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Pensar nas nuvens

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Desci lentamente a rua, uma ladeira estreita, amaciando os pés nas folhas amarelas, dobrando esquinas, pesquisando um ar mais puro. Sem saber, tinha em meu coração que coisas ameaçadoras interromperiam a minha trajetória. Mas que fazer, se não esmagar com as mãos aquele gato pequenino, que miava insistente, que teimava em não ser afogado no tanque? Puxar o gatilho da mente, disparar as ondas elétricas do cérebro, insistir no improvável. Viver outra armadilha, muito mais densa, mais perigosa. Enroscar-me na rede como um peixe agonizante. Olhar pelos atalhos e sentir que a dor é bem mais intensa quando se vê a alegria dos outros. Os outros que estão tão próximos, acirrando com olhos fixos nossa dor, que quase os tocamos e sentimos sua gosma grudenta, sua respiração ofegante, seu hálito sujo. Poder fugir da armadilha, escapar da dor imensa, mergulhar no passado, pisar novamente as folhas secas, amaciar os pés na fofura verde-amarela, sentir o hálito puro do entardecer do outono, c...

O verão de nossos dias

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Ilustração: pintura a óleo de Evanoli Resende Corrêa Tanto se fala no verão. No sabor das águas, no saborear da brisa, quando não dos ventos do Cassino. Acima de tudo, o bate-papo com os amigos. Verão é isso. Jogar conversa fora, sem muito compromisso. Talvez seja mais do que um andar ao léu, ou margear a praia de bicicleta nos fins de tarde. Ou como diz Vinícius na música, “um velho calção de banho , o dia pra vadiar”. Talvez seja mais do que conversar sem compromisso. Talvez seja mais do que lagartear ao sol. Talvez seja apenas viver. Viver plenamente, o que, às vezes, deixamos de fazer durante o ano. Claro que não se quer um tempo exclusivo de fazer nada. Mas um tempo pra nós mesmos, onde nem nos olhemos tanto no espelho, nem nos preocupemos tanto com a sandália gasta. Mas um tempo para ler aquele livro que prorrogamos sem a devida atenção, e que sempre nos vem à memória. Um tempo para nos dedicarmos à natureza. Para pormos em prática a tranquilidade dos dias. Para e...

O reflexo da porta

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Patrícia mais uma vez olhou-se no espelho, mas agora seus olhos perdiam-se num passado distante. No reflexo da porta projetado pela sala contígua, desenhava-se o perfil de Benvindo que se afastava, talvez à procura da juventude que julgava perdida. Talvez fosse a culpada de sua fuga: aos poucos negligenciara a aparência, o bem viver, o relacionar-se com os amigos e ao próprio lugar no centro da vida. Não, ela era só a dona de casa que o acompanhava nos jantares, nas festas da empresa, nos compromissos sociais.   Talvez não fosse nada disso, pensou. Não passasse de um encanto transitório por uma mulher muito mais jovem, o impulso fantasioso de um homem de meia-idade tentando escapar do tempo. Afinal, não  acontecia assim com tantos casais? Mas se houvesse uma saída, uma maneira de alterar essa situação, de modificar o rumo, esse consenso social? Ela poderia reinventar-se, tornar-se uma mulher ativa e participante de uma nova sociedade. Uma realidade em que ela fosse a...

AS VÍRGULAS DE ANTÔNIA

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Para que servem as vírgulas. Se nos detivermos com atenção nas minúcias, observamos que há dezenas de usos, nos quais extraímos da mente, como apêndices desnecessários da linguagem, a não ser para respirarmos com mais tranquilidade. Entretanto, gramaticalmente, poderíamos falar em intercalações, tais como as do adjunto adverbial, da conjunção, ou de expressões explicativas, bem como nos apostos ou no uso após o vocativo, e o que é mais corriqueiro, nas enumerações. E aqui elas se fazem valer, altivas, imponentes, revelando aos incautos a força de seus significados e significantes, mostrando o porquê de suas inserções. Mas na verdade, estas funções gramaticais não despertam curiosidade em nosso discurso cotidiano, ao contrário, nem percebemos a sua localização, seu uso adequado ou indiscriminado. Via de regra, respiramos saciados no linguajar afoito de quem, quase sempre, tem pressa absoluta. E lá vai vírgula. Ao menos que sejamos especialistas em linguística, damos conta de suas fun...

As laranjas do vizinho

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Diariamente, deliciava-se olhando as laranjas do vizinho. Não eram suas, talvez por isso mais saborosas. Divertidas. Tinham uma cor exuberante, apesar da luz quase inadequada do inverno. Ficava ali mastigando pensamentos. Nada melhor do que olhar as laranjas do outro. Estas têm os que as nossas não têm. Isso, se as temos. Se pudesse subir no último degrau da escada e escalar o muro, por certo aquelas seriam suas também. Um dia, faria um bem para si próprio, retirando delicado, uma a uma, todas as laranjas do vizinho. Por que somente ele tinha laranjas? Por que havia plantado, produzido, cuidado com carinho do que era seu? Por que era dono de um bom espaço. E daí? Ele também era seduzido pela terra, limpara o lixo dos fundos do quintal, examinara todas as plantas, que eram poucas, mas passíveis de crescimento, tal como as laranjas do vizinho. Não havia nada atrás de seu muro. Apenas aquelas laranjas apetitosas, suculentas, das quais sentia um arrepio nos dentes, em pensar no simple...