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A CASA OBLÍQUA - CAPÍTULO XXX

Clara levantou-se, cambaleando. Uma estranha vertigem. Equilibrou-se como pôde, o olhar taciturno fitando a rua alagada. Chovia forte. Um frio intenso a dominava. Estava ainda vestida da noite anterior. Nem sabia ao certo que dia era hoje, mas era uma manhã, pensou. As manhãs sempre são mais suaves, recuperadas das impurezas do dia que já passou. Apertou com as mãos, a gola do casaco. Rosto próximo à janela, bafejo embaçando a vidraça.

O amor vai embora, nem espera. – Resmungava. – Vem me consolar, pegar meus braços, sacudir minha vida.

Pensava em Saymon. Na partida cadenciada do trem, afastando-se tão lentamente, para não mais voltar. Se pudesse resgatar o passado, voltar atrás, palmilhar aqueles mesmos caminhos. Atravessar o cais e levá-lo consigo.

Por um momento, viu policiais lá fora, como na noite anterior em que a espreitavam, quando chegou à janela.

Seriam os representantes da gestapo? Queriam aprisioná-la nos campos de concentração, como uma rebelde da resistência, como Saymon?

Quando os policiais chegaram, ela os atendeu sem pressa. Quem sabe a levariam até ele?

Apresentou-se, elegante, sem opor-se a acompanhá-los. Ao contrário, seguia-os complacente, quase agradecida. Cabeça erguida, um sorriso nos lábios. A capa encobria-lhe a cabeça, quando entrou no carro, correndo para abrigar-se da chuva.

A síndica espiava, na curva dos degraus da escada.

O Chefe da Delegacia de Migração da Polícia Federal aguardou que Clara se pronunciasse sobre as acusações. Paciente, pediu que sentasse, perguntando apenas o que ela pensava da acusação que estava sofrendo.

Clara olhou em torno, detendo-se nos policiais que a conduziram até ali. Achava-os um tanto esquisitos, muito focados em si mesmos, burocráticos, sem nenhum gesto gentil.

Em seguida, encarou o delegado, com estranha segurança e prestou o depoimento. Organizava os pensamentos com uma destreza que se traduziam em palavras, como se estivesse vivenciando todos os acontecimentos. Fazia pequenas pausas, olhando ousada, como se precisassem saber a verdade dos fatos.

O delegado limpava os óculos, tentando entender o que se passava. Examinava a mulher por debaixo dos olhos, intrigado. Vez que outra, voltava-se para seus comandados. Eles não se moviam.

Em dado momento, ele interrompeu-a, bruscamente. Ficou exasperado, o sangue subiu-lhe à cabeça, salientando as veias das têmporas.

— Mas que diabos está falando? Nós não estamos aqui para brincadeiras.

Ela permaneceu impassível. Respondeu com segurança:

— Eu também não estou brincando, oficial. – E perguntou, displicente – Posso chamá-lo assim?

O delegado não respondeu. O olho esquerdo tremia, compulsivo. Ela prosseguiu, enfática:

— Falo de Saymon e como o salvei do comando nazista e não me arrependo. Se quiserem me torturar, que me torturem, me fuzilem até. Não importa se são da polícia secreta, só peço que me levem até ele. Eu preciso dele, entendem? — Falando num tom mais baixo, em segredo – Mesmo que seja para morrer ao seu lado. Eu vou buscá-lo, onde estiver.

O delegado gritou, enfurecido, levantando-se e ficando de costas para Clara, olhando para fora.

— Tirem esta mulher daqui. É uma louca varrida!

Ela correu até ele, abrindo a bolsa e retirando as fotos, cartas e documentos, quase empurrando-os no nariz do homem, que se voltou, sem saber que atitude tomar.

— Espere, eu posso provar, o senhor tem que me ouvir. Está vendo estas cartas, estes documentos? Tudo pertence a Saymon. Saymon Slavicek. Ele é da Tchecoslováquia, pode ver aqui.

Ele riu, irônico.

— Tchecoslováquia não existe mais, minha senhora. Pra seu governo, agora é República Tcheca e a tal da Eslováquia. Não sabia que o País já dissolveu a federação desde a década de 90?

Clara calou-se, perturbada. Depois, acrescentou:

— Sim, mas não no meu tempo.

Aquela observação a deixou extremamente abalada. Sentiu um suor escorrer-lhe pela testa, tão forte que parecia contaminar-lhe todo o corpo. Sentou-se desanimada. Olhou para aqueles homens se perguntando o que estava acontecendo. Fechou os olhos, abandonando-se assim, ao nada. Seu coração pulsava fraco. A voz não articulava e uma sensação de vazio aprofundava-se, mergulhando-a numa total escuridão.

