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DESSOLIDÕES: CONTOS, CRÔNICAS, RELATOS

A avalanche de sons


Hugo acordou com um certo zunido nos ouvidos. Na verdade, nem sabia se o ruído vinha de fora ou era um som interno, que não conseguia identificar. Aos poucos, diferentes sons eram ouvidos e tinha a impressão que várias pessoas falavam ao mesmo tempo, bem perto de si, além de outros barulhos. As paredes estalavam, os cabos de luz produziam pequenas alternâncias de ruídos, como movendo-se levemente e até mesmo os plugues das tomadas emitiam sonoridades estranhas. Parece até que borboletas batiam asas próximas ao seu rosto e um cri-cri de grilos se alternava com zumbidos de mosquitos. Estaria sonhando, pensou. Levantou-se rápido e foi até a janela. Viu pequenos agrupamentos de pessoas na calçada e um burburinho intenso, como se estivessem à espera de algum acontecimento grandioso. Puxou os óculos da ponta do nariz e tentou enxergar no outro lado da rua. As sacadas do prédio da frente estavam repletas de homens, mulheres e crianças, todos envolvidos numa balbúrdia animada. Até balões coloridos as crianças soltavam e por vezes, estouravam aumentando ainda mais o tumulto. Hugo decidiu afastar-se da janela e tomar um banho. Faria as atividades habituais, como sempre. Logo em seguida, iria ao Café Belém para o desjejum e jogar conversa fora com os amigos. Não demorou muito, estava na rua, dirigindo-se ao Café, ouvindo cada vez mais forte o ruído que aumentava a cada pequena aglomeração que se formava na calçada. Quem os visse de cima, observaria uma massa escura e uniforme que fazia e se desfazia em blocos, dividindo-se em alaridos desorganizados. Por sorte, a turba agitada e frenética vinha de outra esquina e ainda não tinha chegado às proximidades do Café com toda a sua extensão. Finalmente, entrou no Café, no qual percebia poucas mesas vazias, na verdade, apenas duas, uma bem perto da tv gigante que ficava sempre ligada na Globo, o que o irritava profundamente e outra próxima à janela, que dava para a rua do lado. Cumprimentou a moça da caixa, que sorriu, mas de modo estranho, pois não ouviu som algum. Parece que todos estavam calados e se falavam, era como um filme mudo. No bar havia silêncio absoluto. Por um lado, Hugo deu graças a Deus, afinal, era tanto ruído, tanta loucura que o ideal era passar o dia no Café Belém. O garçom, velho conhecido por trabalhar há bastante tempo na casa, aproximou-se e ele pediu o de sempre: café preto, um pão com manteiga e um pratinho com frutas. Podia ser mamão e um kivi cortado em rodelas. O garçom sorriu, anotou o pedido e afastou-se sem dizer nada. Que estaria havendo agora? Todos em silêncio. Voltou-se para trás para ver se a tv estava ligada. Apenas uma imagem imóvel de um comercial de xampu, sem qualquer som. Hugo começou a sentir um certo frio, talvez até temor pelo que estava acontecendo. Seria só com ele? Será que os demais se comunicavam e ouviam muito bem o que diziam? Será que estava enlouquecendo? Ele, um homem com tantas ideias muito bem articuladas sobre vários assuntos, um literato, um homem de cultura, engajado política e socialmente na sociedade e agora... o que estava ocorrendo no mundo, meu Deus? Um ruga de preocupação marcava a testa de Hugo e seus olhos se voltavam para todos os lados, observando as paredes, o balcão de granito com seus vários bancos à espera de clientes, as mesas ao centro quase que completamente preenchidas, a não ser aquela próxima à tv. Hoje não haveria problema, pensou, afinal, a tv estava muda e não incomodaria ninguém. Poderia até sentar ali, na frente daquela imagem de mulher alisando os cabelos, patética, olhando o nada, a boca entreaberta querendo dizer algo que não se articulava. Percebeu o garçom aproximar-se com o café e animou-se um pouco. Agora poderia falar-lhe, perguntar por exemplo, sobre o futebol, ele que era um gremista fanático. Até tentou fazê-lo, mas o outro afastou-se em seguida, deixando na mesa o pedido, apenas exercendo um sorriso formal. Hugo ainda perguntou, assistiu o jogo ontem?, mas o garçom voltou-se, apertou o seu pulso de modo consensual para dizer alguma coisa ou ser apenas gentil e afastou-se novamente em silêncio. Hugo reclamou, que merda, que ninguém fala nada! Mas decidiu tomar o café e dedicar-se à leitura do jornal, que como sempre, o garçom, já na sua chegada, deixara sobre a mesa da qual ele se aproximava. Hugo leu a notícia sobre Temer que criticava o Mercosul, o qual deveria ser repensado; fez um cara de repulsa e dobrou a página. Antes de ler a crônica do Juremir Machado, deu uma passada de olhos pelas pessoas que estavam no local. Numa das mesas havia dois homens conversando animados, um deles apontava para um tablet, mostrando algum post engraçado ou vídeo, não conseguia ver. Entretanto, nada se ouvia, como os demais, apenas aquele fechar e abrir de bocas, gestos espontâneos e empurrões em cadeiras em pleno silêncio. Só faltava ser em preto e branco para completar os quadros sequenciais, pensou Hugo. Olhou para os demais, um casal e duas crianças noutra mesa. A menina que devia ser menor que o menino, chorava fazendo uma careta terrível, pedindo alguma coisa que os pais negavam. O homem parecia nervoso, mordia os lábios e a mulher falava, estabanada, movendo os braços e mãos como se combatesse os próprios gestos para evitar bater nas crianças. O menino estava entretido no celular e este sim, estava em silêncio, embora o ruído eletrônico do bichinho em suas mãos devia ser insuportável. Numa outra mesa, havia um homem sozinho. Vestia terno e trazia consigo uma mochila que parecia pesada, pois escorregava a todo momento pela cadeira, caindo no chão. Devia ser muito desastrado, pois cada vez que retirava alguma coisa da mochila, como o celular ou a carteira do dinheiro, esta retomava o mesmo processo de cair. Tudo em absoluto silêncio. Havia outros, muito mais, mas Hugo desistira deles e decidira tomar o café. Estava delicioso, aquele pãozinho com mateiga derretendo sobre a massa esfarinhada lhe aguçava a saliva e o prazer. Pediria outro certamente e mesmo que viesse em silêncio, mas assim daquele mesmo sabor, estava ótimo. Depois provaria as frutas em fatias perfeitas, como pedira. O pessoal do Café Belém conhecia o seu paladar. Foi o que fez. Deixou o jornal de lado e partiu para o ataque naquele desjejum sóbrio e prazeroso. Depois ficou observando o garçom, as atendentes que traziam as refeições, o pessoal da cozinha. Todos pareciam muito corteses uns com os outros. A moça da caixa também mostrava-se gentil com os que entravam ou saíam do estabelecimento. Hugo procurou entre os seus pertences, uma caneta e um pedaço de papel. Elaborou um pequeno comentário que faria na Sociedade Literária, na qual participaria mais tarde. Estava bem disposto, saudável e com muito ânimo para pôr em prática os seus projetos, por isso comporia um pequeno esquema do trabalho. Sabia por onde começar e o faria por emitir posicionamento político em seus textos, embora soubesse de antemão que o grupo desaprovaria qualquer questão que não expressasse exclusivamente o sabor da brisa e o aroma das almas. Mas isso era irrelevante naquele momento. Depois de guardar o papel e a caneta no bolso, levantou-se, deu um bom dia ao pessoal do balcão, que retribuiu com um aceno e alguns sorrisos. Dirigiu-se à caixa, antes passando pelo garçom que se deslocava pelo corredor com um bule numa bandeja e despediu-se apenas com um aceno, porque sabia que receberia o mesmo. Na caixa, passou o cartão na leitora, cumprimentou a moça com um sorriso e dirigiu-se à porta envidraçada. Percebeu que nem o salto de seus sapatos faziam qualquer ruído. Por um momento, observou pela vidraça, centenas de pessoas que transitavam de um lado para o outro, como se várias procissões andassem em sentido contrário. Ainda olhou para trás para ver se as pessoas em suas mesas continuavam conversando e viu que o processo era o mesmo: muita conversa, muito sorriso, muitos gestos e muito silêncio. Então, segurou firme a maçaneta e empurrou a porta com cuidado. Nisso, uma avalanche de sons, gritos, buzinas, estrondos de rojões, gritarias, ambulâncias, polícia e bombeiros, tudo misturado expandia em seus ouvidos, deixando-o zonzo e assustado. Por isso, puxou-a com força, lacrando-a para sempre e correu para a sua mesa. Ali, restava um silêncio absoluto.


