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A CASA OBLÍQUA - CAPÍTULO XXXV - FINAL

A SEGUIR ÚLTIMO CAPÍTULO DE NOSSO FOLHETIM DRAMÁTICO – A CASA OBLÍQUA

Clara correu ao escritório, juntou rapidamente os documentos,examinando-os por um momento, verificando se não havia nenhuma falha na escritura e na procuração efetivada por Dona Luiza, guardando-os com cuidado. Depois, descontrolada, escancarou a janela, fixando-se no outro apartamento.

Do outro lado, Cida sorria, irônica. Tomada de ódio, Clara fechou as venezianas, machucando os dedos nos ferrolhos e imaginou que todos estavam em concordância com Cida. Juntos, se preparavam para dar o golpe fatal, pra tomar o que era seu.

Não permitiria, lutaria até o fim, nem que para isso fosse necessário matar aquele impostor. Era uma mulher livre, mais dia, menos dia, tudo seria arquivado. Não tinha o que temer: era uma trabalhadora e cumpridora de seus deveres.

Respirou fundo, para acalmar-se. Empurrou a veneziana lentamente para se certificar que Cida ainda se encontra lá. Não havia ninguém.

Clara sorriu. Ela havia desaparecido, assim como todos eles também teriam o seu fim.

Então, tomou uma decisão: enfrentaria aquele homem. Não o deixaria tripudiar sobre sua reputação. Se ele queria a verdade, a teria. Por isso, ajeitou o cabelo, puxou o vestido justo, que sungava nas coxas e abriu a porta do gabinete. Deu alguns passos, pisando na ponta dos pés para não ser notada.

Uma luz estranha iluminava o corredor, um rasgo qualquer de sol que parecia vir de uma claraboia inexistente. Doíam-lhe os olhos.

Na sala, encontrou o homem em estado deplorável. Vermelho, suando aos borbotões, despenteado e sem paletó. Ele preparava-se para sair, quando a avistou. Encarou-a com raiva e insinuou:

― Se fugiu é porque tem culpa no cartório.

Clara o fitou com calma e o advertiu, que se ele continuasse neste tom, não haveria clima para uma conversa razoável.

Ele fungou, irritado e resmungou algumas palavras ininteligíveis. Depois, recuperado, argumentou:

― Parece que você compreendeu o meu desespero. Trata-se de minha mãe, ela morreu, foi sepultada e eu não tive conhecimento de nada. Quero saber o que está acontecendo. Você foi contratada para fazer-lhe companhia. Por que não ficou com ela? O que aconteceu?

Clara mostra-se entediada com o tema. Ao sentar-se, exclama, censurando-o:

― Ih, meu amigo, se vamos continuar neste tom, é melhor pararmos. Vamos acabar brigando. Por que você não pergunta o quanto eu a ajudei?

― É o que eu quero saber, o que aconteceu?

Ela não o ouve. Exerce um monólogo teatral.

― Tudo que eu descobri do passado de sua mãe, foi para perpetuar a sua memória, para justificar a sua luta pelo amor verdadeiro. Eu a defendi.

― Mas defendeu como? De quem?

― E você ainda pergunta? Luisa foi humilhada por aquela cidade, foi julgada e condenada como uma mulher qualquer, que se entregou a um estranho, um foragido. Ela salvou a vida dele, quer ato mais humanitário do que este? Ela jamais o abandonou, mesmo com a oposição neurótica da mãe, e contrariando todos os costumes da época, ela o esperou, até o fim.

― Mas do que você está falando? Minha mãe estava doente, nós nos comunicávamos pela rede, de repente, você passou a mandar as mensagens, disse-me que estava viajando. Que história foi esta?

― Você é muito ansioso, pequeno Lucas. Sabe que sua mãe nunca comentou sobre você?

― Ela não precisava falar de mim, ela falava comigo! Me diga que viagem foi esta?

― A viagem? Ah, é verdade, ela inventou uma viagem boba. Eu bem que a aconselhei a não se aventurar por aquelas bandas, mas Dona Luisa era uma pessoa obstinada, determinada, você sabe. Ela decidiu ir para a casa da praia.

― Casa da praia? Aquela casa nem existe mais. Impossível minha mãe ir até lá.

― Ah, ah, você é que pensa, pequeno Lucas.

― Por favor, Clara, me respeite.

― Desculpe, você tem razão. Não me leve a mal. Mas estávamos falando da casa, posso lhe garantir que ela existe sim, se bem que com alguns probleminhas de estrutura, a bem da verdade, mas... pode-se dar um jeito. Eu até estou planejando retirar as dunas, fazer um caminho novo até a praia. Quem sabe, incrementar o turismo na região. Aquela ilha já foi bem movimentada, agora tem meia dúzia de agricultores mal cheirosos. Mas isto não vem ao caso.

― Então quer dizer que minha mãe atravessou a lagoa naquela balsa precária.

― Você está bem informado, pequeno ... desculpe, Lucas.

― Por que ela fez esta loucura?

― Acho que pretendia revisitar o passado. Às vezes, tinha a impressão que contemplava a si mesma, na sua juventude, no mesmo cenário em que foi tão feliz ao lado de Saymon. Uma mulher dinâmica, voluntariosa, uma vencedora, Inclusive, ficou numa espelunca de hotel, só para pegar a balsa pela manhã. Outra na situação dela, não faria isso não!

― E como aconteceu? Ela me parecia bem, apesar de se sentir um pouco cansada, queixando-se de dores, coisa normal. Por que você não me contou, não me enviou um e-mail, não telefonou? Por que ninguém me procurou?

