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A CASA OBLÍQUA - CAP. XXXIV

A SEGUIR O PENÚLTIMO CAPÍTULO DE NOSSO FOLHETIM:

Clara estacionou o carro numa garagem coletiva e em seguida, tomou um taxi, afastando-se em direção ao centro da cidade. Usava a peruca loira e óculos escuros. Determinou-se certa sobriedade para demonstrar segurança, mas na verdade, estava ansiosa, quando entrou no banco. Comunicou ao atendente que necessitava utilizar o cofre, cuja chave carregava consigo. Este avisou a outro funcionário, que lhe pediu um documento de identidade. Clara entregou uma procuração assinada por Dona Luiza e o seu próprio documento.

A cada silêncio do funcionário, ela ficava mais nervosa, inclusive porque era procurada pela polícia e seu documento poderia ter sido objeto de pesquisa, através da interações entre instituições bancárias, mas precisava arriscar.

O rapaz afastou-se com a procuração e seu documento.

Ela esperava, quieta. Observava o arbusto artificial num vaso enorme, sobre o piso. A sala ampla, vazia. Na parede, tijolos de vidro e iluminação artificial. Sem querer, tamborilava os dedos numa pequena expositora de vidro com folhetos de publicidade do banco.

O rapaz voltou e desta vez a acompanhou para uma sala fechada, com armários imensos e muitas gavetas.

Clara percebeu tratar-se do local onde estavam os cofres e suspirou, aliviada. Ele devolveu-lhe os documentos e afastou-se.

Clara parou alguns minutos, enquanto a porta se fechava atrás de si. Então, procurou o cofre pelo número que trazia anotado, embora soubesse de cor. Passeou o olhar pelas inúmeras gavetas de aço e parou em frente de um.

— 2322. É este.

Aproximou-se, batendo os saltos de leve no piso, ecoando um ruído metálico no silêncio. Ato contínuo, retirou a chave da bolsa e com a mão trêmula, ajustou-a na fechadura, abrindo-a lentamente. Girou de leve a rótula, utilizando os números indicados no bilhete. Juntou os do apartamento ao número que encontrara na casa da praia. Um, dois,três, até cinco números, mas não contribuíram em nada para liberar achave. A seguir, tentou outra vez, criando uma segunda combinação. Colocou os números do apartamento na frente desta vez, mas também não surtiu efeito. Suas mãos suavam, seu corpo todo transpirava. A ansiedade ressequia a garganta. Maldito banco obsoleto, onde precisava usar aquela chave retrógrada, pensou angustiada. Haveria milhões de combinações, ela jamais encontraria a senha correta. Por fim, imaginou que talvez ela devesse usar os algarismos de modo a compor a ordem a partir do primeiro e do ultimo dígito. Foi o que fez. A rótula girou cinco vezes. Seus olhos se iluminaram, vibrantes.

Agora, bastava usar a chave. Fez com cuidado, criteriosa. A porta se abriu lentamente. Seus olhos então encheram-se de lágrimas, como se a sua vida, a sua liberdade, o seu destino dependessem exclusivamente daquele cofre.

Então, enfiou a mão, esticando o corpo para observar o que havia lá dentro.

Havia uma pasta com diversos envelopes, papéis, provavelmente documentos.

Puxou ofegante uma procuração e como imaginara, havia a escritura de um imóvel em seu nome.

Por último, retirou todos os objetos, vasculhando rapidamente com a mão, para se certificar de que não restava nada mais ali, para em seguida, fechar a porta, retomando a senha anterior, usando a chave e guardando os documentos na bolsa. Apenas a pasta e a escritura, carregava sob o braço. Ensaiou alguns passos, parou à porta e pediu para abrirem, afastando-se depressa do banco.

Na rua, Clara telefonou ao advogado, anunciando que o encontraria em seguida. Não queria arriscar-se ser detida, sem ter ainda o hábeas corpus.

Ela tomou o elevador e aproximou-se insegura da porta, que indicava o nome do advogado: Dr. Fábio Mendes.

Na verdade, seu desejo era o de estar em casa, examinando aqueles documentos e tudo o que havia na pasta, além da própria escritura da qual ainda desconhecia a que imóvel se referia, embora imaginasse tratar-se do apartamento de Dona Luiza.

