Postagens

Folhas

Imagem
Folhas caem lentamente Pairam algumas, seguem devagar a corrente Parecem sonhar e mergulham como plumas no ar Folhas caem lentamente Trazem consigo olhares e nostalgia Talvez de um passado recente Ou de uma vontade vazia Folhas caem lentamente Aproximam-se do chão e das raízes Pesam na grama impunemente Ou se debatem em rodamoinhos, às vezes Folhas caem lentamente Transformam a realidade mais bonita Não importa se afofam o chão clemente Se a árvore fica fria e despida Se os grãos viram semente Apenas que o outono abranda a desdita Fonte: https://pixabay.com/pt/users/rihaij-2145/

O guri

Imagem
Quando o vi pequeno e raquítico, não soube executar nenhum gesto. Quando o vi mal abrir os olhos na luz ofuscante da manhã, quase me afastei acovardado. Quando o vi, faminto e maltratado, quase chorei sentado em minha complacência. Então, pedi, suplicante. Não acorda guri, mesmo aqui, sob a marquise nesta calçada suja. Dorme guri, não vale à pena acordar. Dorme e sonha. Com que sonha o guri sozinho, se não uma porção de sorvete e balas de goma? De que vive o guri na rua, se não de sonhos? Terá ainda sonhos, o guri? Tenho eu, empurrando com os pés o saco de latinhas amassadas. Sonhos sinistros e medo de acordar. Medo que ele se aproxime e sua baba, sua fome, sua sede e seus sonhos respinguem em mim. Medo que tenha de enfrentar a dor dos outros, de mastigar sozinho as horas solitárias pelas quais passa, medo de pensar e me sentir menos humano do que ele. Por que levar a comida na geladeira de rua e sair correndo com medo da proximidade? Talvez a pandemia expliq...

Mudez

Imagem
Fico calado. Não tenho o que dizer. O silêncio, às vezes, é uma benção. Pelo menos para os que dividem, não argumentam, nem ouvem. Mas ficar calado, não impede a ansiedade e a frustração. Estas aumentam, devoram-nos e num círculo vicioso, nos fazem calar ainda mais, embora nosso coração grite de angústia e dor. Há tanto o que dizer! Mas quem há de ouvir? Quem se interessa? Há tanto a pedir, há tanto a lutar! Mas a luta parece inglória. Perdemos sempre. As ondas virulentas se sucedem, tão fortes e resistentes quanto o ódio. Nada importa. Não importa que nossos irmãos morram, agoniados, sem ar, sem força, como animais desamparados ao relento. Não importa, que muitos passem fome, e se espalhem pelas favelas como moscas contagiosas, onde não lhes é permitido qualquer brecha de vida ou esperança. Não importa a morte porque ninguém é culpado, ou melhor, todos são, com exceção do governo. Este que lidera com intolerância e ódio genocida a uma legião de “homens de bem”, parece estar muito...

Motor estagnado

Imagem
O homem sonhou que atravessava a lagoa e de repente, o barco parou bem no centro, entre as ilhas e o cais, como se fosse uma imposição dos dias atuais. Não, não era na direção de São José do Norte, nem na direção do centro da cidade, por ali, perto do mercado público. Na verdade, era um pouco mais longe, lá pelas bandas do bosque. E o cais, que ele chamava, não passava das margens arenosas que cercavam seu quintal aramado. Estava lá, entre dois pontos. A referência da margem da casa e a ilha defronte. Talvez fosse Porto do Reino, pensou. Não, ele não pensou, ele sabia. Ficou ali parado, pensativo, sem qualquer reação. Nada que fizesse, produzia algum movimento no barco. Motor estagnado. E as águas também não fluíam, como o tempo. Tudo parado, quieto. Estranho. Mas estava vivo. Talvez tivesse uma iluminação, pensou, embora soubesse que era um sonho. Ele estava dentro do sonho e não conseguia acordar, mas sabia que estava dormindo. O céu parecia aproximar-se do barco, trazendo um fo...

Se o Natal chegar

Imagem
Se o Natal chegar e eu não estiver preparado. Ele vem de mansinho, se avizinhando em nossos pensamentos, sentimentos e corações. Se o Natal chegar e ainda estiver em dias atribulados, assustados, perdido em promessas que se esvaem em cada pronunciamento, em cada desfavor que fazem à população, em cada mentira degradante que se alastra em grupos de WhatsApp, em cada ficção de nos tornarmos robôs com DNAs estranhos, catapultados dos alienígenas chineses, sim, parecem que eles nem são da Terra e imagem, vermelhos! Se o Natal chegar e eu ainda estiver neste impasse, de me encontrar embatucado com tanta mediocridade, tanta falta de noção ética, moral e científica. Se o Natal chegar assim, de mansinho, se avizinhando, quem sabe, eu esqueça por um dia, umas horas, que a ficção é o tempo decorrido antes do Natal e depois, e que agora é a realidade, que vai além das fronteiras do olhar midiático, das redes sociais, dos pronunciamentos falsos, dos desgovernos, das mentiras. Então é Natal e ...