― Eu não sabia nada de você. Tudo o que descobri, foi através das nossas conversas, do seu diário, dos documentos que me deixou.

― Como assim? Você não me conhecia pessoalmente porque eu estava no exterior e fazia apenas seis meses que ela a havia contratado. Mas sabia que eu mandava dinheiro para minha mãe, que eu a ajudava, inclusive, efetuar o seu pagamento.

― Olhe, Lucas, você está sendo muito ingênuo, querer vir aqui, na minha casa, tentar ludibriar-me, inventando histórias. Eu sou contratada pela Superintendência Portuária, aliás, concurso homologado no diário oficial.

― Sim, mamãe me disse que você tinha sido selecionada neste concurso, mas que continuava morando na casa dela.

― Casa dela, não. Este apartamento é meu. O dela é aquele abandonado, que a tal Cida tomou conta. Aliás, para seu governo, tudo isso será meu. A casa da praia e o apartamento, porque ela me considerava como uma filha e me deixou uma procuração de seus bens.

― Minha mãe não seria louca a esse ponto!

― Ela também passou a escritura da casa da praia para o meu nome!

― Não seja idiota. Ela não faria uma tolice destas.

― Eu até poderia mostrar-lhe a escritura. – Completa reflexiva, olhando para o alto, como se retornasse ao cenário, compondo a cena. – Ela foi muito astuciosa, me fez penar para descobrir onde havia guardado, talvez por medo de que você a impedisse. Ela só falava em sobrinhos, nunca em você.

Lucas se levanta com o dedo em riste. Seus olhos brilham de indignação.

― Pois eu lhe dou dois dias para você deixar este apartamento ou vou tirá-la à força daqui. Este apartamento é de minha mãe, e não sei o que você fez com ela. Mas vou descobrir, isso eu lhe garanto.

Antes de se afastar em direção à porta, ainda a ameaça:

― Se você prejudicou minha mãe, de alguma forma, você vai pagar, fique certa disso.

Clara não respondeu, resignada. Era um impostor, por que daria ouvidos a tanta baboseira?

Ainda no prédio, Lucas surpreendeu-se, esbarrando em um homem quando tentava entrar no elevador. Pediu desculpas e observou que ele se dirigia na direção do apartamento. Então, travou a porta e ficou à espreita.

O homem insistiu algumas vezes tocando a campainha e desistiu, voltando para o elevador. Lucas aproveitou para indagá-lo:

― Desculpe, mas pretendia ir àquele apartamento?

O homem o fitou, intrigado. Fez um gesto afirmativo com a cabeça, mas não emendou o assunto.

Lucas prosseguiu, interessado:

― É que acabei de sair de lá. Você deve ter visto que saí dali e entrei no elevador.

O homem não conseguia expressar-se com precisão. Não entendia a frase na íntegra. Então, perguntou:

― Visitou a moça?

Lucas achou que devia mostrar alguma intimidade quanto à Clara.

― Sim, Clara me recebeu muito bem. Ela não deve ter ouvido a campainha.

O outro confirmou com um aceno. Olhava cabisbaixo, esperando chegarem ao andar térreo. Lucas insistiu:

― Você é amigo dela?

― Amigo? Sim, amigo.

― Então, poderíamos conversar num outro momento. Clara está estranha, apesar de me receber com amabilidade, parecia doente.

― O elevador chegou.

― Espere, tome o meu cartão. Aqui está o endereço do hotel e meu telefone. Pode me procurar?

O homem adiantou-se, rápido. Antes, perguntou:

― Você é da polícia?

― Não, sou amigo de Clara. É urgente. Ela precisa de ajuda.

― Está bem. Eu o encontro, mas não posso ficar muito aqui.

― Por quê?

Afastou-se, deixando a porta do prédio para trás, atravessando a rua. Lucas o observava de longe. Ergueu a cabeça, olhando para o topo do edifício. Teve a impressão de ver Clara na janela. Chamou um táxi e voltou para o hotel.

Quando o viu afastar-se, Clara fechou todas as janelas, cerrando as cortinas. As pessoas não a entendem, pensou. É uma estrela que já viveu, mas que prossegue em seu rastro de luz. Querem destruir o que a natureza forjou. Por isso, só há uma maneira de prosseguir na sua luta: liquidar quem a atrapalha.

Em seguida, espalhou pela mesa, as fotografias de Dona Luiza; rolos atirados ao relento, sobre telhados sujos. Quando relembrava isso, sentia uma estranha náusea.

Cida é uma insensível, assim como Gustavo, Bruno e este tal de Lucas. Recostou-se na cadeira e fechou os olhos.

De repente, a peça se iluminava lentamente e ela percebia cada objeto no seu devido lugar, tudo organizado segundo o objetivo. Os livros nas estantes, os biscuis, as telas, os adornos de cristal, os porta-retratos, o velho relógio sobre a escrivaninha.

Agora, ela ouvia o badalar dos sinos, não mais o alarme do relógio, mas o sinos da igreja chamando os fiéis.

Clara teve uma tênue esperança de que Luisa voltaria e a aconselharia da forma mais razoável.

Por que estes sinos não param de tocar? Não queria abrir os olhos, não queria furtar- se da realidade interna.

A pele arrepiada, os braços estendidos sobre o corpo, a cabeça pendida. Mas deste modo, sentia-se confortável.

Uma voz que ecoa distante, mas que se aproxima tão devagar, que percebe os ruídos, produzindo ecos, que se aprofundam, tornando-se ora agudos, ora graves, mas sempre suaves.

