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A CASA OBLÍQUA - CAP. XVIII

Hoje prosseguimos nosso folhetim rasgado “A casa oblíqua”que mostra a vida de duas mulheres diferentes, mas que em datas distintas tiveram experiências muito parecidas: Clara e Luisa. Entretanto, parece que Clara a cada dia, confunde o seu presente com o passado da amiga e começa a tomar o seu lugar, numa história que não é sua. No capítulo passado, Clara lembra a conversa que tivera com Luisa, que falava sobre uma fotografia. No capítulo a seguir, temos a história de Luisa apresentada, desde o momento que dirigira-se à igreja, como mencionara à Clara. A seguir, o capítulo XVIII.

Luisa fizera o percurso, reservada, procurando manter-se calma. Saymon não devia ter se atrevido a sair de casa, em meio a tantas ameaças. Ele além de arriscar a sua vida, com a possibilidade de ser descoberto e entregue às autoridades militares, colocava em perigo a segurança de sua família, o emprego do pai, que apesar de todas as contrariedades, o havia acolhido em sua casa.

No fundo, Luisa estava muito irritada. Lembrou a mãe dominada pelo ódio, andando pela casa como um ser estranho e solitário, perdendo-se em pensamentos lúgubres, à espera constante do filho que não voltava. O terror permanente de receber a qualquer momento uma notícia trágica. E ela, ao invés de apoiá-la e tentar minorar o seu sofrimento, ainda a molestara mais, trazendo aquele estrangeiro a sua presença, um homem que considerava um inimigo.

Luisa sofria por ver a mãe destruindo-se a cada dia, como um animal acuado. Sofria por a ter desobedecido e ter convencido o pai a ajudá-la no resgate daquele marinheiro. Além disso, sentia-se culpada, por experimentar uma sensação de alegria ao seu lado, por ter momentos de prazer apesar do sofrimento da mãe.

Entrou na igreja, com passos determinados, aproximando-se rápida do altar. Ajoelhou-se, fez o sinal da cruz e enveredou pela sacristia, esperando encontrá-lo, naquele jeito tão próprio, sorrindo, como se não houvesse nenhum perigo.

Entretanto, ele não estava lá. Deparou-se com Padre Antônio, de costas, apoiado numa pequena estante, folheando, o que imaginava ser uma bíblia.

Deu alguns passos e o cumprimentou, um tanto frustrada, porque intimamente, apesar da indignação, aquela presumível ousadia a agradava. E, também, porque queria desaguar toda a ira pelo procedimento impróprio.

Estava assim, confusa, quando o padre voltou-se para ela, lentamente, como se esperasse uma reação de surpresa.

Luisa experimentou uma alegria tão forte que pensou tratar-se de um sonho. Ele estava ali, vestido com uma batina, só para encontrá-la. Seu coração disparou, deixando-a ao mesmo tempo, confusa e feliz. Perguntou como havia conseguido aquela proeza.

Saymon, em seu sorriso franco, argumentou que havia sido fácil, já que Pe. Antônio havia visitado Dona Moema e ele o tinha convencido a emprestar-lhe uma batina.

O homem tinha bom coração e não soube negar-lhe o pedido.

Quando voltara à casa, trouxera a batina e com ela, mil recomendações, asseverando-o que o fazia por tratar-se de Luisa. Saymon agradecera, afirmando que era um assunto de vida ou morte e que não poderia esperar que ela voltasse à casa.

Luisa aproximou-se, encantada. Saymon a abraçou levemente, acariciando-lhe os cabelos. Por um instante, quase seus lábios se encontraram, atraídos numa doce sensação que os unia, mas ela o evitou, afastando-o delicadamente com a mão em seu peito. Disse que não poderiam desrespeitar a casa de Deus.

— Por que você fez isso? Nós podemos conversar em casa. Por que se arriscar desse jeito?

— Porque eu precisava falar-lhe pessoalmente, sem a presença de sua mãe, sem o medo de sermos ouvidos. Eu precisava dizer-lhe coisas, que só diria aqui, num lugar tão tranquilo. – Falava num português atravessado, trocando os pronomes, mas carregado de emoção.

