A CASA OBLÍQUA - CAP. XXIV

Clara atravessou a portaria do hotel, largando displicente a chave do carro sobre o balcão. O atendente assistia absorto um jogo na televisão. Quando a viu, surpreso, mostrou-se interessado em atendê-la. Clara percebeu-lhe as mãos magras, ossudas, com pêlos esparsos nos dedos. Num deles, um anel com uma grande pedra vermelha.

— Um quarto? Sim, temos, sim. Quantos dias pretende ficar?

Ela o encarou, achando esquisita a pergunta. Quem ficaria mais de uma noite naquela espelunca.

Clara ficou algum tempo observando a ficha que o atendente lhe dera para preencher, como se precisasse tomar uma decisão definitiva. Ao invés de seu nome, escreveu em letra de forma: Luisa Paranhos Slavícek.

O homem leu a ficha devagar. Em seguida, perguntou, curioso:

— É de origem alemã?

Clara sorriu.

— Não. Meu marido é tcheco.

Ele calou-se e entregou-lhe a chave. Perguntou pela mala.

— Eu trouxe apenas uma valise. Amanhã, tomarei a balsa para a ilha.

Ele observou-a na escada, após informar-lhe onde ficava o quarto.

Clara subiu a escada pisando firme nos degraus. Observou as paredes velhas, tinta descascada, portas frágeis, com fechaduras danificadas. Num dos quartos, a porta aberta, homens espalhados sobre bicamas, sem camisa, conversando em tom elevado, com o ventilador do teto em alta rotação. Um deles a viu passar pela porta, após chegar ao andar e anunciou para os demais, que se levantaram rapidamente, interessados. Ela olhou novamente para o número da chave e percebeu que ficava no andar superior. Respirou aliviada.

Abriu a porta e entrou, agora desanimada. A cama de solteiro, com uma colcha de chenile vinho, um roupeiro ao lado da cama, no qual não se atreveria a guardar nenhuma roupa, tal era o cheiro de mofo. Mesmo assim, atirou-se à cama, olhando para o teto, por alguns minutos. Aos poucos, foi se restabelecendo. Levantou-se, tirou da valise algumas peças íntimas e encarou o chuveiro.

No dia seguinte, Clara levantou-se, pagou a diária e ao tomar café na lanchonete no posto de combustível, informou-se que direção tomaria para chegar à balsa.

Não demorou muito e ela estava a postos, entre um pequeno caminhão e uma caminhonete antiga. Ficou em silêncio, dentro do carro, observando o agitado das ondas e a solidão da lagoa. Vinte minutos depois, a balsa atracava, barulhenta, exalando fumaça preta e cheiro de óleo diesel. Alguns barcos espalhavam-se próximos às margens. Um ou outro pescador tecendo redes.

Clara desceu aos solavancos da balsa, rumando pela única estrada de terra que havia. Parou em seguida, avistando algumas casas, nos fundos de pequenas chácaras, que se sucediam, com diversas plantações de hortaliças. Uma mulher de lenço e chapéu na cabeça, mantinha-se abaixada, próxima a um canteiro, provavelmente retirando ervas daninhas ou examinando os pés de alface que vigoravam na terra cinza. Clara, então aproximou-se, pedindo-lhe informações. Mostrou a foto da casa, na qual Dona Luisa posara, naquele dia longínquo dos anos 70.

— Não conheço, mas estas casas não tem mais por aqui, a areia tomou conta. – A mulher tinha uma voz aguda e sonora. Nos olhos escuros, a sombra do chapéu escondia as rugas.

— A senhora sabe em que região ficavam estas casas?

— Ah, na beira do mar, no outro lado da ilha. Na ponta de lá.

Clara pensou logo no nome, praia da ponta. Deveria ser do outro lado, mesmo.

— E dá pra ir lá de carro?

— A areia é bem solta, mas o Seu Joaquim sempre passa de caminhão por lá.

— E por onde vou?

— Não tem outro caminho. É só fazer a volta na ilha, chega lá. É uma praia pequena, uma baía, sabe?

Clara agradeceu e entrou no carro, tomando a direção informada. A estrada desaparecia na poeira que do veículo. Havia buracos, que tentava desviar com cuidado, mas não o bastante para ser sacolejada, de vez em quando, de maneira impetuosa. Temia quebrar alguma peça, talvez os amortecedores ou mesmo outro dano qualquer, mas não se limitava a dirigir devagar. Estava ansiosa, suas mãos suadas seguravam a direção com força.

Aos poucos, afastou-se das chácaras e suas casas pequenas, de fundo de quintal. Também a vegetação foi mudando, cada vez menos densa e mais esparsa, até chegar à praia. Suspirou, como se tivesse encontrado um tesouro. Andou mais alguns metros e parou o carro, ficando a olhar as dunas que circundavam a praia, uma pequena enseada que se imergia entre algumas touceiras. Reparou que a estrada prosseguia paralela à praia. Desceu do carro e subiu lentamente as dunas, afastando-se um pouco. Olhou ao longe e percebeu que havia alguns telhados entranhados na areia. Tirou os sapatos para poder andar com mais facilidade, guardando-os na bolsa. A areia estava escaldante. Queimava-lhe a planta dos pés. Desviou-se da vegetação rasteira, cheia de espinhos e correu até um arbusto mais elevado, ficando, pelo menos os pés à sombra. Dali, avistou o mar e sentiu uma estranha melancolia, misturada a um sentimento de paz que há muito tempo não desfrutava.