A pedra


Ao terminar de fazer as compras da feira, Maria Emília voltou para casa. Não tinha outra alternativa a não ser tomar o ônibus superlotado porque já era horário de meio-dia. Com dificuldade, passou a roleta e desviando-se de um e de outro, foi até os fundos do ônibus, já que a sua parada era bem distante. Com sorte, conseguiu um lugar ao fundo, espremida entre as sacolas de compras e uma caixa trazida por um homem ao lado, além de outras pessoas que se equilibravam em pé, ocultando-lhe a frente, sem poder ver por onde o ônibus seguia. Na verdade, não precisava. Conhecia aquea rota como a palma de sua mão. Um suor forte empapava o rosto e o pescoço. Sentia uma certa vontade de urinar, mas esta necessidade não era adequada para aquele momento. Devia esforçar-se em pensar em alguma coisa bem diferente para a vontade não apertar ainda mais. As pessoas se acotovelavam e tentavam se mover de um lado para o outro, tentando adequar-se ao ambiente sufocante. Uma das sacolas, com aquele atropelo próximo a ela se rasgou e alguns tomates e maçãs se espalharam por debaixo do banco. Maria Emília suspirou desiludida. Como pegar as frutas que se escorregavam pra lá e pra cá. Um rapaz puxou algumas com os pés e ela conseguiu segurá-las, dobrando a barriga sobre os joelhos e sentindo uma fisgada nas costas. Ficou a metade perdida, mas ela sorriu agradecida. No final da linha, ela desceu e caminhou mais algumas quadras com o que restara das compras. Sentia-se mal no sol intenso. O suor aumentava e agora descia até o peito, talvez percorresse todo o corpo se demorasse mais um pouco. Uma leve tontura e um tremor nas pernas. Maria Emília não queria parar, precisava chegar em casa e atender os filhos, mas percebia que a dificuldade de caminhar aumentava. Então, sentou-se numa pedra que ficava na esquina, de onde avistava uma casa abandonada, um pequeno bar mais adiante e um terreno baldio. Não faltava muito para chegar em casa e logo que pudesse, levantaria dali e faria o trajeto o mais rápido possível. Entretanto, a tremedeira aumentava e Maria Emília não tinha coragem de confessar a si mesma de que não voltaria para casa. Estava com muito medo e ninguém passava por ali, naquele calor insuportável. Na hora do meio-dia, todos fugiam da rua e se refugiavam nas casas para o almoço e ficar longe do sol o maior tempo possível. Maria Emília rezou. Precisava de forças para chegar à casa e ver os filhos. Uma dor no peito a deixava angustiada. Tinha medo de morrer ali, no meio daquele vazio ensolarado, enquanto as pessoas preocupavam-se com suas vidas. E o que significava a vida dela, a não ser uma pequena centelha, quase faísca, quase brasa morta no meio de um fogaréu imenso. Tentou olhar para cima, mas a luz do sol não a deixava ver nada, ao contrário, obrigava-a a fechar os olhos e concentrar-se em si mesma, olhando-se internamente, como quem examina um cadáver. As vísceras, as veias, o cérebro. Tinha a impressão que se observava por dentro, como se fosse uma entidade alheia, vendo o próprio sangue em golfadas pela boca, ao mesmo tempo que sentia um gosto insuportável. No entanto, nada mais acontecia, a não ser um silêncio quieto e um apagamento natural. Quando acordou, achou que tudo ocorrera há muito tempo e que talvez houvesse morrido e voltado à vida, assim, do nada. Sentia-se um pouco melhor e pode mexer-se. A dureza da pedra e suas reentrâncias doíam-lhe as carnes, esfolava as pernas naquela aspereza e as mãos estavam crispadas, segurando alguma coisa que não sabia muito bem do que se tratava. Conseguiu dobrar-se com esforço e perceber que segurava um livro, um livro de capa branca e se pudesse abri-lo, veria que em nenhuma página havia algum registro, alguma expressão escrita ou desenho, ou qualquer outra ilustração. Era um livro de capa branca e em branco. Deixou-o cair no chão e virou o corpo um pouco para a esquerda, outra vez para a direita, tentando procurar as sacolas e a bolsa que carregava com os seus documentos e alguns trocados que sobrara da passagem do ônibus. Mas somente avistara o título do livro: Constituição. Esqueceu-o, queria apenas a sua bolsa, os seus documentos, as suas sacolas. Mas elas não estavam ali. Maria Emília se desesperou e quis gritar, pedir por socorro, mas a voz parecia sumir-se num túnel tão grande que as ondas sonoras definhavam pelo meio do caminho. Maria Emília começou a chorar e achou que não havia saída, que nunca mais voltaria para casa, mesmo que estivesse tão perto, pois jamais sairia daquela pedra e que as coisas morreriam com ela, o seu passado, a sua memória, a sua luta, a sua esperança. Maria Emília não tinha esperanças. Entretanto, por um momento, pensou que tudo mudaria quando as horas passassem. Quando os homens e mulheres de bem voltassem para seus trabalhos, saíssem das casas abrigadas e encarassem o sol escaldante do ínício da tarde. Então a veriam ali e certamente a ajudariam a voltar. Quem sabe a ajudassem com algum dinheiro, com algum