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Olhar noir

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Nem sabia se devia sair, mas em dado momento, sentiu-se mal. Uma mulher de sua estirpe, por mais que aquele povo representasse a elite, havia entre eles alguns estapafúrdios, que demonstravam uma dissonância com o movimento, que a deixava irritada. Estava muito calor, homens suados e sem charme, vestidos em camisetas bregas pedindo autógrafos e às vezes, dando encontrões maliciosos. Se ao menos partisse de um garoto malhado, barriga tanquinho, barba mal feita e boca sensual, daquelas que suplicam um beijo cinematográfico. Que nada, havia até uns velhos decrépitos, de bermuda branca e sandalha de velcro, uh, que coisa execrável! Era hora de dar o fora, uma atriz de seu cabedal, filha de militar, que fora casada com diretores e até mágicos, inclusive se tornado virgem a pedido do policial, aquele cafajeste! Mas deixa pra lá, agora ela ainda dá os seus pitacos nos novinhos! Afastou-se do grupo constrangedor. Ouvia o seu nome a todo momento, Susi Silveira, Susi Silveira, o que produzi...

OS DEZ TEXTOS MAIS ACESSADOS DO BLOG

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1º O uruguai e seus carros antigos 2º Metáforas cruéis: desqualificação de mulheres e negros 3º Trabalho voluntário no Hospital Psiquiátrico: uma provocação para a vida 4º Um passeio no gordini, com meu pai 5º Pequena resenha do filme “De porta em porta”(Door to door) 6º Minha apreensão da vida e a dos outros 7º Caminhos traçados 8º Comentários emocionantes sobre a crônica “Refugiados em seus sonhos publicada em abril/2015 9º O amor e a piedade: sentimentos distintos 10º Uma diretora valente

Roteiro de viagem

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Parodiando o conto "Circuito fechado"de Ricardo Ramos, eu fiz como exercício para nosso Curso de Formação de escritores o conto "Roteiro de viagem" . Quarto.cama.travesseiro. criado-mudo. alarme. celular. pijama. banheiro. sanitário. pia. sabonete.dentifrício. escova. boxe.chuveiro.toalha. pente.cabelo. cueca. camisa.calça. meia. sapato.agasalho.carteira. mochila. celular.sala.chave. porta.quadra.esquina.rodoviária. box. ônibus. carteira. passagem. poltrona.celular. tablet. sono. manhã.pessoas. conversas. ruas. sinaleiras. rodovia. paradouro. comanda.banheiro. mictório. pia. toalha.bufê.sonho. café.balcão. mesa. cadeira.café. sonho. adoçante. guardanapo.caixa.comanda.tridente.carteira. dinheiro. ônibus. poltrona. celular. tablet. livro. textos. sono. conversas. sons. celular. buzinas. rodovia.rodoviária. banheiro. mictório. descarga. pia. sabonete. toalha. restaurante. salada de frutas. café. tridente.táxi.motorista. conversas. ruas. sinais. placas. veículos. trân...

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI EM FLORES II

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Rosas se espalhavam pelo alambrado, tingindo de vermelho o cenário, no qual se avistavam pequenos pedaços de azul da parede do prédio. Quase não se via o outro lado da cerca, tão fortes estavam as rosas. Tínhamos a impressão que o verde era apenas um adereço à beleza e ao perfume que revelavam. Houve momentos em que cresceram tanto, que atingiram o jardim por trás da cerca, envolvendo-se nas margaridas, nas frágeis papoulas ou nos vigorosos cravos amarelos. Achavamos que o vermelho suplantava as cores da discórdia, do ódio, da intolerância. Pensávamos que o desafio estava tomado, que o sangue vertido nas lutas pela democracia representava os anseios de uma sociedade fragilizada por anos e anos de dissociação cidadã de sua pátria. Achávamos por fim que a sociedade estava madura. Mas as pétalas foram caindo aos poucos, lentamente, no subterrâneo dos insetos devoradores, minando as raízes, as folhas, os galhos. Minando o verde da esperança até chegar no vermelho. O vermelho ...

Pra não dizer que não falei em flores

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A manobra foi lenta e gradual. Bem estudada, desenhada segundo os meandros mais complicados que se apresentavam. Usava-se das estratégias arquitetadas com cuidado, apreensão, focalizando o ponto de partida, que seria a vitória final. Sem retrocesso, sem voltar ao ponto de partida, sem pedidos esdrúxulos de recuos providenciais ou renúncia ao poder tomado pelos dedos fortes que empunharam as bandeiras das escolhas. E a mão foi firme, optando por linhas vibrantes, que condissessem com os objetivos do desenho, principalmente, no ferir despudoradamente o tecido, sem antes porém escolher a dedo o fio necessário, aquele que abrange todo o molde, transformando uma imagem disforme num alto-relevo emergente. Usar o dedal com precisão, para que não se esparja o sangue e arruíne a estrutura, puxar devagar a linha, com cuidado, quase com carinho, enfiando-a na agulha e trazendo para próximo ao peito, para não perder o equilíbrio e deixar que se escoe por entre os dedos, como água que jamais se...