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A chegada ou a partida?


Todos queriam saber o que tinha acontecido com Norton. Nem ele sabia, mas tinha consigo que devia fazer alguma coisa a respeito. Seu corpo estava trêmulo e pela primeira vez em sua vida, sentiu medo de morrer. Era como se uma espécie de pânico investisse contra o bom senso e temesse um descontrole que impactava os seus pensamentos. Por um momento, imaginou que a balsa afundaria e o céu agora completamente encoberto, desandasse sobre aquela centena de carros que, através dela, atravessavam o canal. Uma nuvem espessa toldava ainda mais sobre sua cabeça.

As pessoas saíam dos veículos para apreciarem o vendaval que se aproximava. Pensou que estavam enlouquecendo. Não era hora de passearem pela balsa, ao contrário, deviam se resguardarem dos raios.

Pingos grossos começavam a cair e seu coração bateu mais forte. Se aquela maldita balsa ficasse à deriva, com aquela centena de carros e caminhões, perdidos em pleno oceano. Se afundassem, ele subiria no caminhão mais alto e esperaria o socorro, caso viesse. Também duvidava de algum salvamento.

Tudo era possível na tortuosidade de seus pensamentos. Tudo era viável e imediatamente aceito pelo seu egocentrismo.

Norton tinha dessas coisas: pensar muito em si. Mas agora, sentia de algum modo uma mudança radical no Universo. Alguns pais correram para os carros quando um raio riscou o céu e parecia clarear tudo por ali. Crianças junto, mas logo em seguida, estas também se afastavam dos automóveis e brincavam com os pingos d`água cada vez mais intensos. Algumas mães se solidarizavam com os filhos e aproveitavam a chuva que desandava. Algumas até faziam selfies.

Os homens se antenavam com a ocorrência e se resguardavam encostados nos caminhões de containers. Pareciam calmos.

Mas para Norton, tudo estava errado. Era como se a terra, de repente, fosse plana e este geocentrismo de Ptolomeu se tornasse uma atualidade indiscutível. Também como se a milícia fosse um bem para a comunidade, bem alicerçada nas lideranças e que devesse fazer parte do governo.

Era como se o tacanho, o tosco e estúpido tomasse a vanguarda das ideias e ações. Como se o País estivesse pronto para invadir fronteiras e destruir nações, seguindo a cartilha imperialista.

Como se o retrocesso e a ignorância fossem pontos de partida para uma mudança de conceito e de experiência nacional.

Como se uma nova ordem cósmica estabelecesse o criacionismo como verdade inflexível e os homens de bem fossem aqueles que se preparassem para destruir os diferentes. Como se a diversidade fosse doença.

Como se o fascismo imperasse e mostrasse a cara sinistra sob o jugo da desigualdade e intolerância.

Como se o mundo desandasse como esta chuva que invade a balsa. Norton quer chegar em terra firme, logo, mas não será pior a chegada do que a partida? Quem sabe, partir é mais seguro.

Comentários

Evanoli disse…
Perfeito.
Através da leitura do texto me senti fazendo a travessia na balsa.
Concordo que o melhor é a chegada ,apesar de que a partida é cheia de movimento ,vida e espectativas.
Adorei ..sou tua fã.
Evanoli disse…
Perfeito.
Através da leitura do texto me senti fazendo a travessia na balsa.
Concordo que o melhor é a chegada ,apesar de que a partida é cheia de movimento ,vida e espectativas.
Adorei ..sou tua fã.
Evanoli disse…
Excelente texto.

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