Ela se aproximava, dizendo coisas que ainda não decifrou. Sorria feliz, porque sabe que agora está tudo em paz.

― Eu sabia que viria. Não me abandonaria nesta hora, depois de tudo que fiz.

― Quero terminar minha história. Quero que você a termine. Só você é capaz.

― Eu sabia, eu tinha certeza de que estava no caminho certo. Então, me conte. Conte-me tudo, que eu escreverei dias e noites inteiras, se for preciso. Serei a sua voz aqui na terra.

― Então comece a escrever. Quando o fizer, eu soprarei aos poucos e você será tão ágil, que não mais precisará de mim.

― Mas eu não sou escritora.

― Eu a ajudarei. Hoje mesmo, ponha em prática tudo o que sabe e o que eu contarei.

― Espere.

― Não, não abra os olhos. Volte-se para si mesma. Só me veja nas páginas do seu livro.

― Está bem, Dona Luisa

**********************

Ao acordar, Clara dedicou-se a escrever tudo o que sabia, incluindo uma informação aqui, uma observação mais refinada ali, reformulando uma expressão omitida ou contextualizando de acordo com o tema. Assim passou horas a fio, na tentativa de encontrar a estratégia correta para descrever a história de Luisa. Necessitava escrever como o ar que respirava. Cada letra, cada sílaba, cada palavra alcançava um significado novo, qualificando a mensagem.

Ela estava determinada. Um olhar de contemplação em cada tópico, como quem admira o ser amado, avaliando a conduta, antevendo os desejos, as menores queixas ou as grandes súplicas.

Clara vivia assim, a martelar palavras, a fermentar as linhas, procurando mostrar mais do que se via, sentir mais do que sentia, revelar o que se escondia nos intervalos entre pensamento e a narrativa. Permitia-se viver desse modo, através das letras; era delas que se nutria e por isso, se aplicava mais e mais, formando signos, ensaiando trajetórias novas, amestrando as garras do medo e atirando-se de cabeça do alto do prédio. Tinha como fazê-lo. Tinha como arquivar as experiências. Tinha como deixar para a posteridade tudo o que sonhara.

As noites e dias se sucediam. Seus dedos já não acompanhavam as ideias, mas seu desempenho tinha nuances sublimes, quase geniais. Quando batiam à porta, não atendia. Se a chamavam, não ouvia. Bastava-se a si mesma. Só dormia, quando o sono a derrubava, viciada que estava na droga linguagem e suas combinações esdrúxulas. Paria o filho, aos poucos, mas com cuidado e afeição.

Um dia, porém, o físico faliu e somente seu cérebro agia. Não mais suas mãos nem seus pés a sustentavam. Caíra no chão, mas punha um fim na história.

Quando a polícia chegou, quando a síndica a procurou, quando Lucas apareceu, quando Bruno prestou depoimento, não lhe era mais permitido discutir, influir em qualquer decisão, porque já tinha o que queria: o resgate da história.

Não importava mais o que diziam ter descoberto, nem as manchetes dos jornais, de que se aproveitara da fragilidade de uma idosa, para tentar ficar com seus bens.

Nem mesmo o que Lucas pensava dela, nem Gustavo ou mesmo Cida, a invasora.

Buscou apenas nos recortes um pouco da verdade que ficara, o seu desapego pela opinião alheia, a reconquista da memória, a ajuda humanitária a Nael.

Um dia, Lucas apareceu em seu quarto. Tratava-a de modo diferente, até com certa compreensão.

Sentou-se ao seu lado, sem nada dizer. Talvez temesse uma verdade bem mais cruel da que encontrara. A verdade não cristalina e virtuosa, pelo contrário, era frágil, às vezes, distorcida.

Ela foi a primeira a falar.

No início, tentou ser irônica, chamando-o de “pequeno Lucas”, porém logo percebeu que não deveria afrontar o filho de dona Luisa, o filho que não tivera. Era como se fosse dela, o seu, não desta época atual, mas daquela, do passado. Então, passou a tratá-lo diferente.

Arrumou os cabelos, que lhe caíam nos olhos e abotoou a blusa branca, que mais parecia um uniforme de gosto duvidoso e se aproximou mais dele, ficando bem próxima no banco.

Pode ver nos olhos claros e acinzentados, uma certa semelhança com a mãe. Ou com Saymon, não tinha certeza. Sentia o hálito quente, o perfume do pescoço que exalava loção e teve vontade de beijá-lo. Foi só por um momento. Não beijaria o filho de dona Luisa, que até poderia ter sido seu, se ela vivesse naquela época. Mas ele estava ali, porque queria dizer-lhe alguma coisa. Talvez até elogiar o seu trabalho, agradecer a vida que acalentara, que projetara para o futuro, que transformara em memória. A história de sua mãe. Ou a sua história.

Ele desviou os olhos, sereno.

― Você está bem?

Clara olhou em torno. Avistou as pessoas que passavam pela porta e a espiavam. Por isso, respondeu aflita:

— Bem, não. Aqui é impossível ficar bem. – Em seguida, mais suave – Estou feliz.

― Que bom.

― Você se sentiu culpado?

― Não.

Ela aquietou-se, afastando-se um pouco. Depois, falou de um modo infantil.

― Me diga, me diga, a Tchecoslováquia é um país bonito?

― Não é mais Tchecoslováquia. Há algum tempo foi dividida em dois países: a República Tcheca e a Eslováquia.

Clara não mais o ouvia. Fixava-se no alto, espiando a luz que invadia a pequena janela.

― Saymon nunca mais voltou. Ficou por amor.

