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A CASA OBLÍQUA - CAPÍTULO XXVII

Como hoje é terça, mais um capítulo de nosso folhetim rasgado "A casa oblíqua".

Clara desceu do carro e dirigiu-se ao prédio. Entrou no elevador, evitando encontrar-se com algum vizinho, apesar do adiantado da hora. Estava suada e suja.

Quando entrou no apartamento, correu para o quarto, guardando em seguida a chave, numa gaveta da cômoda, bem como os demais objetos, assim como estavam, empoeirados, jogando-os de qualquer maneira e fechando a gaveta, temendo ser observada. Correu para o banho, reservou-se um bom tempo, relembrando todo o cenário por onde andava. Vestiu um robe branco, atirando-se na cama.

Ficou olhando para o teto, vendo nele as imagens da casa da praia. Estava ansiosa, embora satisfeita pelos resultados produzidos. Tinha consigo que nada mais a deteria. Jamais tomariam o apartamento sem que a justiça fosse feita. Estava de posse da chave, dos documentos, dos objetos que trazia de volta um passado glorioso. Esta seria a sua vida, a partir de hoje.

Clara alongou o corpo, preguiçosa e em seguida, levantou-se e saiu do quarto, despreocupada, pensando em comer alguma coisa. Passou pelo quarto de Nael, espiou pela porta entreaberta, surpreendeu-se por não encontrá-lo. Encaminhou-se ao escritório; tudo às escuras. Ligou o interruptor, olhou pela janela. Observou as luzes amarelas que toldavam os telhados vazios. Tudo parecia melancólico, subitamente deserto. Do outro lado, a janela do apartamento de Dona Luisa estava às escuras. Sorriu. A nuvem levemente se dissipou. Ainda bem que não havia ninguém tomando conta do que era seu. Afastou-se da janela, indo para a cozinha. Lá também não havia ninguém. Onde estaria Nael? Ele não podia sair assim, arriscando-se ser pego em flagrante.

Lá fora, a calmaria tépida passava. Um vento assobiava, surrupiando os papéis da rua, latas batendo, antenas zunindo. Clara tomava o leite, quando o celular tocou. Não queria atender ninguém. Queria ficar sozinha, com seus pensamentos, seus sonhos, sua história. A história que agora fazia sentido. Precisava examinar todos os documentos, revisar os objetos que trouxera e descansar, para no dia seguinte dirigir-se ao cofre no banco indicado na chave. Agora, o interfone insistia. Inferno! Não lhe davam tempo para descansar. O queriam dela, afinal? Seria Gustavo? Ou Cida que retornava para atazaná-la? Ou Bruno? Não, Bruno, seria o fim. Mas talvez fosse Nael. Mesmo assim, não atenderia. Esperaria o tempo passar, observando o nada. Esperando. Esperando que voltasse, como fizera Luisa. Esperando um desfecho, nem que os separasse para sempre. Sentiu uma certa náusea. Havia alguma coisa de torpe no ar.

Aquele vento assobiando voluntarioso, invadindo pelas frestas das janelas mal fechadas, envolvendo-se pelos corredores, um frio que se acentuava. Um frio desagradável, prenúncio de tempestade, de tragédia. Estava aflita.

De repente, não era mais o som do interfone, mas o da campainha da porta. Estremeceu. Engoliu sôfrega, o restante do leite. Limpou a boca com o guardanapo e levantou-se em alerta. Não sabia o que fazer, que atitude tomar.

O som estridente da campainha insistia. Ela afastou-se da cozinha, observando o hall de entrada. Talvez fosse Nael. Era Nael sim. Ele não ficaria por aí, perdido na rua, feito uma criança desprevenida. Não. Iria ao seu encontro. Abriria a porta. Seria mais uma vez, solidária.

O braço musculoso de Bruno empurrou a porta, impedindo-a de fechar. Clara fixava os olhos naquelas mãos enormes, que mais se agrandavam aos seus olhos, alucinada. Ele entrou e ficou encarando-a, como se não a conhecesse.

— Clara, que aconteceu com você? Você está horrível!

Ela sentia os músculos da face latejar. Afastou-se, aproximando-se da porta que dava para o corredor. Não respondeu. Limitou-se a olhá-lo com ódio, encostada na parede. Bruno aproximou-se.

— Fique ai, não se aproxime. Já que entrou, diga o que quer e vá embora!

Ele parou e falou em tom suave.

— Desculpe, Clara. Eu não quero ofendê-la. É que estou impressionado. Você sempre foi uma mulher tão elegante, agora está aí, vestida neste chambre, com os cabelos desgrenhados. Estou preocupado com você.

Ela gritou desafinando a voz:

— Pois não se preocupe. Eu estou muito bem.

Ele deu um passo, ela o impediu. Ele obedeceu, levantando os braços, espalmando as mãos, concordando que não se aproximaria.

— Eu quero ajudá-la, Clara. Soube o que aconteceu. Soube o que você fez – Ela o fitou, olhar insano, volteando a cabeça. Ele prosseguiu, criterioso. – Eu não estou julgando você, muito pelo contrário. Acho que a sua intenção foi a das melhores. Mas o resultado é que foi lamentável.

Clara ficou inerte. De que ele falava, a que se referia? O que mais aquele homem queria dela, depois de a ter humilhado, de a ter largado como um traste, transformando-a numa coisa qualquer?