alimento, já que não havia nada em casa, nem mesmo o leite para as crianças. Mas eles não apareciam nunca como se houvesse feito um pacto para ficar em casa e se esconderem de um clima adverso e perigoso. Será que ninguém a veria por ali? Será que ficaria eternamente presa àquela pedra? Aos poucos, Maria Emília percebeu que a pedra era o único apoio que possuía. Ela era muda, firme e passiva. Era o único recurso que não a auxiliava em nada. Tudo parecia parado, descuidado e omisso com pessoas como ela. A pedra, entretanto parecia responder às suas dúvidas e de repente, começou a crescer, a aumentar de tamanho empurrando-a para os lados, ao mesmo tempo em que ela se agarrava com todas as suas forças para não cair, porque ao mesmo tempo em que escorregava, subia para o topo e ficava cada vez mais longe do chão. A pedra inchou tanto, que ela se assemelhava uma formiga na laranja, porém havia uma vantagem: lá do alto, podia por fim, avistar o povo que se aproximava. De repente, eles saíam de casa. Talvez tivessem um motivo forte para irem para a rua, quem sabe protestarem contra aquela situação absurda em que a apatia tomava o espírito dos brasileiros. Algumas mulheres se aproximavam como se estivessem num velório, chorosas e sem atitude, desordenadas, parecendo zumbis. Algumas traziam pequenas bolsas, só com documentos para comprovarem quem eram. Nas mãos, visores coloridos se conectando. Os homens carregavam mochilas às costas, também usavam celulares e aparentavam sorrisos mornos, provavelmente fruto de mensagens lúdicas. Entretanto, pareciam mais apáticos e sentiam-se mutilados nos pensamentos, desprovidos de espectativa de alguma mudança da realidade. Talvez nem quisessem isso ou nem se importassem. Talvez soubessem que o Brasil não tinha jeito. Maria Emília percebeu que eles nem olhavam para ela, talvez nem a vissem lá debaixo e embora gritasse, pedindo ajuda, não a ouviam. Mas ela percebeu que, um pouco afastado, um rapaz de capuz se aproximava, embora dando guinadas e fumando um caximbo estranho. Quando chegou mais perto, ela pode ver que ele carregava as suas sacolas e sua bolsa, logo atirando-as no terreno baldio. Eram apenas sacolas rasgadas e vazias, um que outro objeto que ela não distinguia bem, talvez um relógio, mas ela não tinha nenhum relógio, o que seria aquilo? Havia um brilho forte no tal objeto, como se fosse uma arma, sim, talvez uma faca, um punhal. Percebia o amarelo dos ovos se esparramando pela grama seca e algumas frutas que ainda restavam se misturavam ao lixo do terreno. E seu dinheiro e seus documentos, o que ele fizera com eles? Gritou em desespero para que a ouvisse. E ele ouviu. Foi o único que a viu sobre a pedra gigante e parecia divertir-se muito com a visão. Ria sem parar e dava pequenos gritos, como uivos até jogar-se ao chão e ficar desacordado. Maria Emília estava desolada. Nunca mais a encontrariam, nem seus filhos, nem seus amigos, nem mesmo os parentes. Para eles ela estaria morta e embora aparecessem por ali, jamais a veriam porque havia um pedra gigante em que se apoiaria para toda a vida. Seu destino, por certo, era virar pedra, fazer parte daquele aglomerado de minerais e transformar-se numa figura invisível, um camaleão disfarçado em pedra, para sempre. Foi quando percebeu que dois policiais se aproximavam. Ela nem gritou, nem falou nada, pois já não tinha esperança que a ouvissem. No entanto, viu quando pegaram o menino, deram-lhe algumas bordoadas, uns ponta-pés, golpearam-lhe a cabeça com o cassetete e o levaram para o camburão. Depois, viraram-se para a esquina, aquela onde ficava mais perto de sua casa. Tiraram umas faixas do carro, com algumas expressões em letras garrafais. Esticaram-nas de uma árvore à outra ou as prenderam em postes para que ficassem bem à vista. Maria Emília conseguiu ler alguma coisa, que a deixou mais perturbada ainda. Não era muito boa em matemática, mas a leitura sempre a agradou e por isso, lia bastante, tudo que aparecia, desde textos escolares até algum romance que passava por suas mãos. As frases eram firmes, exatas quase matemática. “Só um governo. Só uma justiça. Não à democracia.” Maria Emília sentiu que a pedra alongou-se mais ainda, como um obstáculo que a empurrava para o topo, para o fim do nada. Como pedir ajuda, como sair dali. Então percebeu que pessoas como ela estavam fadadas a serem esmagadas pela pedra e que ela giraria até que ela despencasse sem vida. Então, respirou fundo e se acalmou. Afinal, não havia justiça mesmo, não havia nem democracia. O país estava no fundo do poço. Maria Emília, porém ainda teve um resquício de esperança quando viu algumas crianças se aproximarem e teve um choro covulso as perceber que seus filhos também corriam pelas ruas. Só desanimou, quando os viu servirem-se de restos de comida, jogadas nas esquinas, talvez para os cães. Sentiu uma dor profunda no peito, como um golpe de punhal dilacerando-lhe as carnes, as vísceras, o cérebro, o coração e escorregou da pedra.


