A CASA OBLÍQUA - CAP. XVIV

Clara acordou ainda recordando a visita à Dona Luisa. Tinha a impressão de vê-la assim, tão próxima, que a imagem ficava na retina e custava a dissipar-se.

Mas agora, devia tomar suas providências. Assumir o que de fato lhe pertencia: o apartamento ao lado. Não deixaria que o tomassem, principalmente pessoas que nunca a procuraram, que nunca se importaram com a sua vida. Muito menos, Cida, uma sem-teto, que agora cismava em surgir à janela, desafiando-a.

Levantou-se com uma tontura que a atingia e a deixava sem tino, como se desconhecesse os caminhos de sua casa.

Esforçou-se em tomar um banho rápido para acordar-se de vez.

Antes de despir-se, Clara ainda avistou os livros atirados no chão, cópias de artigos espalhadas e a monografia por fazer. Sentiu um empuxo como se aquela visão a obrigasse a retornar à realidade.

Foi só um segundo. Deu de ombros, desleixada. Passou pelos objetos, chutando-os, como se os retirasse para sempre de sua vida. Avançou para o banheiro e organizou na mente, todos os objetivos para realizar a operação imaginada.

Ao sair, correu à cozinha, às pressas, para tomar um café, vestida apenas com um roupão e ao passar pelo corredor, teve um calafrio.

Um homem estranho estava em sua casa.

Era alto, negro, olhar arguto, como se pretendesse dizer alguma coisa muito íntima, conhecendo-a profundamente.

Ela não conseguiu falar, em estado de torpor. As pernas não a obedeciam, os gestos díspares e insensatos.

Ficou parada, sem tomar qualquer atitude, enquanto o homem dizia-lhe coisas absurdas, falando numa língua estranha.

Observou os braços magros, cujas mãos mexiam-se devagar, fazendo gestos obtusos, que não conseguia entender. Quis dizer-lhe alguma coisa, mas estava impedida. Um nó na garganta, uma falta de ar.

Ele se aproximou, segurou o seu braço, fez um carinho suave e beijou-lhe delicado, as mãos.

Clara, num ímpeto, conseguiu desvencilhar-se, e como se o entrave que a impedia fosse disperso, resgatou as forças para afastar-se. A principio, devagar, cambaleando, batendo nas paredes do corredor, de um lado para o outro, como bêbada e depois, se equilibrando, forçando os passos no assoalho na direção do quarto.

Ao fechar a porta, percebeu que o homem a observava, quieto, talvez esperando que voltasse.

No quarto, caminhava desesperada. Agora, já não mais titubeava entre as paredes, não bamboleava o corpo, ao contrário, sentia-se forte e protegida.

Procurou o celular na bolsa, mãos úmidas, lábios ressequidos, um leve tremor no canto do olho esquerdo.

Ligou para a polícia, uma, duas vezes, até ser atendida. Deu o endereço, aguardou o retorno.

Ficou relativamente calma. Não havia o que temer. Mais cedo ou mais tarde, chegariam e prenderiam aquele invasor que estava em sua casa.

Por fim, decidiu arrumar-se, vestindo-se com uma roupa leve, já que o frio havia passado. Penteou os cabelos e maquiou-se.

Olhou-se no espelho, sentindo-se bonita, quase feliz.

Calçou os sapatos e aguardou a chegada da polícia.

Surgiu a lembrança de Dona Luisa, talvez pelo fato de estar se preparando assim, daquela maneira sóbria e elegante. Observava-lhe a postura nas fotografias, ao lado de Saymon, numa elegância espontânea, em gestos refinados, de acordo com os costumes da época. Nada nela era estudado ou artificial. Mesmo quando fazia pose, havia um quê no olhar que revelava autenticidade, beleza e simpatia. Recordava a fotografia que tirara na sacristia, na qual ela se mostrava tão verdadeira, sem demonstrar mais sensibilidade do que sentia para agradá-lo. Estava feliz, num momento de intenso afeto.

E assim Luisa permanecera por muito tempo, vivenciando na prática o amor que idealizara, às ocultas, em suas noites de solidão, quando manejava o radioamador e buscava, além de sua vida comezinha, uma realidade que lhe despertasse o verdadeiro sentido da vida. Assim acontecera e por isso estava feliz.

O pai procurava informar-se, junto a amigos e conhecidos, prudente, de forma que não despertasse suspeitas, da possibilidade de Saymon permanecer no Brasil, através de alguma legislação.

Costumava conversar com Padre Antônio, que tinha mais experiência.

Informava-se também com seus amigos radioamadores, descrevendo a situação como uma passagem simulada, nestes tempos de guerra, ou que soubera do fato por um amigo e lhe despertara a curiosidade.