Tocou a campainha e o próprio advogado abriu, convidando-a a entrar.

Ela sentou a sua frente, próxima à escrivaninha. Ele se ausentava na tela de um notebook, como se pesquisasse artigos importantes, talvez relacionados com o seu caso.

Clara retirou os óculos escuros, guardando-os na bolsa. Antes que ele falasse, adiantou:

— O que eupreciso do senhor, é antes de tudo, sigilo absoluto. Tudo o que vou lhe contar é estritamente confidencial.

Ele a encarou com censura, franzindo o cenho, mas não perdeu a pose.

— Não há dúvida que tudo que me relatar ficará entre nós, apenas será revelado o que for para os autos e assim mesmo com a sua permissão.

Clara silenciou por um momento. Respirou fundo como se enfrentasse uma extensa jornada. Desviou o olhar para as paredes, examinou a estante de madeira repleta de livros jurídicos e a pequena janela ao fundo que emitia um leve facho de luz que incidia no tapete. Depois, voltou-se para o advogado que a observava atento. Então, encheu-se de coragem e narrou os acontecimentos e à medida que o fazia, empregava tal naturalidade, que, em se prestando atenção, se diria que ela os revivia em sua plenitude.

Ao terminar, estava exausta.

Ele percebera a mudança no comportamento, pois a fitava pensativo. Cobria com um dedo a boca, apoiando os braços na mesa, revisando a história, talvez tentando encaixá-la em algum artigo da lei que lhe fosse favorável.

Clara movia-se na cadeira, ainda mais insegura do que quando chegara. Além disso, estava impaciente, queria sair dali, voltar para a sua vida. Sentia-se aprisionada naquele escritório pequeno, no décimo andar, perdendo o tempo que restava para resgatar o seu destino.

Perguntou, indecisa:

— Que aconteceu? Sem esperar resposta, ela concluiu, irônica.

— Você está me considerando uma louca, não é mesmo? – E prosseguiu – Pois só eu sei o que vivi, o quanto lutei para conservar o patrimônio de Dona Luiza, para preservar a sua memória e para valorizar a sua história.

Ele se esquivou, evitando parecer confuso. Levantou-se e passeou pela sala, como se explanasse uma aula. Parou um instante, voltou-se para ela, colocou as duas mãos na escrivaninha, dobrando o corpo e encarando-a de perto, concluiu:

— Olhe, Clara, eu jamais julgaria você, mesmo porque estamos nos conhecendo agora. Você confiou em mim e eu também devo confiar em você, devo acreditar que tudo o que você diz se trata da mais pura verdade. Mas há alguma coisa que não bate nesta situação toda, olhe, não sou nenhum psicólogo, mas acho que você se envolveu extremamente com este caso.

Agora, Clara é quem se levanta e o interrompe, indignada:

— Não precisa me dar sermões. Se não acredita em mim, seja franco. Só lhe contei, porque não pretendia omitir nada.

— Espere, Clara, espere.

O advogado rapidamente se aproxima dela, tocando-lhe levemente no braço. Clara retrai-se, calada e ele prossegue, amistoso:

– Veja bem, Clara, o que eu estava tentando explicar é que você se envolveu com esta senhora, como se ela fosse uma pessoa muito próxima, a sua mãe, por exemplo. Eu não estou criticando-a, de modo algum, mas é normal assumirmos, às vezes ou na maioria das vezes, o papel de nossos pais. E você, pareceu-me, quis reconstruir o mesmo caminho realizado por esta senhora.

— Na verdade, há muitas semelhanças. – Ela concordou, voltando a sentar-se. Ele suspirou aliviado e correu a sentar a sua frente, como no início da conversa.

— Há muitas semelhanças, é verdade, mas a sua vida é uma, a dos dias atuais, de uma mulher independente, que trabalha num serviço de alta responsabilidade, num ambiente inclusive considerado hostil, que faz um curso de mestrado, que estava, pelo que me contou, finalizando uma monografia. Esta senhora, a dona Luisa, era uma professorinha da década de 40, que se apaixonou por um foragido de guerra, com uma historia adversa. Você abandonou tudo, Clara.

Clara responde, melancólica:

— Ela também.