Luisa não conseguia desviar os seus olhos dos dele, comovida. De repente, aquele homem que estava a sua frente, parecia outro, mais seguro e decidido. Não era o clandestino que ajudara, o desertor atirado ao mar, alvejado pelos compatriotas.

Saymon a fitava quase como um afago, mostrando caminhos que pretendia trilhar, talvez ao seu lado. Ela esperou que prosseguisse. Não se atrevia a dizer nada. E quando insistia, dizendo qualquer coisa óbvia, a voz sumida e ofegante. Apenas esperava a revelação que sonhava tê-la como protagonista. Mas, por um momento, sentiu-se estremecer. E se ele apenas queria anunciar que pretendia partir, deixá-la para sempre, entregar-se às autoridades de seu país e voltar para a sua terra? Afinal, a guerra não se prolongaria por muito tempo e ele talvez, apenas esperasse o momento apropriado para esta decisão. Seu coração sofreu, antecipado.

Saymon prosseguiu:

— Você sabe que serei eternamente grato por ter-me salvo a vida, por ter-se arriscado, inclusive trazendo problemas para si e sua família. Mas, o meu coração exprime um sentimento muito mais forte, muito mais vigoroso e potente, do que simplesmente gratidão. Eu precisava lhe dizer aqui, porque não vai prevalecer apenas o que eu sinto, mas o que você também sente e diga o que disser, eu saberei respeitar. Saberei respeitar os seus sentimentos, se forem diferentes do meu.

Luisa abaixa os olhos lentamente. Tentou esconder os sentimentos, mostrar-se a mesma Luisa de sempre: a moça ponderada, solidária e que muitas vezes se revelava impulsiva, idealista e progressista. Não queria revelar-se uma boba sonhadora, como tantas de sua idade.

Saymon percebeu a sua insegurança. Aproximou-se ainda mais dela e acrescentou com a voz quente e doce, próxima ao seu ouvido:

— Luisa, eu amo você.

Luisa aquietou-se. Seus olhos expressavam tudo o que seu coração expressava, aturdido.

Saymon despiu-se da batina, jogando-a numa cadeira. Enlaçou-a suave pela cintura, cingindo-lhe o corpo com as mãos. Então a beijou-a delicadamente. Ficaram assim, enlevados, esquecidos do mundo.

Luisa foi a primeira a afastar-se. Seus lábios soltavam-se delicados, como se quisessem permanecer para sempre naquela posição, mas a razão soava mais alto. Ainda abraçados, ela perguntou:

— E agora, o que vamos fazer?

Saymon calou-se. Não havia o que dizer. Havia uma verdade que deveria ser proferida aos quatro ventos. Foi o que expressou, logo desfazendo o silêncio indevido.

Luisa impediu-o, cobrindo-lhe a boca com os dedos espalmados. Não, ninguém poderia saber de nada. Ele não era um homem livre.

Saymon beijou as suas mãos, carinhoso, segurando-as. Luisa prosseguiu, decidida:

— Precisamos esconder este sentimento, até você conseguir livrar-se de todos os problemas.

Saymon explicou que se referia aos seus pais. Eles precisavam saber.

Luisa entristeceu-se ao lembrar o quanto a mãe odiaria aquela relação. Viu-lhe os gestos ansiosos, o afastar-se para a rua, na tentativa inconsciente de agredi-los e demonstrar o seu sofrimento.

Saymon a abraçou, confessando que temia a reação de sua mãe, mas que lutaria para que entendesse o seu amor. Tinha certeza que aos poucos, ela compreenderia que se amavam e acabaria cedendo.

Luisa ficou em silêncio. Ele parecia ouvir seus pensamentos. Concluiu, enfático:

— Eu quero casar com você.

Ela não disse nada.

Saymon então, afastou-se um pouco, dirigindo-se à porta, pedindo que ela permanecesse ali, iluminada por aquela risca de sol, que insistia em lhe dourar os cabelos.

Abriu a mochila e tirou a máquina fotográfica que carregava sempre consigo.

Luisa sorriu, constrangida.

Ele pediu que não se mexesse. Que não estragasse aquele momento mágico. Acionou a máquina e iluminou a sala com o flash.

Neste momento, o Padre Antônio apareceu.

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