseta regatas, muito justa. Olha-me de um modo estranho, quase indecente, como se tentasse me seduzir. — Por que está faz isso? — Tens que ver o material. Gostasse do meu corpo tanquinho? — Por favor, não sei do que tu falando? — titubeio, afastando-me, balançando os braços ainda atônito. Uma leve tontura me atinge e tenho a impressão que o labirinto aumenta e suas paredes me sugam. Ele se aproxima decidido e me pega os braços com cuidado, sorrindo. Num ímpeto, empurro-o contra a parede. Seu rosto fica transtornado, as veias do pescoço se tingem de vermelho. Parece não entender o que está acontecendo, tanto quanto eu. — Escuta aqui, cara, tu não me chamou? Que tá havendo? É um joguinho novo que desconheço? — dá uma risada maliciosa e complementa — mas eu posso aprender, basta tu me ensiná. Sou bom nisso! — enquanto fala, passeia pela sala, sempre me encarando. Seus olhos brilham, sua boca entreaberta, meio sorriso. — Não tem nada de joguinho ou sei lá o que que tu tá falando. Sou casado, tenho família. Eu só vim aqui pra… — a memória interrompe a minha fala. Ele complementa, atrevido: — Pra transar comigo! É isso que tu quer, não é? — e se aproxima, enquanto me afasto, negando. — Não, não, não. Tu não entendeu nada! — Entendi muito bem, entendi que tu se arrependeu, pois se é assim, me paga o que me deve. Quinhentos pau, aqui na minha mão — estende a mão cheia de anéis e uma pulseira dourada, que oscila perigosa. Veste a camiseta e a jaqueta, enquanto discursa, conformado. —Tudo bem, isso já aconteceu comigo, tem gente que na hora agá fica com medo de se entregá, se é o teu caso, sem problemas, desde que me pague o que me deve. E pode ficar tranquilo, tudo no sigilo. Sou bem pago pra isso! — Eu só vim aqui procurar as anotações de meu pai, me lembrei. Era isso, o verdadeiro motivo por que estou aqui. Ele diria que 70% das pessoas costumam ter este tipo de reação quando desconcertadas. – Nem me importo com o que teu pai diz, só quero o que é meu. Se liga, cara, não vem com caô pro meu lado! Pode passar a grana, vamo lá, meu velho. Preciso acalmar-me. Nada me fará pensar diferente. Meu pai tinha razão quando dizia que a gente tem que manter a mente 90% ocupada, os dez por cento restantes ficam para o lapso da memória. É preciso relaxar e esperar. Somente assim temos o poder da segurança. Quando calamos, eles se calam também. Preciso conduzi-lo ao meu objetivo. — Não vamos fazer uma tempestade num copo dágua, rapaz. Sugiro que bebas alguma coisa e te acalmes. Nós somos pessoas sociais, educadas. —Ah, to entendendo a tua. Tu gosta de conversar. Tudo bem, se foi pra isso que me chamou. Tem caras carentes, que precisam se desabafar com alguém, então contratam um michê — percebe a minha dúvida e esclarece — um profissional do sexo, entende? Foi ai que tive a ideia redentora. Meu coração dispara, feliz. Meu pai tem a resposta. Sim, lá no sótão acharei a saída, destravarei os caminhos do labirinto. Não preciso de muito, mas se encontrar as anotações, a verdade virá fatalmente. Vou até a escada e por um instante, volto-me em sua direção. Está em pé e me espera. – Tu não me ofereceu uma bebida? Tá na hora. — Suba. Levo um uísque com gelo. — Lá em cima? — Do lugar, onde te vi. É no sótão. Lá, podemos conversar. — Pra mim, tudo bem. Mas já to te avisando, se passar do meu tempo, paga o dobro, tá ligado? Com um meio sorriso, concordo. Quando chego, ele está agachado mexendo nos livros. Deve ter revirado as caixas, buscando algo. Talvez, tenha me espionado, para descobrir a verdadeira face de meu pai, tudo o que procurei durante toda a vida? Faço barulho, para que me veja, ele se volta e sorri, sem constrangimento. Sente-se à vontade naquele ambiente, muito mais do que eu. Perguntei, de imediato: —Que está fazendo? –Nada. Dando uma olhada nestes trecos aqui. Estes livros são tudo de religião? –Não, são de meu pai. Por favor, não mexe nestas coisas. Eram dele, só ele tinha acesso. —Tudo bem, não tenho a menor queda pra religião. — Eles são repletos de anotações. Meu pai costumava fazer verdadeiros tratados nos livros que lia. Estou procurando-os há muito tempo. —Só vi coisas de religião. Teu pai era pastor? —Ele fazia anotações. Tu achaste alguma? ele costumava contar fatos de sua vida, apontar-me caminhos corretos. Ele jamais receberia alguém assim… em plena noite. Ele se aproxima sorrindo. Sinto o cheiro cítrico da loção pós-barba. Tento afastar-me, mas as pernas pesam e meu corpo todo estremece. Meu coração acompanha o compasso de minha confusão mental. Ele debocha, dissimulado: — Teu pai não receberia alguém assim… como eu? — toca-me suave no rosto, sempre sorrindo — mas tu gosta, né? Uma sensação estranha me envolve, sinto-me fraquejar e meu corpo todo se abala, sentindo a respiração forte circulando meu pescoço, minhas costas, um resfolegar na nuca, na orelha, seus lábios próximos, muito próximos, sua voz ofegante. Meu sexo se agita, intumescido. 