— Não, ela foi obrigada pelas circunstâncias. Você se arriscou de forma inconsciente para resgatar o sofrimento dela. Você quis viver esta história.

Clara sentiu um arrepio percorrer os braços. A antiga sensação de frio, de desapego, de sofrimento. Coração apertado. Olhos cheios d’água.

Fizeram um silêncio pesado. Ele sabia que a tinha chocado, mas devia se ocupar com a realidade, com a situação atual e não com as implicações psicológicas de sua cliente.

— A única coisa que realmente interessa para nós, no aspecto jurídico, é a sua participação na fuga do clandestino. Você o escondeu em sua casa e além de tudo, não prestou contas à justiça. De certa forma, você também é uma foragida, haja vista o disfarce que usa. Mas quanto a isso, antes mesmo de você vir aqui e contar a sua experiência, embora eu saiba mais detalhes da história antiga, do que a atual, eu já havia consultado a constituição. Já fiz o hábeas corpus para livrá-la da prisão. Enquanto isso, esperaremos a liminar para que você responda o processo em liberdade. Leva algum tempo, mas não muito.

Ela recuou na cadeira, empurrando-a com o corpo. Em seguida, levantou-se encarando-o, aborrecida. Precisava encerrar aquele assunto enfadonho, afastar-se da discussão árida que não levava a lugar nenhum.

Fábio pediu que esperasse. Deviam esclarecer outras coisas ainda não ditas. Foi neste momento, que citou o clandestino, trazendo de volta uma trama de pensamentos confusos.

Ele perguntou:

— Você não pensou nele? No que vai acontecer com ele? Acho salutar que analisemos todos os pontos, para a nossa própria causa.

Aquela informação só a confundia ainda mais. As palavras do advogado a seu respeito tinham mexido com os seus sentimentos sobre si mesma. As dúvidas surgiam inesperadas.Temia estar enlouquecendo, querendo se passar por outra pessoa. Quem era ela afinal? Por que a sensação de vazio, quase pânico, voltava com força, paralisando-a? Por que devia ocupar a sua mente com aquele homem que se acomodara em sua casa, se nem tinha certeza de que isto acontecera realmente? Tinha a impressão de que tudo não passava de um sonho, um pesadelo cruel, do qual não conseguia se afastar. Apenas o tinha ajudado no porto, nada mais. Nem o encontrara novamente, nunca mais o tinha visto. Nada sabia dele. Não queria vê-lo. Ele não era Saymon? Ou ela era própria Luiza e aquela chave era sua? Talvez tenha criado este quebra-cabeças em sua mente. Um jogo de códigos estranhos, senhas das quais ela jamais descobriria os dígitos ou as letras, não produzindo qualquer combinação. Turbilhão de ideias que a assustavam. Que a deixavam sem fala. Suava frio.

Fábio compreendia o seu estado de espírito. Via naquela mulher um espectro de indecisão e medo, por isso tentava acalmá-la.

— Você não deve de modo algum se preocupar com ele. Sei que chamei a atenção sobre o problema, mas apenas para explicar os procedimentos. O seu caso é um, o dele é outro, apesar de estarem ligados, em virtude dos acontecimentos. No caso do clandestino, vamos requerer a revogação da prisão cautelar, pugnando pela concessão do beneficio da liberdade vigiada. Nós vamos pugnar, isto quer dizer, defender o direito que ele tem através deste benefício.

Clara dispersou o olhar para a janela novamente. Já o facho de luz não deitava mais sobre o tapete. Apagava-se, tênue, no formato da abertura. Por um momento, ela teve a impressão de que alguém acariciava o seu ombro e sorriu. Talvez fosse dona Luiza, que queria tranquilizá-la. Voltou-se para Fábio e perguntou num tom muito baixo, como uma criança que temia a punição:

— Posso me retirar? Estou exausta. – E em tom mais elevado, acrescentou – Logo acertaremos todos os honorários, está bem? Você tem todos os meus dados, o meu endereço, eu não vou fugir.

— Clara, precisamos nos apresentar à justiça para assegurar a sua liberdade provisória. Apresentarei todos os documentos, provaremos que você é uma pessoa idônea e ainda vamos convencê-los que você está mergulhada num forte estado de estresse.

