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Pai de menina

Pai é ser paciente, é apoio, é conciliação, é encontro, é busca, é espera, mas é sobretudo presença. Pois, pensando bem, ser pai é passear ao lado do filho pela calçada, sugando o ar da manhã e contando histórias enquanto se encaminha para a escola, é talvez empurrar a bicicleta e soltar antes que a criança pare de pedalar e pense estar ainda apoiada e ao mesmo tempo imaginar que já conduz sozinha, quando o pai ainda segura a bicicleta.

Talvez seja também levá-la à praia, conduzi-la ao mar, perpassar as ondas, segurá-la e fingir que aprende a nadar. É ser criança de repente, como ela e fingir que é adulto.

Ser pai, talvez seja uma moldura ativa que corre pela cidade, afoita e embriagada de ar puro, quando avista a menina, esperando a foto, na entrada do teatro em que dança, ou na academia, ou na volta do passeio. A moldura que espera a foto para ser personificada e guardada na lembrança. O pai e a bailarina.

Ser pai é esperar que as horas passem no vestibular e agradecer a ajuda dos deuses pelos resultados, pelas lutas infindas, pelas viagens não programadas, pelo destino incerto, pelo sonho esperado.

Ser pai é ensinar a dirigir e fingir que não teme qualquer desvio, qualquer solavanco que o leve à valeta. E sorrir e dizer: confio em ti.

Ser pai é ser dono de si, completo, inteiro, íntegro e se imaginar dono do mundo. Ser pai é esperar, é rir e amar. Ser pai é uma condição de aprendizagem, quando pensa que sabe tudo e ao mesmo tempo, nada.

Ser pai é viver esperando e talvez revivendo aquilo que seu pai era ou sonhara.

Ser pai é decifrar a malha de linguagem em que se envolve, que o abraça e o atinge na comunicação cotidiana. É reconhecer na filha jovem, como sujeito, detentora de um desejo que merece justamente esse reconhecimento por ser mulher.

Ser pai é ser condição, passagem, caminho e parada. Um pouso talvez, para que tudo se acalme, se alcance a margem e se espie o horizonte.

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