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A CASA OBLÍQUA - CAPÍTULO XXV

No capítulo anterior de nosso folhetim, Clara continua investigando o passado ou tentando encontrar algum fato que justifique a sua vida, descobrindo a casa de praia, que teria sido da mulher que tanto admirava. No capítulo a seguir, retomamos o passado para mostrar a odisseia de Luisa, no período da guerra.

Capítulo XXV

Um destino do qual não se escapa, nem se pode evitar. Luisa estava absorta em seus pensamentos melancólicos. Não se habituava com a tristeza da mãe, com o desatino do pai à procura de notícias consistentes, com a própria aflição, horas a fio à espera de informações através de algum radioamador. Comunicava-se com países aliados, mas não conseguia nada de concreto. O que sabiam apenas era a notícia mãe recebera: o estranho desaparecimento do irmão. Não sabiam se Lucas havia desertado, fugido para outra região ou morrido em algum campo inimigo. E já fazia mais de dez dias que tal fato fora comunicado. Se não fosse a companhia constante e amiga de Saymon, ela não teria consolo. Talvez chegasse ao desespero, como a mãe.

Luisa estava assim, naquela noite por muito tempo se comunicando com outros radioamadores, mas não conseguira descobrir nada.

Saymon tentava confortá-la.

Disse-lhe que aproveitava para estudar um pouco sobre o Brasil, principalmente sobre a região em que viviam. Soubera que havia uma ilha não muito distante dali, completamente isolada de tudo. Gostaria muito de construir uma casa e morarem juntos, logo que a sua situação se resolvesse.

Luisa corou de satisfação e perguntou:

— E como você acha que vamos viver nesta ilha?

— Vou tirar muitos retratos seus. E vamos vendê-los na cidade!

— Você acha que vou deixar que a minha imagem seja distribuída para qualquer um?

Abraçando-a, afetuoso:

— Não, meu amor, guardarei todos. Nunca me separarei deles.

— Mas então, de que vamos viver?

— Quando a guerra acabar, voltarei ao meu País, pegarei o que sobrou de nossa família. Voltarei e com o dinheiro, montarei um estúdio de fotografias. Então, construiremos a nossa casa na praia.

Uma sombra passou rápida pelos olhos de Luisa.

— E se você não voltar?

— Luisa, eu só tenho você. Minha família foi dizimada, há dois anos em Lídice. Os nazistas destruíram tudo, varreram a cidade. Quando voltei de Praga, não havia pedra sobre pedra, tudo destruído, igrejas, prédios do governo, escolas, a maioria das casas.

Saymon demonstrava grande sofrimento quando se referia a sua gente. Luisa, então o abraçava.

Com o decorrer do tempo, a atmosfera na casa ficava cada vez mais taciturna.

O pai de Luisa andava às voltas com a busca de notícias, apelando para as autoridades, para líderes da comunidade, pessoas influentes, mas não obtinha nenhuma informação nova. Apenas promessas daqui, apoios dali, mas nada produtivo.

Moema passara a isolar-se, ficando ensimesmada no quarto, dedicando-se à costura, analisando os tecidos com tanta meticulosidade, que parecia enxergar o entrelaçamento dos fios.

Ela ficava muito tempo na mesma posição, observando os desenhos geométricos, vendo neles um mundo singular, investigando cada reentrância, cada ângulo ou cor.

Luisa tentava aproximar-se, animá-la, mas para ela a filha não passava de uma estranha, tanto quanto aquele homem que estava sempre por perto.

Entretanto, numa manhã dessas de sol e temperatura amena de outono, Moema mostrava-se estranhamente lúcida. Até tomou café com o marido e a filha, antes de saírem.

Saymon levantara cedo para consertar um encanamento que emperrara, principalmente porque naqueles dias difíceis, a água encanada era artigo raro na região.

Luisa estava feliz com a presença da mãe. Chamou Saymon para tomarem café juntos, os quatro.

Ele se aproximou, receoso que Moema o impedisse, mas ela foi a primeira a pedir que sentasse com eles.

Lucas estava surpreso com a reação da mulher . Perguntou pelas costuras.

