O dia em que me roubaram a palavra

Eu estava à cata de informações para uma redação, na imaturidade de meus 13 anos. Os acessos eram difíceis, embora houvesse jornais, TV, revistas e, principalmente, a imaginação. Naquele julho de 69, a Apollo 11 era a primeira missão de sucesso, com Neil Armstrong pisando na Lua e surgindo nas telas da TV, em uma imagem entrecortada de chuviscos e emoção. Eu elaborara a redação com cuidado, tentando ser o mais verídico possível, sem ser previsível. Naturalmente, não possuía essa percepção de previsibilidade, mas, por pura intuição, tentava ser original, no esforço de transformar o texto em um produto bem elaborado. Enveredava, sempre que podia, pela imaginação, transportando meu mundo interior — fundamentado na fantasia do espaço — para o papel, procurando decifrar a perspectiva que possuía do avanço espacial. Aquela nave maravilhosa, desenhando no céu uma centelha de luz, trazendo a nós, terráqueos, uma visão tão próxima da Lua, com a certeza de que os astronautas pisavam, pela primeira vez, no solo inatingível. Dessa forma, realizei a redação — se não a melhor, uma das melhores de minha carreira de estudante. Certo dia, o diretor da escola, um frade austero, de olhar frio e perscrutador, adentrou a sala, invadindo a aula de português. Nosso professor, Irmão PL, recebeu-o com cortesia. Um meio sorriso nos lábios, uma ansiedade contida, um torcer de mãos sob a batina branca — talvez na mesma expectativa em que estávamos mergulhados. Ele era alto, de cabelo ralo, nariz adunco, mãos grandes e dedos peludos. Tinha um olhar tranquilo, mas havia nele uma interrogação que me inquietava. Talvez não exatamente por sua conduta, mas pela minha maneira peculiar de observar as pessoas e considerá-las um produto promissor para minhas histórias. Fiquei circunspecto, sem muita expectativa, a não ser imaginar que o assunto que levara o diretor à sala de aula seria algum tipo de norma reformulada ou talvez um feriado religioso, no qual participaríamos de alguma solenidade. Eu, magro, mãos sobre a mesa, olhar atento, cabelo caído na testa, à la Beatles, observava o cenário já meio enfadado. Meus colegas cochichavam, faziam mil esforços intelectuais para descobrir o motivo do diretor aparecer assim, de súbito. De repente, ele manifestou-se por meio de uma fala burocrática, citando a turma que, segundo ele, estava bem orientada na aula de língua portuguesa, deu os conselhos de praxe e, por fim, citou o meu nome. O meu nome? Perguntei-me, atônito. A que se referia? Claro que perguntei mentalmente, sem abrir a boca ou piscar os olhos. Alguns segundos depois, o diretor pediu que eu me levantasse. Obedeci, pernas trêmulas, joelhos batendo um no outro, coração aos pulos. Não sabia o que pensar, o que dizer, o que imaginar. Nem passava pela minha mente confusa qualquer indagação que não fosse uma temerosa culpa por alguma conduta indevida. Ele, então, mandou que eu me sentasse, o que fiz de imediato, deixando cair os braços sobre a carteira, mãos presas à caneta, desenhando quase involuntariamente no caderno, tentando fugir daquela atmosfera de incerteza. Prosseguiu elogiando a redação que eu fizera, acrescentando que havia sido muito bem avaliada pelos professores e que, em virtude da qualidade do texto, seria publicada no jornal da cidade. Quando se afastou, os colegas todos me olharam, juntamente com o professor, que parecia abalado, pois nada dissera a respeito. Nem me cumprimentara. Houve mil brincadeiras e muitos apelidos, culminando em me chamarem de poeta. Para eles, qualquer um que escrevesse razoavelmente era um poeta. Ou talvez fizessem uma leitura pejorativa, realçando que a sensibilidade não era prerrogativa de meninos. Não sei. Coisas que talvez Freud explicasse. Afinal, era um tempo de uma ideologia tecnicista, na qual as artes e filosofias foram excluídas. No intervalo, as brincadeiras se sucediam, mas eu estava feliz, porque meu texto fora analisado, elogiado e comprovado publicamente que tinha qualidade. Com o passar do tempo, passei a ter ainda mais ânimo para escrever, não somente as redações obrigatórias da escola, como outras histórias que criava em total liberdade de pensamento e imaginação. Nesse período, elaborava contos ou imensos romances, pontuados de ação, aventura e emoção, abrangendo, desse modo, os sentimentos que atribuía aos personagens e suas tramas. Era uma dramaturgia intuitiva e repleta de clichês, mas que ampliava minha imaginação e, de certo modo, meu conhecimento literário, além de ampliar o gosto pela leitura. Nos sábados em que se realizava o grêmio literário da escola, costumávamos assistir aos trabalhos feitos pelos colegas. Diversas turmas se reuniam, havia muitas apresentações, com a participação dos professores de português e, inclusive, de outras disciplinas que confraternizavam com seus alunos. Geralmente, alguns pais convidados também faziam parte da plateia. Apresentavam-se poesias, crônicas e contos que, após serem apresentados em sala de aula e considerados os melhores trabalhos, eram levados à comunidade escolar. Em determinado momento, o professor que apresentava os alunos chamou um dos meus colegas de turma. Todos ficamos na expectativa da apresentação. Era um menino de cara rechonchuda, vermelha e um sorriso imenso nos lábios, considerado o guri popular da turma. Já aplaudido pelos grupos de alunos e pais, abriu uma página datilografada e, antes que se pronunciasse sobre o tema, o professor anunciou tratar-se de uma redação sobre a chegada do homem à Lua — ou seja, a Apollo 11. Meu coração revirou-se em saltos. Os colegas voltaram-se de imediato para mim, criticavam e afirmavam que se tratava da minha redação, o que implicava que eu deveria estar lá, no palco, lendo-a. Perguntavam, afoitos, por que eu não dizia nada. O menino começou a ler, voz clara e bem colocada. Não modificou nenhuma palavra, nenhum artigo, nenhuma pausa. Meu coração, sim, quase pausava. Meus lábios tremiam, tensos, incapazes de pronunciar uma sílaba sequer; músculos paralisados, pernas cravadas no chão como estacas inanimadas. O professor de português, ao nosso lado, impassível. Não foi capaz de informar que aquele texto havia sido escrito por mim. Não foi capaz de me defender. Como eu, no meio daquele público de adultos e crianças, poderia sair gritando que a composição era minha, que havia sido publicada no jornal da cidade e elogiada pelo diretor da escola? Não teria coragem para tanto. Ali conheci a mão pesada do apadrinhamento, da covardia dos mestres, do interesse dos superiores. Deixaram-me na lona — Davi sem enfrentar gigante algum. Perdido, acabrunhado e triste. Ali conheci, a duras penas, o significado do plágio. Mais do que isso: a predileção por um aluno em detrimento do outro. Se ao menos nomeassem o autor do texto, eu me conformaria. Mas todos os créditos foram para ele. Todos os louros. Todos os aplausos. Para mim, sobrou o constrangimento de não ter me levantado contra aquela injustiça. Sobrou a crítica dos colegas, pelo meu acanhamento. Sobrou a autocrítica por minha fraqueza. Felizmente, sobrou também a vontade de lutar, de mostrar ao mundo o meu fazer literário, sem o medo do fracasso — pois, se ocorrer, será somente meu. Mas, como tudo é aprendizagem e sublimação, a mágoa transformou-se em matéria narrativa e hoje só existe para vestir um personagem.

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