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A CASA OBLÍQUA - CAP. XXI

Nosso folhetim prossegue hoje com o vigésimo primeiro capítulo. No capítulo anterior, Clara ajudou Nael a voltar ao apartamento, após esconder-se no parapeito da janela, fugindo dos policiais que investigavam a pedido da própria Clara, segundo eles, pois o telefonema partira dali. Clara tornava-se a cada dia mais estranha, confundindo Nael com o seu comportamento. Após este incidente, Nael pretendia afastar-se e tentar sobreviver até acertar a sua regulamentação no país.

Clara e Nael ficaram algum tempo conversando.

Nael planejava partir. Não havia saída para os dois, a não ser o afastamento imediato. A situação tomava um rumo cada vez mais difícil.

Clara, vez que outra concordava, mas ao mesmo tempo, sentia-se só, antecipando uma melancolia indesejável. Quase não o ouvia, perdida que estava em elucubrações. De repente, fitou-o de um modo tão singular, que ele estranhou e indagou o que havia acontecido. Ela descansou o queixo, com os cotovelos sobre a mesa, por alguns segundos, refletindo, depois desandou a falar, com a segurança de quem tem um propósito muito firme.

— Hoje mesmo, você vai assumir o seu lugar.

Fez um silêncio de suspense, esperando uma reação.

Nael a olhava cheio de indagações, os olhos pareciam maiores, a boca entreaberta, respiração ofegante. Precisava de uma resposta, antes que o prejuízo se tornasse irrecuperável.

— Você vai para o apartamento de Dona Luisa. Para o meu apartamento.

Ele não disse nada, intrigado. Perguntou por Cida.

Luisa respondeu ríspida, ensaiando uns passos pelo escritório, como se sepultasse de vez o passado, inclusive, Cida.

— Ah, não me fale daquela invasora. Queria tomar conta, mas eu não deixei.

— Mas como assim? Não compreendo.

Luisa abriu a bolsa e mostrou um pequeno papel amassado.

— Olhe, é um bilhete. Dona Luisa o deixou para mim, para que eu protegesse os seus bens, para que nada de mal lhe acontecesse. Existe uma chave do cofre no banco. Deve ter uma procuração para eu usar o apartamento enquanto a justiça não decidir.

Nael segurou o papel, sem entender nada do que estava escrito. Eram apenas frases soltas, sem sentido, mas não havia como refutar as determinações de Clara. Perguntou o que diriam à síndica e aos outros condôminos. Ela foi incisiva:

— Muito simples, não precisamos explicar nada. Você é o herdeiro, o sobrinho de Dona Luisa. E depois, este prédio só tem solitários e pessoas idosas. Nem vão se dar conta de nada. Deixe tudo por minha conta.

Clara voltou a sentar-se na poltrona em frente da mesa, olhando para a porta danificada.

— Miseráveis. Não deviam ter feito isso!

Nael queria mais informações, precisava falar no assunto. Ela prosseguiu noutro tom:

— Se você tivesse que esconder uma chave, a chave de um cofre, onde esconderia?

— Como assim?

Clara levantou-se num salto, esbravejando que ele não ajudava em nada. Tentou explicar-lhe em inglês, fazendo a si mesma a indagação, que naquele momento, a atormentava.

Nael encolheu-se num canto, como um animal acuado. Não gostava nada do que estava acontecendo. Foi até a janela e ficou avistando as luzes, ao longe. Então, voltou-se e perguntou se nunca havia ganho um presente de Dona Luisa.

Clara arregalou os olhos, instigada.

— Um presente? Uma joia, um perfume?

— Numa caixa de joias pode haver um fundo falso. – Concluiu ele, interessado.

Clara lembrou de um colar, sem grande valor, que ela lhe presenteara certa vez. Mas seria muito óbvio, Dona Luisa era bem mais criativa. De qualquer forma, correu até o quarto para pesquisar o presente. Mexeu nervosa nas gavetas, desarrumando-as, procurando porta-jóias, que já nem lembrava onde guardara. Quando encontrou o estojo com o colar, examinou-o detidamente, procurando alguma brecha, uma abertura que lhe mostrasse um provável espaço oculto em seu interior. Voltou desiludida. Não havia fundo falso algum no estojo. Deixou-se cair na poltrona, amuada, pedindo a Nael que se retirasse, devia ficar sozinha, pensar numa maneira de resgatar a chave. Amanhã teriam a solução de tudo.

Nael afastou-se da janela e próximo a ela, acariciou-lhe os cabelos. Clara não mostrou nenhum interesse. Ele insistiu, abaixando-se e, ficando a sua altura, tentou beijá-la. Clara o afastou, levantando-se, irritada. Gritou que a deixasse em paz.