― É verdade. Meu pai amava este país.

― Você sabe por que estou aqui, Lucas?

― Não vamos mais falar nisto, está bem? Logo, logo, você estará em casa.

― Você é casado, Lucas?

― Sou e tenho um filho, talvez da sua idade.

Clara riu, descontraída:

― Não acredito! Você é tão velho assim?

― Sou Clara, velho suficiente para ser seu pai.

― E sua mulher, onde está?

― Minha mulher está em Praga.

Clara silenciou. Decidiu levantar-se. Estava na hora de ficar sozinha. Talvez, planejar a nova vida de aposentada por incapacidade, que a esperava. Quem sabe, se dedicaria aos livros. Talvez encontrasse uma história para escrever com tanta verdade, quanto esta. Entretanto, para que tudo isso acontecesse, precisava retomar a sua vida. Voltou-se para Lucas e pediu em súplica:

― Lucas, tenho que sair daqui. Não sou uma assassina, não posso ficar presa como uma delinquente. – E falando em segredo. – Eu preciso escrever mais, sabe? É a minha reabilitação. Tenho muitas histórias a contar!

Prosseguiu ainda mais angustiada:

― Estou aposentada como uma velha inútil. Foi a maneira que encontraram para me afastar de uma vez por todas do meu trabalho! Queria tanto voltar, avistar os navios no porto.

― Clara, você vai sair, não se preocupe. Tenho certeza de que esta fase vai passar. É por este motivo que estou aqui, para apoiá-la e lhe transmitir esta esperança.

― Esperança? Tenho medo de perder completamente as esperanças. Se não voltar a escrever, morrerei.

Ele a fitava compassivo. Retirou da maleta de couro, um pacote enrolado em papel azul.

― Eu lhe trouxe um presente.

― Presente?

Ela segurou o pacote, demonstrando exagerada curiosidade.

— De que se trata?

Lucas pediu que abrisse o pacote. Clara obedeceu desprendendo o cordão que envolvia o invólucro. Quando o desenrolou, exclamou:

― Um livro!

Lucas, satisfeito, perguntou se ela havia lido o nome do autor.

Clara olhou de soslaio, perguntando a si mesma, o que significava aquilo. Soltou o livro sobre a mesa e levantou-se com os olhos marejados. Encostou-se na parede, ansiosa.

Lucas insistiu:

― Você não quer saber quem é o autor? Por favor, Clara, aceite a ideia de que só poderia ser uma pessoa!

Ela voltou-se para ele, confusa, gesticulando, dando alguns passos e recuando. Não podia acreditar.

― Sou eu!

― Sim, eu publiquei a história que você escreveu, aliás, diga-se de passagem, com extrema maestria. Clara, você é uma escritora genuína. Você tem sensibilidade e lirismo, prosa com poesia. Você é genial!

― Mas então, a história de dona Luisa…

― É a verdadeira história que você contou, Clara. Você fez muito por ela, como mesma diz, resgatou a história de minha mãe, buscou no seu passado, a verdade de sua vida. E você tinha razão, quando dizia que ela pouco se referia a mim. Não era pra menos, porque eu a abandonei. Somente preocupado com a minha vida familiar, meus negócios, minhas viagens, meu trabalho. Eu esqueci praticamente a minha mãe. Apenas custeava seus gastos mais urgentes, me comunicava vez que outra pela Internet com ela, nada mais. Você ao contrário, Clara, não a abandonou um só segundo. Você a salvou da solidão.

Clara chorou emocionada. Repetia uma expressão que tomava conta de sua mente. – A casa oblíqua, A casa oblíqua. — Talvez fosse esse o título correto da história.

Mas agora se debruçava na capa, na folha de rosto e logo partiu para o primeiro capítulo. Depois, enrolou-o novamente no papel azul. Abraçou-o por um momento, como se devesse despedir-se daquela relíquia.

Em seguida, entregou-o a Lucas.

— Não é meu. Não tenho o direito de ficar com ele. Tome-o, é seu Lucas.

Lucas afastou-se, pedindo que ficasse com ele, por tudo que tinha dito. Era mais do que um direito, era uma vitória que ela deveria se orgulhar.

Clara então, o abraçou novamente. Respondeu com voz entrecortada que ali não seria um lugar digno para que o lesse, mas o guardaria sim, consigo.

Lucas então sugeriu que ela escrevesse durante o tempo que ainda passaria ali. Que expressasse tudo que lhe viesse à cabeça, que descrevesse as emoções mais genuínas, quem sabe retomasse os sentimentos da infância.

― Todo escritor é meio louco, não é?

Ele sorriu apenas. Clara concluiu, enfática:

― Mas a loucura é que nos permite viver, que nos torna sãos. Ou se é louco ou santo, como nunca fui santa...

Lucas afastou-se.

Na porta, uma enfermeira o esperava, dando passagem e fechando o quarto.

Clara se deitou na cama, de bruços e chorava baixinho, em soluços interceptados. Não se sabe se de alegria ou desespero.

Na rua, Lucas recebia um telefonema do homem que encontrara no elevador, no dia em que visitara Clara pela primeira vez.

Combinaram um encontro no hotel onde Lucas estava hospedado. Quando ele chegara, dirigiram-se ao bar.

Lucas pediu uma bebida à base de vodca. O outro preferiu apenas água.

Lucas sorvia a bebida devagar, avaliando a fisionomia do homem, que parecia nervosa.

― Desculpe perguntar, não leve a mal, mas você me parece assustado, como se fugisse da justiça. Há alguma coisa que eu precise saber?

