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Agitação impetuosa

A noite já acabrunhava os ossos mais frágeis pelo sereno que se intensificava. Doía uma certa melancolia, às vezes doce, às vezes ácida, deixando na boca uma secura que despertava a vontade intensa de qualquer líquido. Como se jorrasse do céu, por um minuto, um décimo de minuto uma água nítida e brilhante, muito mais do que chuva, muito mais do que qualquer despencar de nuvens em água, mas alguma coisa forte que significasse um banho profundo na alma e no corpo. Um banho que me transportasse a outro extremo da vida, talvez mais doce, mais límpido, mais puro, mais profundo.

Caminhei como pude, enquanto as luzes se apagavam e surgiam as dos velhos postes das ruas transversais. Na casa acachapada no chão, uma calçada alta, que realçava o que havia lá dentro mais do que as paredes esverdeadas da casa. Uma luz tão amarela quanto às dos postes, mas mais fraca e algumas sombras, como fantasmas que se deslocavam de um lado para o outro, acercando-se da janela, espiando pelas frestas, tentando ver um pouco do mar escuro que jazia bem longe, na esquina da rua Riachuelo.

Se eu pudesse voltar e rever as noites alegres da Riachuelo e olhar ao longe os navios que se aproximavam, na verdade, barcos de pesca abarrotados de peixes e esperanças. Homens que desciam no cais, esgueiravam-se pelas calçadas de pedra, sentavam-se nos ancoradouros, bebiam cachaça, enquanto descansavam extenuados em suas buscas infinitas. Mas nenhuma cachaça avançava em minha garganta, só o acalentado do sereno que molhava os cabelos e descia pelos olhos.

Meu coração ficava agitado, não era para menos, pois meu pé já apontava para a porta da casa esverdeada e nada, nada além do que eu imaginara, poderia atravessar aqueles umbrais. Talvez houvesse uma pequena janela que desse para o cais, quase uma escotilha em que se pudesse ver além da escuridão, talvez as luzes longínquas de São José do Norte. Talvez se pudesse apreciar o ar, a vida e a cantoria de algum bêbado que desenhava esboços nos paralelepípedos. Talvez outros viessem e o seguissem e partilhassem daqueles traços riscados sem qualquer estética, mas que os levassem a algum tipo de prazer, bem diferente da casa esverdeada, que agora, já nem verde era, apenas paredes escuras e esquecidas.

Quando me aproximei alguns metros, senti que minhas pernas paravam sem que eu fizesse qualquer gesto para impedir. Por um momento, pensei nos fantasmas, que há tanto haviam morrido por aquelas bandas. Um soldado cuja arma ricocheteava a bala e furava o olho esquerdo, ensanguentado o rosto e a calçada. O sangue jorrando, as pessoas correndo, chapéus à cabeça, mulheres de maçãs avermelhadas e bocas sem cor, talvez pavor da morte ou do adeus. Adeuses são sempre trágicos. E trágicas eram as mortes inesperadas, os tiros desavisados, os gatilhos à espreita de um corpo jovem ou maduro, um corpo com vida. E era tão fácil e tão rápida a partida, sem adeus, sem compromissos com o passado ou o futuro, apenas a morte. A morte do sangue escorrido, da fome de pão e sexo, do desejo inabalável, do desafio da verdade contra a mentira ou vice-versa. Um Deus nos pague, um Pai Nosso, um pecado absolvido e a morte desenhada na calçada juntando gente, aglomerando curiosidade e medo.

Eram tempos de morte. Eram tempos em que a vida andava muito perto, também bem distante. As mulheres voltavam para os salões iluminados, a orquestra voltava a tocar, os risos, as bebidas, os jogos, os prazeres escancarados e ocultos, as verdades contidas, as palavras não ditas, os olhares falantes. Homens e mulheres se revezavam no receber e dar prazer e noite bailava rápida entre as horas e os risos e os gozos. E tudo se misturava numa orgia da qual não se apontava os pares, homens que se desafiavam a ter os mesmos desejos e desfrutarem juntos de suas preferências sem que se ocupassem com os mistérios. Mulheres que se amavam e amavam homens e todos vibravam na mesma consonância, sem formar juízos, até que a razão os alertasse, mas aí o sol se impunha, no desenrolar do dia, a tecer o tecido da hipocrisia e esquecimento. Sexo e morte se locupletavam naqueles tempos e tudo parecia igual, quando a chuva passava e purificava as calçadas, limpando-as para a próxima noite.

