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Quase parente

Ela nem tinha chegado aqui e eu já me emocionara com a sua presença. Era forte, altiva, esclarecida e divertida. Nas poucas horas em que tínhamos contato, na verdade, eu que ficava hipnotizado por ela, meu dia ficava mais festivo. Ou melhor, a noite, o período em que realmente nos encontrávamos na casa de uns amigos de meus pais. Depois, passávamos praticamente uma semana sem nos vermos. Até que chegou o grande dia. Ela apareceu majestosa, imponente, tomando conta da casa como se fosse uma visita. Uma visita esperada, aguardada e que já tomava ares de hóspede eterna. Ficava no melhor lugar da sala, defronte ao sofá, onde permanecia mais exposta e parecia estar sempre pronta ao diálogo. Diga-se, a bem da verdade, que às vezes, parecia indisposta, um tanto alheia e embora fizéssemos o possível e o impossível para que correspondesse, não dava as caras. Mas nunca a censurávamos, ao contrário, ficávamos felizes quando ela voltava. Muitas vezes, não foi exclusividade minha, amigos apareciam e ansiavam desesperados pela sua presença. Outros estranhos, a espiavam pela janela. E em ocasiões especiais, grandes eventos, como a copa do mundo, a janela ficava desenhada de cotovelos estranhos, olhos fascinados com a sua presença. Com o tempo, ela ficou atrevida, não era mais uma visita, muito menos uma hóspede transitória, era um de nós, quase parente. Tornou-se tão à vontade que começou a ficar não apenas na sala, mas transitou da cozinha ao quarto, imaginem. Sua presença tornou-se cada vez mais íntima, a ponto de não descolarmos de suas projeções. Mas o tempo é duro para todo mundo, e ela envelheceu e apesar de estar praticamente em todos os lugares, foi se tornando quase obsoleta, dando lugar a outras mais jovens e fagueiras. Agora, talvez o streaming a salve e restitua a sua imagem daqueles tempos da velha TV de nossa infância.

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