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Indignação

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Indignação Há um tempo atrás, eu comentava muito sobre política nas redes sociais, mas com o passar do tempo, percebi que falava apenas para uma bolha, que acreditava nos mesmos ideais e valores políticos com os quais eu me orientava. O outro lado, a outra bolha, não dava a mínima importância. Eu jamais mudaria o pensamento ideológico de alguém, com os meus argumentos. Nem se podia conversar com franqueza nessa dicotomia que passou a vigorar no Brasil, embora sempre houvesse de forma disfarçada. No máximo, o que passei a fazer, foi alguns comentários em publicações de amigos ou curtidas ou mesmo alguns compartilhamentos. E se publicava alguma coisa, o fazia de modo subjetivo, no qual, quem o lesse, perceberia nas entrelinhas o pensamento crítico ali embutido, pelo menos, é o que eu pretendia. Mas hoje, porém, com o funesto e histórico discurso do Presidente da República, que repudia tudo o que está sendo elaborado e executado pela sociedade civil, através das recomendações da O...

Que o vírus imploda

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Nem sei o que digo, o que penso, o que desatina meu coração naufragado. São dores fortes que não abandonam o barco, ao contrário, o transformam numa pequena embarcação a esmo, metida entre juncos e macegas, tentando se desvencilhar e arriscar na velha lagoa. Avisto homens arrastando camarão em redes precárias. Sei que estão errados, tão perdidos quanto eu em minhas elucubrações. Quisera voltar à sanidade, à civilização, ao lustro das vitrines emolduradas em ouro das grandes lojas de grife. Quisera desfilar entre os ricos e famosos de Milão. Quisera fugir da miséria da morte e destruição. Quisera desafiar a arrogância e camuflar meu coração de ideias positivas. Nada é verdade. Tudo é falso e nulo. Tudo conspira pela morte e dor. Tudo foge do comum, do normal, do construtivo, do planejamento. Tudo é sorteio: de vidas, de horas, de momentos, de parcelas da população que se aglomera, dos vendilhões do templo, das promessas vãs, das febres altas, das dores na alma. Quisera ser um vírus, t...

Um concerto

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A dor que se esfarela nas contas do rosário que rezo. Uma ave-maria, duas ave-marias, três, não sei. Aos poucos observo o céu encrespado sob um manto de Villa- Lobos. Bachianas Brasileiras , número 5. As pessoas quietas, ouvidos atentos, olhos vendo pensamentos enquanto os sons entoam, ora mais enérgicos, ora mais suaves, contemplando a natureza que se expande ante meus olhos, ouvidos, coração. Algumas lágrimas titubeiam em cair, sigo o ritmo compassado. Rezo outras ave-marias, talvez. A música me atinge, me envolve, me absorve e o ar da rua, das planícies, do céu enovelado de brancos e azuis me inspiram. Não quero sair daqui. Quero ficar na arquibancada ao ar livre para sempre. A dor da realidade, a vida doída e fugaz se esfarela, se desmancha nas ave- marias. As contas me seduzem. Meu olhar se perde no brilho das contas e das notas. A música me transforma e serve de oração. Oração pura e plena que sensibiliza, conforta e cura. Um concerto é um rosário bem rezado.

Quando se tem amigos

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Esta é uma pequena homenagem à minha querida amiga Idelci Souto, pela passagem de seu aniversário. Uma pessoa que sempre participou, com generosidade e afeto, de minha trajetória literária. Na fotografia desta publicação, ela aparece durante o autógrafo de meu primeiro romance, O Eclipse de Serguei . Amável, inspiradora, grande advogada, professora de português e também uma sensível cantora. Há amigos, ao longo da vida, que não precisam estar constantemente ao nosso lado para que saibamos de sua presença. Amigos que talvez não convivam diariamente com nossas angústias ou dores, mas que demonstram empatia sincera por nossos sentimentos, exercendo naturalmente a alteridade, colocando-se em nosso lugar nos momentos de fragilidade ou sofrimento. Há amigos que vivem próximos do coração, mesmo quando o contato não é frequente. Sabemos, ainda assim, que permanecem ao nosso lado. Há amigos que se alegram com nossas conquistas, com nossas pequenas vitórias e até com os desafios que enfrentamos....

O que queria Dóris Fontaine?

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A boca vermelha, cabelos loiros, olhar perdido. Nem sabe se fazia pose, encenava ou apenas acessório do cenário. Assim os observava de relance. Homens sedentos por seus segredos mais íntimos, suas intenções ocultas. Nem sabiam que nada era real. Sua vida era plana como o rio que circundava a cidade. Naquela noite, na boate, alguma coisa violou seus sentidos quando o avistou, ali sentado à beira do palco, olhando-a como uma estrela. Imaginou o homem dos sonhos cujo olhar intuía em seu coração e no sexo dormente uma explosão antagônica: desejo e medo na mesma moeda. Uma fotografia que se projetava em várias dimensões. Uma bebida desfilava entre as mesas e o suor da garrafa ficava nos dedos, como sequência slow motion. Tudo parecia cinema naquela noite, embora o mundo gritasse por promessas não vindas lá de fora. Soldados que se consideravam célebres numa guerra que nem era nossa. Ele, entretanto, era civil e sua farda não passava de um corpo ilustrado por um sorriso à luz negr...