— Clara, você quer conversar comigo? Por favor.

Sentou-se, afundando na poltrona. As pernas soltas batiam os joelhos na mesa de vidro. Abriu o paletó deixando-se antever a camisa azul, mesclada à gravata vermelha, estirada para o lado. Olhava-a de um modo estranho, apertando mais os olhos, como se a examinasse, procurando um defeito inevitável.

Clara agora estava assustada. Também sentou-se a sua frente, cruzando os braços, indecisa. Suspirou, triste e esperou que falasse.

— Sei que você ainda está muito insatisfeita comigo, e tem toda a razão, mas não estou aqui para falar disso. Como disse, estou muito preocupado com você, com todas estas coisas que estão acontecendo. Este homem que você acobertou na sua casa.

Clara estremeceu. Então ele sabia de tudo. Queria humilhá-la mais ainda, dando-lhe conselhos, considerando-a uma idiota.

— Fico me perguntando como foi capaz, você uma profissional, uma mulher inteligente, independente. Como foi cair nessa?

Clara se levantou. De súbito, uma sensação de pânico a invadia, não conseguindo falar. Um pesadelo que a atormentava, que a impedia de lutar, de refutar o que ele dizia, de defender-se. Concluía que Nael estava preso. Bruno a teria delatado, tal como fizera Moema. Ao falar, sua voz soou sumida e confusa.

— Foi você, então. Você me traiu mais uma vez, você o delatou.

— Não, não fui eu. Pelo contrário, estou procurando-a há três dias. Você sumiu, desapareceu do mapa.

— Mas eu estava aqui.

— Clara, você precisa arranjar um advogado. Você precisa defender-se, quem sabe dizer que foi atacada por aquele clandestino. Você precisa de ajuda!

— Não foi nada disso. Eu o salvei. Ele é um foragido da guerra.

— Não interessa, Clara. Ele tem que ser deportado. Agora, ele está preso nas dependências da Delegacia de Migração da Polícia Federal. Mas ele não importa, importa você, que pode ser detida com a pena de um a três anos por ocultar este infrator na sua casa!

Clara permaneu calada, vendo nele uma ameaça em constante desafio. Bruno prosseguia, exaltado:

— Escute Clara, eu posso ajudar você. Posso arranjar uma testemunha, declarar que você foi coagida, sequestrada por aquele vagabundo.

Depois do silêncio, questionou a única coisa que palpitava em sua mente, quase transtornado-a:

— Quem me traiu?

— Isso faz alguma diferença?

— Toda diferença, você não está entendendo? Eu quero saber quem me delatou.

— Ah, sei lá, ta dando na TV a toda a hora, dizendo que um dos operários do porto, não sei se aqueles que trabalham no suporte de carregamento, parece que é um destes. Acho que desconfiou de você.

— Mas qual é o nome? Você se lembra?

— Parece que é um tal de Gustavo.

— Só podia ser aquele miserável. Ele não é um estivador. É um guarda portuário.

— Pois é, mas deu o seu nome na TV. Está todo mundo sabendo. Eles vão procurá-la. Já devem estar procurando-a.

Clara mostrou-se repentinamente calma. Puxou os cabelos com os dedos para trás, acertou delicadamente os óculos, que lhe caíam no nariz, levantou-se e passeou pela sala. Voltou-se para Bruno, e agradeceu, com a voz mais suave que conseguiu articular.

— Obrigada, Bruno, sinceramente.

Ele sorriu, arqueando as sobrancelhas espessas, satisfeito. Ela prosseguiu:

— Mas não se preocupe, eu vou dar um jeito.

— Que jeito?

— Vou resolver a situação.

— Como?

— Por favor! – Levantando a voz, alternado-a em tons mais graves e enérgicos. – Eu já disse. Está tudo sob controle. Volte para os seus amigos, as suas mulheres, o seu trabalho. Seja feliz.

— Clara, você sabe que eu amo você.

— Mas eu não o amo mais Bruno. O meu amor agora é só um, o homem que me fez feliz. – E sorrindo, concluiu. – Amo Saymon Slavícek, como jamais amei alguém em toda a minha vida.

Bruno levantou-se da poltrona, intrigado. De quem ela estava falando? Havia um outro clandestino refugiado naquela casa? Pretendia indagar-lhe, mas ela o empurrou, delicada, com as duas mãos em seu peito.

— Vamos, volte para a sua casa, a sua vida. A minha história é outra. Por favor.

— Está bem, Clara. Eu jamais vou obrigá-la a alguma coisa que você não queira, mas saiba que farei tudo para ajudá-la. Não pense que vou abandoná-la.

Ele deu alguns passos, deteve-se. Pensou em dizer-lhe alguma coisa, mas desistiu. Ouviu mais uma vez ela agradecer e calou-se, intrigado. Por fim, afastou-se.

Clara ficou só, repetindo algumas vezes o nome que dissera a Bruno: Saymon Slavícek, Saymon Slavícek, Saymon Slavícek.

Em seguida, no quarto e abriu a gaveta da cômoda e encontrou o documento amarfanhado e perfurado por traças. Percebeu que era uma certidão. Pensou em Moema e Lucas e viu-os atravessando a porta do quarto. Sentaram-se na cama, ao seu lado.

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