Não me perguntes


Não me perguntes porque o mundo gira, porque o tempo passa, porque os ventos sopram e o calor não se atenua. Não me perguntes porque ficamos mais velhos, porque as crianças se deseducam e os pais se desobrigam em seus princípios. Não me perguntes porque as coisas se substituem e o homem não vence as batalhas cotidianas e tudo se aproxima do caos. Não me perguntes quem se corrompe ou é corrompido, quem se deixa corromper ou corrompe. Não me perguntes se os rios secam e as indústrias expelem produtos nocivos. Não me perguntes quem polui ou quem colabora com o mau aproveitamento da natureza. Não me perguntes quanto volume possui cada gota de chuva que se espalha no parabrisa do carro. Nem se posso juntá-las com as mãos. Pois o que sei, é que não posso medir jamais. Os hidrogênios, oxigênios e metais pesados não podem ser medidos mecanicamente, assim como não se pode avaliar nada sem comparar com nossas próprias ações, porque somos deste mundo caótico, cheio de falhas e perversões. Somos portanto cada célula que o constitui e jamais teremos distância suficiente para qualquer avaliação. Fazemos parte do estrume. Fazemos parte das labaredas que lambem as margens das estradas, nas queimadas de baganas e falta de luz. Luz na mente, na alma, no raciocínio. Fazemos parte dos trocados jogados no amanhecer das noites de baladas inseguras e autoridades desfocadas. Fazemos parte dos coturnos que esmagam cabeças, quando vaticinamos mudanças ditatoriais. Fazemos parte das madrugadas sedentas de viagens agridoce e amargas, nas vielas sombrias de casas noturnas ou nas salas enluaradas das grandes festas, regadas a vôos de comprimidos, agulhas e pó. Fazemos parte do avanço descontrolado nas estradas, ilustrando as estatísticas de sangue ou dor, aviltando os humanos em virtude do motor potente ou da impotência dos saberes. Fazemos parte do desdém dos votantes, inaugurando facções reacionárias, retrógradas e preconceituosas. Fazemos parte do pensamento hegemônico da mídia, que distingue classes como quem partilha o bife, execrando os nervos e a gordura, porque o que nos é contado com oratória bem falante do narrador, é o que acreditamos. Fazemos parte dos cartéis de idiossincrasias onde o brasileiro gosta de samba, carnaval e futebol ou de funk. Gostamos de tudo isso, mas de muito mais. Entretanto, vamos pelo senso comum. E a vala é sempre a mesma. Então, não me perguntes o que está errado. Não julgues o mal, o corrupto, o mentiroso, o ladrão, porque está em nós, no nosso mundo caótico, do qual fazemos parte. Quem sabe, quando escolhermos as fontes e as compararmos, para acreditar em algum fato, quando pensarmos na biografia de nossos candidatos, na hora do voto, quando não incorrermos nos desvios do cidadão comum, do dia a dia, quando observarmos as leis do trânsito, do estacionamento, das vias públicas e de tantas escolhas de nossa vida, quem sabe aí, possamos até perguntar a verdadeira razão de viver ou de humanidade.


Dessolidões


Meu vizinho sofria de uma doença estranha. Foi ao médico, ao curandeiro, ao pastor, leu todos os livros de autoajuda, e nada. A tal da moléstia não o deixava em paz. Era um vazio no peito, uma fome de não sei o quê, um vagar assustado pela casa, um temor de qualquer coisa que não se parecesse com movimento e folia. Não tinha o que se queixar, sua vida era perfeita, muito amado nas redes sociais, vivia em noitadas, antecipada aos happy-hours cercados por amigos. Mas o que acontecia que o aporrinhava tanto? Não passava um minuto sozinho, não tinha nada que o aborrecesse de verdade, até no trânsito costumava se divertir: carro potente, som atordoante, quase um trio elétrico.

A vida se lambuzava de prazeres e o mundo nada mais era do que o seu portal de acesso. Estava sempre entre os melhores, aparecia com as mulheres mais lindas, era conceituado como um grande executivo, um homem de negócios e de valor. Até que apareceu aquela dor no peito, aquela quase falta de ar, aquela opacidade no olhar que às vezes se revelava no espelho, aquele murmúrio no meio da noite, com um ah abafado de quem sofre. Mas ele não sofria, era feliz e bem sucedido. Que diabo de doença o acometia?

Até que um dia, sem querer uniu-se a uma turma muito diferente da sua. Um pessoal que costumava flertar com leituras, com estética, com natureza, com vida ao ar livre, com família, com pequenos prazeres jamais considerados por ele.

No meio do papo, à beira da praia, já anoitecendo, começou a se questionar. Perguntou-se o que fazia no meio daquele grupo. Entretanto, deixou-se ficar, já que parecia agradável, uma sensação ímpar, que nunca tinha experimentado. Então, começou a falar de si, de suas vitórias na escalada social, nos grandes negócios, as conquistas as mulheres mais lindas e invejáveis do país. Não houve muito interesse. Em seguida, começou a se queixar. Não entendia o sofrimento do qual era passível. Afinal, a casa era sempre cheia de gente, onde ia, se reunia com as pessoas mais glamorosas, e mesmo assim, sentia este vazio, esta dor no peito, este desconforto que o atormentava. Até que um deles, um barbudo que parecia um guru oriental concluiu que ele sofria de dessolidão.

O prato estava cheio demais, de interesses perdulários, de objetivos materiais e muita, muita aparência. Não gostou do que ouviu, mas à noite refletiu.

