Clarissa
Sair à procura de algo que nem sempre se sabe ao certo o que é: uma viagem em busca de um pequeno diário, de um caderno colorido com páginas desenhadas e margens enfeitadas, ou uma caneta especial, de ponta fina, daquela marca encontrada na livraria onde ela comprara o seu livro.
Mostrava-se quase sempre assim: exigente, disciplinada, austera para a idade, mas também capaz de atitudes impensadas aos olhos dos mais velhos. Tinha sempre um argumento na ponta da língua (afiado, cirúrgico), mas profundamente leal, afetuosa e sincera.
Por vezes, deixava-se conduzir pelo sonho e pelo lúdico. Tinha um cão imaginário – que eu lhe apresentara –; o mar, a lagoa e as árvores eram entidades vivas, dotadas de sentimentos e reações, as quais costumava saudar como quem conversa com velhos conhecidos. Relacionava-se com o ambiente ao redor como se esses cenários fossem tão reais e presentes que integrassem o cotidiano, e não apenas o campo da ficção. Entretanto, possuía uma lucidez admirável e um entendimento firme da vida. Sabia cultivar a poesia e a beleza de existir, mesmo que por instantes – essa liberdade rara que apenas alcançam aqueles que alimentam o espírito com a grandeza da imaginação.
Essa inclinação prolongava-se nas leituras que se acumulavam em dezenas de livros, os quais ela costumava dissecar, tentando encontrar sentido em cada tema, em cada trama, em cada conflito. Talvez eu tenha uma pequena participação nessa maneira de enxergar o mundo, que aos poucos se solidificou e a fez, tenho certeza, escapar do senso comum, das verdades absolutas e de uma sociedade padronizada, para encarar a vida de frente. Talvez eu a tenha conduzido (não sei se esta é a palavra adequada), a descobrir novos horizontes, sobretudo por meio da leitura e, ainda na infância, nesse encontro permanente com a natureza: cultivar o amor pelas pessoas, pelo mar, pelos animais – mesmo os fictícios – e cumprimentar tudo e todos, como quem deseja um bom-dia antes de sair para o trabalho ou, no caso dela, para a escola. Até o sol ganhava uma saudação no caminho das aulas.
Eram coisas nossas, de pai e filha. Uma cumplicidade silenciosa que me fazia feliz.
Esse processo também se completava por meio das histórias infantis, nas quais nem sempre o vilão era realmente mau, nem a princesa ocupava o centro da narrativa. Muitas vezes, o lobo mau era apenas um pobre coitado, perseguido por um lenhador antiecológico, acuado por uma menina egoísta, protegida por uma idosa que fingia estar doente. Talvez tenha sido assim que ela compreendeu a diversidade da vida e que ninguém é inteiramente bom ou ruim; que essa dicotomia simplista entre mocinhos e vilões serve apenas para criar rótulos, conceitos e preconceitos que pouco ou nada explicam sobre os seres humanos.
Houve também o balé, com sua disciplina intensa. Estávamos sempre ao seu lado: nos primeiros passos, nas primeiras coreografias, que aos nossos olhos tinham a grandiosidade de apresentações de primeira bailarina do Municipal. E a vida seguiu o seu curso: a escola, o cursinho, a conquista da vaga em Medina e tudo o que se sucedeu depois.
Poies esta é Clarissa.
Acho que ainda reside nela um pouco da bailarina, da leitora incansável e da menina da fantasia. Mas sobressai também o discernimento da vida em suas atitudes e em como se relaciona com os amigos e com as pessoas que encontra no dia a dia. Há nela a sensateza nas escolhas, o apreço pelo afeto, pelo sentimento, pelo carinho, pela verdade e o amor às causas nobres – a certeza daqueles que sabem aprender com as adversidade e encontrar o fôlego para seguir em frente. Esta é minha filha: hoje doutoranda do 5º ano; amanhã, uma médica.
(texto elaborado em 2013. Clarissa é médica, especialista em cirurgia oncológica)
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