Agora, ela reagiu, assustada:

— Eu não vou voltar para aquela clínica! Eu não sou louca!

— Então, antes de tudo, é necessário arranjar um médico que elabore um laudo, atestando que você pode tratar-se em casa, quem sabe, um tratamento para depressão profunda.

Ela o fitou desolada. Sabia que não havia outra saída e que ele sorrateiramente, havia pensado em tudo. Não havia duvidas de que era um homem muito inteligente. Obedeceu passivamente e ambos organizaram todos os documentos necessários.

À noite, Clara já se encontrava em casa e sentia-se renovada, quase feliz, após um banho demorado. Estava livre, podendo agora organizar a sua vida, realizer suas metas. Verificou o saldo da conta na Internet. Percebia que os valores de suas finanças se esvaíam dia a dia. Apesar de receber o salário normalmente, havia gasto em demasia com o advogado e as despesas se acumulavam no cartão de crédito. Desistiu do site. Já tinha problemas demais. Pediu uma comida chinesa e tomou um cálice de vinho. Esta noite não haveria remédios, nem médicos, nem advogados. Desfrutava de uma energia ímpar. Organizava os móveis, arrumava camas, limpava o piso, ajeitava tapetes. Enquanto isso, deixava o cálice de lado e tomava o restante do vinho diretamente na garrafa, em goles contínuos. De vez em quando, passava a mão pela testa suada. Às vezes, sorria. A música que ouvia a envolvia, desanuviando pensamentos.

Depois de tudo pronto, sentou-se na poltrona, observando satisfeita, a transformação. Ficou assim, extasiada. Levantou-se com dificuldade, cambaleando pelos sintomas intensificados pelos medicamentos.

Em seguida, foi ao escritório, atravessando a sala, na direção da janela. Os cotovelos no parapeito, o pescoço alongado para fora.

A noite estava escura e nem mesmo os telhados ficavam visíveis, a não ser a vigilância de um ou outro gato que se arriscava a observá-la, com olhos faiscantes.

Ela observava o apartamento de dona Luiza. Não havia luz. Cida provavelmente o havia abandonado de vez. Devia ser uma solitária também.

Suspirou, melancólica. Ficou naquela posição, olhando o nada, apenas a escuridão constante.

Quando decidiu voltar para o interior do gabinete, abriu a pasta dos documentos. Estava na hora de descobrir o segredo que ocultara há tanto tempo!

Sentou-se à mesa, espalhando os papéis que retirava da pasta. Não sabia bem do que tratavam. Passou a lê-los com criteriosa dedicação.

Releu a escritura do imóvel, pesquisando novamente o endereço. Não havia dúvidas: era o mesmo da casa da praia.

Isto significava que Dona Luiza havia deixado aquele terreno para ela, aquela casa afundada num cômoro de areia, numa praia praticamente abandonada.

Nada disso importava. O que realmente tinha grande significado é que Dona Luiza pensara nela. Ela a amava, quase como uma filha. Afinal, sempre compartilhara as suas lembranças mais íntimas e sempre estivera ao seu lado, quando mais precisara.

Também havia o apartamento, quem lembraria dele? Os tais sobrinhos que nunca apareceram para reclamar? Não, tudo era dela! Todos os bens estavam no seu nome. Por isso, devia fazer-lhe uma homenagem: publicar o seu diário, mostrar às pessoas a sua história, a luta que enfrentara para assumir a sua paixão, o seu amor e vivenciá-lo ileso.

Os demais documentos não passavam de papelada sem importância, a não ser o passaporte de Luiza e de Saymon, que também estavam guardados naquele cofre.

Ela os conservaria como uma relíquia.

Clara guardou os documentos e no notebook ensaiou algumas frases, na tentativa de reescrever a história de amor que enalteceria a memória de Dona Luiza.

Mas como faria isso? Não tinha capacidade literária. Precisava ler e reler diversas vezes o diário, as cartas e analisar os documentos. Quem sabe, um ghost-writer, alguém que escrevesse a biografia narrada por ela.

Sim, faria isso.

Desse modo, mergulharia na leitura, como quem desbrava a profundidade de um oceano.