― De certa forma, sim. Estou no país, por pouco tempo. Estou em liberdade vigiada.

— Não tenho que me intrometer na sua vida, mas preciso saber com quem estou lidando.

—Você tem toda razão. Vou contar tudo. Sou um clandestino, um foragido de meu país. Meu nome é Nael Naji. Foi Clara quem me ajudou, quem me apoiou, levando-me para seu apartamento, enfim, salvando minha vida.

Lucas não continha a surpresa. Como poderia ter acontecido uma coisa destas nos dias atuais? Como Clara agiria desta maneira imatura, ao menos que fosse influenciada pela história de sua mãe.

Nael prosseguiu, inseguro, com dificuldades em se expressar na língua.

— É por isso que ela se encrencou com a justiça. Eu percebi com o passar do tempo, que as coisas não iam bem pro lado dela, pra cabeça dela. Ela estava misturando as coisas, entende? Me confundindo. Às vezes, me tratava com carinho, com afeto, noutros momentos, já não me conhecia mais, inclusive certa vez, até chamou a polícia para me prenderem. Pensava que eu fosse um agressor, um criminoso. Mesmo assim, fiquei morando em seu apartamento, até conseguir uma maneira de ficar no país.

— Aquele apartamento não era dela. Clara cuidava de minha mãe.

—— Dona Luisa?

—— Sim.

—— Mas, segundo ela, o apartamento do outro lado é que 
pertencia a esta senhora.

—— Não, na verdade, aquele era o apartamento do zelador, que falecera algum tempo atrás e os condôminos não tinham decidido o que fazer com ele.

—— Mas havia uma mulher lá, uma mulher que a ameaçava.

—— Você a viu, alguma vez? 


—— Sim, diziam que era uma invasora, uma sem-teto. 


—— Que andava sempre pelo porto, o local onde Clara 
trabalhava. Ela devia ter contado a esta mulher sobre o tal apartamento. Mas isto não vem ao caso. Quero que me conte como ela o ajudou todo este tempo. Sabia que ela se prejudicou por isso, que inclusive foi presa?

—— Onde ela está agora? Eu a procuro, desesperado. Preciso falar com ela, preciso ajudá-la também. Fui diversas vezes até o apartamento, mas nunca a encontrei. Na verdade, me sinto culpado. Pode ser uma bobagem, mas nós tivemos um certo relacionamento, uma coisa inesperada, entende? Não me dei conta que ela estava fragilizada, que precisava de apoio, muito mais do que eu, talvez. Sinto que não devia ter aceito o seu carinho, não devia ter me envolvido. Eu também me sentia frágil, apavorado. Mas me sinto um canalha, desde então.

—— Então chegou a sua vez de ajudá-la, Nael, fazendo com que enxergue a realidade. Mostrando a ela quem você é, que não é Saymon, o meu pai, que tem um biótipo diferente, que é de outro país, outra etnia. Você pode ajudá-la sim e muito, mas para isso, precisa confiar em mim. Precisa me contar em detalhes tudo que aconteceu naquele apartamento.

Clara olhava de vez em quando para o livro. Lia o seu nome diversas vezes, mas não se atrevia a abri-lo. Haveria o momento certo. Agora, ficava absorta entre aquela gente que a examinava como um objeto raro, que lhe dizia coisas desconexas, que a abordava de maneira acintosa.

Escrever sobre a loucura é elogiar o ser humano em suas fragilidades e antecipar acima de tudo, suas veleidades sem ao menos perceber de que nada é preciso, definitivo ou infinito.

Estava na hora do jantar. Ela carregava algumas folhas de papel e caneta.

Sentava-se à mesa, entre mais de vinte pessoas, que se olhavam desconfiadas. Uma que outra era mais afável, mais generosa. Umas riam, alucinadas. Outras choravam como crianças desamparadas. Havia as que se despiam, sem perceber, as roupas no chão, encardidas, misturando os odores ao da sopa de batatas, carne e milho.

Clara empurrou o prato com o cotovelo, estendeu a folha de papel na mesa molhada e escreveu. A caneta falhava, mas ela prosseguia mesmo assim. O homem ao seu lado engasgou com o naco de carne e a mulher do outro lado desatou a rir.

Clara bateu com força nas costas do homem. Ele se acalmou.

Ela voltou a escrever. Devia aproveitar a iluminação que daqui a pouco seria desligada, por isso, escrevia apressada. Não pensava encontrar-se assim, na loucura produtiva dos que enlouquecem para não morrer. Ou escrevem para não enlouquecer. Mas quem disse que sanidade era saudável? Quem disse que o senso comum era enriquecedor? Quem disse que fugir dos padrões não representavam o mergulho na verdade?

Quisera mostrar ao mundo que não se podia viver no mormaço, que somente o sol, a chuva, a trovoada, a tempestade, a ventania agitavam a existência. Existir era sobrepujar as dores.

Todos se retiraram, uns se chocando aos outros, como crianças no intervalo da aula.

Clara seguiu o seu caminho. Guardou a folha e a caneta. A luz apagou. Ficou de olhos abertos na escuridão. Vozes lá fora, choro, gemidos, pequenos risos disfarçados. Censuras, brigas, molestamento. Grades se fechando. Portas rangendo. Uivos de uma noite que se esvaía lentamente nas dobras do lençol, rosto escondido e olhos à vista.