Agora, estes fantasmas ainda perpetuam um certo destaque dos tempos antigos em sua tépida e execrável falência. As luzes parecem mais escuras e percebo na parede interna a imagem de um santo. Não tinha como não me surpreender que houvesse tal imagem na parede de cal branca. Talvez fosse a fotografia de alguma dona antiga da casa. Uma daquelas meretrizes qualificadas a servirem os mais altos escalões, a mostrar seus dotes e artifícios para sobreviver sob os brasões ou os coturnos. Ou de alguma cafetina famosa pela doçura com a qual manejava a arma do cinismo e da sedução, não para com os aficionados, mas na direção de suas protegidas. O mundo girava de alguma forma, talvez com mais diferenças e certezas, menos dúvidas e mais mentiras. Entrar nesta casa, já não me colhe a sensação de qualquer prazer, mas uma simples obrigação. Sei que virá a mulher decadente, com um olhar submisso e malicioso a me conduzir a mesa com um abajur ou uma vela apagada, cuja iluminação real provém da lâmpada amarela presa na parede, ao alto, quase sobre a santa. É mesmo uma santa? Saberei quando chegar mais perto.

Tenho dezoito anos, haverá um tempo, eu sei, que não precisarei provar nada. Que não terei que ter a minha primeira relação com uma prostituta. Mas hoje, preciso entrar na casa esverdeada, preciso sentar naquela cadeira e esperar que me sirvam, primeiro de bebida, depois de conversa, de sedução, de sexo.

Olho em torno, alguns homens saem com seus chapéus nas mãos. Dirigem-se rápido em direção aos carros de aluguel. Talvez um que outro, venha no seu próprio veículo ou apenas espere o motorista. Estou aqui, olhando em torno, sentindo os eflúvios dos fantasmas. Talvez agora, nesta data de guerra, eles estejam mais atentos, pois seus antepassados tiveram o mesmo destino. O fascismo, o medo, a guerra. Os heróis estão longe. E lutam por uma guerra que não é nossa.

A dona da pocilga, onde preciso entrar, sorri com um convite. Subi a calçada e meu pé quase descalçou o sapato. Ajeitei o corpo da melhor maneira, me apresentei, como se estivesse à frente de um pelotão. Sentei numa das mesas, como pensava, uma ribalta iluminada pela luz amarela da parede. Talvez a santa estivesse bem acima de minha cabeça, mas não ousava olhar. Um garçom trouxe a bebida, uma cuba-libre, a primeira que me veio à cabeça. Enfim, tirei as mãos dos bolsos, para segurar o copo. Em seguida, uma mulher sentou à mesa. Percebi que me olhava fixamente e sorria, revelando um dente de ouro no lado esquerdo da boca. Perguntou se não a convidaria para o drink. Também indagou se eu não era soldado. Depois disse que eu cheirava a leite. A seguir, veio outro copo e lhe puseram ao lado do braço cheio de pulseiras. Meia-luz. Quase escuro, como no tango que tocava na vitrola. Lembrei de meu pai, que às vezes ouvia o rádio, encostado no velho sofá de seda, até dormir. A cerveja ao lado. Gostava de tangos, boleros, músicas românticas. Talvez por isso, insistisse que eu deveria vir àquele lugar, com tanta veemência. A mãe ouvia as novelas da tarde, enquanto esperava o horário da janta. A media luz. Nada fazia sentido. Era tudo tão morno, tão suave. Por que deveria ser assim?

A mulher levantou, segurando a minha mão, levando-me por um corredor escuro. Ruídos de pingos de água em algum chuveiro. Gemidos. Ouvi quase tangível a agitação impetuosa no porto. Tinha certeza que uma torrente d’água se antecipava. Deviam as ondas avançarem ao cais, talvez atravessassem a rua e chegassem naquela transversal. Talvez atingissem a calçada, invadissem as casas. Talvez tudo ficasse escuro e o mar nos afogasse a todos. Desassossego. Soltei a mão da mulher de dente de ouro e recuei pelo corredor, ante alguns olhares que reluziam nas luzes amarelas.

Fonte da ilustração:https://pixabay.com/pt/users/stocksnap-894430/

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