“Quando o dia amanheceu, nossas vidas haviam mudado, nossasmentes e corações antes perturbados, agora tranquilos: ansiosos apenas na vontade de contar um ao outro dos acontecimentos de nossas vidas. Antes de meu pai acordar, antes mesmo de Saymon conhecer todos os detalhes, havia o fato mais importante de todos: o nascimento de nosso filho. Estávamos os dois, sentados frente a frente. Tomaríamos um café, mas antes de qualquer coisa, eu iniciei o assunto tão esperado. Estava emocionada e feliz”.

― Saymon, apesar de tudo que conversamos, há um fato que você precisa saber. Agora, chegou o momento tão muito esperado por mim. Se não o encontrasse, sonharia a vida inteira com esta revelação.

Ele, a princípio, olhou-a intrigado. Que mais poderia ser revelado, agora que já se encontrara? Que momento esperado e tão importante seria esse?

― Seu discurso me deixou assustado.

― Trata-se de uma pessoa. Uma pessoa que você ainda não conhece.

Saymon percebia uma expressão nova no olhar de Luiza, que lhe custava compreender. Um segredo acalentado para vir à tona, agora, neste momento.

Ela pegou sua mão com carinho, convidando-o a levantar-se.

― Venha.

― Mas de que se trata?

― Por favor, não faça perguntas. Quando o vir, não terá mais dúvidas de nada.

Saymon a seguiu. Caminharam pelo corredor assoalhado e entraram no pequeno quarto. Ele percebeu na penumbra, a presença de cortinas azuis e alguns desenhos na parede. Luiza ligou o interruptor, iluminando amplamente a peça.

― Aproxime-se – Pediu, próxima ao berço onde o menino dormia.

Saymon aproximou-se, indeciso.

Ela prosseguiu:

― Este é Lucas. Lucas Slavicek.

Saymon tingiu os olhos de um brilho intenso. Uma emoção o dominava e mal conseguiu perguntar:

― Mas então?

― É seu filho, Saymon. Lucas é nosso filho.

― Meu Deus, por que você não me disse?

― Porque não queria que ficasse comigo porque estava grávida. E você acabou sendo denunciado e preso. O resto você sabe.

Saymon a abraça, chorando. Uma sensação de saudade do que não havia vivido, compartilhado com ela, impedido pela distância e pela guerra.

― Você deve ter sofrido muito, grávida e sozinha.

― Agora, nada mais importa. Você está aqui, comigo. Olhe para o seu filho, veja se não é lindo. Ele tem os seus olhos!

Ele abaixou-se, aproximando o rosto do menino, beijando-o.

Clara deixa o diário sobre a mesa, um pouco cansada. Fora uma longa jornada, da qual não conseguiria fugir. Estava feliz, mas ao mesmo tempo um pouco atordoada. Era uma paixão verdadeira, um amor eterno, destes que somente se encontram nos folhetins antigos. A história de Luiza e Saymon. Achou então, que devia descansar. Retomar a sua vida no dia seguinte, não agora em que tudo nublava e o mundo fugia lentamente aos seus pés.

As venezianas batiam agitadas, uma rajada de vento invadia o gabinete, levantando papéis em redemoinhos.

Clara tropeçava nos papéis, empurrando-os despreocupada.

Um gato miava lá fora. Ela gesticulava, acenando com indiferença. Que se danassem os gatos no telhado. Que partissem todas as vidraças, que voassem todos os documentos. Sua vida se resumia num único objetivo, resgatar a memória de Dona Luiza e tomar o que era seu, de direito.

Afastou-se para o quarto, atirando-se na cama. A princípio, não conseguiu dormir. O teto girava produzindo a impressão de labirintos para os quais era empurrada. Fechou os olhos e pensou no passado. Na casa afundando na areia. Nas escrituras, nas fotografias, nos documentos. E dormiu.

Clara acordou com a luz das persianas que invadia o quarto. Ainda zonza, ouviu a campainha tocar insistente. De repente, o celular, o interfone, o homem do gás, o carteiro, todos haviam se combinado para acordá-la ao mesmo tempo.

Levantou-se, irritada. A cabeça doendo, os passos incertos.

O celular cessou, atendeu então ao interfone, mas não havia ninguém do outro lado.