Quando o dia clareou, ela foi levada ao banho, como os demais. Água gelada para acordar. Respingos de arrepios. Boca amarga, um travor que se espalhava pela garganta seca. A água ensopando por fora. Ela queimando por dentro. Aos poucos, se acalmava e á agua escorria tépida, aquecida pelo corpo magro. Enxugou-se depressa, ante o olhar examinador da atendente. Tempo restrito. Vestiu a camiseta branca, amarfanhada e a calça de algodão. Enfrentou pequena fila para escovar os dentes e logo estava no refeitório, agora sim, numa longa fila para pegar a caneca de alumínio, esperar o café com leite despejado pela concha da funcionária e uma fatia de pão.

Dirigiu-se à mesa e puxou de dentro do cós da calça, um maço de folhas e a caneta. Tomava o café a pequenos goles, mastigava o pão faminta e só parava para escrever.

Ao seu lado, a mulher da noite anterior, que zombara do homem que engasgara estava melancólica.

Clara perguntou se não tomaria o café. Ela parou de fumar um minuto, mas não se eximiu do balanço do corpo, tomou um gole e voltou à postura anterior. Para surpresa de Clara, se dirigiu a ela, contando que o filho viria visitá-la. Antes de qualquer resposta, voltou a fumar, em silêncio.

Clara abaixou a cabeça e voltou a escrever.

A fila acabara e todos estavam à mesa, fazendo a refeição. O barulho era intenso. Havia um prenúncio de motim, como na prisão. Clara sentia a atmosfera pesada.

Faltavam os soldados, apenas isso: daqui a pouco se recolheriam as suas celas, cabisbaixos e tranquilos. Uns até sorririam. Outros apáticos.

Os soldados roliços ou cilíndricos ou aquosos dominariam a batalha. Uma batalha sempre perdida no dia a dia. Velhos comprimidos são sempre os sentinelas mais fortes.

Dia de visita.

Clara sentou num banco, no pátio, em meio a pequenos jardins mal cuidados.

A mulher que fumava conversava com o filho. Ele olhava para os lados, sem encará-la. Ela, de vez em quando, se levantava e prosseguia no costumeiro ritual de balançar o corpo e jogar baganas pelo pátio.

A maioria não recebia visitas. Havia pessoas que estavam há mais de vinte anos naquela instituição e foram esquecidas pelos parentes e elas também se esqueceram deles.

Para Clara, tudo o que lhe restava era a faculdade de registrar os acontecimentos. Dava graças à vida por esta perspectiva através da escrita.

Porém, naquele dia, em especial, chegaram dois visitantes para ela. Lucas e um outro homem desconhecido.

Clara não gostou de vê-los ali. Sentia-se desconfortável com os de fora. Era uma atitude peculiar, que aumentava na mesma razão em que o tempo passava.

Lucas se aproximou e estendeu a mão, afetuoso.

— Clara, vim lhe dizer que voltarei para a capital amanhã e depois pretendo voltar para a República Tcheca. Na verdade, vim me despedir.

Clara sorriu. Ele continuou, entusiasmado:

—— Além disso, acho que lhe devia mais uma chance, talvez uma tentativa de você ajustar, digamos assim, o seu pensamento interior com a realidade.

—— Mas eu estou feliz aqui, taxada de louca! 
E olhe que já ouvi comentários que os hospitais vão fechar. Qualquer dia, todos estaremos na rua.

—— Não, Clara, por favor, não me interprete mal. Você sabe que eu não quis dizer isso.

—— Uma pena! Deveria ter dito. Só na loucura, me sinto inteira. Sou uma escritora, sabia? Uma escritora insana!

—— Sim, exatamente. Clara, você é uma grande escritora. – Responde, desajeitado. – Mas agora não vem ao caso o que eu penso ou deixe de pensar. Você sabe que eu agradeço tudo o que por minha mãe. Quero ajudá-la, Clara. Lembra-se que queria sair daqui?

Clara suspira fitando o céu, como se buscasse uma resposta além de suas percepções. Depois, desabafa, imprecisa:

– Queria, mas se sair daqui, como escreverei? E depois, se o hospital fechar como dizem, todos os loucos irão para as suas casas.

—— Clara, você está muito confusa. Mas não vamos pensar nisso agora. Eu vim aqui também para apresentar-lhe um amigo.

Clara recuou alguns passos. Perguntou, desconfiada:

— Quem?

Nael aproximou-se e estendeu a mão, mas ela limitou-se a fitá-lo com indiferença.

—— Você não se lembra de mim, Clara?

Ela não respondeu. Lucas tentou contornar a situação, sugerindo que sentassem os três no banco, ali perto.

Enquanto Nael se dirigia ao banco, Clara recuou mais alguns passos e puxou Lucas pelo braço, chamando a sua atenção em tom mais baixo:

— Quem é este cara, hein? O que ele quer de mim?

Ele respondeu, em segredo:

— Calma, Clara, você vai se lembrar. Trata-se de uma pessoa que gosta muito de você. Veja, que não está sozinha como pensa.

Ela sorriu, considerando-o tão ingênuo, que teve vontade de chamá-lo de “pequeno Lucas”, mas se conteve. Entretanto, obedeceu e sentou-se entre os dois.

Nael suspirou, tristonho. Inicialmente, começou a falar de si, de sua luta interior por liberdade, pelos anseios de uma vida nova, de esperanças. Afirmou ter sido este o principal motivo que o levou a fugir para o Brasil e tornar-se um clandestino, como uma mercadoria contrabandeada.

Clara levantou-se, de súbito, afastando-se dos dois.

Lucas aseguiu, preocupado.

— Clara, por que não quer ouvi-lo?

— Porque não me interessa.

— Porém você o ajudou.

