A CASA OBLÍQUA - CAPÍTULO XXVI

O nosso folhetim prossegue hoje com a entrada de Clara na casa enterrada na areia, que supõe ser de Dona Luisa. Investigando os entulhos que encontra, faz várias descobertas interessantes. Por outro lado, no passado, Luisa enfrenta a mãe após saber que havia delatado Saymon. Divertam-se com o capítulo XXVI.

Clara calçou os sapatos, temendo ferir os pés nos cacos das vidraças. Com esforço, abriu uma segunda janela, ajustando o corpo contra a parede, empurrando o ferrolho emperrado. Sentiu-se vitoriosa. Com a luz da rua, pode ver o assoalho, com tábuas quebradas ou frouxas. Alguns móveis esparsos pela sala em ruínas, uma poltrona com pés de palito, da qual não se percebia as cores, tão gasta e envelhecida se encontrava. Uma mesa de um metal semelhante a bronze. Nada mais havia.

Então, Clara enveredou por outras peças, que se tornavam cada vez mais escuras, à medida que se afastava da sala. Entrou no que seria um quarto. Olhou em torno. Viu que não havia móveis, mas uma janela ao canto. Se a abrisse, talvez encontrasse alguma coisa. Aproximou-se devagar, meticulosa. Examinou os trincos, forçou-os e os postigos se abriram quase que instantaneamente. Passou a mão pelas frestas das venezianas, sentindo uma certa friagem que vinha de fora. Provavelmente, uma lufada de ar invadiria a casa, aliviando o calor. Esgueirou-se, procurando abri-las, foi o que fez, mas um turbilhão de areia invadiu a peça, quase derrubando-a. Foi caindo em jatos, vindo de um cômoro imenso que deveria ter se formado com o vento para o redor da casa.

Clara ficou em pânico, temendo ser soterrada, tal como as casas naquela praia distante. Nunca mais a encontrariam, a não ser seu esqueleto enterrado, como um animal perdido num lugar estranho. Conseguiu, aos poucos levantar-se, na cachoeira de areia que não acabava nunca. Tentou afastar os pensamentos soturnos, aproveitar a luminosidade da manhã que se adiantava, quase meio-dia. Instantaneamente, sorriu, ao voltar-se e avistar, na parede oposta à janela, uma estante que parecia fixa e alguns objetos que não conseguia perceber do que se tratava. Atravessou o quarto, enterrando os pés na areia, que a estas alturas já cessara de jorrar, apenas um pequeno jato persistente, iluminado pelo sol. De perto, percebeu que eram alguns livros e pequenas caixas de madeira, os quais não distinguia do que se tratavam, em virtude da crosta de poeira que os cobria. Ela abriu os livros, examinou-os, entre alguns espirros. Poeira e teias de aranha. Eram de filosofia, história, poesia. Abriu ávida, as caixas cujas tampas não possuíam nenhum fecho. Alguns papéis que pareciam documentos, cartas de baralho, cartões de visita. Tudo retirava e guardava afoita, na bolsa. Abriu outra e mais outra e outra, não encontrando nada que a interessasse realmente, mesmo assim, retirava os objetos e os guardava, para verificar com calma, longe dali. Havia canetas, leques, canivetes, badulaques de todos os tipos. Ergueu-se para alcançar a caixa maior, que ficava um pouco acima, na última prateleira. Era uma caixa vermelha, com fecho enferrujado. Tentou abri-lo, mas em vão. Sentou-se, cansada, ali mesmo, na areia, acomodando-se para atingir o seu objetivo. Forçou a tampa, tentando abrir a caixa, levantando a madeira, mas ao agir assim, o metal soltou-se, esfarelando-se, deixando vir a tampa junto.

Clara exultou. Havia um tecido ali dentro, bem acondicionado, uma espécie de lenço macio. Ela retirou-o do caixa, e jogou-o no pescoço, como se fosse uma echarpe e sorria, feliz, investigando o que mais havia ali dentro. Um maço de notas de moeda antiga e uma outra caixinha de papelão. Abriu-a voraz. Olhar insano, brilhando tão forte quanto a luz que iluminava a parede. Uma chave! Ali estava ela, a chave do cofre, estava certa, não havia dúvidas, não tinha como enganar-se.

