O IDIOTA DE DOSTOIÉVSKI

Em 11 de novembro de 1821 nasceu o escritor russo Fyodor Dostoievsky, uma das mais importantes referências literárias na história.
Um dos seus mais relevantes romances, que revelam muito de sua visão da sociedade da época e de sua incapacidade de compreensão do individualismo que chegava com a modernidade, é o Idiota, um romance que traduz a realidade do escritor.

O protagonista, um príncipe chamado Liév Nickoláeivitch Míchkin sofria de epilepsia, uma doença considerada na época em que o livro foi publicado, 1869, como uma desordem psiquiátrica.

Ele foi internado num sanatório na Suiça por vários anos para tratar da doença e retornaria a Petersburgo, para receber uma herança deixada por um parente de seu seu pai. Ali ele pretendia retomar a sua vida.

A trama se desenvolve a partir da sua inadaptação à sociedade corrupta, incompatível com a sua integridade, lealdade  e senso de justiça.
 

Trata-se de uma narrativa densa, que envolve uma gama de personagens e situações que se desencadeiam nos vários entrechos que se cruzam, enfocando a personalidade austera, virtuosa e íntegra de Míchkin, que se opunha às demandas sociais manifestadas na esperteza, individualidade e injustiça.
 

Por outro lado, a obra apresenta uma narrativa tensa, por tratar-se de um romance de cunho psicológico, cujo pano de fundo é a doença e tudo que a cerca, transmitindo uma dramaticidade que influi nos personagens, tanto no protagonista, considerado um idiota, em virtude de suas convulsões e transitórios “apagamentos”, bem como em relação aos demais que demonstram o preconceito relacionado à enfermidade.

Este preconceito se dá através de atitudes grosseiras, levando Michkin ao isolamento.

Dentro deste universo, onde as atitudes ficam reféns dos preconceitos e descaminhos próprios de personalidades deformadas, a construção do ritmo da trama acontece sob permanente tensão.

Neste cenário, o autor delineia a perspectiva social, que segundo sua ótica literária e sua ideologia, a questão básica é a construção de um personagem perfeito.

Na construção do protagonista, observa-se características fundamentais de Jesus Cristo e atitudes e sentimentos muito próximos a Dom Quixote.

Na verdade, há elementos quixotescos, embora não propriamente cômicos, mas certamente o aspecto utópico, muito explorado no romance de Cervantes.

Pode-se afirmar que idiotice, neste caso refere-se à utopia, que é a ausência de lugar, ou seja, um lugar que não existe, que é apenas um sonho, uma fantasia. O ideal. O protagonista não é de lugar nenhum e a sociedade não consegue compreendê-lo.
   

Já a referência a Jesus Cristo revela-se no seu caráter social, onde o outro tem um peso igual ao seu na medida da justiça, do amor, da verdade e da honestidade. Ele ama o seu semelhante, tal como Cristo, e pretende distribuir o seu modo de sentir e ver a vida, na sociedade em que vive.

Entretanto, este despreendimento causa um estranhamento, um desconforto para a comunidade que não absorveu os seus conceitos, ao contrário, manifesta-se de forma oposta à que ele pensa.

É criteriosa no seu convívio, porque não lhe interessa a coletividade, nem o bem comum, mas sim a individualidade, o direito de cada um, não os seus deveres. Muito menos, os conceitos éticos, virtuosos ou morais.
 

A única condição de sobrevivência era o bom senso de preservar a sua vida e de se reunir em sociedade.

Míschkin é um homem sensato, além de seu caráter virtuoso.

Ele representa não somente um ideal humano, mas um ideal russo, que se contrapõe à cultura europeia. Para ele, a Europa estava se afundando num materialismo enquanto que a Rússia ainda propagava o espírito como fonte para uma vida melhor.

É um problema importante, inclusive sob o ponto de vista da efetividade do direito.

Quanto mais bom senso, as pessoas tiverem, menos lei. Não são necessárias leis para estruturarem regras para a sociedade, quando esta caminha no rumo certo, quando esta obedece a regras definidas e solidárias, cujo bom senso é utilizado.

Dostoévisk propôs, no fundo, esta questao da Rússia tradicional. Educar para deveres e não apenas exigir os direitos, como o grupo de Petersburgo agia. 

Neste enfoque, há uma noção clara de coletividade, tal como Míchkin se expressava. 

Nesta questão de direito, percebe-se que pelo fato de Míschkin ser um príncipe, o cruzamento das relações ligadas ao poder se estabelecem.

Durante toda a trama há questões juridicas, como a reivindicação de sua fortuna. Isso é relevante, porque ele nao enfrenta a questão simplesmente do ponto de vista matemático, ele se pergunta sobre a responsabilidade que tem sobre o outro, ou seja, uma questão paradigmática.

Trata-se de uma atitude surpreendente até para os dias atuais, porque o indivíduo que se envolve em pendengas jurídicas, preocupa-se com o seu direito, não com o seu dever, ou o direito do outro.

Ele, ao contrário, é alguém que se ocupa das outras pessoas, que se envolve emotivamente e possui uma postura ética que a modernidade nao entende.

No final do livro, retorna para a Suíça, o isolamento originário. Entretanto, o personagem em confronto com a sociedade corrompida pelos valores, não encontra um lugar neste meio.
 

Por fim, através dos confrontos de Míchkin e seus relacionamentos, percebe-se que o individualismo perpassa o texto. Apesar da construção excessivamente idealista do personagem, não ocorre uma interatividade que confirme o caráter bondoso do personagem através de mudanças nos demais.

Ele não toma atitudes que os ajude a serem pessoas melhores e que os qualifique a vivenciar uma mudança de paradigma naquela sociedade obtusa e obsoleta com a qual não se identificava. Ao contrário, ele tem uma impossibilidade prática para agir, pois não angaria apoio no grupo e embora, propondo soluções, ainda teme ser mal compreendido em seus ideiais e acaba não realizando nada.

Para comprovar a regra, ele tem uma ação efetiva com uma personagem, a qual a ajuda, recompondo a sua imagem social.

Por outro lado, sua ação se estabelece a partir da ajuda das crianças, talvez aí esteja a grande lição do autor, pois estas ainda não estão imbuídas de individualismo, não perderam a esponteneidade, ao ponto de compreender suas aspirações.
 

Por fim, pode-se afirmar que o romance expressa uma dramaticidade intensa, mostrando um homem inadaptado no grupo em que vive, porque está fora dos padrões estabelecidos.

O autor pretende além de traçar um perfil psicológico, mostrar a sociedade corrupta da época, a modernidade que chegava na Europa, através da industrialização, tornando as pessoas cada vez mais individualistas, integradas a uma cultura materialista que ele abominava.

Por outro lado, queria conservar e enaltecer a força espiritual da Rússia. Segundo ele, o sentimento patriarcal e ortodoxo era o caminho para a realização pessoal de seu País.
 

O idiota, de Dostoiévski é um excelente romance que vale à pena ler ou reler pelo seu conteúdo social e psicológico, através da construção humanística de seus personagens.

No Brasil, temos a tradução diretamente da língua russa, por Paulo Bezerra, do russo, 3.ª ed., Editora 34, 2010. 

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