Garrafas ao mar

Uma garrafa pode conter muitas coisas, além do líquido, do rótulo, da tampa, pode conter por exemplo, um segredo.

Quem não tem vontade de mandar para outro continente, quem sabe, um bilhete contendo algo estranho, como um bilhete.

E se a garrafa atirada ao mar, trouxesse boas vindas de um tempo muito antigo, tantos anos atrás, que já nem reconhecêssemos o objetivo, o texto carcomido, com um letreiro cheios de esses e efes, quando se pediria apenas vogais. Palavras esquisitas, desejos tão inocentes que não mais teriam significado nos dias de hoje.

Porém é uma garrafa que vem com um bilhete dentro e nos traz alvissareiras mensagens. É o que pensamos. É o que desejamos.

Mas e se essas mensagens não passem de apenas um desejo individual?

Como por exemplo, que o mundo saiba que em 1920 alguém comprou o seu primeiro automóvel e percorreu 35 km, a maior distância já percorrida por um carro numa estrada de carruagens?

Talvez não significasse nada. Talvez apenas um regalo para quem mandou e uma notícia blasé para quem recebeu.

Nos dias de hoje, somos levados a experienciar apenas o que nos permite ter importância, e que participemos dessa magnitude.

Não temos o romantismo e a ilusão de outrora.

Talvez não mandássemos garrafas ao mar e se o fizéssemos seria talvez como um artefato bélico que explodiria e lançaria milhares de chamas para alegrar nossas mentes deterioradas.

É, não se tem mais a ilusão dos bilhetes, nem se espera qualquer segredo, pois eles não existem mais nas redes sociais.

E se existem, servem apenas para delatar quem participa dessas mesmas redes e achincalhar o seu perfil.

Garrafas ao mar, jamais. Sonhos jamais. Apenas o cobre desairoso de nossos petardos.

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