— Deixei-as lá, no quarto, por um tempo. Sabe Lucas, estive pensando. Hoje, vou sair, fazer umas compras.

Luisa exclamou, alegre:

— Que bom mamãe, está voltando à vida!

Moema sorriu levemente. Voltou-se para Saymon e comentou:

— Parece que as coisas não andam nada bem na sua terra.

Ele a olhou, ao mesmo tempo surpreso e gratificado.

Lucas e Luisa tomavam o café, em silêncio.

Moema investiu, novamente:

— Seu país foi invadido, não foi?

— Mamãe! – Luisa exclamou, com censura.

Moema mostrou estranheza, pois estava apenas comentando.

— É uma situação deprimente para ele.

Saymon argumentou:

— Deixe, Luisa, por favor. Sua mãe tem razão. Ela precisa saber. É verdade sim, Dona Moema. Meu país foi invadido pelos nazistas. Querem dominar a Tchecoslováquia. E em virtude da resistência, eles destruíram minha cidade, mataram meus pais, minha família.

Ela ficou um pouco pensativa. Depois disparou:

— Então, você sabe o que é o sofrimento de perder um ente querido.

— Sim, é verdade.

— Mas não sabe o que é perder um filho.

— Por favor, Moema, não vamos mais falar nisso. Nós não perdemos nosso filho. Eu tenho esperanças... – Lucas calou-se com a voz embargada e apenas concluiu – eu ainda tenho esperanças.

Fez-se um silêncio pesado. Em seguida, Lucas acabou o café e convidou a filha. Ele a esperaria, para saírem juntos.

Moema ficou sozinha, na mesa, quando Saymon pediu licença para voltar ao serviço.

Antes de sair, Luisa perguntou:

— Vai sair mesmo, mamãe?

Moema sorriu, um brilho intenso nos olhos.

— Vou sim, filha. Agora, vá para a escola.

Luisa a beijou e aproximou-se de Saymon. Olharam-se por um momento e ele acariciou-lhe os cabelos, delicadamente.

Lucas chamava pela filha, já aquecendo o motor do carro.

Logo que partiram, Moema voltou para o quarto. Arrumou-se, penteou os cabelos, jogando-os para trás, prendendo-os num coque pequeno. Calçou os sapatos, pegou uma bolsa e afastou-se de casa.

Saymon percebeu, quando ela bateu o portão de ferro, sem fechá-lo.

Na rua, Moema apressou o passo, sem olhar para atrás.

A manhã passou e ao meio-dia, Luisa voltou da escola. Procurou pela mãe e por Saymon, mas não encontrou nenhum dos dois. Desceu até o porão e chamou por ele sem obter resposta.

Quando voltava-se para tomar os degraus que levavam até a cozinha, ouviu a voz de Moema, chamando-a.

— A senhora estava aqui no porão? Como não a vi?

Moema se ocupava de uma estante, com os brinquedos antigos. Munida de trapo de algodão, água e sabão, lavava-os cuidadosamente. Estava sentada ao lado da estante, absorvida na tarefa, mas observando atentamente a filha. Respondeu, com uma aparência tranquila:

— Porque eu estava organizando umas coisas, arrumando este porão como sempre o fiz.

Luisa reparou que não mais havia a cama de Saymon.

Moema franziu o cenho, irritada.

— Eu me livrei dela. Aqui não é quarto, mesmo.

— Como assim? Onde ele vai dormir?

— Ele não vai mais precisar da cama, nem deste porão, nem desta casa.

— Mamãe, por que diz isso?

— Simplesmente, porque o tal Saymon Slavícek não está mais aqui.

— E onde está ele?

Ela riu, irônica.

— E onde você acha que ele deveria estar? Na prisão, que é o lugar de foragidos!

Luisa encostou-se na pequena escada, a perna falseou, coração abalado. De repente, tudo escureceu, e ela percebeu que ia desmaiar.

— Não estou bem, mamãe, me ajude. Não é verdade. Diga que não é verdade.

Os lábios emudeceram, arroxeados. Moema correu ao seu encontro.

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