Clara permaneceu não sabe quanto tempo, até decidir-se a descer mais aquela duna e procurar as casas mergulhadas.

Algumas casas não estavam de todo enterradas na areia, às vezes, a parte frontal, ficando determinadas divisões ainda a descoberto, até quintais com árvores esturricadas, formando verdadeiros espectros com seus galhos voltados ao céu. Outras, com muros nos quais a areia deixava a ver apenas partes de seus portões de ferro enferrujados e a casa ainda com partes intactas, onde se podia caminhar com o olhar pelos corredores até as portas empoeiradas e sujas. O abandono era total.

Clara examinava a fotografia, tentando encontrar algum vestígio que identificasse a casa. Sabia que era avarandada, mas a maioria das que estavam naquele túmulo de areia eram deste tipo. Caminhou mais alguns metros, enfiando os pés que desapareciam na areia macia, desequilibrando-se, deixando-a exausta.

Havia um detalhe, lembrou, a casa era de madeira e ao fundo, se avistava o mar. Neste caso, deveria ser na rua de trás, quando havia ruas. Entretanto, as dunas atrás das casas eram ainda maiores, com uma vegetação rasteira que as cobria quase por completo. Ela não conseguia ver nada daquele ponto em que se encontrava. Então, decidiu atravessar pelo que supunha ter sido um quintal algum dia, esgueirando por entre arbustos, pedras e paredes destruídas. Resvalava, ferindo-se nos alicerces sob a areia, esforçando-se para chegar no outro lado. Em dado momento, subiu numa cumeeira afundada nas dunas e sentou-se sobre o telhado, observando a paisagem a sua volta.

Ela avistou uma ou duas casas do outro lado, demolidas, talvez não tanto pela natureza hostil, mas pela mão do homem. Teve então uma sensação de desamparo, de uma vida passada, de um vazio interior que a consumia de algum modo.

O sol se escondeu entre nuvens, trazendo uma sombra estranha nas areias soltas, espalhando-se devagar, cobrindo uma posição e iluminando outra mais longe, quando a nuvem se desvanecia. Um vento leve, pouco mais do que uma brisa, soprava a areia e sepultava aos poucos o que restara do passado.

Uma lágrima escorria lenta, dos olhos de Clara. Talvez por isso, tenha levantado, equilibrando-se no telhado, modelando a sola do pé na telha cilíndrica, detendo o olhar além das dunas cobertas pela vegetação. Aproximou o olho e o coração e sentiu um frenesi intenso.

Havia uma construção de madeira, ao lado daquela duna, com tábuas na horizontal, bem semelhantes à fotografia. Voltou a cabeça para trás e avistou o mar. Coração inquieto. Tinha certeza de que era ali.

Clara desceu da cumeeira, com uma nova expectativa. Os olhos brilhavam, na boca um sorriso esperançoso. Afundou nas dunas, atravessando-as rapidamente. Desceu para o lado esquerdo em direção ao mar, na posição oposta à casa, pois sabia que deveria seguir o caminho que provavelmente teria sido uma rua, uma esquina. Correu até lá. Atravessou mais dunas, mais vegetação rasteira, mais espinhos e chegou até a construção, que parecia tombada de forma oblíqua, talvez avariada pelo tempo. Mesmo assim, tinha certeza. Era ela. Nos fundos, um vazio de dunas que dava para o mar. Na frente, uma rua interceptada por cômoros cobertos de grama, que a conservara intacta, sem estar atolada como as demais. Apenas danificada, com o avarandado derreado, tábuas despregadas, frechais retorcidos, janelas quase soltas e venezianas batendo ao vento.

Clara parou extasiada. Respirou fundo, olhou para o céu, vendo que as nuvens se afastavam.

As sombras cobriam mais adiante, bem mais longe. Então, forçou a porta, torcendo a maçaneta, mas inútil. Fez várias tentativas, mas sentia-se cada vez mais impotente. Lembrou da janela, quem sabe, teria mais sorte, já que havia venezianas caídas no chão e um dos postigos balançava solto.

Tinha razão. A janela cedeu e ela espiou para dentro da casa, embora não identificasse nada na escuridão do ambiente. A seguir, apoiou as mãos no parapeito da janela e ergueu o corpo até colocar os joelhos, saltando para o interior da casa. Caiu numa urdidura de teias de aranha, sentindo-as nos braços, no rosto, limpando com as mãos o que vinha a sua frente. Encostou-se na parede, abrindo mais a janela, assustando-se com as vidraças que despencavam, com seus vedantes ressequidos, espalhando os cacos no chão.

Um raio de sol iluminou a peça e ela sentiu que tinha chegado ao seu destino.

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