Lembrou de Gustavo e suas desconfianças. Em seguida, veio à mente, a figura de Bruno, a sua petulância, o seu jeito dominador, imaginando-a submissa aos seus desmandos. Sua ira aumentou. Não, não atenderia ninguém, não abriria a porta, não se aventuraria em enfrentar qualquer uma dessas figuras.

A campainha insistiu algumas vezes. Não fez um único movimento.

Atirou-se à cama e deixou-se ficar presa aos lençóis. Cobriu a cabeça, escondeu os ouvidos e houve silêncio novamente.

Não havia ninguém no corredor, no prédio, na sua vida.

Então, levantou-se, pé ante pé, vestida com o roupão amarrado na cintura, os cabelos em desalinho, os olhos inchados, guarnecidos por olheiras profundas.

Abriu a porta devagarinho, deixando apenas o anteparo do pega-ladrão.

Avistou no fundo do corredor, próximo ao elevador, um homem alto e magro, vestido com certa elegância.

O homem virou o rosto, com a intuição de ser observado e olhou na direção do apartamento.

Clara imaginou tratar-se de um dos sobrinhos de dona Luiza, por isso, decidiu despachá-lo imediatamente.

― Eu preciso falar com Clara. É você?

Clara o fitava desconfiada, já pronta a descartá-lo de sua presença, mas dissimulada, achou por bem investigar de quem se tratava.

― O que o senhor quer com ela?

― É um assunto urgente, que interessa muito a nós dois. Por favor, se puder contatar com esta moça...

― Bem, se o assunto é urgente, talvez ela possa atendê-lo, mas o senhor precisa se identificar. Sabe como é, nos dias atuais, não se pode abrir a porta a um estranho.

― Você tem razão, eu pretendia.

Ela o interrompe, ácida:

– Por acaso é sobrinho de uma pessoa daqui do prédio?

― Não, não sou sobrinho de ninguém. Escute, ela está dormindo? Eu esperarei, se necessário.

― Qual é o assunto?

― O assunto que temos a tratar não pode acontecer no corredor. Precisaremos esclarecer muitas coisas, com calma, entende? Com o máximo de paciência e compreensão que procurarei ter.

Ela o olhou de soslaio, dando-se tempo para entender onde ele pretendia chegar. Pediu-lhe, em seguida, um documento de identidade.

Ele mostrou a carteira.

― O que? – Clara começou a rir incontida. Os olhos vermelhos, lágrimas urgentes banhavam o rosto, uma tosse que se ajustava ao riso, quase um engasgar – Não pode ser! – Repetia várias vezes – Não!

— Não pode ser! É uma brincadeira, não é?

Ele silenciou, cerrando os lábios. Guardou o documento e não disse nada.

Clara tentou controlar-se. Fungou algumas vezes e controlou a voz.

― Está bem. Vou convidá-lo a entrar. Uma pessoa tão ilustre não pode ficar aí parada, na porta.

O homem entrou e ficou em pé, examinando as paredes, as fotografias, os quadros. Depois sentou-se, acabrunhado. As mãos na cabeça, o olhar perdido, enquanto Clara se afastava .

Em seguida, ele levantou-se, alongando as pernas, esquivando-se entre a janela e o móvel antigo, no qual percebia alguns cristais e outros objetos de adorno. Uma fotografia chamou sua atenção. Dona Luiza ao lado do marido. Analisou-a detidamente, dando a impressão de que vasculhava ambientes, detalhes, recordações. Soltou-a, devagar e dirigiu-se até a janela, observando os prédios que ficavam à frente.

Seus olhos, envolto em suaves rugas de expressão, estavam agora, marejados de lágrimas. Tinha a pele lisa, o que lhe produzia uma aparência mais jovem. Sentou-se novamente, dobrando vez que outra as pernas, inquieto.

Quando Clara surgiu, ele surpreendeu-se com sua beleza. Estava num vestido preto, que lhe alongava a silhueta, com um decote generoso, realçando o colo perfeito.

Ela desfilou pela sala com salto alto, sentando-se a sua frente, provocante.

― Eu o convidaria para tomar um café, mas o senhor me parece com pressa.

― É verdade. Por isso, prefiro falar com Clara. Você a acordou?

Ela sorriu.

