PÁSSARO INCAUTO NA JANELA - CAPÍTULO VIII

Capítulo 8

HOJE, QUINTA-FEIRA 04/02/2016, CONTINUAMOS O NOSSO FOLHETIM "PÁSSARO INCAUTO NA JANELA" COM O 8º CAPÍTULO.


–Cruz credo! A senhora ta com espírito ruim! Eu nem bem cheguei e a senhora ta me mandando sair. Que aconteceu dona Úrsula?

Úrsula abre os olhos, ainda estirada no sofá, sem entender muito bem o que está acontecendo. Dulcina a sua frente, falando sem cessar e uma luz forte invade a sala, ferindo a retina. Um olhar apalermado de quem não teve uma boa noite de sono.

–Tá com cara de quem tava na gandaia. Parece que passou a noite de porre!

–Me respeita, Dulcina. Não seja atrevida.

– Desculpa, dona Úrsula, mas me diga uma coisa, a senhora dormiu?

– Não sei, acho que dormi. Agora dei pra dormir, não sei se fico feliz ou assustada. Eu, que não saía da minha janela, que passava a noite vendo o céu escurecer e clarear, agora, fico dormindo no sofá. Será que você não me deu nada pra dormir?

–Ei, me tira dessa jogada. Não me mete em fria. A senhora quase me ferrou, ontem à noite. Agora que me acusar de envenenamento.

– Eu nem sei porque aturo você.

–Porque gosta de mim. Porque só tem eu pra conversar, pra brigar, pra botar os bicho pra fora.

–Você é muito convencida, mesmo. Mas como você entrou?

–Dona Úrsula, esqueceu que eu tenho a chave? Só não tenho a do prédio, lá de baixo, mas a do apartamento está aqui, comigo.

–Como é que eu fiz uma loucura destas, dar a chave pra você, que perigo estou correndo.

–Perigo nenhum, ao contrário, se bate as bota, de repente, tem que ter alguém pra abrir a porta.

–Ora, não diga bobagens, sua atrevida. Principalmente depois do que você me disse.

–O que eu disse?

–Eu não vou repetir.

–A senhora é quem sabe, mas tenho certeza de que não disse nada de mal. Muito pelo contrário, tudo que lhe digo é pra lhe deixá bem, pra cima!

–E sobre o meu algoz?

–Sobre o quê?

–Deixa pra lá.

–Ah, não, se começou, tem que terminá. Mas, eu to ligada. Se refere ao velho do prédio da frente, né? Eu tava brincando, não vou trabalhar com ele, não – sorri, acariciando a voz, outrora robusta e altiva, agora doce e suave –ta louca, pensa que vou limpá bunda de marmanjo? Gosto de trabalhar com gente assim, que nem a senhora, elegante, culta, artista.

–Por que você disse isso?

–Isso o quê? Que é artista? Ué, a senhora não toca piano?

–Me refiro ao velho, sua tonta. Nem me atrevo repetir o que você disse.

–Ah, sobre limpá a bunda dele? A Marielsa do 42, aquela pretinha nanica, sabe quem é ela, a que trabalha com o casal do banco – está bem, está bem. Não interessa, fale do velho – pois é, a Marielsa disse que ele faz as necessidades nas calças, parece que não dá tempo. Sabe como é, o cérebro não comanda. Um tico não bate com o outro, entende?

–Bem feito!

–Credo, como a senhora é má!

–Só eu sei o motivo. Mas parece que você não gosta dele, também.

– Ele fica cuidando a senhora. Não pense que ele não fica planejando alguma coisa, falando sozinho, de vez enquanto, dando uma olhada.

–Planejando o quê?

–E eu vou saber? A senhora também tá sempre matutando. Coisa de velho, ora. Agora, se me dá licença, vou pro meu trabalho.

–Você é muito desrespeitosa, Dulcina, sabia?

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