É, meu vizinho sofria de dessolidão. Mata mais do que a solidão bem vivida.
ia de liDia de limpeza Dei alguns passos pela calçada suja, enlameada pela enxurrada, sem imaginar que fugiria dali tão rapidamente. Modo de dizer, meus pés doíam e meus passos tinham a medida certa de fugir das poças. Sacos plásticos entulhavam-se nas bocas de lobo. Carros passavam próximos à calçada, aumentando ainda o caos que se alimentava de nós, mendigos, pedintes, marginais, prostitutas, acostumados a fazer da deformação geral, o nosso modo de vida. Mas chegar àquele ponto de ser chamuscado, quase queimado, quando uma mão sinistra com isqueiro se aproximou do banco em que estava e tacou fogo como pôde, foi o portal do inferno. A sorte foi a chuva. A sorte foi estar acordado. A sorte foi ter forças ainda para levantar, examinar a cara do bandido e esborrifar nele um cuspe que me vinha da alma. Ele fugiu, dando risada da minha cara. Eu fiquei, ali sentado, ali sozinho, ali maldizendo o que não tinha pra maldizer. O que não tinha que esperar. Quem sabe morrer ali, na rua, queimado, transformado em cinzas não era a saída? Mas ficar assim, humilhado, era pior. Ainda me sentia assim. Ainda tinha brios que desconhecia. Agora estou aqui, com fome, procurando um café pra aquecer o estômago. Mexo nos bolsos, agitado. Parcas moedas tilintam nas mãos. Oh, amigo, quer encostar o carro? Puxa pra cá, arreda pra lá. A gente se acerta. Mas é difícil participar da vida dos outros. Eles não querem intimidade. Têm medo da gente. Medo de bandido, como eu. Talvez, um dia, procure uma saída. Talvez saia desta vida, faça a barba, corte o cabelo e procure alguém que ficou pra trás. Lá longe, bem distante, quase no infinito do paraíso. Uma velha mãe escondida na costura. Uma mulher que mudou de vida, para esquecer o marido bêbado. Levou os filhos, levou os móveis, os poucos agasalhos. Levou a vida. Mas só o café não basta. Um trago forte vinha a calhar. Quem sou eu, me pergunto. Lavo os para-brisas dos carros em busca de alguns trocados. Procuro uma vaga nos estacionamentos. Se não existem, invento. Tenho raiva de fazer isso. É o que me toca. Não tem jeito. Quem sabe, ainda arranho o carro deste cara, que esqueceu de me dar o que mereço. Aturar a cara emburrada, enfiar um sorriso, tentando argumentar do meu jeito e depois ser jogado pro lado, como quem empurra um traste qualquer, interrompendo o caminho. Quando a noite chega, o frio aumenta. Voltar pro buraco é tentar conhecer o túmulo antes da morte. Empurrar os pés na laje e fingir que se encosta no baú, aos pés da cama. O frio enrijece os músculos. Os pensamentos ficam mais demorados, mais confusos. A melancolia avança noite adentro, sem convite. Tenho tosse, dor de cabeça. Pés gelados. Ouço barulhos lá fora, risadas, choros, gritos quase uivos ao longe. Alguém que morre, leva porrada ou vai preso. Ainda tenho este canto do túnel pra me agasalhar. Os companheiros não vieram. Certamente estão enfiados nos albergues para passar a noite. Aquecer a garganta com uma sopa quente, submeter-se ao banho. Sinto que não vou dormir. Uma luz forte invade meu espaço, sem pedir licença. Vozes de homens, ganidos de cães. Um grito mais forte nos meus ouvidos, o cano de um fuzil apontado para minha cabeça. O mundo mergulha em desespero, não por mim, não pela minha pele frágil e suja. Mas pela dor tangente na alma dos homens. Um dia os sinos tocarão em regozijo e eu serei, quem sabe, amado por alguém. Aquela velha na costura deve estar lá me esperando, talvez a gente se encontre. Puxam-me os pés, empurram-me o corpo, usam expressões rasteiras. Olhos brilham na noite, como corujas alertas. Me encaram de perto. Cães farejam. Sentem meus humores. Procuram meus pertences. Examinam meus bolsos. Nada que procuram encontram, mas o que acham lhes basta para completarem o gozo: meu corpo frágil e oprimido. Pelo menos, aqui, têm uma resposta a suas indagações. Um isqueiro brilhou próximo aos olhos de um deles. Estremeci, não pelo fulgor dos olhos, mas pelo clamor da chama. Baixei a cabeça e vi cair perto dos coturnos o palito quase cinza. Mas a visão daquela chama ainda abala meu ser, como se os alicerces enferrujados afrouxassem pela força do vento. Vento que agora zune forte, esfriando ainda mais o ambiente. Levaram-me com eles, sem dizer o destino. Tinha de concordar, quieto, calado. Era dia de limpeza. A cidade aguardava um influente evento internacional. Tinha de tomar o meu rumo.


Nunca ao entardecer


Nunca ao entardecer, pensava ela, estirando-se na grama do parque. Olhava para o céu, desconfiada de que choveria. Nuvens corriam, e a impressão é que se chocariam conforme o vento aumentasse. Mas ficava ali, quase adormecida, olhando para o céu. Se pudesse, ficaria até a noite. Mas não arriscaria a vida, num capricho desses.

Por certo, seria melhor levantar-se, tirar as folhas das árvores que se grudavam no jeans, olhar para os lados, desapercebida, e seguir em frente.

Talvez pegar o metrô, tirar da mochila aquele livro do Sartre e ficar folheando, fingindo que lê. Há tempos faz isso. Pensa que um dia acabará a leitura, mas não acaba nunca. Sartre pensa demais. Nada aproveitável, diria sua avó.

O piercing recém colocado causava certa ardência no umbigo. Dava uma leve coceira, também. Nada que fosse levá-la ao desespero.

Na verdade, se desesperava por poucas coisas. Ainda bem. Afinal a vida é uma eterna turbulência. Pra que ficar se angustiando.

Ouviu o barulho do metrô na estação.

Decidiu ficar ali, mais um pouco. Gostava de manter-se ocupada consigo mesma. Cuidar de seus movimentos. Analisava os braços que ora pendiam corpo afora.