Alguns eram advogados e davam o seu parecer. Precisavam consultar as leis, mas não se detinham muito no assunto, não chegando a nenhuma conclusão, furtando-se de se debruçarem nos códigos para atenderem a um fato fictício, sem maior importância.

Ele temia que o marinheiro desertor fosse descoberto em sua casa e confessava esse temor à Luisa.

Também ela, cada dia ficava mais angustiada, principalmente porque Moema jamais lhe dirigira a palavra, desde que Saymon declarara que estava apaixonado por ela e a pedira em namoro.

A mãe falava cada vez menos, até com o marido. Não suportava a sua conivência com o descaramento da situação. Resignava-se em caminhar pela casa, sem rumo ou inspecionar minuciosamente o quintal, catando as ervas daninhas que envolviam as poucas flores que restavam.

Outras vezes, Moema atravessava o portão, enfrentando a rua, cada vez mais perdida em seu mundo interior.

Parecia planejar alguma coisa extraordinária.

Às vezes, Luisa encontrava a mãe na volta da escola, tentava aproximar-se, acompanhá-la até a casa e quando o fazia, o silêncio era absoluto. Tentava conversar sobre Saymon, afirmando que o amava e que somente seria feliz com ele.

Moema a encarava com um rancor tão profundo que a arrepiava.

Então, dedicava-se a sua rotina de preparar as aulas, corrigir cadernos, ir e voltar da escola, sempre com o coração ansioso, na expectativa do reencontro com Saymon.

Este se tornara um fiel escudeiro do pequeno reino, do qual não podia se afastar. Fazia pequenos arranjos, mantinha a casa, ajustando canos enferrujados, telhados danificados pelo vento, consertando móveis, inventando pinturas. Executava o que aprendera na marinha, embora não fosse muito habilidoso com ferramentas, nem com os pincéis. Fazia-o, no entanto de bom grado, tentando ser útil e recompensar de alguma maneira o muito que tinham feito por ele.

Nas horas vagas, tirava fotografias de sua máquina portátil.

Certa vez, bateu uma fotografia de Moema, encostada no portão, olhando ao longe. Sentiu pena do que viu e nunca mostrou a foto a ninguém.

Passou também a escrever uma espécie de diário, relatos de sua vida nova, que começava junto à Luisa, bem como as lembranças do passado. Costumava afirmar que escrevia para praticar a língua portuguesa, mas na verdade, queria registrar suas impressões sobre povo, que pouco conhecia, mas que imaginava tão complacente quanto aquelas pessoas que o acolheram.

Ele continuava a dormir no porão e agora, quase sentia-se dono daquele espaço. Gostava dos livros que Luisa lhe comprava e dispunha-os na pequena estante que construíra.

Certa vez, estava assim, quieto, desfrutando o silêncio profundo.

Imaginava não haver ninguém na casa. O pai de Luisa demoraria a voltar, já que fazia serão no banco, desde a última mudança na moeda e Luisa ainda não havia voltado da escola. Certamente Moema havia saído.

Saymon espiou por uma pequena janela, que mais parecia uma escotilha de navio e viu Moema conversando do outro lado da rua com um homem, que devia ser o carteiro.

Em seguida, ela afastou-se, sem olhar para trás. Parecia decidida, ao encontro de alguma coisa importante.

Esqueceu-a. Voltou a esticar-se na cama e deixou o tempo passar, preguiçoso.

Entretanto, Não muito tempo depois, ouviu passos na parte de cima da casa e imaginou tratar-se de Moema, que voltava de seu destino. Acomodou-se, na espera.

Os passos soavam rápidos, faceiros pela casa. Ruídos de bolsas atiradas sobre cadeiras, cadernos espalhados sobre a mesa.

Olhou pela janela novamente. A tarde se desfazia rápida. O sol brilhava distante, perdido num céu cada vez mais escuro.

Afastou-se da sua escotilha particular e andou pelo porão, um pouco ansioso.

Luisa já devia ter voltado e a sua proximidade suscitava-lhe sentimentos confusos, um misto de desejo e temor de não respeitar a intimidade da casa. Ele temia, no fundo, não conseguir refrear o desejo de tomá-la em seus braços, de amá-la, embora sabendo que devia respeitá-la tanto quanto à família que o acolhera, por isso, conteve-se aquietado, em silêncio, esperando que Moema voltasse do passeio ou que o pai aparecesse.

Os ruídos por ora, silenciaram. Mas em seguida, recomeçaram e cada pisar de salto no assoalho, cada gesto nos livros que denunciassem um folhear de páginas ou um respirar mais profundo, soavam-lhe como uma tortura.

De repente, os passos tornaram mais fortes e próximos.

Luisa se aproximava rapidamente, descendo a escada que levava ao porão.

Saymon evitou uma respiração ofegante e limitou-se a observá-la, saia pregueada, azul marinho, uniforme do magistério.