— Ele está mentindo!

Lucas voltou-se para Nael, que continuava na mesma posição, desiludido. Então, fez um aceno pedindo paciência.

— Clara, ele estava esclarecendo quem era, falando sobre o passado, para que você se lembrasse dele.

— Por favor, Lucas, se você quer mesmo ajudar-me, vá embora e leve aquele homem com você. Eu não o conheço.

— Você o ajudou, você o salvou, assim como minha mãe agiu em relação ao meu pai. Você o escondeu no porto e depois o levou para o apartamento. Por que não quer enfrentar esta realidade?

Ela não responde. Afastou-se, espalhando-se pelas pessoas que passeiam ao lado dos parentes.

Lucas a seguiu.

— Por que você se recusa a reconhecer o homem que você salvou?

Clara o encararou pálida. A voz soa trêmula.

— Não era ele. O outro era um homem elegante, culto, um cavalheiro. Seus olhos eram claros, como os seus Lucas.

—— E por que você acha que não é o mesmo? Hoje, ele é um homem mais sofrido ainda, que foi preso, que está prestes a ser deportado para o seu país.

— Não é ele! – Respondeu, indignada. – E agora, Lucas, vá embora, me deixe.

— Está bem, digamos que não seja ele. O que a faz pensar que é outro homem?

Clara levanta os pés e cochicha no seu ouvido:

– Este é negro!

— Então, é este o seu problema, puro preconceito racial! Você o repele por ele ser um negro!

— Não é nada disso! Saymon era europeu, tinha olhos claros, o cabelo liso, caído na testa. Eu lembro bem. Meu Deus, Lucas, você quer me enlouquecer me trazendo este homem aqui que quer se passar por Saymon! Ou trata-se de uma piada?

— Clara, Saymon era meu pai! Você está confundindo este homem com a figura de meu pai!

— Não é verdade! Não é verdade! Me deixe em paz! – Gritou, misturando-se entre as visitas, enquanto Lucas a seguia, insistindo – Não, eu quero que você enxergue a realidade, somente assim vai sair deste labirinto, desta paranoia. Este homem que você ajudou, que você salvou a vida é um cidadão negro, do Egito, um país africano. Ele é Nael, o homem educado e gentil que você amou!

— Vá embora, pelo amor de Deus!


Um enfermeiro se aproximou, intrigado com a situação.

— Clara é minha amiga e está passando por uma situação 
difícil. 


— Por este motivo ela está aqui. 


— Não, ela precisa de uma terapia adequada. Pelo que 
me consta, Clara faz uma transferência de personalidade que não está sendo tratada.

— O senhor é médico ? 
- pergunta o enfermeiro, desconfiado.

— Não, mas eu sei que isto está acontecendo com ela. Eu tenho provas de que ela não está bem. 


— Então o senhor, por favor, não se meta neste assunto. Deixe para os profissionais especializados que sabem o que estão fazendo. – E voltando-se para Clara. – Você quer continuar com a visita ou quer voltar para o seu quarto?

— Quero voltar. 


— Clara, por favor.

— O senhor ouviu a paciente. Não insista!

Afastaram-se devagar e Clara retornava à sensação de abandono e dor. Chorava baixinho.

Lucas aproximou-se de Nael e saíram em seguida.
EPÍLOGO

Mar azul, bandeiras egípcias tremulando nos mastros. Tudo se confundia no horizonte. Não havia como negar que o mundo se tornava pequeno ante à tecnologia, no entanto, as distâncias físicas para alguns ainda eram extremas. Nem sempre era saudável voltar para seu país, quando se encontrava em conflito permanente.

Nael estava acompanhado de oficiais da polícia federal. Assinou documentos e se preparava para embarcar no navio e assumir o seu destino.

Lucas, ao seu lado, procurava tornar menos difícil a despedida. Sabia o quanto o estrangeiro estava sofrendo, temendo uma punição severa em seu país, provavelmente sendo preso.

De certo modo, Lucas sentia-se um pouco responsável, porque sua história estava intimamente ligada à Clara.

Clara que o acolhera e ele nem suspeitara do acontecimento, por ter se afastado deliberadamente da mãe, deixando-a tão sozinha. Não acompanhou a sua trajetória, nem ao menos tomou conhecimento da pessoa que contratara para ficar ao seu lado. Quando sua mãe morrera, talvez Clara nem soubesse exatamente a quem dirigir-se, em virtude de sua ausência.

Lucas sabia até que ponto a história da mãe a inspirara, produzindo nela uma razão para viver, talvez passiva de um sofrimento interior muito grande, uma frustração que não soubera resolver. Ele pensava nela angustiado por ter falhado na tentativa de recuperar-lhe a sanidade. Convencia-se porém, que seus textos repletos de emoção e poesia, serviriam para revelar a excelente escritora que era. Quando partisse, em seguida, levaria consigo a experiência de ter conhecido uma pessoa tão singular, que apesar de toda a confusão mental, soubera valorizar a memória de sua mãe e de sua família.

Nael se despedia de Lucas, emocionado. Seu olhar, por um momento, deslizou pelos degraus das escadas do navio, como se fossem os que o levariam ao cadafalso. Sabia que o regime autoritário não o perdoaria e que inevitavelmente seria punido.

Por outro lado, o coração palpitava ansioso, por rever os seus que ainda permaneciam naquelas paragens, sem jamais imaginar os tropeços de que foi investida a sua fuga. Restavam poucos parentes. A mulher fora cruelmente assassinada. Não havia motivos que o alegrassem na volta, muito menos que o confortassem na partida.