A calça justa, cintura caída. A blusa solta no corpo, branca, de um algodão fino que deixava ver o sutiã escuro. Fixava o céu. Era de um azul quase lilás, esbranquiçado, transformado pelo sol frouxo que perdurava nestes dias sonolentos.

Pudera ficar mais tempo, esquecida do mundo, das coisas, dos seus pensamentos mais íntimos. Sabia que, como manda a filosofia budista, devia esperar. Esperar que os pensamentos debandassem, assim como vinham, desavisados. Vertentes inefáveis do medo. Sairiam, deixando-a vazia. Tudo girava de revés. Era só esperar. E esperar era o que mais fazia atualmente. Esperar o fim do assédio moral, sexual e discriminação no trabalho. Esperar que a respeitassem como mulher. Mais do que isso: resistir.

Afinal de contas, sua geração era a de resistir. Geração, não, a herança maldita de gênero, diria a mãe. Afinal, a mulher parece estar sempre em teste contínuo, tentando provar a todo momento que pode sobreviver, nem que seja por instrumentos.


O reflexo da porta


Patrícia mais uma vez olhou-se no espelho, mas agora seus olhos perdiam-se num passado distante. O reflexo da porta projetado pela sala contígua, apontava o perfil de Benvindo que se afastava, talvez à procura de uma juventude que havia perdido. Talvez fosse a culpada de sua fuga: aos poucos negligenciara a aparência, o bem viver, o relacionar-se com os amigos e declinar de ser a protagonista. Não, ela era só a dona de casa que o acompanhava nos jantares, nas festas da empresa, na vida social do marido. Talvez não fosse nada disso, pensou. Não passasse de um encanto transitório por um rabo de saia, uma mulher trinta anos mais jovem, um despertar para uma paixão fantasiosa, de um homem de meia idade. Afinal, não era o que acontecia com quase todos os casais? Mas se houvesse uma saída, uma maneira de alterar essa situação, de modificar o rumo, esse consenso social? Ela seria outra pessoa, poderia tornar-se uma mulher ativa e participante de uma nova sociedade. Uma realidade em que ela fosse a protagonista. Então mostraria a todos, se tivesse sorte, que ainda possuía seus encantos e vigor. Participaria do concurso de dança e usaria o vestido da suavidade da valsa ou da energia do tango. Ela seria a estrela, fotografada, anunciada nos microfones, revelada na ribalta. Era a realização do sonho, a virada tão desejada. Já tinha o convite, faltava participar. Por fim, Patrícia afastou-se do espelho, deu alguns passos pelo velho parquê, torceu o salto fino e esbarrou no capacho. Segurou-se como pode na maçaneta da porta e chamou o táxi. Em pouco tempo, estaria lá entre os seus pares, magra e linda, revivendo um passado que não fora seu. O táxi chegou. O porteiro subiu. O elevador parou no andar de Patrícia. Tocaram a campainha. Ligaram. Patrícia não atendeu.


Que queria Dóris Fontaine?


A boca vermelha, cabelos loiros, olhar perdido. Nem sabe se fazia pose, encenava ou apenas acessório do cenário. Assim os observava de relance. Homens sedentos por seus segredos mais íntimos, suas intenções ocultas. Nem sabiam que nada era real. Sua vida era plana como o rio que circundava a cidade. Naquela noite, no dancing, alguma coisa violou seus sentidos quando o avistou, ali sentado à beira do palco, olhando-a como uma estrela. O homem dos sonhos cujo olhar intuía em seu coração e no sexo dormente uma explosão antagônica: desejo e medo na mesma moeda. Uma fotografia que se projetava em várias dimensões. Uma bebida desfilava entre as mesas e o suor da garrafa ficava nos dedos, como sequência slow motion. Tudo parecia cinema naquela noite, embora o mundo gritasse por promessas não vindas lá de fora. Soldados que se consideravam célebres numa guerra que nem era nossa. Ele, entretanto, era civil e sua farda não passava de um corpo ilustrado por um sorriso à luz negra que devolvia em flashes um olhar que a comia. Então sorriu, quase feliz, saindo de cena, fugindo do cenário, dublando o que nem ouvia, coração assaltado pelo novo que libertava por segundos o cinza de sua vida. Soldados riam e gritavam, mencionando Castela, navios, o Getúlio, a ida, na chancela de serem os melhores. Um ou outro, dissimulava um sorriso. Ela percebia. Mas quem era ela? Apenas Dóris Fontana, porque Fontaine à la Joan ninguém conseguia pronunciar. Ela odiava quando a Chamavam de Dóris Fom-fom. A música seguia seu compasso comezinho de sempre. O maestro engatava um tango num bolero e a vida seguia. Mas hoje, na presença dele, um blues anunciava anjos, como se os timbres e ritmos e tons se confundissem no prazer que a inspirava. Ela desceu do palco e ele ofereceu-lhe um drinque. Nada extraordinário, era quase de praxe o hábito, mas a chamou de Dóris Fontaine, com uma pronúncia quase americana e seu olhar impreciso se perdeu em profusões de imagens que vinham de um passado distante. Talvez da infância, não sabia, mas alguma coisa que a deixava feliz. Quem sabe o carrinho de boneca que empurrava num jardim que não era seu? Olhou-o e sorriu tão ingênua, que pensou voltar a ser a menina do interior, na virgindade dos sentimentos, mesmo no adiantado da hora. Ele a beijou suave, sem pressa e sem imposição. Nada pediu, nada deixou, nada procurou a não ser a liberdade de serem o que eram. Sonhava? Ela se perguntava feliz. Beberam, dançaram, riram e ele foi embora, deixando promessas. No cinema, numa tarde qualquer após a ressaca, Dóris observava o cartaz de “Soberba", com Anne Baxter no topo de uma escada, enquanto Joseph Cotten detia-se na parte inferior, na espera do encontro. Talvez a história nada tivesse a ver com o que pensava, mas lembrava a sua interpretação sobre o palco. Talvez o seu Joseph Cotten fosse o homem que a visitava todas as noites. E como nos filmes, ele trazia flores, lia os versos de Raimundo Correia, não importava se falava em pombas, cavalgada de fidalgos ou palavras que mal entendia, juntando moça e éter. O éter que conhecia é o que deixava tudo azul, nítido e forte aos ouvidos e a fazia dormir. Entretanto, o que falava trazia um tom de primavera que a despertava para um sol que se descolara há tempos de seus ombros. Não mais vento, não mais chuva, não mais frio. Até os sons eram mais claros e festivos. Tiravam retratos. Passeavam no dia. Iam ao cinema, ao parque, à praia. Na noite tomavam uísque, vodca ou gim. Ela se desmanchava no jazz e revelava as garras no tango. Na madrugada, se amavam. E o mundo girava arriscando um futuro que se instalava em algum lugar. A turnê porém seguia para resgatar o moral dos aliados na base aérea de Natal. Seu coração dividido. O mundo dividido. Era dinheiro a rodo e futuro promissor. Então, ele chegou devagar, incendiou seus olhos com desejo e mágoa. Um foco de luz, uma energia que sustentava o ar e seu corpo bailava num mundo que a família sonhara: o de uma mulher direita. Assim diziam, assim queriam. O desejo de ser rica e talvez casada com um americano ou outro estrangeiro ficava para trás. Ele chorou, ele a abraçou, ele pediu; eles casaram. Como num romance, ele voltou como o príncipe que resgatou a sua vida e ela se desarmou em devaneios. Deixou o dancing, deixou a turnê, deixou o grupo, deixou o futuro, deixou a vida. E se sustentou como uma esposa, sem cinema, sem música, sem poema, sem teatro, sem palco, sem ribalta, sem brilho, sem romance, sem luz. Nunca feliz.


