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TEMPOS DIFÍCEIS

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TEMPOS DIFÍCEIS Corria o início dos anos 80 e a Polícia Federal, como todas instituições que possuíam ingerência na vida dos cidadãos, no país,  tinha suas próprias normas, ou talvez seu jeito arbitrário de conduzir os deveres e direitos (?) dos homens de bem. Num destes dias de primavera, estava numa parada de ônibus, banho tomado, roupa alinhada, maleta sob o braço, à espera rotineira do transporte urbano. Nada que me estimulasse ou me deixasse alerto para as surpresas do cotidiano. Ao contrário, naquela tarde, especialmente, eu estava tranquilo. Coração quieto, sem muitas preocupações, a não ser pensamentos fugazes sobre a aula de filologia, que considerava um tanto monótona. À noite, a rotina se completaria com o trabalho na biblioteca da Universidade, mas naquele momento, nada me causava maiores devaneios. Tudo rotineiro, como um ritual elaborado sob normas pré-estabelecidas, quase medíocre. Meu companheiro de ponto de ônibus, um senhor que me parecia escriturário, ou bal...

Contratempos num passeio de bicicleta na praia

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Não sou muito bom em tarefas manuais. Não tenho as habilidades básicas, nem para trocar o cartucho na impressora, mexer com parafusos ou arrumar a correia da bicicleta. Não é meu jeito, que fazer. Tenho outras habilidades, graças a Deus. Mas devido a esta falta de jeito, muitas vezes, passo por perrengues nada agradáveis. Outro dia, ao entardecer, estava passeando de bicicleta pela praia, um fim de tarde lindo, o sol se pondo e as águas translúcidas pela pouca luz que restava. Dava gosto de ver. Fui indo, com o vento a favor, em direção à barra e nem me dei conta que a noite chegava rapidamente. Resolvi voltar e de repente, a correia da bicicleta travou. Na verdade, deslocou-se das engrenagens da coroa da pedivela (rodas denteadas, pesquisei) e a catraca da roda traseira.  Então, virei a bicicleta e tentei recolocá-la, sem nenhum sucesso. Engraxei as mãos, tingi as unhas e os dedos, mas tudo o que fazia, aumentava mais o enredo que se formava. Quanto mais tentava resgatar o em...

Um café bem-vindo

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Um café bem-vindo Um café é sempre bem-vindo. Por onde vou, por mais calor que esteja, estou sempre à procura de um café. Um café me anima a alma, me conforta, me liberta do mau humor. Um café me acorda, me deixa ágil para fazer os textos, para viajar (tanto na escrita, quanto na estrada real), um café me transporta. Muito se tem falado sobre o café e ressaltado seus benefícios ou malefícios. Pra mim, no entanto, além de tudo que é dito, estudado, pesquisado, analisado, é transcendental. É um universo. Sentir o aroma do café é absorver a primavera na sua plenitude, é agitar o coração, é percorrer com leveza os campos. O café é verão, sentir as pernas salgadas pelo sal da praia, naquele velho calção de banho, escorrendo os pingos até os pés, sentando numa cadeira à frente do bar e sorver o café preto, denso, forte, com sotaque de praia. O café é alento, calor no inverno, um upgrade à memória e imaginação, quando sentado à escrivaninha, escrevendo aquele texto que para nós parece ...

I CREATED A FAKE

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I once created a fake of myself . This is normal , some friends asked me, do not know, not even really know what can be considered normal . After all, people have different standards of behavior conceived as within normal and everything seems extraordinary, elegant, avant-garde , even postmodern (if it exists ) . Anyway , it all depends on the context in which it appears the situation or behavior . Anyway , for a while , I was very happy with my fake , or rather , I was awarded some benefits . My fake participated in many social networks . It was smart, intelligent , appropriate to the new technological and artistic trends , besides being politically positioned , and ultimately , a great philosopher . But it was a fake , a figure created to protect me as a walking stick to support me , a character to share with me the most estrambólicas information , to discuss social problems , to share the existential questions, to make objective attitudes toward more different points of view . Y...

DOCE OBEDIÊNCIA

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Costumava agir assim, seguir o conselho dos mestres. Jamais se furtava a obedecer, fosse qual fosse a ordem, a regra, a observação, o pedido. Era doce, plácida, quase sempre mergulhada em profunda melancolia. Gostava de sofrer, pois significava viver uma vida que não a sua. Quem sabe, a de uma heroína medieval, crivada de medos, de sentimentos obtusos, de falta de liberdade e cheia de inspiração e amor. Às vezes, tinha surtos de labirintite e gostava de sentir-se um pouco zonza. Mostrava ao mundo seu sofrimento e solidão. Já passava dos quarenta, tendo por companhia um gato siamês, castrado, gordo, calado, preso a uma corda. Subserviente, tal como ela. Se ao menos, tivesse um namorado, traria consigo a conspiração da vida, que se achegava pertinho, se arrastando, deixando- se avistar apenas pela janela. Mas só. Não tinha ninguém. Ah, também tinha suas costuras, das quais vivia e se sustentava. Mas por elas, não nutria nenhum sentimento. Detestava as mãos ágeis de como esticava ...