Clara que o havia acolhido e salvo a sua vida, o abandonara. Entretanto, sempre se lembraria dela como uma doce lembrança, que o livrou do enfrentamento com a justiça, da doença que o atingiu, da solidão.

Ele abraçou Lucas, agradecendo o seu desvelo em ajudá-lo, na tentativa de reencontrar o reconhecimento de Clara. Apertaram-se as mãos e ele ensaiou alguns passos, afastando-se das pessoas que ficavam no porto.

Lucas o observava, pensativo. Certa melancolia o dominava, como se aquela cena o fizesse retomar o passado que não vivera, mas que fizera parte de sua vida. Seu pai certamente realizara o mesmo gesto, o mesmo aceno, a mesma partida solitária, esperando o pior.

Estava assim, absorto, quando alguém passou por ele, esgueirando-se entre as pessoas.

Lucas recuou alguns passos, surpreso com a aparição inusitada. Sorriu feliz, abrindo uma brecha a sua passagem.

Ela chamava, um nome muito familiar naquele momento.

Nael, da metade do caminho, voltou-se rapidamente, girando o corpo, quase se desequilibrando. Seus olhos brilharam de alegria.

Um enfermeiro esperava a alguns metros, enquanto Clara corria ao encontro de Nael.

Ele desceu os poucos degraus que avançara e a abraçou, com emoção. Ela o beijou, impedindo-o de falar.

— Não fale nada. Não precisa. Só perdoe a minha indiferença. Eu sei que você é o Nael, que levei para a casa de Dona Luísa.

Ele apenas conseguiu agradecer, repetindo a frase, misturando os idiomas.

— Obrigado, Clara, obrigado.

—— Não me agradeça, você também salvou a minha vida. Você me ensinou a amar.

—— Então? 


—— Sim, eu o amo e se você quiser, vou lutar para que fique aqui, para que não vá embora. 


—— Você me esqueceu, Clara. Você teve medo de mim, chamou a polícia.

Ela silenciou por um momento. Abraçou-o mais forte.

— Um dia, você vai entender. Confie em mim. 


— Está bem, eu confio. Eu também a amo, Clara, muito. – E acrescentou, tristonho. – Um amor impossível, porque daqui a pouco, nunca mais nos 
veremos.


—— Eu sei, mas eu lutarei para defendê-lo, pedirei às autoridades o seu asilo político. Ficarei esperando uma vida se for necessário, mas nunca o esquecerei.

Ele a beijou delicadamente.

O oficial aproximou-se e logo em seguida, o enfermeiro. Conduziram Nael para dentro do navio.

Clara aproximou-se de Lucas, enxugando uma lágrima com o dorso da mão.

Não tirava os olhos da figura longilínea, que aos poucos se apequena, enquanto o navio zarpa. Acenava, avistando-o também acenar, pela última vez.

Aos poucos, nada mais avistava, a não ser um ponto na imensidão.

Lucas aguarda, silencioso. Por fim, perguntou o que a fez mudar de ideia.

—— Acho que você foi convincente demais. Tudo o que dissera ficou martelando na minha cabeça, a ponto de não mais poder escrever, nem pensar em nada que não fosse essa situação. Na verdade, eu não queria assumir todas as bobagens que tinha feito. Ficarei no hospital mais alguns dias. Afinal, não posso fugir como da última vez. Além disso, infelizmente, para a sociedade não sou responsável pelos meus atos.

Lucas a observava enquanto falava, tendo a convicção que poderia ajudá-la mais.

—— Clara, eu estive pensando. Antes de partir, quero ajudá-la.

—— Não, por favor, Lucas. Você já fez tudo o que podia por mim. Eu só tenho a agradecer-lhe. Ainda havia aquela desconfiança de eu me aproveitar da bondade de sua mãe e tudo ficou esclarecido.

— Sei de tudo isso. Não vamos mais remoer este assunto. É que, na verdade, não fiz tudo. Acho que você precisa de um profissional, um psicanalista. Você não é mulher de ficar num hospital de doenças mentais.

— Eu já lhe disse que a insanidade é boa. 


— Porém não o delírio total. Você está se tornando uma escritora de prestígio. Acho que deve voltar para o seu curso de mestrado, defender a sua dissertação e retomar a sua vida.

Clara o ouvia, calada. Fitou-o com tanta ternura que o deixava constrangido.

—— Que houve? Por que está me olhando assim? 


—— Não é nada, não, Lucas. Por um momento, tive a impressão que estava conversando com sua mãe. 


— Por que diz isso?

—
Porque você é muito parecido com ela, Lucas. O seu jeito de olhar, de falar, de convencer a gente. Dona Luísa era uma mulher generosa e conhecia a alma humana, como ninguém.

— Obrigado, Clara. Nestes anos todos, nunca ninguém me falou isso. 


— Talvez porque a presença de seu pai fosse muito forte. Talvez você tenha se afastado por ciúmes, de uma maneira inconsciente. Mas ela o amava muito.

— Você agora é psicóloga, hein? 


— Desculpe, já basta o que me intrometi na sua vida.

— Não diga isso. Talvez você tenha razão, mas estou 
muito velho para tentar resolver esta situação. Você sim, é que deve lutar para retomar a sua vida. Então, aceita a minha oferta? Quando ficar milionária com os seus livros, você me paga.

— Está bem, eu aceito. Quero retomar a minha vida, como você disse, Lucas. 


— E as histórias? Vai continuar escrevendo-as?

— Agora, tenho muito mais motivos para recriar o mundo, 
tenha certeza disso.
FIM

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