Clara olhou detidamente a chave, inspecionou cuidadosa as reentrâncias e a inscrição. Havia alguma coisa, um símbolo, uma etiqueta. O nome da instituição bancária, pensou. Guardou-a também na bolsa, antes deixando-a dentro da pequena caixa de papelão, tampando e lacrando-a com um atilho, que impedia a tampa de soltar-se.

Por fim, Clara afastou-se em direção às demais divisões da casa, como se as conhecesse de cor, desviando-se das paredes empoeiradas, atravessando entulhos, descuidada, como se desfilasse em tapetes preciosos. Ficou por ali investigando tudo, imaginando o quanto Dona Luisa tinha sido feliz naquela casa.

Vez que outra, espiava o mar pelas frestas, via-o voluntarioso, com as ondas rebentando na praia. Ouvia o barulho ecoando no silêncio da manhã e ficou feliz. Não sairia dali tão cedo e, de todo modo, teria de esperar a próxima balsa, que só regressaria ao anoitecer.

Em seguida, Clara decidiu sair da casa e passear pelos arredores. Palmilhar aqueles caminhos que Dona Luisa tanto deve ter caminhado ao lado de Saymon, por isso aproximou-se aos poucos da praia, sentindo as ondas lambendo-lhe os pés.

Com os sapatos nas mãos, ela corria pela praia solitária. Sabia que ali também era o seu destino, o seu rumo, a sua vida. Então, deitou na areia molhada, fechou os olhos e pensou em Dona Luisa. Como enfrentara a dor da distância, da prisão do amado, por causa da traição da mãe.

******

Moema ensopou a testa de Luisa com uma mistura de álcool e ervas, como se pudesse restaurar-lhe além dos sentidos, as esperanças perdidas. Um desespero a atingia, tão forte, que sentia-se perdida num labirinto, cuja única brecha desandava num círculo vicioso. Chorava se perguntando, porque a mãe cometera aquela traição. Se não se importava com Saymon, pois que pensasse no pai, nas consequências de seu ato, que pensasse nela e no amor que sentia por ele.

Moema estava irredutível, convicta de que sua atitude fora correta.

— Não vai acontecer nada com seu pai.

— Como tem certeza? Meu pai é um servidor público, ele não pode ser considerado um protetor de foragidos. Meu pai é um homem bom, como foi capaz?

Moema calou-se. Não queria discutir com a filha.

Luisa, levantou-se, ainda zonza.

— Pois, eu vou até lá, naquela delegacia, naquele quartel, sei lá e vou defendê-lo.

— Não seja idiota. Você não vai fazer nada disso.

— Isso é o que a senhora pensa.

— Não se atreva!

— Me atrevo sim, me atrevo, porque a senhora destruiu tudo o que eu mais amava nesta minha vida. A senhora quer que o extraditem, que o fuzilem. Quer entregá-lo aos nazistas!

— E alguém se preocupou com meu filho?

— Mamãe, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Saymon é um refugiado de guerra, um clandestino. Fazia parte da resistência tcheca, se o deportarem, ele será perseguido pelos nazistas que tomaram a Tchecoslováquia. Além disso, ele está ilegal no Brasil.

— E você acha isso correto?

— E o que a senhora fez? É correto?

Moema calou-se, sem demonstrar arrependimento.

— A senhora vai matar o homem que eu amo. Logo agora...

Moema a olhou intrigada. Havia alguma coisa oculta nos pensamentos de Luisa, que ela desconfiava, alguma coisa terrível, que a atormentava.

Luisa prosseguiu, aflita.

— Não importa. Nada mais importa.

— O que você quis dizer com logo agora...? Fale.

Luisa calou-se, encarando-a, entre lágrimas. Moema entendeu o que se recusava a imaginar. Numa fúria intempestiva, deu-lhe uma bofetada, quase derrubando-a.

— Sua vagabunda! Você dormiu com ele!

Luisa tentou afastar-se, mas ela a segurara pelo braço, com força.

— Me diga, na minha cara, se você dormiu com aquele miserável!

— Eu estou grávida. – Foi só o que disse, soltando-se e subindo rapidamente as escadas.

Moema prostrou-se em desespero, embora por pouco tempo. Deixou-a sair e voltou-se para a estante, na qual limpava os brinquedos, caixas de jogos, álbuns de figurinhas. Observa-as, examinando suas cores, suas figuras estranhas com pessoas desconhecidas. Meio que sorria, relembrando as inúmeras vezes em que o filho descera aquelas escadas para buscar a bicicleta ou o patinete, que sempre ficavam guardados ali.

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