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Roteiro de viagem

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Parodiando o conto "Circuito fechado"de Ricardo Ramos, eu fiz como exercício para nosso Curso de Formação de escritores o conto "Roteiro de viagem" . Quarto.cama.travesseiro. criado-mudo. alarme. celular. pijama. banheiro. sanitário. pia. sabonete.dentifrício. escova. boxe.chuveiro.toalha. pente.cabelo. cueca. camisa.calça. meia. sapato.agasalho.carteira. mochila. celular.sala.chave. porta.quadra.esquina.rodoviária. box. ônibus. carteira. passagem. poltrona.celular. tablet. sono. manhã.pessoas. conversas. ruas. sinaleiras. rodovia. paradouro. comanda.banheiro. mictório. pia. toalha.bufê.sonho. café.balcão. mesa. cadeira.café. sonho. adoçante. guardanapo.caixa.comanda.tridente.carteira. dinheiro. ônibus. poltrona. celular. tablet. livro. textos. sono. conversas. sons. celular. buzinas. rodovia.rodoviária. banheiro. mictório. descarga. pia. sabonete. toalha. restaurante. salada de frutas. café. tridente.táxi.motorista. conversas. ruas. sinais. placas. veículos. trân...

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI EM FLORES II

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Rosas se espalhavam pelo alambrado, tingindo de vermelho o cenário, no qual se avistavam pequenos pedaços de azul da parede do prédio. Quase não se via o outro lado da cerca, tão fortes estavam as rosas. Tínhamos a impressão que o verde era apenas um adereço à beleza e ao perfume que revelavam. Houve momentos em que cresceram tanto, que atingiram o jardim por trás da cerca, envolvendo-se nas margaridas, nas frágeis papoulas ou nos vigorosos cravos amarelos. Achavamos que o vermelho suplantava as cores da discórdia, do ódio, da intolerância. Pensávamos que o desafio estava tomado, que o sangue vertido nas lutas pela democracia representava os anseios de uma sociedade fragilizada por anos e anos de dissociação cidadã de sua pátria. Achávamos por fim que a sociedade estava madura. Mas as pétalas foram caindo aos poucos, lentamente, no subterrâneo dos insetos devoradores, minando as raízes, as folhas, os galhos. Minando o verde da esperança até chegar no vermelho. O vermelho ...

Pra não dizer que não falei em flores

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A manobra foi lenta e gradual. Bem estudada, desenhada segundo os meandros mais complicados que se apresentavam. Usava-se das estratégias arquitetadas com cuidado, apreensão, focalizando o ponto de partida, que seria a vitória final. Sem retrocesso, sem voltar ao ponto de partida, sem pedidos esdrúxulos de recuos providenciais ou renúncia ao poder tomado pelos dedos fortes que empunharam as bandeiras das escolhas. E a mão foi firme, optando por linhas vibrantes, que condissessem com os objetivos do desenho, principalmente, no ferir despudoradamente o tecido, sem antes porém escolher a dedo o fio necessário, aquele que abrange todo o molde, transformando uma imagem disforme num alto-relevo emergente. Usar o dedal com precisão, para que não se esparja o sangue e arruíne a estrutura, puxar devagar a linha, com cuidado, quase com carinho, enfiando-a na agulha e trazendo para próximo ao peito, para não perder o equilíbrio e deixar que se escoe por entre os dedos, como água que jamais se...

A GOTA DERRAMOU

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Sabia o quanto ainda o esperaria. Guardou os chinelos, desfez-se do roupão e deu uma arrumada na casa. Tinha consigo que precisava cumprir o método. Rotina. Repetida, contínua, perfeita. Não devia se prestar a devaneios, a pensar coisas que não se referissem à família. Bem que pensava em si, às vezes. Pensava numa vida fulgurante, cheia de brilhos, luzes ofuscantes nos olhos cinzentos. Como seus olhos poderiam ter um tom assim? A mãe, via de regra, a chamava de olhos de gato. Achava-a, no fundo, estranha. Mas que fazer, se até sua mãe a criticava com tanta acidez. A vida lhe parecia dura, às vezes. Era uma mulher perfeita: boa mãe, ótima esposa, excelente dona de casa. Não era uma mulher de seu tempo. Não trabalhava fora, como as amigas. Amigas? Muito poucas, aquelas que sobraram dos bancos de escola, das poucas baladas que participara, das noites de verão, quando ficava na casa de uma tia, lá em Florianópolis. Eram dias felizes, em que conhecera rapazes diferentes dos de sua c...

Oásis imaginário

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Deixa de falácias Neste oásis imaginário Olhar petrificado Folhas mortas caídas na janela Secas Nada a dizer O orgulho de ser sozinho Do sucesso, o desejo De superar, a vontade Nada que venha somar Teu olhar já morto, petrificado Na janela de folhas secas Recorda o que foi ontem E teme o que será amanhã O oásis é dos outros Não teu. Pobre poeta cansado Dores que não matam, mas machucam Dores do medo de não ser o melhor.