O reflexo da porta
Patrícia mais uma vez olhou-se no espelho, mas agora seus olhos perdiam-se num passado distante. No reflexo da porta projetado pela sala contígua, desenhava-se o perfil de Benvindo que se afastava, talvez à procura da juventude que julgava perdida. Talvez fosse a culpada de sua fuga: aos poucos negligenciara a aparência, o bem viver, o relacionar-se com os amigos e ao próprio lugar no centro da vida. Não, ela era só a dona de casa que o acompanhava nos jantares, nas festas da empresa, nos compromissos sociais. Talvez não fosse nada disso, pensou. Não passasse de um encanto transitório por uma mulher muito mais jovem, o impulso fantasioso de um homem de meia-idade tentando escapar do tempo. Afinal, não acontecia assim com tantos casais? Mas se houvesse uma saída, uma maneira de alterar essa situação, de modificar o rumo, esse consenso social? Ela poderia reinventar-se, tornar-se uma mulher ativa e participante de uma nova sociedade. Uma realidade em que ela fosse a...