Quando Clara acordou, Bruno estava ao seu lado. Olhava-a com estranheza. De certa forma, ele tinha uma sensação agradável, afinal, Clara ainda conservava o seu número no celular, tanto que o chamaram, quando a levaram para o hospital. Mas por outro lado, incomodava-o vê-la naquele estado deplorável. Clara se distanciava da mulher voluntariosa que conhecera. Era uma outra pessoa, completamente diferente: apática, alucinada, parecendo viver uma outra história que não a dela.

Ela virou a cabeça para a parede, evitando encarar a luminosidade do quarto. Sentia forte dor de cabeça.

Bruno Ele perguntou como ela se sentia.

Clara não respondeu. Também, se o fizesse, certamente não seria a ele quem se dirigia, pois parecia não conhecê-lo. Ele insistiu:

— Clara, sou eu, Bruno.

Ela voltou-se devagar, puxando o lençol até o pescoço. Fitou-o demoradamente. Olhos inchados, pálpebras pendendo como bolsas escuras, lábios ressequidos.

— Eles não acreditam em mim.

— Não é pra menos... – Interrompeu o ímpeto, porque não a ajudaria em nada. Não pôde evitar indagar-lhe, mas procurou ser paciente e restringir os xingamentos.

—  Em que eles não acreditam, Clara?

— Você sabe.

— Não, não sei. Por favor, me diga.

Clara silenciou. Olhar perdido, ao longe. Tinha uma desagradável sensação de ressaca.

Ele voltou à ofensiva, questionando as últimas atitudes que a levaram até aquele estado:

— Você contou uma história absurda, que não tem nada a ver com o que se passou, você sabe. Esta tal de Luisa, aquele caso do nazismo. – Não conteve o riso. – Convenhamos, Clara, foi hilário!

Ela permaneceu calada. A impressão que Bruno tinha, é que Clara nem percebia a sua presença. Então decidiu usar uma estratégia:

— Você é Clara?

Clara sorriu e voltou para a parede, desinteressada.

Bruno levantou-se, impaciente. Passou a mão pela cabeça, caminhou pelo quarto e voltou até a cama.

— O que aconteceu, pode me contar? Às vezes, você parece que assume o espírito da outra!

Ela respondeu, sem afastar-se da parede, examinando o reboco branco, que salpicava aos olhos.

— Não se preocupe, Bruno. Eu sou Clara.

Bruno suspirou, aliviado.

— Graças a Deus, você estava me deixando louco! Oh, foi mal, desculpe, nada a ver com você. Mas e a tal da Luisa?

Clara ocultou uma lágrima. Resmungou alguma coisa sem muito nexo. Bruno quis saber do que se tratava.

— Nael foi preso.

— Aquele vagabundo? Ainda bem que se livrou daquele traste, onde já se viu, você uma mulher solteira, uma mulher que sempre se disse independente, dando uma de babá pra marmanjo! Além disso, não fica nada bem, você morar com um cara estranho em casa. Aquele prédio deve balançar, falando de você!

Clara fechou os olhos, fingindo dormir.

Bruno sentou-se na cadeira, ao pé da cama. Ficou algum tempo pensativo. Levantou-se para verificar se ela estava dormindo realmente. Dobrou o corpo devagar, tentando pegar a bolsa que estava sobre uma mesinha, ao lado.

Clara gritou:

— Não mexa na minha bolsa!

— Você estava me sacaneando, então, hem? Só queria saber se você tinha os tais documentos que falou na delegacia.

— Esqueça o que eu disse. Foram bobagens, que nem me lembro. Agora, por favor, vá embora.

— Você é uma ingrata, se não tô na sua cola, você se rala com aqueles tiras. E olhe, que a sua barra está mais suja do que pau de galinheiro. Isso, que eu avisei!

— Como você é vulgar, Bruno. Nada elegante.

— O clandestino devia ser muito educado.

— Esqueça isso. Na verdade, você tem razão. Eu lhe agradeço muito, Bruno. De coração. Mas eu não estou bem. Preciso ficar sozinha. Você sabe.

— Está bem, mas e depois. Quem vai ficar com você?

— Eu me viro.

— Se vira, não. Vão lhe dar um monte de injeção, deixá-la pra lá de Bagdá, e eu é que vou me sentir culpado.

— Você?

Aproximando-se, falando-lhe com voz mais afetuosa:

— Você não acredita em mim, mas eu mudei. Eu já lhe disse, que preciso de você.

Clara limita-se a olhá-lo, debilitada. Bruno, então, entrega-lhe o celular, que havia guardado.

— Fique com o seu celular. Se precisar, me chame. Sabe que pode contar comigo.

— Obrigada, Bruno. Só vou lhe pedir um ultimo favor.

— Pode falar. – Respondeu satisfeito.

— Traga-me aquele diário que está ao lado da minha bolsa.

— Ali só tem um caderno tacanho, do século passado.

— É este mesmo.

— Ok, se você quer assim.

Traz o caderno de capa preta, entrega-o e beija-lhe o rosto. Afasta-se, ratificando que pode chamá-lo, quando quiser. Ao fechar da porta, Clara folheia o diário.

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