Nael voltou à posição em que estava, acabrunhado, pois não entendia a mudança de comportamento de Clara. Estava até temeroso do que faria, já que tinha até chamado a polícia, não o reconhecendo. Perguntou por que ela o recusava, tornando-se indiferente, afastando-se dele a cada dia.

Clara devolveu a pergunta, questionando se ele não conhecia as mulheres. Ela estava preocupada com a situação. Além disso, precisava achar o esconderijo da chave.

Nael assentiu com a cabeça e afastou-se, pedindo desculpas.

Clara respirou aliviada. Retirou as fotografias da gaveta e as dispôs sobre a mesa, examinando uma a uma, observando as minúcias, os pequenos gestos, as posturas, os locais ilustrativos. Percebeu que uma não pertencia às revelações feitas por Nael. Ao contrário, ela já conhecia aquela fotografia. Era uma foto mais recente, na qual Dona Luisa fazia pose na frente de um carro grande, provavelmente na década de 70. Ela vira esta foto num porta-retratos em sua casa. Mas como estava ali, entre as demais, na sua gaveta.

Na foto, Dona Luisa vestia pantalonas escuras, uma bata com desenhos geométricos e sandálias de plataforma, também coloridas. O cabelo curto, com uma franja imensa, completamente diferente de todas as imagens que viu dela.

Ela conhecia muito bem, lembrava dos detalhes: ao fundo, a praia, um dia lindo. Próxima ao carro, à esquerda, uma casa de madeira, avarandada. Ela estava só, aparentemente feliz. Trazia numa das mãos, um objeto pequeno, que mostrava para o fotógrafo ou para quem destinara o retrato.

Clara não conseguia visualizar o objeto. Obstinada, procurou uma lupa, que sabia encontrar-se em algum lugar daquele escritório. Procurou em vão nas gavetas, atrás dos livros, na estante. Dirigiu-se ao quarto, quem sabe estaria em algum lugar qualquer, no banheiro, onde talvez precisasse procurar alguma coisa minúscula, como a lente de contato caída no ralo da pia. Sim, havia feito isso uma vez. Certamente estaria lá, talvez no armário dos remédios. Foi o que fez.

Então, voltou quase correndo com a lupa, sentindo-se observada por Nael, que mexia desordenado nas teclas do computador, no quarto de hóspedes. Ela percebeu que ele deixara a porta aberta de propósito, só para espioná-la, mas não deu importância ao fato, tinha mais o que fazer.

Na escrivaninha, puxou a foto para bem perto do bojo do abajur, procurando um foco de luz melhor e assim mesmo, em pé, dobrou o corpo para examinar com a lupa o que Dona Luisa trazia em uma das mãos e apontava com tanto orgulho e confiança. Não demorou a ver o objeto e suspirou ansiosa. Uma chave, uma pequena chave que ela segurava como quem apresenta um troféu.

Seria a chave do carro? Não, era uma chave pequena. Mas então? Por um momento, uma luz pareceu invadir-lhe a mente, desanuviando toda e qualquer dúvida, clareando pequenos caminhos que conduziam a uma revelação extraordinária. Era aquela, a chave do cofre. E estava na sua casa.

A chave que Dona Luisa afirmara no bilhete, que segundo ela estaria na sua casa. Sim, porque ela deixara esta fotografia aqui, em sua casa. Mas onde acharia a tal chave ?

Aquela imagem era apenas uma indicação. Uma pista. Onde ela queria chegar?

Procurou no verso algum vestígio que resolvesse o enigma. Uma dedicatória endereçada a Saymon. “Meu amor, esta guardarei no céu, tão feliz estou. Quero que também conserve este retrato bem próximo do seu coração”.

Clara leu várias vezes a frase que na verdade, não significava uma dedicatória, mas uma expressão resguardada por segredos que somente os dois conheciam.

Ela permaneceu muito tempo, repetindo a primeira frase: “Meu amor, esta guardarei no céu...”.

No céu. No céu. Onde seria o céu, para ela? Um lugar maravilhoso. No carro? Na praia? Sim, na praia, na casa da praia. Lá, deve estar esta chave.

Clara sorriu satisfeita com a conclusão.

Dona Luisa lhe falara na tal casa da praia que mostrava na fotografia. Entretanto, a alegria que a fotografia despertava, dera lugar a uma profunda melancolia, quando naquela ocasião lembrou-se da mãe, pois no tal dia fatídico, Saymon a vira afastar-se rapidamente para ir até o correio, após conversar com o carteiro.

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