Avistava-lhe as pernas perfeitas, levemente escondidas sob uma meia de náilon, pés pequenos enfiados num sapato preto, de salto fino, descendo os degraus que o separavam dela.

Aos poucos, foi surgindo a figura inteira, a blusa branca, o rosto claro, a boca vermelha, os cabelos castanhos caídos sobre a testa, enfeitando-lhe o olhar penetrante.

Ele levantou-se num salto e a esperou, sorridente.

Havia uma euforia e ansiedade que Luisa logo percebeu e censurou-o por ter resmungado alguma coisa em tcheco, já que tinham combinado em comunicar-se apenas em português.

Perguntou se havia acontecido alguma coisa.

Saymon afirmou que não, apenas que Moema saíra, após ter conversado com um homem, que julgava ser o carteiro.

Luisa suspirou, pensando no irmão. Talvez alguma notícia.

Saymon afastou-se um pouco, procurando a máquina fotográfica, mas ela correu até ele, impedindo-o.

— Não, não, por favor, estou horrível! Hoje foi um daqueles dias em que a turma toda estava inquieta.

— Você está linda. – Disse, afastando-lhe as mãos que o impediam de segurar a máquina. Ela então, pousou as suas, suavemente em seu peito, quase numa súplica.

Saymon desistiu, largando a câmera sobre a mochila. Pegou-lhe as mãos e seus rostos ficaram muito próximos.

Então, ele a abraçou e ela deixou-se ficar assim, enlevada, sentindo o corpo daquele homem tão próximo ao seu, o hálito, o resfolegar como se o ar que respiravam fosse único.

Ela o enlaçou pela cintura, trêmula, coração batendo descompassado, percebendo-lhe também a ansiedade latente, a boca se aproximando da sua e beijando-a de uma forma nunca antes experimentada.

A boca, outrora insinuante, lábios que beijavam quase numa carícia, hoje a tomavam por inteiro, sentindo-lhe o sabor, o gosto molhado e denso, a seiva que brotava em seus corpos unidos.

As mãos aos poucos, tocavam-lhe o corpo, sutis, mas fortes como uma onda quente que alisava o pescoço, os seios, os braços, inundando-a de prazer.

Aos poucos, foram se ajustando na postura que mais se adequava ao momento de amor, ela deitando-se, à espera. Ele desfez-se rápido das roupas, abraçando quase com fúria, aquele corpo abrasado que recebia o seu.

Beijou-a várias vezes, desde a nuca até o pescoço e na boca, sorvendo-lhe a saliva, aguçando ainda mais o desejo.

Logo, despia-lhe a blusa aos poucos, enquanto tomava a iniciativa de expressar o impulso que o sucumbia. E assim, amaram-se, explorando cada minuto de prazer.

Luisa estava feliz, em paz.

Saymon reteve no pensamento, aquela plenitude em que o mundo parara por um instante e estavam somente os dois ali, no porão, isolados do mundo, de tudo que os cercava e que significava alguma forma de enfrentamento.

Mas logo a razão se apoderou de sua mente e ele expressou a angústia, por ter cedido ao instinto tão forte, que já o movia, só em pensar que estava sozinho, com ela, na casa.

— Não devíamos ter feito isso. Eu devia ter me controlado. Como que eu pude induzir você a fazer isso?

Luisa o olhou surpresa.

— Você não me obrigou a nada, Saymon. Eu quis. Você é o homem que eu amo.

— Nós estamos sozinhos em casa. Eu devia ter respeitado sua família.

Luisa aquietou-se, pensativa. Não conseguia sentir remorso em ter sido feliz, em ter tido prazer com aquele homem, embora lembrando o sofrimento nômade da mãe, tão sozinha na sua dor.

Ajeitou a blusa, vestindo-se descuidada e se aproximou dele.

Abraçou-o levemente e fitando-o nos olhos disse-lhe que ele era o homem de sua vida.

Saymon sorriu, mas em seguida, seus olhos anuviaram-se, a voz oprimida.

— Você sabe quem eu sou. Sou um desertor. Um homem que pode ser fuzilado, se descoberto pelo Reich.

— Isso não vai acontecer, meu amor. Eu vou protegê-lo, sempre. Eu lutarei para que você viva, sempre ao meu lado.

— Mas eu tenho medo. Medo de arriscar a sua vida, o emprego do seu pai. Medo que a comunidade se volte contra nós. Agora, somente o Padre Antônio sabe da minha história, mas mais dia mais, menos dia, outras pessoas acabarão sabendo. Hitler é um amaldiçoado, está destruindo a cidadania alemã e ele tem espiões em toda a parte do mundo.

Luisa o abraçou mais forte, beijando o seu o rosto.

— Não fique assim. Eu o amo tanto.

— Eu também a amo, Luisa. – Ele a encarou com muita ternura. – Você é a mulher de minha vida.

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