Tênue limite


José cavalga pelo estreito caminho de terra vermelha. Nas bochechas, o ardente do dia, a boca seca, com um fiapo de grama no canto. Um olhar perdido no horizonte. Campos, campos e mais campos. Nos pés, chinelos de dedo arranhando a barriga do cavalo. Quem o olhasse de perto, pensaria que tem a vida decidida. Conduta perfeita. Atitude positiva. Na verdade, não. Ele nem sabe o que fazer além do que faz todo o dia. Busca os animais. Estão quase escondidos, próximos a um quiosque, perto da propriedade dos vizinhos e não muito longe da rodovia. Mas tem que ir. Quem o visse, diria, que gaúcho guapo. Falta só as esporas, a bota, a bombacha. Que nada. Está de calça rasgada no joelho e muito suja. Não é porque gostaria, mas porque não pode sujar a roupa no trabalho. Tem que trazer o gado, como faz sempre. Não são muitos, nem passam de uma dúzia. Mas também não são dele, nem de sua família. É apenas um peão, que mora numa cabana, quase casebre. Os ventos mudam de direção, mas não ele. Quem sabe volta a estudar e aprende a ler alguma coisa. Não é tão difícil. Poderá ser chamado de gaúcho guapo, participar da Semana Farroupilha, exaltar os farrapos e comer churrasco em homenagem. Ele é como um nômade, um pária, porque não é urbano, nem rural. Ele é ele mesmo. Como ele, milhares de gaúchos que vivem nas beiradas dos cofres alheios, tentando pegar algumas moedas. Mas o povo levanta bandeiras, dá vivas à revolução e acredita que o Rio Grande é um país à parte. Ele não, está neste liame, neste tênue limite, no qual não se permite a galhardia, a ousadia e a macheza do gaúcho. Aquele que vem uma vez ao campo, se veste à caráter, rompe estradas com seu 4x4 e dança nas mateadas. Este aparece na mídia. Talvez ele seja um guasca, um índio do mato, uma mistura das três raças, nem sabe. Negro tinha na família e índio era o avô. Mas deixa pra lá. Melhor é caminhar quase sem rumo e seguir a vida. Quem construiu a nação gaúcha, não foi ele. Foram os livros. E antes deles, os historiadores. Eles não mentem.


Agitação impetuosa


A noite já acabrunhava os ossos mais frágeis pelo sereno que se intensificava. Doía uma certa melancolia, às vezes doce, às vezes ácida, deixando na boca uma secura que despertava a vontade intensa de qualquer líquido. Como se jorrasse do céu, por um minuto, um décimo de minuto uma água nítida e brilhante, muito mais do que chuva, muito mais do que qualquer despencar de nuvens em água, mas alguma coisa forte que significasse um banho profundo na alma e no corpo. Um banho que me transportasse a outro extremo da vida, talvez mais doce, mais límpido, mais puro, mais profundo.

Caminhei como pude, enquanto as luzes se apagavam e surgiam as dos velhos postes das ruas transversais. Na casa acachapada no chão, uma calçada alta, que realçava o que havia lá dentro mais do que as paredes esverdeadas da casa. Uma luz tão amarela quanto às dos postes, mas mais fraca e algumas sombras, como fantasmas que se deslocavam de um lado para o outro, acercando-se da janela, espiando pelas frestas, tentando ver um pouco do mar escuro que jazia bem longe, na esquina da rua Riachuelo.

Se eu pudesse voltar e rever as noites alegres da Riachuelo e olhar ao longe os navios que se aproximavam, na verdade, barcos de pesca abarrotados de peixes e esperanças. Homens que desciam no cais, esgueiravam-se pelas calçadas de pedra, sentavam-se nos ancoradouros, bebiam cachaça, enquanto descansavam extenuados em suas buscas infinitas. Mas nenhuma cachaça avançava em minha garganta, só o acalentado do sereno que molhava os cabelos e descia pelos olhos.

Meu coração ficava agitado, não era para menos, pois meu pé já apontava para a porta da casa esverdeada e nada, nada além do que eu imaginara, poderia atravessar aqueles umbrais. Talvez houvesse uma pequena janela que desse para o cais, quase uma escotilha em que se pudesse ver além da escuridão, talvez as luzes longínquas de São José do Norte. Talvez se pudesse apreciar o ar, a vida e a cantoria de algum bêbado que desenhava esboços nos paralelepípedos. Talvez outros viessem e o seguissem e partilhassem daqueles traços riscados sem qualquer estética, mas que os levassem a algum tipo de prazer, bem diferente da casa esverdeada, que agora, já nem verde era, apenas paredes escuras e esquecidas.