80% dos puros de coração caem em desgraça, na frente dos ímpios, quando sua fé é insuficiente. Então, o empurro em direção à vidraça, derrubando uma pilha de livros. Ele se desequilibra e segura-se como pode, no parapeito. Grita com fúria e penso que vai me agredir. Mas se contém. Sabe que deve ir embora, mas pretende alguma coisa, por certo, vingar-se de minha recusa. — Tu procura um livro que teu pai escreveu nos cantos das páginas. — Sim, eu o procurei o tempo todo. Eu não encontrei este livro. — Um destes ai, o sem capa — aponta para a pilha desandada de livros sob a janela. Não tenho coragem de me aproximar, de pegar o livro, de encontrar os apontamentos. Ele me conhece e ridiculariza esta dificuldade. Às vezes, penso que meu próprio pai está ali, também me acusando. Logo, a realidade nojenta de nossa vida mundana se escancara a minha frente. — Aí só fala em pecado, morte, temor a Deus. Me explica, tu que é crente, como é que pode amar a quem se tem medo? Mas deixa pra lá, o fato é que entendi tudo, malandro, a letra do livro é tua, tu escreveu essa merda. Não tem nada a ver com teu pai. Eu peguei a tua agenda lá embaixo, queria verificar se tinhas o meu número, é a mesma letra. —Cala a boca! Não diz bobagem! Eu só queria constatar o que meu pai escreveu. Ele estava certo. Ele temia a Deus! — grito em absoluto desespero. Meu coração está revolto em dor. A noite fica escura em minha mente e meus olhos tingem de sangue, como se todas as veias fossem explodir. Sinto um calor que me envolve a nuca e o pescoço e o suor gelado goteja o tórax e as costas. Ele prossegue, com raiva: — Péra ai, eu te conheço, cara. Volto para a janela, empurrando os livros com os pés e, quase sem querer, desvio o olhar para a vidraça. Vejo algumas rajadas no céu, muito leves, uma certa brisa balança as árvores já visíveis. O dia já vai clareando. A pessoa do último andar fecha a janela. Provavelmente, se prepara para o trabalho. Uma pessoa decente. De Deus. Por um momento, sinto um ódio sinistro por este cara que está aqui, no sótão de meu pai, dando palpites sobre suas anotações, como se conhecesse a minha vida. Mastigo a dor que me consome e afasto-me da janela. Dobro os joelhos para pegar o tal livro que ele indicou, abro-o e fico folheando-o, mas não vejo nada, nenhum apontamento. Sei que mente como o inimigo. Ele bebe saboreia o uísque devagar como se fosse o último de sua vida. Mexe indelicado, com os dedos, o gelo no copo. Age assim para me agredir. — Tenho um amigo que se converteu por tua causa. Tu mudou a vida dele, tirou ele do vício, deixou até de ser michê. Levou ele pra igreja e depois se tornou teu amante! Agora me lembro, sim, tu é pastor! Tu inventa esta história anotação de teu pai, porque tu não tem coragem de assumir, quer a aprovação dos outros. Evito responder. Minha vida é limpa como a fonte e expressa a verdade absoluta. Mas sua mente é deturpada e o desvia do verdadeiro caminho. — Vai embora, por favor. — Tu tem vida dupla, cara. Queria transá comigo, mas abomina tal coisa. O pior de tudo é que tu dá testemunho. Então se arrependeu. Caralho, o que tu quer afinal? —Sai daqui, eu não posso, eu não posso, eu não quero! Ouço a voz de meu pai, seus ensinamentos! Sou um pastor, um homem de bem. Foi ele que escreveu tudo, que ditou as regras, eu só obedeço! Ele se aproxima, quer o dinheiro, eu sei, pois que seja pago pelo mal que cometeu. Que se afaste de mim. Por que está tão próximo, sinto seu perfume quente e enjoado, e um ardor que me percorre a barriga, que me atinge as pernas, que me bamboleia a mente. Por que esta intimidade lasciva e intrigante? Por que este abraço que me acolhe, me aconchega. Por que o diabo me tenta? Afasta-me com arrogância. Vejo seus olhos ávidos por violência. Uma garra prende minha cabeça, que é batida uma única vez contra a vidraça. Caio numa poça de sangue, a janela estilhaçada. O nariz entope e a visão turva. — Pastor filho da puta, me dá o meu dinheiro, se não tu vai morrê, agora mesmo! Vou te jogar por esta janela e tu nunca mais vai bisbilhotar a vida de ninguém! Peço que pegue a minha carteira, no bolso de trás da calça, não consigo levantar-me. Ele obedece rápido, tira mais do que devia. Afasta-se praguejando, descendo a escada e batendo a porta. Estico meu corpo sobre os livros e pego o exemplar sem capa. Agora tenho certeza de é o de meu pai, suas anotações estão ali, finalmente as encontrei! "100% das atrações físicas entre homens é produzida por uma reação involuntária.” Uma luz tênue envolve o sótão.
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