– Eu não disse que ela estava dormindo – E logo, fazendo um gesto de autocensura, desculpou-se. – Oh, desculpe, eu realmente fui muito má. Clara sou eu mesma!

Ele a olhou, espantado. Impaciente, perguntou, levantando-se:

― Que brincadeira é esta?

Clara examinou a figura altiva que estava a sua frente. Sorriu,satisfeita. Aquele homem não significava mais do que um pequeno obstáculo em sua trajetória. Tentou acalmá-lo.

― Por favor, sente-se. Eu não quis ofendê-lo. Mas lembre-se que ao chegar aqui, eu já havia adiantado que nós nos precavemos muito neste prédio. Imagine, que já andaram tomando conta dos apartamentos abandonados! Não podemos facilitar a presença dos marginais, entende?

Ele a ouvia, confuso. Começou a falar com visível nervosismo.

― O assunto que tenho a falar-lhe é urgente.

Ela o interrompeu, levantando-se e correndo na direção da janela.

– Espere, espere. Vamos fechar a cortina. A luminosidade da rua está batendo no seu rosto. Não quero que se sinta importunado.

― Por favor.

Cerrou as cortinas e voltou para a posição anterior. Ainda concluiu, pensativa:

― Não sei de onde o senhor tirou aquele documento, mas os seus olhos... O senhor tem olhos claros, acinzentados. A semelhança é gritante. Sabe que me deixou em dúvida, por um instante?

― De que está falando? Você me confunde.

Ela sorriu, amistosa.

― Não vem ao caso. O senhor dizia...?

― Até o momento, eu não disse nada.

― É verdade, eu o interrompi. Primeiramente, porque estava toda desgrenhada, mal tinha me levantado. Imagine que tive uma noite péssima! Arrumei todo este apartamento que estava abandonado. As teias de aranha já tomando conta! – E falando em segredo. – Elas são terríveis, sabe? Um dia que nos afastamos e elas invadem nossa casa!

Ele avermelha o pescoço, como se as veias entupissem, impedindo a circulação. As mãos grandes se torcem uma na outra, os lábios estremecem. Ergueu a voz, meio rouca, com raiva.

― Escute, vai me deixar falar ou não?

Clara encolheu-se num canto do sofá. Em seguida, porém, voltou à posição de segurança, como se já soubesse de antemão o que ele queria ali. Não passava de um usurpador como todos os outros, como Cida, como Bruno, como Gustavo. Mais um maluco que vinha intrometer-se em sua vida.

― Eu quero saber por que não me avisou da morte de minha mãe!

Ocorreu um silêncio pesado. De súbito, Clara empalideceu. Os olhos arregalaram-se, assustados.

― Não vai me responder? Agora eu quero que você fale! Eu preciso que você fale!

Ela resmungou alguma coisa, como uma criança pega em flagrante.

― O que disse?

― Que mãe? De quem está falando?

― Não se faça de desentendida. Eu quero a verdade. Eu não vim da República Tcheca para ouvir mentiras! Quero saber o que houve com minha mãe, pois apenas tomei conhecimento de sua morte três dias atrás, e assim mesmo porque você está envolvida com a justiça e uma coisa trouxe a outra. Você agora vai me contar o que aconteceu!

Clara se levanta, acuada. Caminha pela sala, sem rumo, enquanto afirma que não sabe do que ele está falando, nem quem é ele na realidade. O homem, porém, insiste, desafiador:

― Eu lhe mostrei a identidade. Não deu para entender? Quer ver o passaporte também, o CPF, o título de eleitor? Não bastou ver o meu nome?

― Você não pode ser Lucas!

― Mas sou. Sou Lucas Slavicek, filho de Luiza Slavicek e quero a verdade. Quero saber o que fez com minha mãe.

Clara tentou afastar-se, mas ele a segurou pelo braço, com firmeza.

― Escute aqui, eu não vou sair daqui enquanto não souber toda a verdade, ou vou chamar a polícia, agora mesmo, é isto que você quer?

― Você está me machucando, me largue!

Ela se desvencilhou e correu desesperada, batendo a porta atrás de si e fechando-a à chave. Ele gritou que chamaria a polícia se ela não abrisse, mas Clara já não o ouvia.

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