Quando me aproximei alguns metros, senti que minhas pernas paravam sem que eu fizesse qualquer gesto para impedir. Por um momento, pensei nos fantasmas, que há tanto haviam morrido por aquelas bandas. Um soldado cuja arma ricocheteava a bala e furava o olho esquerdo, ensanguentado o rosto e a calçada. O sangue jorrando, as pessoas correndo, chapéus à cabeça, mulheres de maçãs avermelhadas e bocas sem cor, talvez pavor da morte ou do adeus. Adeuses são sempre trágicos. E trágicas eram as mortes inesperadas, os tiros desavisados, os gatilhos à espreita de um corpo jovem ou maduro, um corpo com vida. E era tão fácil e tão rápida a partida, sem adeus, sem compromissos com o passado ou o futuro, apenas a morte. A morte do sangue escorrido, da fome de pão e sexo, do desejo inabalável, do desafio da verdade contra a mentira ou vice-versa. Um Deus nos pague, um Pai Nosso, um pecado absolvido e a morte desenhada na calçada juntando gente, aglomerando curiosidade e medo.

Eram tempos de morte. Eram tempos em que a vida andava muito perto, também bem distante. As mulheres voltavam para os salões iluminados, a orquestra voltava a tocar, os risos, as bebidas, os jogos, os prazeres escancarados e ocultos, as verdades contidas, as palavras não ditas, os olhares falantes. Homens e mulheres se revezavam no receber e dar prazer e noite bailava rápida entre as horas e os risos e os gozos. E tudo se misturava numa orgia da qual não se apontava os pares, homens que se desafiavam a ter os mesmos desejos e desfrutarem juntos de suas preferências sem que se ocupassem com os mistérios. Mulheres que se amavam e amavam homens e todos vibravam na mesma consonância, sem formar juízos, até que a razão os alertasse, mas aí o sol se impunha, no desenrolar do dia, a tecer o tecido da hipocrisia e esquecimento. Sexo e morte se locupletavam naqueles tempos e tudo parecia igual, quando a chuva passava e purificava as calçadas, limpando-as para a próxima noite.

Agora, estes fantasmas ainda perpetuam um certo destaque dos tempos antigos em sua tépida e execrável falência. As luzes parecem mais escuras e percebo na parede interna a imagem de um santo. Não tinha como não me surpreender que houvesse tal imagem na parede de cal branca. Talvez fosse a fotografia de alguma dona antiga da casa. Uma daquelas meretrizes qualificadas a servirem os mais altos escalões, a mostrar seus dotes e artifícios para sobreviver sob os brasões ou os coturnos. Ou de alguma cafetina famosa pela doçura com a qual manejava a arma do cinismo e da sedução, não para com os aficionados, mas na direção de suas protegidas. O mundo girava de alguma forma, talvez com mais diferenças e certezas, menos dúvidas e mais mentiras. Entrar nesta casa, já não me colhe a sensação de qualquer prazer, mas uma simples obrigação. Sei que virá a mulher decadente, com um olhar submisso e malicioso a me conduzir a mesa com um abajur ou uma vela apagada, cuja iluminação real provém da lâmpada amarela presa na parede, ao alto, quase sobre a santa. É mesmo uma santa? Saberei quando chegar mais perto.

Tenho dezoito anos, haverá um tempo, eu sei, que não precisarei provar nada. Que não terei que ter a minha primeira relação com uma prostituta. Mas hoje, preciso entrar na casa esverdeada, preciso sentar naquela cadeira e esperar que me sirvam, primeiro de bebida, depois de conversa, de sedução, de sexo.

Olho em torno, alguns homens saem com seus chapéus nas mãos. Dirigem-se rápido em direção aos carros de aluguel. Talvez um que outro, venha no seu próprio veículo ou apenas espere o motorista. Estou aqui, olhando em torno, sentindo os eflúvios dos fantasmas. Talvez agora, nesta data de guerra, eles estejam mais atentos, pois seus antepassados tiveram o mesmo destino. O fascismo, o medo, a guerra. Os heróis estão longe. E lutam por uma guerra que não é nossa.

A dona da pocilga, onde preciso entrar, sorri com um convite. Subi a calçada e meu pé quase descalçou o sapato. Ajeitei o corpo da melhor maneira, me apresentei, como se estivesse à frente de um pelotão. Sentei numa das mesas, como pensava, uma ribalta iluminada pela luz amarela da parede. Talvez a santa estivesse bem acima de minha cabeça, mas não ousava olhar. Um garçom trouxe a bebida, uma cuba-libre, a primeira que me veio à cabeça. Enfim, tirei as mãos dos bolsos, para segurar o copo. Em seguida, uma mulher sentou à mesa. Percebi que me olhava fixamente e sorria, revelando um dente de ouro no lado esquerdo da boca. Perguntou se não a convidaria para o drink. Também indagou se eu não era soldado. Depois disse que eu cheirava a leite. A seguir, veio outro copo e lhe puseram ao lado do braço cheio de pulseiras. Meia-luz. Quase escuro, como no tango que tocava na vitrola. Lembrei de meu pai, que às vezes ouvia o rádio, encostado no velho sofá de seda, até dormir. A cerveja ao lado. Gostava de tangos, boleros, músicas românticas. Talvez por isso, insistisse que eu deveria vir àquele lugar, com tanta veemência. A mãe ouvia as novelas da tarde, enquanto esperava o horário da janta. A media luz. Nada fazia sentido. Era tudo tão morno, tão suave. Por que deveria ser assim?

A mulher levantou, segurando a minha mão, levando-me por um corredor escuro. Ruídos de pingos de água em algum chuveiro. Gemidos. Ouvi quase tangível a agitação impetuosa no porto. Tinha certeza que uma torrente d’água se antecipava. Deviam as ondas avançarem ao cais, talvez atravessassem a rua e chegassem naquela transversal. Talvez atingissem a calçada, invadissem as casas. Talvez tudo ficasse escuro e o mar nos afogasse a todos. Desassossego. Soltei a mão da mulher de dente de ouro e recuei pelo corredor, ante alguns olhares que reluziam nas luzes amarelas.

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