Caminhos traçados

Havia uma novela nos anos setenta chamada " O homem que deve morrer”. Na abertura, não lembro bem se era dentro do tema musical ou em off, na voz de um loucutor, ouvia-se a frase “ando por caminhos que nunca foram abertos”. Tudo induzia ao clima de suspense da história.

Mas o que pretendo com esta introdução é falar sobre as memórias infantis que volta e meia surgem e via de regra, produzem uma sensação de melancolia boa, caso seja possível existir esta acepção para este sentimento. De todo modo, são lembranças de um tempo muito feliz, pelo menos nos momentos em que compartilhei com alguns amigos.

Nesta época, um amigo da escola e eu, tínhamos provavelmente 12 ou 13 anos, costumávamos pegar um ônibus para voltar para a casa. Só que eram linhas opostas, enquanto o meu coletivo tinha a direção do bairro cidade nova, o do meu amigo era no rumo do bairro Santa Teresa.

Saímos do colégio e caminhávamos pela rua 24 de maio até a praçaTamandaré. Atravessávamos as pequenas vielas entre os canteiros, que nos pareciam repletos de uma espécie de lírios lilases ou coisa parecida. Eram flores com muitas folhas verdes e longas, perfazendo o contorno dos canteiros. Enquanto ele se afastava em direção à rua Silva Paes, atravessando a praça, por força de seu ponto do ônibus, eu me dirigia ao abrigo de ônibus da Luis Loréa.

E íamos quase correndo, comentando as peripécias da aula, o modo estabanado de Irmão Freitas, tentando falar de assuntos nada correlatos à disciplina, mas ricos em informações geográficas quase turísticas, que só interessava a ele e suas viagens.

Ríamos a bandeiras despregadas do Professor Ambrósio, um magro quase esquelético, que se vestia de preto e tinha na lapela do paletó, um cravo branco ( símbolo de quê, nem desconfiávamos). Tinha o apelido de ternudinho, por ser o terno o seu vestuário preferido. Tinha por hábito cheirar a ponta dos dedos, enquanto escrevia alguma coisa no quadro. Quando se voltava, nos encarava com certo espanto como se não acreditasse que prestávamos a atenção. Suas aulas eram um transtorno, talvez mais para ele, porque os temas contábeis, parece, não cabiam em sua atenção. Na metade do caminho, mandava fechar o livro e liberar os alunos, para preparar o tema para a próxima aula e assim, se arrastava a matéria.

Também havia a professora de inglês que nos desfiava uma tonalidade que desafiava qualquer esmero linguístico. De repente, o idioma que aprenderamos na série anterior, voltava cheio de pinduricalhos fonêmicos que não correspondia à lingua falada, por mais que nos esforçássemos em entender.

Mas não era momento para revolta ou desmotivação com a aprendizagem. Tudo era um grande circo que nos fazia rir. Havia outros com desenhos tão impróprios à imagem de professores, que poderiam muito bem estar nesta lista, além dos colegas, cada qual com sua imagem estereotipada.

Talvez este caldo antropológico não significasse nada para nós, a não ser rir de nós mesmos e deles.

Talvez por isso, atravessássemos diariamente a praça, insistindo em caminhos não usuais aos transeuntes e dizendo para nós mesmos, “ando por caminhos que nunca foram abertos”.

Talvez fosse difícil naquela época, abrir caminhos, que não os já definitivamente traçados.

Fonte da ilustração: fotografia de Wilson Fonseca
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